Simplesmente Tita
4 Capítulo 4 - A bomba no reino encantado
Notas iniciais
Gradualmente, os passeios restringiram-se a cada quinze ou vinte dias e Helena nos acompanhava. Ela gostava de ouvir rádios populares e naquela época a modinha da boquinha da garrafa dominava as paradas. Minha referência musical vinha de papai e Horácio, que gostavam de rock.
Como toda garota ciumenta, tentei de tudo para chamar a atenção. No mercado, desabei no corredor de chocolates. Berrei, chutei o ar, fiz o espetáculo completo. Papai nem olhou para trás. Levantei-me do chão sem um pingo de dignidade, limpando o joelho e a vergonha.
Outra vez levei uma bronca feia porque cismei de chutar o banco do carona.
— O que diabos está acontecendo com você, Renata? — Félix estava possesso.
— Meu nome não é Renata — dei de ombros, estourando uma bolinha de chiclete bem ruidosa na cara da Helena. — Sou a Tita. Só falo com você se me chamar de Tita.
Félix apertou o volante para não me dar uns cascudos, mas Helena interveio:
— Dê um tempo a ela, meu bem.
— Essa menina está impossível! Onde já se viu?
— Na idade dela, é normal ficar enciumada, mas vai passar, meu bem, tenha calma!
Calma era uma palavra que Félix e eu ignorávamos em nossos dicionários pessoais por aqueles tempos.
Aquela figura do herói que me salvava da opressão se desvanecia a cada desilusão. De princesa absoluta a boba da corte. Helena era a sua preferida. Para ela, o mundo, o universo. Para mim, as migalhas. Meire colaborava sobremaneira para fomentar o desprezo pela futura madrasta, logo, a mansidão escondia os verdadeiros objetivos dela.
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A bomba que terminou de estilhaçar minhas esperanças caiu num almoço de domingo. Nas televisões suspensas do restaurante, as Olimpíadas de Atlanta 96 preenchiam a tela, enquanto a voz de Gloria Estefan tentava animar o ambiente. À minha frente, o meu banquete favorito: lasanha à bolonhesa, batata frita e refrigerante em garrafa de vidro porque o gosto é melhor.
Helena soltou a notícia entre uma garfada e outra, como se fosse um detalhe qualquer:
— No próximo mês, seu pai e eu vamos casar na igreja!
— Vocês vão…?
O mundo parou.
— O que você acha disso, minha filha? — Félix buscava a minha aprovação.
Encarei o prato cheio. O silêncio era minha única defesa.
— Parece que você não gostou da notícia — comentou Helena, com aquela alegria que contrastava com o meu vazio. — Nem tocou na comida.
— Não tô com fome!
— Mas você disse que estava — meu pai me encarou, e a confusão dele já virava irritação.
— Mudei de ideia! Quero ir pro parquinho!
— Você não sai daqui enquanto não limpar o prato! — Félix levantou a voz na frente dela. Cruzei os braços, sentindo as lágrimas queimarem.
— Eu não tô te reconhecendo, Tita. O que está acontecendo com você?
— A verdade é que você estragou tudo! — Desabafei, finalmente. — Nossa vida era muito melhor antes de você chegar, sua bruxa! Você roubou o meu pai de mim. Por sua causa, ele esqueceu o meu aniversário. Eu odeio você!
Helena empalideceu. A verdade bateu nela com mais força que a lasanha. Félix, enfurecido, tomou o lugar de noivo protetor:
— Onde estão os seus modos, sua menina egoísta? Peça desculpas para a Helena agora mesmo, se não quiser levar uma surra aqui na frente de todo mundo!
— Não peço.
— Vai pedir, sim! Tô mandando!
— Não vou!
— Félix, benzinho… — Advertiu Helena, chorosa, pois ele queria me dar uma surra lá mesmo. Eu conhecia a linguagem corporal de um adulto enfurecido.
— Vou me casar com a Helena, queira você ou não! ― Decretou Félix, apertando as mãos de Helena, evidenciando que dali por diante restavam-me duas alternativas: a) ou eu aceitava aquela mulher nos nossos caminhos, ou b) ia embora.
Apanhei a bolsinha de cachorrinho pendurada na alça da cadeira, empurrei-a com força e saí correndo de lá. Domingo à tarde o restaurante se encontrava lotado e todos os salões ficavam apinhados de pessoas e seus falatórios, de modo que quando cheguei ao estacionamento, com o coração aos pulos, já sinalizava rendição.
Cheguei ao estacionamento com o coração na boca. O parquinho era o lugar menos seguro para me esconder, mas eu não tinha mais pernas para correr. Apoiei as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego e a dignidade.
— E aí, dama?
Nem precisei levantar a cabeça. Aquela ironia ácida só podia ser de mamãe. Ela estava ali, encostada no carro, assistindo ao meu fracasso.
— Pensei que estivesse animadíssima para ser a dama de honra.
— Não vou nem arrastada!
— Que animação, menina!
Nunca soube segurar o choro nem a raiva. Eu não queria ser dama de honra de ninguém. Aquela bondade da Helena não me enganava. Se eu fosse morar com ela, seria a história da Cinderela ao contrário: sem fada madrinha e sem final feliz.
♏♏♏
No início da noite, o telefone tocou. Horácio atendeu e ficou ali, mudo, só ouvindo a Helena do outro lado. Meire, sentada no sofá, parecia que ia explodir. Abracei a almofada, esperando o início da guerra, pronta para correr para o guarda-roupa. No entanto, o grito não veio.
— Meire, você ainda tem tempo de evitar uma tragédia — disse Horácio.
— Tragédia é ver minha filha ardendo em febre por causa desse canalha! — Meire rebateu, vindo até o sofá. Ela mediu minha temperatura e pingou aquelas gotas amargas num copo d'água.
Aquela febre era diferente. Não tinha dor de garganta, nem nariz escorrendo. Era a minha alma dizendo haver chegado no limite. Sempre que o mundo quebrava por dentro, eu parava na cama, queimando. No pronto-socorro, a pergunta do médico era sempre a mesma:
— Essa criança passou por algum trauma?
Meire nunca respondia.
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