Simplesmente Tita
3 Capítulo 3 - Surpresa de Desaniversário
Três buzinadas sincronizadas na sexta-feira à tarde em frente à minha casa não podiam significar mais nada senão a chegada de Félix Linhares. Àquelas alturas, a mochila azul de alças amarelas já estava pronta e o coração palpitava de emoção.
Como parte do acordo estabelecido, papai tomava conta de mim aos finais de semana, que compensavam o inferno dos dias letivos, representava um descanso na dor, o bálsamo para a alma solitária que não encontrava amor e proteção em parte alguma. Em contrapartida, as noites de domingo eram melancólicas por natureza.
Eu ainda não tinha idade suficiente para me sentar no assento do carona, mas ajustava direitinho o cinto de segurança atrás na maior expectativa. Com ele, a regra era não ter regra: o jantar era sorvete ou pizza, e o reino encantado era uma casa de alvenaria azul onde eu reinava absoluta. O fim de semana tinha gosto de algodão-doce e a cor dos balões do Passeio Público.
Frequentávamos assiduamente o parquinho, o teatro de bonecos e também o cinema. Ele sintonizava na minha estação de rádio predileta, aumentava o volume quando tocava alguma música de que eu gostava. Se o fim de semana tivesse cores específicas, seriam dos balões comprados lá no Passeio Público; se tivesse gosto, seria de algodão-doce.
Nas proximidades do meu oitavo aniversário pedi um cachorrinho de presente. Havia tantos peludinhos órfãos na Sociedade Protetora dos Animais e nossa casinha, embora pequena, tinha um quintal para o bichinho brincar. Meire fingiu não ouvir.
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Tudo que poderia dar errado naquele ano, deu. A festinha na escola foi cancelada na última hora, vovó avisou por telefone que não poderia me visitar porque teria de trabalhar, algo compreensível, não daria tempo de sair do plantão e vir para a minha casa. Além disso, ela era justa. Desde o início do ano, guardava um dinheirinho para comprar presentinhos para todos os netos, sem fazer nenhuma distinção.
— Será que o papai se esqueceu do meu aniversário? — Perguntei à mamãe enquanto ela cobria a mesa redonda da cozinha com a toalha especial utilizada apenas em aniversários e outras datas comemorativas, ou seja, raramente.
— E eu lá sei o que se passa naquela cabeça de pudim? — soltou ela, enquanto batia a toalha de mesa.
— É que já são quase seis da tarde e ele não me ligou… — murmurei, amuada.
— Anda, me ajuda a colocar os pratos — ordenou mamãe, impaciente. — Daqui a pouco o Horácio chega e a gente acaba logo com essa palhaçada.
— A senhora acha que o meu aniversário é uma palhaçada?
— Aniversário é só um dia como qualquer outro… — rosnou ela. — Tem gente que pensa que é o centro do mundo.
— E o cachorrinho?
— Que cachorrinho? — Devolveu ela, com um grito.
— A gente não pode ter um cachorrinho em casa?
— Criança já dá um trabalho dos infernos e vem você me falar em cachorro? Que cachorro, o quê!
— Mas eu queria tanto um…
— Vai ficar querendo!
— Era só o que eu queria!
— E não terá! Ou pensa que sou boba? Você vai só passar a mãozinha na cabeça dele, mas a responsabilidade ficará toda em cima de mim. Sem chance!
— Tomo conta dele se a senhora quiser.
— Você pensa que nasci ontem? Tudo quanto é pirralho diz o mesmo, depois nem olha para a cara do cachorro. A responsabilidade fica toda nas costas da mãe. Não é não. Ponto final. Eu não quero mais falar sobre esse assunto, estamos entendidas?
Assim que Horácio chegou do trabalho e tomou banho, Meire fez questão de cortar o bolo, ela e Horácio cantaram os parabéns, todos se serviram e comeram. Fim de festa.
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Voltei a ter notícias de Félix apenas no domingo, quando mamãe, de manhã cedo, me mandou tomar banho e disse que ele passaria para me pegar depois do almoço para irmos ao Passeio Público. Apesar de ser uma notícia maravilhosa, não me foi explicado o motivo da ausência dele.
No horário estipulado, Meire me entregou aos cuidados dele. Usava uma camisa de seda azul, calça jeans de corte reto, sapatos pretos bem engraxados, cabelos penteados para trás, cheiroso e carinhoso como de costume; encaminhou-me até o carro, abriu a porta do motorista, levantou o banco para eu me sentar lá atrás, onde estava o meu presente.
— Como foi o seu aniversário, Tita?
— Fiz alguma coisa que te magoou, papai?
Félix olhou para mim com certa consternação.
— Como disse, querida?
— Fiz alguma coisa que te magoou? — Insisti.
— Claro que não, meu amor!
— Então, por que o senhor se esqueceu do meu aniversário?
Félix, por sua vez, me perguntou se eu havia me recuperado da gripe que tive dias antes do meu aniversário e eu respondi que sim.
— Eu te liguei, sim, meu anjo, de manhã cedinho, mas sua mãe me disse que você ainda estava adoentada e não podia falar, então te desejei melhoras e disse que esperava que você estivesse recuperada para comemorarmos no domingo — confessou-me papai.
Aquiesci, dizendo que me sentia melhor.
— Pronta para a surpresa que o papai preparou para você?
— Não me diga que é um cachorrinho?
— Não, não é um cachorrinho.
— Ah, que pena!
— Ora, por que o desânimo? O cachorrinho pode ficar para outra ocasião. Preciso conversar bastante com a sua mãe sobre isso, pois trazer um cachorrinho para casa é uma responsabilidade.
Chegando ao Passeio Público, papai comprou três algodões-doces. Achei estranho, mas o nó só apertou quando uma moça de rosto redondo e vinte poucos anos se levantou do banco e o chamou de “amor”.
— Você é sempre tão meigo! — disse a moça.
— Cheguei muito atrasado?
— Que nada! Você é sempre tão pontual.
E eles se beijaram. Na minha frente. O algodão-doce cor-de-rosa na minha mão pareceu perder o sabor.
Félix então voltou-se para fitar-me e a moça antecipou-se.
— Então ela é a famosa Tita?
— Ela não é uma gracinha, meu amor?
— Sem sombra de dúvida! — Exultou ela, que apertou minhas bochechas.
Se tem algo que odeio é que force intimidade, ainda mais se acabou de me conhecer.
— Helena, ela é a Tita.
Eu deveria ser a única mulher da vida dele, porém ali, caminhando atrás dos dois, eu era apenas a vela que iluminava o novo romance do meu herói.Houve surpresa, sim, mas passou longe de ser agradável.
Em um português mais claro, passei o restante da tarde suando que nem um camelo, segurando vela para o casal e caminhando atrás deles. Não à toa voltei para casa com um mau-humor e contei tudo para mamãe, que caiu na gargalhada.
— Eu bem que desconfiava que aquele traste cedo ou tarde aprontaria alguma para cima de você e é muito bem-feito para você deixar de ser trouxa!
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