Singular

2 Aonde quer que eu vá


Notas iniciais
Música: Aonde quer que eu vá, paralamas do sucesso

Olhos fechados
Pra te encontrar
Não estou ao seu lado
Mas posso sonhar

Aquilo tinha sido uma péssima ideia. Ela deveria ter percebido assim que fizera o convite infeliz. Estava com tanta raiva de Ronald Weasley que escolheu a dedo a pior pessoa. Poderia ter convidado alguém com que pudesse pelo menos conversar. Mas lá estava ela escondida atrás de uma cortina desejando por ele.

Ela tinha dado os sinais, eram sinais sutis, mas se ele tivesse um pouquinho de sensibilidade teria percebido. Qualquer um que estivesse em volta perceberia. Mas além de não perceber ele ainda decidiu ficar se agarrando pelos corredores com aquela garota que era o completo oposto de Hermione Granger.

Isso fazia com que tudo se resumisse em seus olhos fechados, imaginando como seria se ela estivesse lá, se fosse ela a garota sendo agarrada pelos corredores. Sonhando com o momento em que ela se tornaria essa pessoa.

— Nunca! — Falou mais alto do que planejava. — Hermione, você nunca será a garota se agarrando no corredor. Urgh! Você nem quer ser essa garota!

Encontrou o olhar confuso de algumas pessoas. Decidiu que já tinha falado com convidados suficientes. Poderia sair de fininho. Levaria os sonhos para o quarto que era onde deveriam ficar.

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Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

Ninguém gostava muito da ala hospitalar do castelo e o pior era que por mais que tentasse era ali que sempre acabavam. Não teve um ano que passaram em Hogwarts até aquele momento que não tivessem chegado até a enfermaria por batalhas contra o mal, petrificação ou mais recentemente envenenamento. É claro que, por mais que estivesse chateada e irritada com o amigo, ela permaneceria ali. Hermione não poderia disfarçar sua preocupação. Era muito mais forte do que ela e do que toda a compostura que ela insistia em manter.

Deixando de lado a namorada insípida que vivia rondando a cama de Ronald, ela permaneceu lá. Tinha direitos de melhor amiga. Tinha deveres de melhor amiga. Ficou surpresa ao escutar o balbuciar do ruivo, seu nome saindo algumas vezes, mesmo que sem convicção.

Então, ali deitado e sem muitas forças, tudo que Ronald Weasley conseguia escutar era o som da voz dela. Não decifrava o que diziam, mas Hermione parecia estar tão perto. Mesmo sem saber onde mesmo ele estava, sabia que ela permaneceria ali, ao seu lado.

Não queria abrir os olhos, nem precisava. Conseguia desenhar a imagem da melhor amiga em perfeita nitidez. Não importava o quanto tentasse não fazê-lo. Sempre que fechava os olhos a via, a criava em seu pequeno mundo dos sonhos.

Não importava se na ala hospitalar, no jogo de quadribol, durante as férias. Sabia que ele seria capaz de vê-la em seus pensamentos. Não importava aonde ia. Escutou também a voz de Lilá, quis voltar a dormir. Estava exausto do relacionamento, tinha aceitado o namoro apenas por estar com raiva de todos. De Harry por namorar Gina, de Gina por falar aquelas coisas no corredor. De Hermione por ter feito aquilo com um idiota. Agora, nem parecia se importar, só queria terminar o namoro e nunca mais precisar escutar o apelido humilhante.

Permaneceu de olhos fechados, imaginando Hermione. Voltou a dizer seu nome, na esperança de tê-la ali ao acordar.

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Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é a intuição

Ele se arrependeu assim que aparatou para longe deles, todas as palavras erradas ficaram no ar, tudo o que pensou de errado a respeito de Hermione e Harry acabou-se. Aquele colar o fazia pensar coisas horríveis, criava situações em sua mente que o perturbavam. Rony sempre os observava de longe, Hermione lhe entregando uma xícara de café, seus dedos se tocando, já imaginava eles se tocando em segredo, quando sorriam um para o outro, imaginava que fosse alguma recordação de ambos juntos em segredo num canto escuro enquanto ele dormia. Ele pensou em voltar, seria muito humilhante voltar no mesmo instante que resolveu partir? Não soube a resposta, pois teve que lidar com alguns saqueadores.

Os dias que passou na casa de Bill foram perturbadores. Só pensava em Hermione, como ela estava, se estava bem, se estava comendo, se estava conseguindo fugir, se estava viva. Era egoísmo não lembrar de Harry, mas ele não podia mentir a si mesmo, se culparia se tivesse acontecido algo com ela. Não parava de imaginar eles descobrindo-a como uma nascida trouxa e todas as barbaridades que poderiam fazer com ela, torturas e humilhações e ele longe sem ter como a proteger.

Seu irmão sabia que ele não estava bem, e que não contaria nada do que Harry estava fazendo. Apenas lhe dava espaço, lhe deixava lidar com seus monstros interiores e sua culpa estampada por todo seu rosto.

Rony implorou um milagre de natal, ele não sabia para quem pedir, Deus? Quem sabe Dumbledore, mesmo depois de morto tivesse uma resposta. Implorou para que conseguisse voltar para ela. Foi quando ouviu sua voz, saindo de seu bolso do jeans:

— Lembra... lembra o Ron? Quando partiu a varinha no acidente com o carro?...

Levantou de um salto da sua cama assustado.

– Só posso estar imaginando! – exclamou exaltado retirando o objeto de prata do seu bolso da calça jeans.

Era a voz dela. Não tinha dúvidas. Mas o desiluminador não parecia diferente nem nada. Resolveu testá-lo e o ligou. As luzes do quarto se apagaram automaticamente, mas para a sua surpresa uma luz apareceu fora da janela. Era uma bola luminosa, pulsante e azulada. Parecia viva, e o convidava a chegar mais perto. Rony não resistiu pegou suas coisas e saiu para o jardim rapidamente, antes que aquela luz convidativa sumisse. Quando chegou, ela estava lá o esperando, resolveu chegar mais perto, ela oscilou e foi parar atrás de um barraco, Ron a seguiu e então ela entrou dentro dele, bem no coração, era quente, parecia significar alguma coisa, e ele sabia o que era.

Então desaparatou.

Estava voltando para onde era seu lugar.

Estava voltando para Ela.

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E aonde quer que eu vá
Levo você, no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

No pior momento de suas vidas acabavam tentando se controlar pelos filhos. Não importava que Ronald já estivesse há uma semana dormindo no chão, sobre as roupas amassadas. Sempre que Hugo adentrava o quarto durante as manhãs encontrava os pais lado a lado na cama. Como se nada de diferente tivesse acontecido.

Nesse breve momento pela manhã, quando pensar nos filhos se tornou algo grandioso, Hermione se questionava em que momento que o marido deixou de ser impulsividade para ser um homem maduro, preocupado, especialmente paciente. Apesar de ainda carregar em si o ciúmes em altos níveis, e da completa inabilidade com a cultura trouxa. Ele tinha se transformado em alguém que se preocupava com todos. Era a quem os outros procuravam para conselhos.

Ela também acabava sendo convidada para longas conversas com pessoas desesperadas. Nesses momentos respirava fundo. Esquecia das brigas, dos choros em banheiros, e seguia em frente admirando a maturidade em seu par eterno.

Estava com tanta raiva dele naquela manhã. Sua blusa propositalmente azul, cominando com os olhos. Seus cabelos em perfeito estado. Tudo nele a convidava a se aconchegar. Nem mesmo se lembrava dos motivos que os fizeram brigar.

Ron por outro lado sabia exatamente os motivos. Seus ciúmes, o fato de Hermione passar mais tempo no trabalho do que em casa. Ele tinha uma longa lista de motivos, todos muito pequenos e ao mesmo tempo de proporções enormes. Só que tudo que queria era pedir desculpas. Fechar as portas do quarto e garantir a eles um mundo à parte do mundo em que viviam. Criar um universo deles. Não o fez. Estava pronto para fazer o café da manhã, para passar mais um dia querendo desistir da briga.

— Me desculpa. — Escutou a voz dela, como se estivesse cuspindo as palavras. — Vou tentar trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

O ruivo sorriu. Seu coração parecendo que batia a mil quilômetros por hora. Apenas acenou com a cabeça. Antes de fechar a porta decidiu que podiam voltar a conversar.

— Vou fazer suas panquecas preferidas.

No fundo queria dizer obrigado. Por ela mais uma vez tomar a iniciativa.

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Longe daqui, longe de tudo
Os sonhos vão te buscar
Volta pra mim, vem pro meu mundo
Eu sempre vou te esperar

Ele estava ali parado com o sorriso estúpido nos lábios. Os cabelos molhados e o corpo tremendo sem parar. Hermione não conseguia entender o contexto da cena. Tudo que seu coração gritava era que “ele estava vivo”. Ela foi lentamente caminhando até ele. Tinha imaginado sua volta por tantas noites. Não conseguia deixar de enxergá-lo nos sonhos, nas sombras, torcendo para que estivesse bem. Para que estivesse vivo. Não conseguia deixar de se sentir um alívio de poder tê-lo novamente. Ao mesmo tempo tinha passado por tantas coisas, aquela visita horrível, o encontro com a cobra. Enquanto corria perigo tudo que pensava era nele. Sozinho. Sem ela. Pensava no quanto o garoto era distraído, o quanto errava feitiços por essa distração. Uma palavra errada e ele poderia cair morto. Hermione tinha pesadelos com ele caído. Morto. Sendo pendurado pelas pernas, flutuando por cima dos inimigos. Conseguia escutar risadas comemorando sua vida partindo. Os pesadelos eram sempre cheios de risos e lágrimas. Ela não conseguia respirar, acordava com o suor congelante. Disfarçava para Harry, não queria os pesadelos dele aumentassem.

Ron esperou ansioso pelo momento que voltaria. Pediria desculpas, contaria todos os problemas que tinha enfrentado. Deixaria claro que o colar havia falado por ele. Que jamais poderia deixá-los novamente.

Antes de ter a chance sentiu todos os tapas, empurrões e toda a ira que Hermione soltou em cima dele. Sabia que merecia, merecia até mais raiva. Quando a garota parou, sentiu vontade de abraçá-la. Já sabia o quanto era bom ficar dentro daquele abraço, o quanto era bom deixar seus braços de moradia para ela.

Não o fez. Mas contou sobre a luz, sobre o coração.

Sabia que a levaria para aonde quer que fosse, Hermione sempre o salvaria, o traria de volta todas as vezes que ele se perdesse pelo caminho, dentro dele mesmo.

Era bom estar de volta. E disso ele sabia e ela também. Naquela noite os pesadelos lhe deram uma folga. Uma folga bem-vinda. Ficou apenas vendo os olhos azuis a olhando de volta.

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Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é a intuição

Não queria deixá-la ir sozinha reencontrar os pais, mas ela insistiu que ia reverter ela própria o feitiço de memória que havia feito. Mas ele não podia deixar os seus pais, que não conseguiam sozinhos serem os pilares da Toca naquele momento pós a perca de Fred e a acompanhar naquela aventura na Austrália. Era exaustivo para ele imaginar tudo o que ela estava passando, as dores e as incertezas, o medo dos pais não a perdoarem, do feitiço dar errado ou simplesmente não conseguir acha-los. Foram longos dez dias conversando por lareira com ela (as cartas eram impossíveis devido à distância para uma coruja percorrer). Todas às vezes que Rony a via, percebia suas olheiras, seus olhos cansados, sua luta diante de uma guerra que não havia acabado e não parecia que terminaria tão cedo.

— Podemos conversar por telefone. Eu te ensino.

Ele aprenderia tudo e muito rápido para tê-la perto de si mesmo a distância.

Hermione não podia lhe confessar, mas queria que ele estivesse ido com ela, tinha certeza que a ajudaria principalmente nas horas que tudo estava dando errado. Ficou admirada quando no dia seguinte ele conseguiu falar consigo no hotel depois das instruções dela para que ele conseguisse usar um telefone público.

— É ESTRANHO FALAR COM ISSO.

Ela estava desencorajada, todos os lugares pesquisados por ela de um possível local que seus pais estariam fora alarme falso, estava desiludida, mas Rony conseguia lhe arrancar sorrisos e risadas em meio as nuvens cinzentas que a atravessavam.

Ela conversou com ele, explicou que não precisava gritar, que ela o ouvia. O escutou narrar como estavam todos em sua casa, ela lhe contou desanimada como tudo estava caminhando tão devagar e que não sabia o que fazer. Começou a chorar diante dos eternos nãos que recebia.

— A solução está bem aí no seu cérebro, eu posso ver daqui, vai dar tudo certo Hermione, tudo o que você faz é certo... Posso afirmar com toda certeza que uma distração numa guerra é o que fez de mais certo na vida.

Hermione sentiu suas bochechas corarem e estava sorrindo em meio as lágrimas.

— Não chore, eu me sinto mal em não estar do seu lado. Vai dar tudo certo.

Ela confirmou com a cabeça, depois lembrou-se que ele não estava do seu lado.

— Você me dá forças, mesmo não estando do meu lado. Aonde quer que eu vá, levo você... Aqui comigo.

Ele não respondeu nada, mas ela pode ouvir sua respiração irregular.

— Feche os olhos, pode sentir eu lhe abraçando agora? – ela o obedeceu, pode sentir seus braços em volta de si.

— Nunca pensei que pudesse ser tão romântico. Com o emocional superior a uma colher de chá. – Hermione sentia-se muito mais leve, como se o peso que estivesse carregando sozinha antes pudesse ser dividido e a chama da esperança crescesse dentro de si.

— ... Saiba que me ofende com esse seu tom de surpresa.

Estavam alimentando a presença de um e outro, mesmo a distância, com frases que eram únicas na história deles.

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E aonde quer que eu vá
Levo você, no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá

Oi Hermione,

Você me tornou um viciado, Harry fala que sou a pessoa mais insuportável do mundo aqui no curso prático de aurores. Estamos correndo e do nada penso em você e falo sobre você, pergunto em voz alta se está bem por aí sem nós, se não está estudando demais e se esquecendo de viver, se ainda está tricotando roupas para os elfos e escondendo perto da lareira, se está lendo livros nas horas vagas que não está estudando livros, se já está irritando todos os professores com suas respostas brilhantes para todas as perguntas maçantes deles. Sei que continua sendo minha Mione sabe-tudo irritante. Sinto sua falta, principalmente na hora de escrever qual a melhor técnica para enfrentar um inferi. Não faça essa cara brava, sabe que não penso só no seu cérebro para benefício próprio, penso também na sua boca e na sorte que tenho em saber o quão quente seus beijos e seus carinhos podem ser. Ok! O idiota que Voldemort não conseguiu matar está espiando o que estou escrevendo para você. Vou ter que parar. Mas me responda tudo o que está fazendo em Hogwarts, quero saber tudo, menos sobre as aulas, me fale sobre você. Me conte tudo sobre você. Te amo. Rony

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Aonde quer que eu vá

Ele estava deitado com os olhos fechados. Tinha escapado da loucura que a casa estava se transformando. Estava não apenas exausto, também se sentia perdido no meio de tanta agitação. Os natais continuavam assim na Toca. Sempre agitados, a família em breve começaria a crescer, todos queriam falar ao mesmo tempo. Ronald tinha se acostumado ao silêncio, era assim no alojamento, ninguém tinha forças para muito barulho e ele passava o tempo todo querendo escrever a ela. Pensando nela.

Suspirou profundamente se permitindo sentir o perfume que tinha aprendido a decorar. Poderia está apenas sonhando, de olhos fechados. Os abriu para ter certeza de que não era apenas uma ilusão.

Hermione chegou mais perto por intuição. Tinha decidido de última hora, abandonou os livros e os estudos e pegou o trem junto com Gina. Não conseguia mais esperar para encontrar com Rony, passava os dias o encontrando pelos corredores apenas em pensamento. Parecia que aonde estivesse o levava consigo, no olhar.

A garota com os cabelos feito juba, com o sorriso tímido e os olhos brilhantes mais uma vez se jogou sobre ele.

Se beijaram pela primeira vez naquela noite. E continuaram se beijando pela segunda, terceira, infinitas vezes.

Sabendo que não importava aonde estivesses, eles estariam um com o outro.