Simplesmente acontece
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– Essa pergunta realmente me pegou de surpresa. – Damon ri sem graça, sei que ele está nervoso. Se tem um hábito que já notei nele é o de bater os dedos na coxa, quando algo o incomoda. – O que você sente quando vê a pessoa não explica, o corpo reage. Explicar porque meu corpo reagiu quando viu Elena seria o mesmo que explicar o porquê de eu ser filho do meu pai. – Todos da plateia riem. – Mas, posso te explicar como meu sentimento continuou. – Ele pisca para mim, e percebo que estou bastante ansiosa para ouvir a resposta, mesmo sabendo que será uma mentira, quero ouvi-la. – Encontrar Elena é como achar uma orquídea negra.
– Orquídeas negras não existem! – Indaga o entrevistador.
– Diz uma lenda, que em um reino na Tailândia um pescador encontrou uma. Só uma em todo mundo. Elena é essa orquídea. – O público faz um barulho animador. – Seu coração é tão puro que me faz desejar ser um pouco melhor. E eu não preciso falar de sua beleza, coragem e amor. – Ele me olha e me sinto corar. Ele teria que parar de me olhar daquele jeito; porque quando ele me olha assim eu quase acredito que é verdade.
– UAU! – O jornalista diz. — O que você tem a dizer sobre isso, querida?
– Sua reação: UAU! – Falo o imitando, e o público ri mais uma vez. – Nunca fui boa em lidar com elogios, é tão difícil. O que eu poderia fazer: Sorrir? Abraçar? Agradecer? Sempre fico na dúvida, mas diante de um elogio assim penso que o melhor seria elogiar de volta.
– Pode ficar à vontade. – O entrevistador fala e deposita seus braços no encosto da cadeira. Todos estão relaxados. O clima da entrevista mudou. Damon me olha sorrindo com os olhos, eu sei que no fundo ele está surpreso com a minha desenvoltura. Até eu estou surpresa.
– Sabe quando você julga alguém, e depois que a conhece percebe que ela não era nada daquilo que você pensou? Com Damon foi assim! Eu o julgava prepotente, arrogante. Acho que a maioria acha isso de uma família real. – O público retorna com as risadas. – E então, descubro que ele não é nada do que eu pensei. Ele é tão gentil e educado que me pego questionando a minha gentileza. E ele é tão feliz! Como você pode ser tão feliz? – Digo sorrindo, e ele me olha relaxado com um sorriso no canto dos lábios.
– Porque eu tenho você! – Ele afirma e escuto suspiros. Aquela atuação já começava a me incomodar. Por que essas mentiras me afetavam tanto?
A entrevista acaba.
O caminho de volta para o palácio, até agora, está sendo silencioso. Estávamos constrangidos demais para falar-nos.
Ele me olha pelo canto dos olhos, sei que ele quer falar algo, mas tem receio.
– Pode dizer. – digo sorrindo para aliviar a tensão.
– Eu sei que hoje foi demais. Só faz três dias que você me conheceu, e olha o tanto que você já teve que escutar. – ele passeia a mão pelo cabelo. Alguns fios rebeldes insistem em sair do lugar o deixando ainda mais bonito. – Olha, eu não queria dizer tudo aquilo. Não se devem inventar essas coisas.
– Eu não inventei o que disse sobre você. – digo um pouco magoada. Ele me olha surpreso.
– Obrigada, Elena. – ele bate os dedos na coxa. – poxa, obrigada mesmo! Eu também não menti quando falei sobre o seu coração e outras características. Mas, tem coisas que exagerei.
– Ah não, Damon! – falo fazendo biquinho. – Achei que era uma orquídea negra. – esmurro de leve o braço dele. Ele ri.
– Você sabe que será preciso alguns exageros, não sabe? – ele pergunta preocupado.
– Sei sim. – digo colocando as mãos em seus ombros, o tranquilizando. – Só espero que essa história não se estenda muito. Nunca fui boa com mentiras.
– Não pareceu hoje. – ele ri.
– Engraçadinho. – dou a língua a ele. Sempre tive essa mania, desde pequeno faço isso por diversão. Acho que tenho que parar de estender minha língua.
– Sua mal criada! – ele exclama sorrindo. – Tenho duas notícias para te dar. A primeira é que você poderá escolher três damas de companhia. Eles te acompanharão e te ajudarão em tudo, mas para te ajeitar serão as mesmas de hoje.
Bato minhas mãos, estou muito feliz. Posso ter Elis bem pertinho de mim.
– Já sei que escolherei. – digo pulando no banco. Nunca tinha andado de limousine, então ainda ficava espantada com os movimentos que eu podia fazer dentro do carro. – Elis, Liv e Liz. Elas eram antigas cozinheiras, tem problema?
– Não, Elena. A tradição diz que você pode escolher tudo.
– Nunca amei tanto uma tradição. – ele ri do meu comentário. – Qual a segunda notícia?
– Hoje à noite terá um baile.
– Já? – pergunto assustada.
– Suas boas-vindas.
– Como não imaginei isso. – digo suspirando, não gosto de festa; principalmente quando elas são dedicadas a mim.
– Basta sorrir, e segurar em minha mão. – Damon diz com naturalidade, ele estava acostumado com aquilo. – Muitas pessoas vão falar sobre diversos assuntos, a maioria querem sua opinião ou elogio. Muitas querem sua ajuda para algo. Seja sincera, não deixe eles pensarem que você os ajudará com algo que não pode.
– Pensei que eram só os ricos que pediam ajuda. – falo.
– Você vai se surpreender.
Chegamos ao palácio. Damon me leva para o meu quarto.
– Tive uma ideia! – falo pulando de alegria. – Posso te ajudar a escolher alguma pretendente. Aponto algumas meninas que poderia passar despercebida por você.
– Não sei se seria bom. – Damon fala receoso.
– Qual é? – bato no braço dele. – Temos que começar a procurar, Damon!
– Está certo, se você acha que irá funcionar... – ele me deixa na porta do meu quarto, beija minha bochecha e diz em meu ouvido “você foi ótima hoje, obrigada.” Essas palavras me fazem arrepiar, deve ser porque não estou acostumada com alguém falando tão próximo assim.
Vou à cozinha procurar as meninas. Por onde passo as pessoas me cumprimentam, ainda estou me adaptando a isto. Estou tão feliz que posso tê-las perto outra vez que esqueço que em dia de festa a cozinha fica um caos. A gritaria tão normal para mim enche meus ouvidos, a um passeio de empregados por toda a redondeza. Como não pude perceber antes essa agitação? Claro, estava nervosa demais com a entrevista.
Tento dificuldades para encontrá-las. O ambiente é exatamente o mesmo de antes, tão familiar. As cozinheiras oficiais ficam sentadas, enquanto os contratados para Buffet ditam as ordens.
– Querida! – Elis diz gritando e vindo me abraçar. – Você estava maravilhosa na televisão. Linda como sempre. Coitadas das jovens, devem ter se escondido depois de terem visto a sua beleza.
– Calma Elis. – digo sorrindo. – Foi boa a entrevista?
– Foi ótima. – Liv fala vindo me abraçar. – Vocês são tão apaixonados! – ele suspira e eu seguro a risada. – Veja o público te amou. – ela mostra o seu tablet que comprou com muito esforço. Lá estava eu, sorrindo ao lado de Damon. Embaixo da foto tinha uma enquete, ela perguntava: o que você achou da escolhida? As respostas variavam. Tinha umas palavras de ódio, mas a maioria dizia que tinha sido uma ótima escolha. Que eu tinha a beleza de uma princesa, e que era muito simpática. Peguei-me pensando se era possível eles estarem falando mesmo de mim. Eu era isso tudo? Não! Não mesmo!
– Incrível, não é? – Liz pergunta sorrindo.
– Inacreditável! A poucos dias eu era só uma cozinheira, hoje eu já estou nessa coisa. – aponto para o tablet. Elas riem. – Queria perguntar uma coisa a vocês – falo sorrindo.
– Ora, pergunte. – Elis fala, ela sempre odiou mistérios.
– Vocês querem ser minhas damas de companhia?
– Claro! – as três dizem juntas.
– Isso é sério? – Liv pergunta.
– Ia brincar com uma coisa dessas. – elas vêm me abraçar. – Vocês começam amanhã, e hoje irão para o meu baile. – As três pulam de alegria. Sei que para elas tudo parece irreal. Assim com é para mim.
– Quem vai ficar na cozinha agora? – Liz fala. Ela é a mais organizada já esperava essa resposta dela.
– Novos cozinheiros chegarão amanhã. – Digo a elas o que Damon veio me falar. – Como vocês não estão sendo muito úteis aqui, acho que já podem se retirar. – Liv pula de entusiasmo.
– Finalmente terei a oportunidade de conhecer o homem rico da minha vida. – todas riem.
– Não temos roupas, Elena. – Liz afirma.
– Vocês têm a mesma medida que eu, posso emprestar. – falo olhando para Liz e Liv. – E Elis, você tem aquela roupa que era da sua mãe. – A família de Elis era muito rica. Mas, ela se apaixonou por um homem pobre. Como seus pais não aceitavam o namoro a obrigou a terminar. Elis não terminou e foi expulsa de casa, para sobreviver ela conseguiu um emprego no palácio. E vive até hoje aqui, nunca mais o pais a procuraram e Tom, o homem por quem ela se apaixonou, foi seu marido por 30 anos. Mas, infelizmente morreu por uma forte pneumonia. Ela nunca deixou de ser feliz e é por isso que a admiro tanto. Assim que descobri a sua história, me lembro de ter perguntado “Como você consegue ainda assim sorrir?” eu tinha apenas 13 anos, e a dor da perda era muito presente. Nunca me esquecerei de sua resposta.
– Meu socorro vem do Senhor, minha querida. – ela sorria gentilmente. – Ele que me faz suportar, porque Ele é meu noivo e meu melhor amigo. – Sabia que ela falava de Jesus, mas não entendia o que aquelas palavras diziam. Até que eu mesma fui socorrida por Ele, e então, tudo fez sentido.
O mesmo ritual de manhã se repetiu à noite. As três mulheres faziam o seu milagre em mim. Lorena ajeitava meu cabelo em um penteado que realçava cada traço do meu rosto. E eu estava com mais maquiagem; usava um delineador – que elas disseram que era estilo gatinho. Minha boca estava bem vermelha, em contraste com meu vestido de seda, bem branco. Ele marcava minha cintura, e tinha um leve decote nos seios. Eu estava mais uma vez: lindamente irreconhecível.
Vejo a imagem de Damon pelo o espelho. Ele me olha admirado.
– Se eu dissesse que você está magnífica estaria mentido, porque você está além disso. – ele sorri torto. Sorriu de volta para ele. – Vim te pegar e te trazer isto.
Damon mostra um par de brincos de esmeraldas acompanhados por um colar também de esmeralda. Lindos!
– Gostou? – ele se aproxima atrás de mim.
– Amei! Nunca vi umas joias tão lindas.
– É da família. Posso? – ele pergunta, afirmo e ele coloca o colar em mim. Nossos olhos se encontram no espelho e somado com o leve contato de suas mãos em meu pescoço, eu estremeço. Damon tinha um efeito sobre mim, sua presença era muito viva. Ele exala poder, e quando o via me sentia, automaticamente, protegida. Gostava da sensação.
– Combinaram perfeitamente em você. – Lorena fala nos tirando do nosso devaneio, tinha esquecido que elas se encontravam ali.
– Obrigada. – digo um pouco constrangida.
– Vamos, amor? – Damon pega em minha mão assim que termino de pôr os brincos.
– Amor? – pergunto assim que saímos do quarto.
– Sim, Elena é muito seco para noivos. – rimos.
Estamos no top da escada principal. Muita gente nos olha. Alguém anuncia nossa entrada, e respiro demoradamente. Estou nervosa.
– Preparada para o seu baile? – ele pergunta baixinho. Faço que sim com a cabeça.
– Preparado para conhecer algumas pretendentes? – ele faz que sim, e então, descemos os degraus de mãos dadas.
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