Singular
4 Dona
Notas iniciais
Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Oh, dona desses animais
Dona dos seus ideais
Pelas ruas onde andas
Onde mandas todos nós
Somos sempre mensageiros
Esperando tua voz
Teus desejos, uma ordem
Nada é nunca, nunca é não
Porque tens essa certeza
Dentro do teu coração
Tan, tan, tan, batem na porta
Não precisa ver quem é
Pra sentir a impaciência
Do teu pulso de mulher
Um olhar me atira à cama
Um beijo me faz amar
Não levanto, não me escondo
Porque sei que és minha
Dona
[...]
Umas vezes nossa amiga
Outras nossa perdição
O poder que nos levanta
A força, que nos faz cair
Qual de nós ainda não sabe
Que isso tudo te faz
Dona
Nunca é fácil ser mulher. Não importa o quão inteligente você seja, ou o quão poderosa, eles ainda te enxergam apenas como uma mulher. Por isso é preciso ser forte, ter orgulho e ultrapassar todos os limites que querem lhe impor.
Hermione aprendeu isso desde de cedo, ela sabia o que era ultrapassar os limites. Somente alguém assim seria capaz de fazer uso de um viratempo para dar conta de todas as matérias que desejava aprender. Outras pessoas usariam para buscar riquezas, para tornar a vida deles mais fáceis. Ela por outro lado usou para tornar a vida ainda mais complicada, usou para se tornar quem gostaria de ser. Buscava antes de tudo sabedoria. E sabia ainda naquela época que sabedoria era uma das maiores armas que poderia possuir, contra os inimigos declarados e também contra o mundo.
Seus ideais eram gigantes, eram certos. Quando colocava algo na cabeça dificilmente alguém seria capaz de tirar. Era dona de si, dos seus pensamentos e de suas verdades.
Foi assim que idealizou o F.A.L.E., foi assim que se inspirou na Ordem da Fênix original e transformou os amigos na Armada de Dumbledore. Ela tinha ideia e seguia em frente. Foi assim que conseguiu controlar o irmão gigante de Hagrid, assim que descobriu que o basilisco viajava pelos canos, foi assim que seguiu por seus anos em Hogwarts, assim que permaneceu ao lado de Harry Potter mesmo que seus desejos fossem correr atrás de Ronald Weasley e jamais deixá-lo partir.
Ela podia ser dona de tudo que quisesse, na verdade era dona da maioria delas. Mas quando se tratava de amor tudo que sabia devia ao ruivo irritante que amava mesmo quando tentava não o fazer.
Com o gato em seu colo, olhando fixamente pela janela e assistindo o homem ao lado de seus filhos, sabia que podia se sentir orgulhosa de tudo que lutou para ter.
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Era a dona da razão, sempre com o nariz empinado, sabia fazer todos os feitiços antes de qualquer um, e lá estava ela, fazendo a pena brilhantemente levitar, odiou a ter desafiado, agora ficaria com o nariz mais empinado ainda, insuportável em altos níveis, mais dona de si.
—Um pesadelo...
Seus pensamentos em voz alta foram ouvidos por ela, não se importou. Era lá bom pra ela aprender e parar de ser tão chata e tão dona de si.
Era ótimo fingir que não se importava com ela, fingir que não tinha reparado na ausência dela o resto do dia, fingir que não se preocupou quando soube que ela estava chorando no banheiro, fingir que não se preocupou por um Trasgo estar justo no banheiro que ela estava.
Ela estava já lá em seus pensamentos, mesmo antes de se dar conta, foi por ela ser a dona de explicar como se pronunciava um feitiço certo que ele conseguiu levitar o pedaço de madeira impedindo o Trasgo de os acertar.
“...É ving-gar-dium levi-o-sa é bem pronunciado e longo”.
Ele seguiu a dona das melhores instruções. Conseguiu realizar o feitiço e a partir de então não deixou que Hermione saísse mais de sua vida.
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Encarava o espelho tentando se decifrar.
Não reconhecia a garota que a encarava de volta. Tinha se rendido ao esperado por todos, estava vivendo seu próprio filme de comédia romântica que nunca deixava de ser moda entre os adolescentes. Vivia a própria transformação. Cabelos alisados, maquiagem, vestido perfeito.
Era outra Hermione Granger e por mais estranha que se sentisse, escolheu ser aquela pessoa, naquela noite. Escolheu deixar se lado os livros, ignorar os comentários maldosos, não fazer parte de um trio.
Naquela noite era Dona dos olhares curiosos, das conversas aos sussurros e não se importava com nada. Mas também não se importava com as jogadas que Viktor Krum narrava, pareciam todas exatamente iguais ao sotaque dele. Hermione não entendia nada. Por outro lado gostava da dança, gostava de poder girar e se balançar, mais do que tudo gostava de se permitir se divertir sem nenhuma amarra.
Por mais que tentasse negar, sua mente vivia cheia delas. No futuro sua filha gritaria aos quatro ventos o quanto ela era “mente fechada”, “ligeiramente preconceituosa" e “ extremamente teimosa", por enquanto era apenas uma garota aproveitando seu primeiro baile.
Quando cansou da dança, mas ainda sorridente se permitiu lembrar dele. Do garoto com quem gostaria de ter adentrado o salão. Ronald usava uma roupa esquisita e bastante ultrapassada, no fundo do coração de Hermione parecia aqueles cavaleiros antigos de bailes mais antigos ainda.
Quando se tratava de seus pensamentos sobre Rony ela não era Dona de nada. Porque por mais que tentasse afastá-los dos caminhos que seguiam quando menos esperava estavam de volta a ele.
Ronald Weasley estava detestando o baile, a roupa e principalmente Hermione e sua infinita certeza sobre as coisas. Odiava o jeito como dançava, como sorria, como parecia dona de todos seus olhares e pensamentos.
Nenhum dos dois teve o que esperava da noite, mas, pelo menos, ela soube exatamente quem acabava fazendo ela perder o poder de comandar suas escolhas.
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Hermione era dona das melhores ideias:
—Podíamos morar juntos. – lhe disse deitada na mesma cama que ele depois de fazerem sexo no quarto que ele morava, localizados em cima da loja das Gemialidades Weasley.
Hermione era dona das melhores resoluções de problemas:
—Você não precisa ser auror, não precisa ser a sombra de Harry, não precisa acabar com sua saúde fazendo algo que não se encaixa. – lhe disse beijando a testa depois dele desabafar que não aguentava toda pressão da profissão que havia escolhido.
Hermione era dona de sua calmaria:
— ... Não precisamos correr contra o tempo, sei que nossas cicatrizes vão se curar e que seremos felizes. – lhe disse depois de desabafar que estava triste pelo fato de Gina esperar o segundo filho e eles, mesmo depois de várias tentativas, não terem conseguido ainda ter nenhum filho.
Hermione era dona de seu ciúme:
— ... Só pode estar brincando comigo quando diz que estou te traindo ficando até mais tarde no ministério!!! – lhe berrava chorando de ódio. Estava com ciúme dela, não com outro homem, mas por causa de papéis e protocolos a serem cumpridos que a impediam de chegar em casa e ficar com ele.
Hermione era dona de sua raiva:
— Você é pessoa mais hipócrita que já conheci! – lhe disse batendo a porta do quarto na cara dele, logo depois de brigarem por ele ter humilhado o namorado de Rose, que por um acaso do destino era Scorpius Malfoy.
Hermione era dona de seu fogo:
— Ron, não podemos, estou atrasada para ir ao serviço…. – lhe beijava o pescoço, acariciava seus seios, sentia seu desejo por ela crescer cada vez mais, não ia deixar ela sair de perto de si, antes de amá-la por completo naquela manhã de segunda-feira.
Hermione era a dona de sua vida:
— ... Está com uma sujeira no nariz você sabia? – Ron odiou aquela garota intrometida que implicou com a fuligem no seu nariz só por ele não ter conseguido fazer o feitiço em seu rato na frente dela. Não sabia que tinha acabado de conhecer a dona de toda trajetória de sua vida.
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Ele não conseguia deixar de observar de longe o quanto ela parecia poderosa. Na frente de todos eles. A única mulher, algo que certamente ela mudaria. Dona do poder supremo, do seu coração.
Em seu discurso falou sobre sua mãe. Sobre a professora Mcgonagall, agora diretora. Sobre Molly Weasley. Ele não esperava por aquilo, não esperava que sua mãe também fizesse parte do discurso. Talvez não percebesse o tanto de mulheres poderosas sempre estiveram em volta de si. Mas ali estava uma delas, virando Ministra da Magia, mostrando que poderia ser quem quisesse, quando quisesse. Dona do seu próprio destino.
— Agradeço a todas essas mulheres que vieram antes de mim e também as que virão depois, as que já estão aqui nos abrindo os olhos, garantindo que possamos crescer, brilhar, ser mais do que esperam que sejamos. Obrigada a todas as mulheres que se mantém firme, que ignoram os olhares de desprezo, que lutam todos os dias, que sabem que são inteligentes, que buscam informação. Que não se deixam abalar por olhares, palavras, ou pelo medo de falhar. Estamos conquistando lugares importantes e continuaremos a conquistar. Seremos donas de nossos destinos. Obrigada.
Seu sorriso era deslumbrante. Ela não era apenas dona do destino. Era dona do amor de Rony, de seus olhares e de toda a sua vida.
Os aplausos explodiram. Quando chegou até ele parecia uma menina, ansiosa, contente, até mesmo tímida Ronald não deixou que ela tomasse a iniciativa. Dessa vez ele que a puxou para perto, fez com que seus braços envolvessem o pescoço dele. E a beijou por infinitos minutos.
— Parabéns! – sussurrou enquanto mordiscava sua orelha. – Vamos comemorar. Deixando as crianças na casa do Harry por mais um dia.
Ela também era dona de todos seus instintos.
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Era dona de seu próprio destino e queria comandá-lo. Casa própria? Só depois de ter dinheiro suficiente para comprar tudo o que queriam e quitar as dívidas em pouco tempo. Carro? Era necessário assim que descobriu estar grávida de Rose, afinal para aparatar com um bebê se mostrou inviável e viagens em lareira eram horríveis e causavam alergia. Morar num bairro trouxa? Importantíssimo, viver a experiência dos dois mundos e ela poderia colocar a filha na escola trouxa para iniciar seus estudos. Ficar sem comer carne durante a semana? Era uma tradição que queria instaurar na maioria dos dias da semana em sua casa. Mas, sua promoção no trabalho, aconteceu na época que ela não previu ser a certa e sentiu que não era dona de absolutamente nada. Estava grávida, na pior hora, no momento que não podia estar grávida, já havia feito as contas quando nasceria, e era também a pior época, no começo de ano, quando todos estavam voltando das férias festivas e faziam coisas demais em um curto espaço de tempo. Ela não estava preparada para aquilo, chorou pela sua falta de responsabilidade, ela que era sempre dona de seus próximos passos, não sabia o que fazer. Contou a Rony.
Então ele apareceu e a fez entender que era o dono de todas as soluções.
— Estou tão feliz Hermione, obrigado, obrigado, obrigado... – ele beijava a barriga dela em meio a seu choro depois de ter contado a ele que estava grávida do segundo filho.
Rony lhe mostrava que era dono de sua calmaria depois do desespero momentâneo, tudo daria certo se estivessem juntos.
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Havia se passado muito tempo, em sua cadeira de praia ficava observando as crianças brincando. Eram tão parecidas com ele, principalmente o mais velho de Rose, que gostava de contar piadas, tinha medo de insetos e sardas cobriam seu rosto. Se não fosse os cabelos pálidos como os do pai, ela poderia jurar que Rony teria voltado a terra como o garotinho Léo. A filha e o genro gostavam de nomes de constelações, diferente de Hugo que sempre escolhia as flores. Quando contou que adotaria duas meninas, irmãs, que se chamavam Áster e Frésia, ela teve certeza que fizera a escolha certa.
Gostava de sentir as ondas batendo nos pés cansados e a brisa em seu rosto era como o beijo que ele depositava em seu rosto, em sua testa. Para sempre dono dos pensamentos dela. Sentia tanta saudade de sentir o cheiro doce dele, culpa da loja e também da queda que tinha pelo açúcar. Ela gostava do cítrico, ele do doce extremo.
Ali na praia, com rugas em seu rosto, sabia que tinha chegado até onde desejava. Tinha sido dona de si, da vida, das escolhas. Dona do amor dele, da pele e da alma. Não se importava mais por ter sido a garota irritante, ou a sabe-tudo, não se importava de ser um pesadelo ou teimosa. Muito menos se importava com os cabelos armados ou os dentes grandes demais. Ali, naquele momento se importava apenas com os sentimentos. Se importava com o beijo em meio a guerra, se importava com o namoro controverso, com os beijos escondidos atrás de sua casa, se importava com os abafiatos no quarto de Rony. Se importava com os corpos unidos, com a própria tradição de natal, se importava com Rose e Hugo, com Léo, Rony II, Ara, também com Áster e Frésia. Se importava com as lembranças.
Continuava dona de seus ideais, de suas vitórias. Ainda tinha a postura de intrometida e era boa em respostas rápidas. Era dona de si como jamais fora antes, os anos permitem isso, permitem que possamos crescer, amadurecer, mudar de ideia, se desconstruir e ainda assim continuarmos nós. Hermione continuava ela, mas agora cheia de novas marcas e memórias. Dona de tudo. Do mundo.
Sentia-se pronta para reencontrar com Rony, mas não dependia dela, não essa parte. Mas sabia que assim que acontecesse partiria em paz, de volta aos braços do amor de sua vida. Pronta para voltar do ponto que pararam.
Enquanto isso aproveitava as risadas da família, ensinava para as netas o que Rony ensinou para a filha.
— Vocês sempre serão as donas de suas escolhas, de suas vidas.
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