Sinais Discretos
4 Capítulo Extra - Sendo assim...
Notas iniciais
Carlos gritava:
– Isso! Assim! Nossa que legal! Calma... “Puts” estava bom... E agora? De novo... – ares de decepção – Nossa você não serve mais nem para isso? Aí em cima. Isso... Põe direito, por favor.
– Não estava bom naquela posição?
– Se tivesse eu teria dito. Não é amor? – Carlos fez um ar compreensivo com a ansiedade do namorado.
– E de lado?
– Hum, mais um pouco... Quase lá... Pronto!
Helena abriu um sorriso gigante próprio de uma criança quando vê os seus pais voltando para casa. Seu irmão mais novo falava alto da varanda, propriamente dizendo: dava ordens ao outro no telhado. O tempo estava bonito para quem sabe admirá-lo, apesar das nuvens estarem cor de fumaça a umidade e o matiz cinzento praticamente obrigavam as pessoas a estarem dentro de casa, com as cortinas “baixas”, próximo de alguém que lhe possa aquecer. Ia chover.
Por falar em volta, o padrasto nunca mais voltou. Ulisses foi à delegacia comunicar o desaparecimento, não pudera ir antes pois conhecia as idas e vindas de seu “padrasto” em tempos áureos do vício ficara cinco dias na rua mesmo tendo um lar. Não tinham idéias de onde pudessem ao menos procurá-lo. Apesar de tudo, tanto ele quanto Carlos e Helena, desejavam que ele estivesse vivo e bem.
Ficou feliz pelo fato de ter completado recentemente 18 anos, caso contrário o desaparecimento os colocaria em maus lençóis, todos em um orfanato mesmo que por pouco tempo tratando-se dele. Agora trabalhava de caixa em um pequeno armazém.
– Pronto meu amor! – beijou o rosto da irmã – Sei que a imagem não ficou ótima, mas o “amorzão”... Digo... O “irmãozão” Ulisses fez o que podia com a antena.
O outro desceu pela escada de madeira emprestada de vizinhos, sujo e sem chinelos adentrou a sala.
– É mesmo. Quero ver se tivesse caído dali de cima, como vocês viveriam sem mim. – afirmou Ulisses fazendo “bico”.
– Era para o filme preferido dela, vamos lá não seja assim. Tudo bem? Sabes bem como é televisão aberta. – falava fechando uma cortina de pano grosso, para dar outro clima a sessão de cinema da menina.
A garota sentada no chão, junto a mesinha de centro, estava com seu urso ao lado totalmente entretida com um diálogo educativo entre marionetes de pano no início da aventura que estas supostamente iriam viver. Foi adentrando naquele mundo mágico que não notou, mas ambos foram para o quarto de Ulisses.
Entraram e apenas fecharam a porta, não se preocupavam mais em trancá-la, Ulisses tirou a camiseta e apanhou uma blusa que estava no chão próximo ao “pé” da cama, vestiu-a. “Nossa meu, você nem sabe se um rato passou por cima disso que nojo. Bota para lavar.” Ulisses riu e repreendeu o sentimento de asco de Carlos com um beijo estralado. Depois jogou-se na cama fazendo um barulho descomunal e dela prendeu as pernas no mais magro puxando-o para junto dele.
Ulisses tornou-se bem mais carinhoso, suas mãos percorriam todos os centímetros do corpo do outro sem a menor hesitação. Podia ser um tanto brutal, nada que não pudesse ser corrigido com um sopro quente no pescoço. Pegou uma das mãos de Carlos, e colocando junto da sua, consideravelmente maior, deixou um apelo:
– Sabe uma coisa... Amanhã você volta a pintar suas unhas, eu acho tão...
– O que?
– Não sei escolher uma palavra bonita, só sei que gosto das suas mãos com as unhas negras.
– Tudo bem. Posso falar uma coisa muito séria com você?
Devido ao rosto preocupado de Carlos o clima ficou bem menos sensual.
– Você se sente muito bem quando está comigo e, eu também me sinto ótimo afinal você é a primeira pessoa com a qual eu fico abraçado uma noite inteira... Só que. – saiu do peito do namorado e apoiando-se no mesmo ficou sentado sobre a cama. – Você gosta de me sentir?
Ulisses não entendeu bem. Como de costume, respondeu sem pausas na respiração sobre seus sentimentos, uma esponja quando é espremida.
– Como posso falar? Não sei o que se passa pela sua cabeça, posso te garantir que quero você. Nunca senti outra pessoa além de você e pretendo continuar assim. – beijou duas vezes os dedos indicadores de cada mão, juntos em formato de ‘X’ – Prometo, está bom demais. – flexionou seus braços para colocar as mãos na cabeça.
Dessa vez ambos sentados na cama, Carlos passava os dedos da mão direita sobre o lençol, Ulisses estava mais cômodo com as costas na cabeceira da cama. Levantando o olhar e depois baixando-o, Carlos falou piscando os olhos com uma voz melodiosa:
– Eu gostaria de experimentar, naquele dia só você pode... – parou propositalmente.
– Entendo. – começou a chorar mordendo os lábios com tão singelo pedido, para o espanto de Carlos – Bem Carlos, eu sei que você ainda é virgem dessa maneira... Bem o que eu posso dizer “né”? – mais choro – Se for assim eu permito que você saia com outra pessoa, reparei que a menina do balcão da padaria olhava “pra” ti naquele dia, e o garoto daqui do lado também – fechava os olhos e apertava as lágrimas conforme ia falando, parecia doer muito. – “Vi ele” te acompanhando com o olhar sabe... Não quebrei a cara dele por que a mãe dele é muito boa com a gente, dessa maneira eu deixo você sentir outra pessoa. Eu te amo droga, agora por favor... Depois de transarem você promete que volta “pra” mim? Não queria ser trocado, deve ser horrível essa sensação... Indiferença. Vou compreender isso... – limpou as lágrimas com as mãos. – Eu aqui sempre me satisfazendo e você também querendo provar de coisas diferentes, como eu sou otário... Deve ser péssimo “pra” ti ter que abrir o jogo comigo. Pode ir. Vai procurar alguém ainda hoje?
Ulisses parou de olhar para o lençol, olhou para Carlos com um rosto desolador. O pior que já fez na vida, sentia-se sem forças sabendo que o namorado estava daquela maneira por estas semanas que permaneceram juntos. Até sua voz mudou de simplesmente grave passou a: grave e chorosa. Parecia um dublador de desenhos animados. Deu um abraço na barriga de Carlos, este imóvel na cama, não se atrevia a olhar para qualquer fosse sua expressão nessa situação.
– Vamos! Eu juro que vou te entender, nosso romance está passando por uma prova, eu tenho de aceitar. Não fica triste assim! – chorava mais ainda.
– Eu quero fazer com você Ulisses... – colocou a mão na cabeça dele, o outro arregalou os olhos enquanto abraçava a cintura do amado, engoliu o choro.
–...
Quando Ulisses olhou para o rosto de Carlos teve uma sensação aguda no peito, algo próximo de um enfarte. Dessa vez era Carlos que detinha o olhar sexy e maquiavélico no rosto dele.
– Então meu amor? Como vai ser? Devo começar a ler teu diário enquanto você se arruma? – modo irônico ligado novamente.
– Não espera aí! Você não tem força para me obrigar! Vou gritar Carlos! HELENA!
– Vamos meu amor. – com uma voz baixa e mandona enquanto ia soprando quente no pescoço de Ulisses.
***
A chuva desabava lá fora.
Na sala Helena, sentada, ia vendo admirada os créditos do fim do filminho subindo. Instintivamente ela apanhou o controle remoto, ao alcance de suas mãos e baixou o volume da televisão. Só o som da forte chuva e dos relâmpagos. Ainda assim fechou os olhos e concentrou-se, ainda com a “visão escura” ela riu, abriu seus olhinhos como cristais e passou de canal, aumentando o som desta vez. Confusa ela comentou com seu silencioso ursinho:
–Engraçado. Hoje os gritinhos são diferentes.
Notas finais
Ótimas leituras para todos.
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