Simplesmente Complicado
1 Um novo ano
Notas iniciais
O sol nasce e ilumina o céu ainda pouco escuro depois do fim de uma madrugada. Pequenos feixes de luz adentram o quarto onde duas meninas dormem pacificamente em suas camas. Um cenário pacífico aos poucos foi sendo revelado à medida que a luz do sol inunda aquele quarto. Tudo calmo até o alarme disparar como sua melodia aguda.
Lentamente, uma das garotas abre seus olhos castanhos-escuros, erguendo-se e levantando-se do conforto e calor de sua cama. Esticou seus braços, espreguiçando-se lenta e longamente. Ela voltou-se ao despertador, encerrando aquele barulho horrível. Olhou na direção da outra cama. A outra garota ainda permanecia adormecida.
Caminhou em sua direção e parou ao lado de sua cama. Balançou ela suavemente, tentando acordá-la. A jovem nem ao menos reagiu. Balançou-a mais forte. Nada ainda. Irritou-se. Sacudiu-a. De repente, a morena é acertada por um belo soco no nariz e cai no chão.
—Qual é o seu problema, idiota?— a morena grita erguendo-se do chão, com a mão apertando forte o próprio nariz, torcendo para não estar quebrado. A “boxeadora” vira-se pra ela, a olhando com seus olhos esverdeados.
— Ah, é você Nee-san? — pergunta deixando um bocejo transbordar logo depois. Nem parecia perceber o olhar de fúria de sua irmã sobre ela.
— Não, eu sou o Goku — a outra disse sarcástica. Mesmo sonolenta, a garota de olhos esverdeados soltou um risinho. Tsuki adorava o tom sarcástico da irmã, sabia que era uma das coisas que, mesmo com o passar dos anos, nunca tinha mudado. Kaori se endireitou em pé, desamassando a roupa.
— Enfim, eu estou indo tomar um banho. Sugiro que você arrume seus materiais enquanto eu estou lá, senão você vai acabar se atrasando — a morena disse dirigindo-se ao banheiro que se encontrava no final do corredor à direita. De seuquarto, Tsuki ouviu a porta do banheiro se fechando e sendo trancada. Sorriu. A irmã realmente não sabia fechar uma porta delicadamente, principalmente quando estava recém-acordada.
Resolveu levantar-se, espreguiçando-se longamente em seguida. Arrumou a cama da melhor maneira que pôde. Dirigiu-se ao seu armário, tirando de lá seus livros e pondo em sua mochila de escola. Foi ao armário mais uma vez, retirando de lá seu uniforme. Colocou-o com cuidado sobre a cama recém-arrumada. Deu um longo suspiro, quando ouviu batidas na porta do quarto e, logo em seguida, viu um homem alto entrando.
— Are... Vocês já estão acordadas? —o homem disse com certa calma e preguiça na voz, coçando a cabeça com um sorriso tranquilo no rosto. Tsuki sorriu, afirmando com a cabeça.
— Bom dia, Papai. — ela disse sorrindo. — É claro. Aquela doida da Kaori sempre me faz acordar cedo desse jeito, mesmo ela indo dormir tão tarde. Você sabe como ela é. Mas ainda me pergunto como ela consegue ficar tão disposta logo cedo — ambos soltaram uma risada. A morena realmente sempre fora assim, mesmo sendo Tsuki a energética das duas. Mas seu pai tinha sua teoria.
— Are, ela sempre fica energética assim no primeiro dia de aula. Faz tempo que vocês não veem seus amigos, talvez seja por isso não é? — ele disse sorrindo. — Bom, eu vou descer e preparar o café. Assim que estiverem prontas desçam, ouviu? — ele disse já saindo pela porta pela qual entrara. A garota apenas concordou com um sorriso. Suspirou.
Após tantos anos estudando numa escola normal, finalmente elas agora iam para o seu último ano de ensino médio. E não seria um colégio normal. Elas iriam para um colégio interno. Teriam que morar num dormitório. Acordar todo dia em casa, no seu quarto, poder ver seu pai... “Eu vou sentir falta disso”. Pensou, suspirando longamente. Foi tirada de seus pensamentos pela irmã que adentrava o quarto, enrolada num roupão. Reparou no olhar triste da irmã.
— Nossa, que cara de enterro. Normalmente você sempre fica alegre quando volta às aulas — a morena retinha um olhar um pouco confuso. A outra tentou disfarçar com um sorriso abobado.
— Não é nada, só estou pensando... — disse relutante.
— Em como vão ser nossas próximas manhãs? Sem o papai? — Kaori completou. Cruzou os braços logo abaixo do peito. Pequenos fios escapavam de seu coque e caíam sobre seu rosto, agora abaixado. Suspirou.
— Eu também penso nisso. Eu pensei nisso a noite toda... — disse num tom de voz mais rouco. — Eu odeio ter que deixar nossa casa e nosso pai todo início de ano, mas, por outro lado, eu sinto muita falta das pessoas da escola. — deu um sorriso discreto. — E não é pra sempre, você sabe disso. E no próximo recesso a gente vai poder vir visitar o papai de novo, não é? — Kaori aproximou-se da irmã e pôs suas mãos em seus ombros delicadamente, sorrindo.
Tsuki ainda estava inconformada. Não se conteve. Livrou-se das mãos de sua irmã e sentou-se na cama com raiva.
— É, não é pra sempre. Porque depois que a gente se formar, cada uma vai pro seu lado, não é? Você vai fazer aquelas matérias difíceis em alguma faculdade de gênios e eu vou para a que me aceitar, não é? — sua voz saía levemente aguda quando ela gritava. A outra que ouvia tudo levemente assustada tentou falar, mas Tsuki continuou. — Ou seja, depois do ensino médio, nem mesmo você eu vou ter ao meu lado, Nee-san — ela disse seriamente desanimada. Elas eram muito apegadas uma a outra, mesmo não demonstrando isso em público.
Kaori sorriu com pesar. Sabia que era verdade. Elas com certeza adotariam carreiras diferentes, indo para faculdades diferentes. Depois que atingissem a fase adulta sabia que suas vidas tomariam rumos completamente diferentes, mas ainda tinha esperança de que seus laços com sua gêmea fossem mais fortes do que a distância entre elas. Sentou-se ao lado da irmã e abraçou-a forte.
— Eu sei... Mas então, aproveitemos nosso tempo juntas não é? — sorriu calorosamente para a garota de olhos esverdeados ao seu lado. Essa então concordou com a cabeça, retribuindo o abraço. Ela sorriu. Kaori podia ser sempre a durona e a mais séria das duas, mas com certeza toda aquela rigidez sumia quando se tratava de pessoas que ela amava.
Ficaram uns segundos daquele jeito até que se lembraram da hora. Tsuki levantou-se correndo e foi direto para o banheiro. Ainda tinha que tomar banho e depois ainda se arrumar. Isso fez lembranças se formarem na mente de Kaori. Lembranças de quando elas eram menores.
Tsuki sempre fora desorientada e bem descuidada. Lembrou-se de quantos vasos e outros objetos a outra já quebrara. E lembrava-se também de todas as incontáveis horas que ela passava ajudando a irmã a consertar, em vão, logicamente. Riu discretamente enquanto essas lembranças corriam por sua mente. “Vou sentir sua falta, Tsuki. De você e de suas trapalhadas.” Foi retirada de seus pensamentos por seu celular que apitava. Uma nova mensagem.
Ohayo, Kaori-chan.
Do jeito que você é já deve estar acordada há tempos.
Vê se não se atrasa hoje, okay?
–Gom
Sorriu. Simplesmente sorriu. Olhou para o relógio. Suspirou. Realmente não haveria como não chegarem atrasadas, mesmo tendo acordado cedo. Suspirou de novo, deixando outro sorriso se formar em seus lábios, respondendo a mensagem logo em seguida.
Se você for esperar por mim, eu sugiro que espere sentado.
PS: Odeio que me conheça tão bem assim...
Odiava mesmo. Takeuchi Gomuro. Seu melhor e mais antigo amigo. Amigo dela mesmo naquela época, na época que ela era... diferente. Eles eram inseparáveis. Desde os seus 13 anos. Cresceram juntos, ele era como um irmão. Ou pelo menos, era assim que ela queria ver ele...
Desviou novamente seus pensamentos daquele tipo de coisa, levantando-se da cama e indo em direção ao seu armário. Pegou seu uniforme. Vestiu a saia quadriculada, que chegava até o início de suas coxas. Abotoou a camisa branca até em cima, laçando um nó com a gravata igualmente quadriculada. Por fim, colocou o colete azul-escuro com o emblema do colégio por cima, abotoando-o até embaixo, o qual ficava com uma leve curva no final. Colocadas suas meias 3/4 brancas, estava pronta. Só faltava uma coisa... o cabelo!
Saiu correndo atrás de sua escova. Soltou seu cabelo escuro de seu coque e começou a penteá-lo exaustivamente. Seu cabelo era muito grande, então era bem cansativo escová-lo. Terminou pouco tempo depois. Seguiu para sua escrivaninha, onde ela pegou suas argolas e colocou-as. Passou um gloss nos lábios – não gostava de usar muita maquiagem – e estava pronta.
Tsuki chegou abruptamente pela porta, molhada da cabeça aos pés. Kaori arqueou uma sobrancelha ao ouvir o grito desesperado de sua irmã.
— Nee-san! Me ajuda!— a garota de olhos verdes começou a andar freneticamente pelo quarto.
— Se você me disser o que houve, eu te ajudo, Nee —disse sorrindo. Havia estranhado a irmã não ter saído bem antes querendo ajuda.
— O... Meu... —ela parou e se ajoelhou no chão, colocando as mãos sobre o rosto molhado.
— O seu o quê, Nee? — Kaori agora ficou preocupada. Sua irmã nunca havia feito aquilo.
Tsuki tirou suas mãos do rosto e a olhou. Seu rosto estava sereno, com algumas gotas pingando do queixo.
— Me ajuda a pentear o cabelo? —perguntou sorridente.
— O quê!? — Kaori fechou os punhos, indo na direção da irmã que se levantou rapidamente, pulando em cima da cama.
— Me ajuda a...
— Como você faz esse escândalo por causa do seu cabelo!? —tentou pegar a irmã, mas a mesma era muito rápida. Saltou por cima dela segurando a toalha que escorregava pelo corpo.
— Nee-san, eu...
— Minha nossa, Tsuki! — Kaori olhava a irmã com os braços cruzados.
— Você não vai me ajudar? — Tsuki perguntou manhosa.
Kaori bufou, deu um meio sorriso e logo depois pegou uma toalha.
— Vem aqui, sua louca. O secador vai armar seu cabelo —sentou-se na cama, esperando a irmã fazer o mesmo.
— Ai! Eu sabia que você ia me ajudar, Nee-san! — Tsuki deu uns pulinhos e logo foi na direção da irmã, sentando-se ao seu lado.
Logo o seu cabelo já estava seco. Não muito, mas estava.
Enquanto Kaori arrumava sua cama, Tsuki trocava de roupa. Colocou a saia com certa rapidez. Pôs a camisa deixando dois botões desabotoados. Colocou a gravata deixando-a meio frouxa. Deixou o colete desabotoado. Seu estilo era esse. Era mais rebelde e fazia questão de mostrar isso às pessoas a sua volta. Penteou seus cabelos negros que iam um pouco abaixo dos ombros, deixando-o solto.
— Bem, eu já estou pronta! —disse eufórica.
— Já arrumou seu material? — Kaori perguntou desconfiada.
— Sim — Tsuki pegou sua mochila, mostrando o conteúdo dentro da mesma.
— Então vamos descer — Kaori pegou sua mochila que havia arrumado um dia antes e a pôs nas costas, sendo acompanhada pela irmã.
Desceram conversando e rindo pela escada. Uma hora Kaori teve que segurar sua irmã para que a mesma não caísse.
Chegaram à cozinha e se depararam com um homem de cabelos negros curtos, magro e de olhos castanho-escuro com um avental amarrado na cintura, colocando ovos e bacon em dois pratos na mesa. Daichi Harayama.
— Bom dia, papai — Kaori desejou sorrindo.
— Bom dia. —beijou a testa da menina. — Dormiu bem?
— Dormi sim! —sorriu. — Só tive uns probleminhas na hora de acordar a Tsuki —olhou torto para a irmã que sorriu sem graça, coçando a cabeça.
— Sei... —riu discretamente. Gostava da animação das filhas. Lembrou-se da época em que as duas o deixavam louco, correndo atrás de uma Kaori com uma tesoura ou atrás de uma Tsuki subindo nas cortinas. Foi tirado de seus devaneios quando Kaori perguntou se não havia algo pra beber. Colocou um suco de laranja em dois copos e serviu para as filhas. Riu quando viu o jeito que as duas comiam. Kaori com certa formalidade, cortando o bacon e o colocando devagar na boca, enquanto Tsuki só faltava comer o prato.
‘’ Deve estar com muita fome, já que nem está mastigando.’’ Pensou.
As duas acabaram quase que ao mesmo tempo, já que Tsuki apostou com a irmã quem comia mais rápido. Acabou perdendo e, quando chegarem à escola, ela dormirá na cama debaixo – isso se elas ficarem no mesmo quarto.
— Bem... É isso — Disse Kaori triste. Os três estavam na frente da porta semiaberta, sendo segurada pela Tsuki.
— Se cuidem. —disse o mais velho passando ambas as mãos na cabeça das filhas. — Não quero ser chamado esse ano. Escutou Tsuki?
— Aquela menina mereceu o soco! —tentou se defender.
— Em que parte? —perguntou Kaori rindo. — Na parte em que ela esbarrou em você e logo depois pediu desculpas? Ou na parte em que você pisou no pé dela e ela perguntou se você era louca?
— Não começa, Nee-san — Tsuki fez um bico.
Daichi sorriu e abraçou ambas as filhas. As duas retribuíram o abraço caloroso.
— Amo vocês. —ele sussurrou. — Não se esqueçam disso.
— Não vamos —disseram as duas em uníssono.
— Nos vemos no Natal —se separou das meninas sorrindo.
— Talvez até antes disso, papai —comentou Kaori.
Daichi concordou com a cabeça e abriu a porta para as filhas. Estava feliz por vê-las tão grandes e maduras, mas triste por estar as perdendo aos poucos. Lembrou-se do dia em que elas nasceram. Da alegria que sentiu ao ver os olhinhos verdes e castanho-escuros o olhando. Fechou a porta e olhou para a casa vazia. ‘’Vai ficar bem silencioso.’’ Pensou.
Já lá fora, as duas meninas notaram um rapaz sentado no meio fio. Estava usando um braço como escoro para sua cabeça e, pelo jeito, estava impaciente.
— Ih Nee-san, é o Gom! — Tsuki deu ênfase no ‘’Gom’’.
— E daí? — Kaori tentou não parecer nervosa na presença do amigo. Sentiu um frio na barriga ao vê-lo. Sempre foi assim.
Takeuchi Gomuro era o que as meninas chamam de ‘’Deus Grego’’. Ele era um pouco mais alto do que a Kaori. Seu cabelo escuro era um pouco mais comprido do que o normal, chegando a bater nos seus ombros. Ele o deixava bagunçado, fazendo o estilo rebelde, igual Tsuki. Tinha lá seus músculos, mas não era exagerado, um ponto certo que o deixava mais charmoso.
— Vai me dizer que ele nunca tentou de beijar? — Tsuki deu um tapinha no ombro da irmã. — E você? Tenho certeza de que já tentou ‘’jogar a corda’’. Nem uns pegas? Olha pra carinha de carente dele... Imagina você sozinha com ele, a quatro paredes. Ui, até me arrepia —sorriu maliciosa.
Kaori olhou na direção do rapaz e imaginou tudo o que a irmã disse. De repente uma quentura subiu no seu rosto e ela parou.
— Eu não consigo! —saiu correndo, indo na direção da porta a abrindo com certa grosseria e sumindo.
Daichi apareceu e olhou para Tsuki confuso. Ela deu de ombros. Passaram-se alguns minutos e Kaori apareceu recuperada. Parecia que a conversa da irmã nem havia a afetado. Olhou para pai e acenou com a cabeça. Daichi sorriu e fechou a porta novamente.
Kaori parou ao lado da irmã com seu rosto sério. A olhou e disse:
— Você não me atingiu —e olhou para frente novamente.
— Sei... — Tsuki riu. Achava o Gom um encanto, mas sabia que a irmã mantinha uma paixonite por ele. Mesmo nunca tendo revelado. E também, para ela, ele era um simples amigo. Nada mais do que amigo. E ai dele se tentasse algo com ela.
Chegaram perto do rapaz que, ao notar a presença das duas se levantou fitando-as e sorrindo.
— Bom dia —ele disse animado.
— Bom dia —responderam as duas sorrindo.
— Demoraram. Quando Kaori disse pra eu esperar sentado não pensei que ela falava sério — riu descontraído.
— Então vocês se falaram? — Tsuki abriu um sorriso largo e olhou para a irmã que estava corada.
— Bem... Nós só... Conversamos — Kaori olhou para o lado tentando esconder o rubor do seu rosto.
— Leva ele pro quarto, Nee-san. — Tsuki sussurrou no ouvido da irmã. — Quatro paredes... Só vocês —deu uma gargalhada.
Kaori só faltou desmaiar de tanta vergonha. Deu um pisão no pé de sua irmã que se segurou pra não soltar um grito. Gom olhava para as duas confuso.
— Vamos? —perguntou Kaori sorrindo. Vendo a irmã segurar o pé e a olhar brava era... reconfortante.
Gom sorriu e se posicionou ao lado de Kaori. Começaram a andar. Tsuki mancou um pouco,mas logo voltou ao normal. Eles iam falando sobre como foi as férias, viagens, a escola, e como seria ano que vem.
— Nem to acreditando. —começou o único homem. — Passou tão rápido, não é?
— Sim. — respondeu Kaori sorrindo. — Logo estaremos com nossas vidas feitas.
— Grande coisa! — disse Tsuki. Realmente a morena não gostava desse assunto.
— Não fica assim, Nee! — Kaori tentava animar a irmã. — Pensa bem, ainda temos esse ano inteirinho!
— As coisas passam nee-san, logo eu vou estar sozinha nesse mundo caótico!
— Caótico? — disse Gom sorrindo. — Acho que isso é carência Tsuki-san.
— Carência o seu...! —foi cortada pela irmã, que tapou sua boca.
— Bem, se quisermos chegar na hora, temos que apressar o passo.
— Certo —disse Gom. Tsuki apenas revirou os olhos.
Não demorou muito pra eles chegarem à escola. Avistaram outros amigos e foram logo abraçá-los e matar a saudade. Kaori e Gom pelo menos, já que Tsuki se sentia uma intrusa naquela escola. Seus amigos haviam ido para outra.
— Ô coisa chata... —disse desanimada.
— Concordo —ouviu atrás de si. Virou-se rapidamente dando de frente com um rapaz moreno. Um tanto quanto bonito.
— É... Quem é você? —o tom um pouco alto chamou a atenção de Kaori, que a olhou e logo depois soltou um sorriso. ‘’V de vingança nee-san... V de vingança.’’ Pensou.
— Pode me chamar de Karyuu. —sorriu. — E o seu é...?
— Harayama T-Tsuki.
— É um prazer, Harayama-san.
— Ah, nee-san, já fez amigos? — Kaori apareceu do nada, assustando a irmã que deu um pulo.
— Bem... É. —deu uma risada sem graça. — Esse é o Karyuu.
— Prazer —disse Kaori sorrindo.
— Prazer em conhecê-la —respondeu também sorrindo.
— Nee, eu posso falar contigo?
— Co-comigo?
— É... Vem cá!—puxou a irmã pelo braço, se distanciando do rapaz.
— Entoooon, me conta! — Kaori juntou as mãos, dando leves pulinhos.
— Conta o quê?
— Não se faça de desentendida! — Kaori pôs uma das mãos no ombro da irmã, sorrindo maliciosa. — Eu vi como você olhou pra ele... Hehe.
— Nee-san, se você tá pensando em se vingar de mim pelo que eu fiz aquela hora, pode esquecer. — Tsuki sorriu vitoriosa. — Eu acabei de conhecer o garoto, já você conhece o Gom há uns bons anos.
—Onde você quer chegar? — Kaori desfez o sorriso.
— Lugar nenhum. Só acho que, quem tem mais chance de ‘’se dar bem’’ aqui, é você... Nee-san.
Tsuki soltou uma risada macabra, chamando a atenção de alguns alunos, inclusive de dois certos rapazes.
Kaori bufou e se afastou da irmã dizendo um ‘’Vai ter troco’’. Tsuki apenas sorriu.
— Então, Harayama-san. —ouviu atrás de si. — Você já pegou o seu horário?
— Ainda não. Nem sei onde fica a secretaria... —respondeu meio sentida.
— Bem, eu posso te mostrar se quiser. Daí eu aproveito e pego meu horário também — Karyuu sorriu, fazendo Tsuki corar levemente.
— T-tudo bem.
Karyuu ficou ao lado de Tsuki e começou a andar, sendo acompanhado pela moça. Ao longe Kaori via a cena junto com Gom. Ambos mantinham um sorriso travesso no rosto.
— Então, quer espiá-los? —perguntou o rapaz com brilho nos olhos.
— Ah, eu não sei. Eu acho que não seria capaz de… Tudo bem!
Ao longe Gom e Kaori observavam Tsuki e Karyuu conversando animadamente. Vez ou outro ambos tinham que se esconder entre os arbustos, já que faziam bastante barulho... Com certeza ser espiões não vai estar na lista de empregos deles.
— Então Karyuu-kun, você estuda aqui há bastante tempo? —perguntou Tsuki animada. Já não estava se sentindo tão envergonhada assim ao lado do rapaz... Ainda bem!
— Estou aqui desde o ano passado —respondeu dando uma risada.
— Então você deve ter amigos, não? —talvez a morena possa ser amiga deles também.
— É...
Continuaram sua caminhada. A secretaria ficava bem longe, não?
— Puxa vida... —disse Kaori cansada. — Onde eles estão indo afinal?
Gom riu com tal pergunta.
— O que foi? —o olhou com os olhos cerrados, até trocar por assustados. — Ah meu deus! Não me diga que...! A Nee nem conhece o cara direito e já quer...!
— Calma Kaori-san... — Gom riu ainda mais. — Tenho certeza que eles não vão tratar ‘’desses’’ assuntos...
— Hum... Tudo bem, mas agora eu fiquei ainda mais curiosa... Vamos apressar o passo!
— Certo.
Mais alguns minutos e eles viram Tsuki e Karyuu adentrarem uma sala. Devia ser a secretaria. Kaori e Gom pararam na frente da porta.
— E agora? Entramos ou não? —perguntou a moça.
— E-eu não sei...
— Por que você ta gaguejando?
— Eu n-não sei!
Kaori olhou para os lados, em busca de alguma coisa ou alguém que estivesse assustando seu amigo, mas não achou nada.
— Gom, se tiver algum problema é só... —parou de falar ao ouvir barulhos um pouco... estranhos. — Que barulho é esse?
— Q-quantos ‘’eu não sei’’ eu vou ter que falar pra que você e-entenda? —perguntou rindo.
Kaori balançou a cabeça rindo também. Logo ouviram aquele barulho novamente seguido por um grito. Era Tsuki.
— Oh não! — Kaori definitivamente derrubou a porta. — Nee-san!
Parou estática ao se deparar com a cena: Tsuki com livros e mais livros em cima de si, Karyuu segurando um saco de areia e talvez a diretora com luvas de box.
— O que é que...! — Gom preferiu não fazer a pergunta.
— Etto... Será que dá pra alguém me ajudar? — Tsuki tinha uma veia na testa.
— Eu te ajudo — Karyuu segurava o riso.
— Bem... —começou a diretora retirando as luvas. — O que vocês queriam mesmo?
Passado o pequeno acidente na secretaria, os quatros jovens já estavam nas suas respectivas salas. Por sorte os quatros tinham aulas nas mesmas salas. Até que não estavam tão atrasados como Kaori pensou. Mas o que estava tomando mais a sua atenção era sua irmã com o novo ‘’amigo’’ dela. E isso não passou despercebido por Gom. Ele sabia que Kaori tinha um gênio forte e quando botava algo na cabeça, só kami pra conseguir fazê-la tirar. E se Tsuki havia feito alguma coisa a ela nos últimos dias, só tinha dó da morena.
— Caros alunos. —começou a diretora adentrando a sala. — Bem-vindos ao colégio interno Nitsogerakashi. Espero que vocês possam se dar bem com os professores e entre si. Não quero confusões como no ano passado.
Ao sair outro professor entrou. Era bem bonito, e por essa razão fez as meninas das salas cochicharem entre si e os rapazes o olharem com certa raiva.
— Puxa, que kawaii... —disse Tsuki com os olhos brilhando. De alguma maneira esse comentário fez Karyuu ficar com raiva do novo professor.
— Olha o assanhamento, Nee —sussurrou Kaori para a irmã. Ela sentava atrás de Tsuki, Gom atrás dela e Karyuu ao lado de Tsuki.
— Eu sei nee-san... —sorriu abobalhada.
A aula foi de Geografia, para a alegria de Kaori e maldição para Tsuki. A mesma nunca foi tão boa em Geografia... E fazia questão que os professores dessa matéria soubessem disso. Ela não queria ficar com cara de idiota quando alguém perguntasse a ela qual é a densidade demográfica da Espanha. A aula não durou muito, assim como as outras duas. Logo foi intervalo.
— Puxa vida, mal posso esperar pro Natal chegar... —disse Tsuki com os olhos fechados. Os quatro jovens estavam debaixo de uma árvore.
—Mas as aulas nem começaram direito e você já está pensando na hora de acabar? — Kaori começou a rir.
— Eu também. —começou Karyuu. — Não gostei nem um pouco daquele professor de Geografia —disse emburrado.
— Eu também não —concordou Gom.
— Ah! Vocês estão assim por que ele é kawaii... Estão com ciúmes! — Tsuki sorriu maliciosa.
— Concordo com a Nee... Vocês estão cheios de ciúmes do professor — Kaori caiu na risada mais uma vez.
— Não estamos! —disseram os dois em uníssono.
— É,mas mesmo assim... — Kaori se interrompeu ao ver uma espécie de sombra preta atravessar o céu. Olhou para Tsuki na mesma hora, mas a mesma estava com os olhos fechados. Karyuu e Gom estavam ocupados demais falando do professor kawaii. Sentiu uma sensação estranha. Novamente ‘’aquela’’ sensação. Ouviu seu nome ser chamado quase que em silêncio.
— Eu acho que nós devíamos espioná-lo! —disse Gom confiante.
— Isso não vai prestar... —disse Karyuu. Tsuki assentiu.
— Vai sim! O que você acha Kaori-san? —notou a expressão distante da amiga. — Kaori-san?
Tsuki ficou receosa. Fazia tempos que Kaori não ficava daquele jeito.
— Kaori! —gritou. Assim a morena ‘’acordou’’.
— D-desculpe. Eu fiquei distraída... —sorriu se graça. — Vocês diziam alguma coisa?
— Sim, estávamos pensando em espionar o professor de Geografia. — Gom preferiu ignorar o que havia acontecido agora há pouco. — Você topa?
— Você tá brincando, não é?
— Eu disse a ele que não...
— Eu to dentro! —realmente, Karyuu e Tsuki não esperavam aquela resposta, principalmente Tsuki. Kaori é do tipo séria e não do tipo... Tsuki.
— Tudo bem! Faremos isso assim que as aulas terminarem. E como dormimos na escola mesmo, não precisamos nos preocupar com o horário! — Gom estava muito animado.
— Sim! Que tal tirarmos fotos? Seria uma boa registrarmos caso descobríssemos algo assustador.
— Nee-san, você tá muito animada hoje... — Tsuki resolveu ‘’cutucar’’ a irmã. — Será que ficar perto de alguém em especial te fez ficar eletrizada?
— Como assim ‘’perto de alguém’’? — Gom levantou uma sobrancelha.
— N-ninguém! — Kaori levantou com tudo. — É que o ‘’perto de alguém’’ significa voltar a estudar! É isso! Eu amo estudar, daí eu fico toda animada pra descobrir coisas novas... Sobre a escola! Não é de você!
— Eu?
— Não! A escola, eu não disse que é a escola!? —a confusão de Kaori só fez Tsuki cair na risada. Podia ajudar a irmã a se explicar, mas queria diversão no primeiro dia de aula. — E-eu acho melhor voltarmos pra sala, é, vamos voltar pra sala! Vem Tsuki! —pegou a irmã pelo braço e começou a arrastá-la.
— Vamos meninos! — Tsuki acenou, convidando os rapazes. Ambos levantaram rindo e apressaram o passo pra alcançar as moças.
Ao chegarem na sala, notaram que todos já estavam lá. Mas por que o sinal não tocou?
Sentaram em seus lugares e aguardaram o próximo professor chegar.
— Então? A minha ideia ainda está de pé? —sussurrou Gom.
— Está sim. — Kaori respondeu. — Daremos continuidade assim que as aulas acabarem.
— Certo...
Não demorou muito para o próximo professor chegar. Para a alegria dos meninos era uma mulher. E bem bonita por sinal.
— Olá pessoal! —e animada. — Eu serei a professora de Espanhol! Espero que nos demos bem —deu um sorriso caloroso.
— Gostei dela... —murmurou Tsuki. Espanhol era a sua matéria preferida (e a única em que era boa).
A aula seguiu sem nenhuma tarefa. A professora preferiu que os alunos se apresentassem e contassem um pouco sobre si mesmos. Cada aluno ia dizendo seu nome e as coisas que gostavam de fazer. Logo chegou a vez de duas jovens.
— Meu nome é Harayama Tsuki. Eu gosto de dormir, ficar sem fazer nada, jogar jogos MMORPG e ver anime... Amo anime!
— Muito bem Harayama-san! —disse dando pequenos pulinhos. — O próximo aluno, por favor.
Kaori se levantou.
— Meu nome é Harayama Kaori. —dizia com o semblante sério. — O que eu mais gosto é ler e estudar.
— Esqueceu-se de falar ‘’Gom’’ nee-san... —sussurrou Tsuki para a irmã, a fazendo perder a voz e corar furiosamente.
— Tudo bem, Harayama-chan? — Perguntou a professora visivelmente preocupada.
— Tudo... Tudo bem sim... — Kaori só não caiu porque estava apoiada na carteira. Sentou-se com certa dificuldade e metralhou a irmã com o olhar. A mesma ignorava e ria silenciosamente.
As aulas seguiram normais e logo deu a hora de irem embora. Ou melhor, de conhecerem seus dormitórios. Tsuki e Kaori rezavam para dormirem no mesmo quarto. Não queriam dividir o mesmo recinto com aquelas patricinhas e metidas que viram na escola. E se Kaori conhecia Tsuki, sabe que a mesma não vai aguentar por muito tempo e que logo seu querido pai terá que vir à escola.
— Puxa vida, se eu não ficar no mesmo quarto que você, nee-san, eu juro que rodo a baiana nessa escola! —dizia Tsuki com o olhar assassino, seguindo a direção dos dormitórios. Kaori revirou os olhos.
— Claro...
Logo atrás vinham Karyuu e Gom. Ambos tinham o sorriso travesso nos lábios.
— Eu acho que esse ano vai ser meio maluco... —comentou o de olhos castanhos amendoados. Gom riu.
— Sim, conheço Kaori-san e Tsuki-san há bastante tempo pra dizer que as duas são um pedaço de mal caminho...
— Isso tem duplo sentido, cara —disse rindo.
— Eu sei... Mas não é nesse sentido e sim no sentido diabólico e psicopata —disse com certa lástima. Já sofreu bastante nas mãos das meninas. De Kaori nem tanto, já que as brincadeiras dela são mais carinhosas do que os ‘’métodos’’ de Tsuki.
Apressaram o passo pra acalcarem as meninas e ouvir o plano que Tsuki estava arquitetando caso ela não ficasse no mesmo alojamento que a irmã.
Logo chegaram ao corredor dos quartos. Os meninos tiveram que se separar, já que o aceso era restrito para garotos. Para a sorte de Gom, Karyuu sabia a direção dos alojamentos, senão o moreno estaria perdido, literalmente.
Não demorou muito também para Tsuki e Kaori acharem seu respectivo quarto, já que em todas as portas estava o nome das donas. E para felicidade das meninas elas dividiriam o mesmo quarto.
O cômodo não era pequeno, tanto que tinha duas poltronas, um banheiro, uma cama de dois andares, dois armários e até uma mesinha com revistas. Mas devido às caixas e mais caixas contidas com os pertences das meninas, parecia até pequeno.
Tsuki ficou admirada, nunca havia visto tanto luxo em um simples alojamento.
— U-a-u! —disse exasperada. — Meu deus! Que beleza radiante! Que poder!
Kaori arqueou a sobrancelha. Do que diabos a irmã estava falando? Do quarto que não era. Nem dava pra ver direito com tantos objetos.
— Hai, hai... Mas, como você perdeu a aposta, eu vou dormir na cama de cima! —dito isso deu uma risada diabólica. Tsuki bufou.
— Tá, tanto faz. Mas não vá se esquecer da altura quando for levantar no meio da noite pra beber água, ouviu? Eu não quero ser acordada do meu sono sagrado por tão pouco... —nada como uma ‘’cutucada’’ amigável.
Kaori revirou os olhos para logo depois esboçar um sorriso. Alguma coisa estava lhe dizendo que aquele ano seria inesquecível.
Enquanto Kaori arruma suas coisas, Tsuki tomava um banho pra relaxar. De alguma maneira o primeiro dia de aula havia sido estressante para a morena. Afinal de contas, não é todos os dias que você entra na secretaria e se depara com a diretora dando socos e chutes num saco de areia, o mesmo se soltar, voar no armário cheio de livros e os mesmos caírem em você como um estouro de boiada!
— Tsuki, anda logo! —dizia Kaori batendo agressivamente na porta. — Eu quero tomar banho antes do ano que vem!
Ouviu um ‘’já vou’’ do outro lado e logo a porta ser aberta, revelando uma Tsuki com os cabelos molhados, enrolada na toalha e molhando todo o quarto.
— Ei! Se seque antes de sair! —repreendeu dando um tapa na cabeça da irmã.
— Hai, hai...
— E arrume suas coisas, quando eu sair eu quero tudo impecável —pegou sua toalha e entrou no banheiro, fechando a porta logo em seguida.
— Quer que eu passe sua roupa também, senhorita? —murmurou.
Olhou para as caixas. Realmente, não foi uma ideia muito inteligente trazer metade do quarto consigo. Mas não tinha culpa! Agia por impulso!
Depois de um longo suspiro, se secou e se trocou, colocando uma camisola confortável e um short curto. Pegou a primeira caixa e já sentiu sono. Seria uma longa noite.
...
Quando Kaori saiu do banho, até se assustou ao ver o quarto completamente arrumado. Tsuki estava deitada na cama completamente esparramada. Kaori não estava falando sério quando disse que queria o quarto arrumado. Ou melhor, não sabia que a irmã o faria. Sorriu ao vê-la se tornando, aos poucos, uma pessoa de juízo.
Trocou-se pondo uma camisa velha e um short branco. Estava exausta por algum motivo. Deitou-se em sua cama e quando estava prestes a fechar os olhos, a imagem da sombra preta veio em sua mente. Havia se esquecido completamente daquilo. Pensou em acordar a irmã e contar-lhe o que viu, mas o mínimo que receberia seria um soco no nariz (como de manhã) e algo parecido com ‘’não me acorde, se você caiu da cama o problema é seu’’.
Resolveu por contar-lhe de manhã. Fechou os olhos, buscando uma noite tranquila de sono.
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