Simply Complicated
11 O que a bebida não faz...
Notas iniciais
Festas do pijama, na opinião da Mary, serviam para duas coisas: ouvir música e mexer no celular e conversar sobre coisas que no geral não falávamos na presença de outras pessoas. Essas conversas poderiam ser tanto “maliciosas” (segundo ela nós estávamos apenas “libertando nossos eu’s maliciosos que mantínhamos escondidos”) ou sérias. Eu realmente esperava que ela não quisesse falar nada de sério hoje.
No início da noite nós só ficamos sendo retardadas. Mandando mensagens de voz no whatsapp, fazendo coisas ridículas que nunca faríamos na presença de outras pessoas, tipo cantar ou dançar (mas inventamos uma dança muito fodástica para Walk This Way, do Aerosmith. Sinceramente, deveriam nos contratar como dançarinas). E é claro que nos entupimos de chocolate.
Mas, como eu sou uma pessoa de muita sorte, sempre, antes de dormir ela resolveu falar sério. Eita porra viu.
–Rose, seja sincera o que você acha do Thiago?-ela me pergunta. O que eu poderia dizer? “Olha Mary, sinceramente? Eu acho ele gato pra caralho, e gostoso. Inclusive eu já até dei uns pega nele, por isso posso dizer que ele beija bem também”. Acho que não.
–Sei lá Mary, ele é legal, mas é você quem sabe sobre ele- eu respondo, sendo evasiva o máximo que posso.
–É, mas ele tem estado diferente de uns tempos pra cá. Parece meio distante de mim.
–Porque será?-pergunto, torcendo pra que a resposta seja algo do tipo ”e eu que sei, ele é retardado”.
–Eu acho que ele tem outra sabe.
–Nahh, não creio nisso não-eu respondo, tentando manter a voz calma mas mesmo assim ela sobe algumas oitavas.
–Tem certeza? A Daire concorda comigo-ela diz. Bufo.
–Quero mais é que a Daire se foda. Não gosto daquela menina- respondo, cruzando os braços e fazendo cara feia. Ela começa a rir.
–Você tá com ciúmes da Daire, isso sim-ela diz. Reviro os olhos.
–Talvez eu esteja, e daí? Problem?-pergunto. Ela ri ainda mais.
–Não precisa ficar com ciúmes flor, ela é minha amiga, você é minha MELHOR AMIGA. Sentiu a diferença?
–Botei muita fé não.
–Para coisa retardada-ela diz, me tacando uma almofada. Eu revido e então começamos uma guerra de almofadas. Terminamos as duas deitadas no chão, rindo e arfando.
Pelo menos o assunto Thiago não voltou. Fomos dormir e no dia seguinte ela viajou para a casa dos tios, e eu fui para casa da Claire, e Gui já estava lá.
Passamos o dia no computador assistindo séries ou jogando “Just Dance”. To falando que eu devia ser dançarina, eu quase sempre conseguia pontuação máxima. Sou predestinada a ser uma estrela, que chorem as recalcadas. Só que não. Parei.
–Vamos jogar eu já? Aproveitem que minha mãe não vai dormir em casa hoje então a gente pode ficar bêbados- disse Claire, com um sorriso levemente sinistro na cara. Eu até estremeci.
–Mas não tem graça só nós 3- disse Gui.
–Então chamem o resto uai- eu disse. Entendam: em tenho fascínio por gente bêbada. Então, quanto mais gente bêbada junto melhor. E eu nem pretendia ficar tão alta.
No fim chamamos todos para fazer uma super festa do pijama. Léo, Fernanda, Ana Clara, Thiago... Quando todos chegaram nós arrumamos as bebidas nos copinhos e sentamos em circulo.
–Eu começo!-disse Ana. Eita porra, segura na mão de deus e vai, porque olha.
–Tuti buono.
–Vou começar por baixo. Eu já beijei mais de 5 garotos- ela disse, e todos viramos o copo, até a Claire. Estranho, pra mim ela era até BV se duvidar.
–Agora eu- disse Leo- Eu já dei uns amassos no armário de vassouras do lado da sala da diretora-ele disse, e ele é Thiago viraram o copo.
–Credo, e se ela pegasse vocês?-disse Claire. Eles riram.
–A adrenalina compensa tudo- retruca Leo.
–Falo nada, só observo essa sua zoeira-eu digo, e eles riem.
–Eu já sai de casa sem pentear o cabelo-diz Claire, e todos rimos, mas bebemos mesmo assim. Com o passar do tempo fomos ficando mais bêbados, e as perguntas mais indiscretas. No final descobrimos que tinham 3 pessoas que não eram mais virgens. Hmmmmm, safadinhos. Vo nem falar quem eram, vocês sabem.
Quando a música começou a toca eu pude realmente praticar meu esporte favorito: observar as pessoas bêbadas sendo bêbadas.
Claire estava dançando em cima da mesa, e quase fez um strip tease. Sorte dela é que o Gui a impediu.
Ana estava pulando e dançando por ai, junto com Fernanda e Leo. Lá pelas tantas porém Fernanda entrou no grupo dos bêbados depressivos.
–Mas ele não me notaaaaa, eu amo taaaaaanto ele- ela chorava no ombro de Leo, que dava tapinhas nas suas costas e murmurava coisas compreensivas.
Eu fiquei só observando, mas no final acabei bebendo demais também. Só sei que no final das contas eu estava dançando junto com a Ana e bebendo uma garrafa de whisky no gargalo mesmo.
Sabe, quando você bebe parece que seus problemas vão encolhendo, ficando cada vez menores, e quando você menos percebe eles somem.
Quando percebi eu estava dançando com Thiago. Suas mãos estavam em volta da minha cintura eu nós nos movíamos em um ritmo completamente alheio a música. Não ofereci resistência enquanto subíamos a escada para o andar dos quartos. Entramos em um quarto aleatório e nos beijamos, como se nunca tivéssemos feito isso antes, mas em certo momento a minha consciência voltou a funcionar e eu empurrei ele.
–Não. Eu não posso mais fazer isso com a Mary-eu digo, dando as costas para ele e tropeçando para longe.
–Eu tomei uma decisão. Eu vou terminar com ela-ele diz. Eu me viro para ele e focalizo seus olhos. Olhos verdes, profundos...
–Porque?-pergunto.
–Porque eu me apaixonei por você. Por esse seu jeitinho sarcástico, debochado. Por essa postura durona que você sempre mostra. Por tudo- ele diz, se aproximando e segurando a minha mão. Em meio ao meu torpor alcoólico, eu registro o que ele diz e percebo, ou talvez já tivesse percebido e só estivesse escondendo de mim mesma, mas eu também estou apaixonada por ele.
–Não faz isso- me forço a dizer, apesar de tudo- Ela gosta de você, de verdade. Mais do que eu posso gostar eu acho.
–Então você não gosta de mim? –ele pergunta, me olhando de um jeito tão profundo que parece que vai abrir um buraco nos meus olhos. Não posso mentir para ele.
–Gosto. Muito. Mas ela é minha melhor amiga, e gosta de você também. Não posso fazer isso com ela- eu digo, e minha voz já começa a falhar pelo choro que se acumula na minha garganta, lutando para finalmente escorrer. Tento lutar contra isso. Talvez seja o álcool, porque eu nunca me permitiria chorar na frente de alguém. Viro de costas de novo e tento furiosamente limpar as lágrimas que escorrem sem parar, mas ele entra na minha frente e me abraça, me abraça tão apertado que eu sinto que poderia quebrar minha coluna, mas ao mesmo tempo é tão carinhoso que eu simplesmente me esqueço e choro de verdade.
Choro por tudo. Por ter traído Mary, por ter me apaixonado por ele, por estar enganando Andrew. Choro até dormir eu acho, porque não me lembro de mais nada depois de ter deitado na cama e Thiago me dar um beijo na testa.
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