Simples Desejo

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Voltei, ufa!! Espero que gostem.

Um momento suspenso no ar. Lydia contorcida em fúria, o rosto manchado pelo choro. Alexandre estranhamente quieto, punhos cerrados. E eu, perplexa, sem acreditar no que ouvi. Então é esse o grande segredo de Victoria Herman. Por Deus, nem em um milhão de anos eu pensaria nessa possibilidade. Imagino que agora Lydia esteja no limite de toda sua fúria e odiosidade.

— Você não sabe o que está falando. – Alexandre faz um bom trabalho em tentar parecer calmo, mas sei como sua cabeça desarranjada está.

— Ah, eu sei muito bem o que eu estou falando, e o que eu vi. Os dois, esgueirados na escuridão da mansão Marshall. – o rosto dela se contorce em enjoo, nojo mesmo, e não sei por que Alexandre ainda está aguentando essa cena. – Como eu odeio vocês, Herman.

— Eu espero que você esteja absolutamente certa dessas palavras que saem da sua boca. Do contrario, não sei o que farei com você Lydia.

Ela ri, com escarnio.

— Eu que tenho que estar furiosa e magoada. Já você, tem que estar com vergonha pela genitora que tem.

Alexandre cerra ainda mais – se possível – os punhos.

— Tirem-na daqui. E vocês. – ele para, o dedo em direção a Clement e aos outros homens. – Se alguma palavra aqui proferida sair dessa casa, estão todos na rua. Entendido?

Todos acenam assustados e se põem a puxar Lydia, que livra-se dos apertos e saí por se própria, batendo os pés. Alexandre assisti o salão se esvaziar e em seguida passa por mim como um borrão, em direção ao andar de cima. Eu o sigo, incerta do que fazer. Não sei se ele quer ouvir algo, ou se apenas o deixo dissolver sua fúria.

Opto por encostar-me a cômoda do nosso quarto, os braços envoltos do corpo, observo com cautela Alexandre caminhar de um lado pro outro, as mãos desalinhando em completo seu cabelo. Mesmo assim, ele parece tão bonito. Meu coração se contorce em compaixão pelo tormento de meu marido. Meu marido. Ainda soa tão intimo, inverossímil até.

Ele para abruptamente, e olha para mim, seu peito subindo e descendo pela respiração irregular. – Como ela pôde? Onde minha mãe estava com a cabeça? Cristo, nem sei o que fazer... Isso manchará o nome de nossa família. O pior, manchará minha mãe. Pobre Clarice nunca se casará.

— Por que não começa tentando se acalmar? Ficar assim só piorará tudo.

— Não posso, Rosie. Não consigo.

Eu me aproximo dele, espalmando minhas mãos em seu peito, afago ali. Seu olhar incerto cruza com o meu preocupado. – Claro que consegue. Nenhuma dessas coisas vai acontecer. Eu realmente não acredito que Lydia irá gritar toda essa historia aos quatro cantos do mundo, ela não suportaria a vergonha. E você já advertiu os empregados. O que tem que fazer agora é conversar com sua mãe. Tenho certeza que ela terá algo para dizer-te.

Alexandre segue negando, como se eu estivesse falando algo que ele não compreendesse. O guio até a cama, onde o ponho sentado, e mantenho-me a sua frente. Com uma mão em cada lateral de seu rosto, trago seu olhar para mim.

— Por favor.

Ele solta um grunhido estrangulado, e lança-se contra meu corpo, seus braços a minha volta, prendendo-me a ele. Percorro meus dedos por seu suave cabelo, desejando poder fazer mais, mas sentindo que é algo que não deva me meter.

— Não deixe ninguém tirar-te de mim. Por favor. – ele pede, sua voz abafada contra meu robe.

Sorrio levemente ao ter que prometer-lhe isso, pois é o que eu exatamente desejo. — Jamais.

— Nem mesmo o Fretcher. – meu coração declina um pouco, mas eu ignoro a sensação.

— Ele nunca será capaz disso. Ninguém será.

Alexandre deposita suas mãos em meus joelhos, e em uma subida lenta, as coloca em meu quadril. Segurando firmemente, me lança contra a cama. Estou agora deitada ao seu lado, seu corpo pende sobre o meu, seu rosto perto do meu.

— Cristo, queria não estar casado com você, para poder me casar de novo. E de novo. E de novo.

Rio, em alegria genuína, e recubro sua boca com a minha. Ele retribui de bom agrado, e continua.

— Devo agradecer aos céus por ter colocado você em meu caminho. Não acredito em acaso, acredito que você está aqui exatamente para despertar todas essas coisas que me faz sentir e de que gosto tanto.

— Acredito, então, que eu também deva agradecer. Apesar de tudo. Por causa de tudo.

Encaramo-nos por longos segundos. Eventualmente, Alexandre prende uma mecha de meu cabelo detrás de minha orelha. Sua mão desliza então por corpo, por cima do meu peito, e para sobre minha barriga. Há algo em seus olhos, como se planejasse algo. Quando começo a imaginar que tipos de pensamentos pecaminosos estão passando em sua cabeça, ele contrai seus dedos em minha barriga, fazendo-me cocegas.

— Alexandre... Não! – ele não se apieda de mim, e continua sua tortura. Entre uma risada e outra, mal consigo respirar.

Olho para seu adorável rosto, dividido em um enorme sorriso. Arremete-me então uma pontada de esperança, pois, talvez, eu possa fazer bem a esse homem, como ele faz a mim.

*

No dia seguinte, estamos no grande portão da casa, enquanto a carruagem fica pronta. Alexandre está indo ao encontro de sua mãe, e posso sentir sua tensão mesmo se estivesse longe.

Quando ele está prestes a ir, seguro sua mão, fazendo-o olhar para mim.

— Tente não perder tanto a cabeça, por favor.

— Há diversas outras coisas mais descomplicadas que você poderia me pedir.

Ele transfere um beijo em minha mão. Desejo que não houvesse ninguém por perto, para que eu pudesse sentir seus lábios nos meus, exatamente como está manhã, quando acordamos. Eu aceno quando se vai, desejando que tudo fique bem e temendo que essa bagunça fique ainda pior.

Entro na casa pelos fundos, diretamente na cozinha, onde Margaret cozinha algo. Ela nota-me com alegria, e eu apenas lhe dou um sorriso apertado.

— O que foi, menina?

— Apenas preocupada com Alexandre.

Ela sorri com carinho. – O menino precisa mesmo de alguém que se preocupe assim como ele.

Sento-me a mesa, com o queixo apoiado em minha mão, mantenho o olhar perdido. Um pensamento volta-me então, algo que pensei mais cedo, durante o banho. Não havíamos consumado nosso casamento ainda, que no começo era, de fato, uma mentira. Mas ontem à noite Alexandre me teve a sua mercê, e preferiu-me fazer cocegas. Será que o desejo que imaginei sentir por mim não passou disso, imaginação?

— Marggie...

— Sim.

— O Alexandre era um... Hã... Amante bastante ocupado?

Margaret solta uma risada diante de minha inocência, e sinto meu rosto queimar. Não deveria ser tão difícil falar sobre isso.

— Bem, sim. Ele sempre fora um farreiro.

Suponho então que o problema esteja em mim? Por Céus, mas o que será que fiz? Constando, surpresa comigo mesma, que eu não quero ser um problema nesse quesito. Eu quero Alexandre Herman. Ai meu Deus.

Eu quero Alexandre Herman.

— Por que está perguntando isso? – Margaret me olha, um sorriso sagaz no rosto.

— Por nada. E tire já essa expressão do rosto.

Ela cai na gargalhada, enquanto reviro meus olhos, mas não posso evitar um sorriso.

Alexandre parece não voltar nunca. Passo a tarde úmida em nosso quarto, absorta em um livro. Não sei em que momento pego no sono, mas um barulho desperta-me de repente, assustada. Alexandre está em pé próximo à cama, e levo um segundo ou mais para processar tudo, atordoada pelo sono.

— Desculpe. Não quis te acordar.

Estendo minha mão para ele, e ele vem sem pestanejar, empoleirando-se em meu colo.

— Como foi?

— Tão ruim como imaginei que seria. Eu realmente tentei não perder a cabeça, mas não sou muito bom nisso. E o que mais irritou foi o fato de que ela primeiro negara até a morte para por fim assumir que Lydia falava a verdade.

Brinco com seu cabelo, enquanto seu olhar se mantem fixo em minha barriga. – E como fica agora?

— Bem, não sei. Pedi que se afaste dele. Com Lydia ciente de tudo isso, não sei até que ponto ela poderá ir, ou a raiva dela. Talvez eu deva falar com o pai, mas só de imaginar me sinto enjoado.

Alexandre fecha os olhos brevemente, e em seguida levanta-se, aproximando seu rosto do meu. Deixa um casto beijo sobre meus lábios.

— Venha comigo para o banho.

Um simples pedido sussurrado, e ele arrancou todo o meu chão. Todos os meus pensamentos recentes voltam. Talvez seja a oportunidade surgindo para descobrir se ele realmente me quer, tanto quanto o quero?

Me pego assentindo, nervosa até os ossos. Alexandre salta da cama, e estende sua mão para mim. Não penso duas vezes e a seguro, mas então há uma batida na porta e um chamado pelo senhor Herman. Alexandre bufa irritado, e se afasta de mim, para meu desprazer. Ele ouvi o que quem-quer-que-seja esteja falando, e se volta para mim.

— Eu preciso de um minuto, amor. – deixa um beijo em minha testa e se vai.

Amor.

Ele me chamou de amor.

Caiu desajeitada sobre a cama e colocando um travesseiro sobre o rosto, grito silenciosamente. Mais uma oportunidade indo para o lixo. Não acredito que ele voltará e dirá “onde foi que paramos?”, como não fez da ultima vez que quase chegamos lá.

Enquanto espero sua volta, decido que está na hora de ser mais ousada.

Alexandre volta minutos mais tarde, e não parece deveras feliz.

— O que houve?

Ele suspira pesadamente. – Terei que partir para Londres, por uns dias.

O que?

— Não. – ele me olha, sem entender minha reação. Continuo negando com a cabeça. – Você não pode ir.

— Eu ficarei bem Rosie, eu prometo.

— Como você pode saber? O Hugo pode...

— Rosie...

— Não. – aproximo-me dele, agarrando seu colete, puxando-o para mim. – Não vou permitir que vá.

— São negócios que preciso resolver.

— Nenhum negocio é mais importante que garantir que fique bem. – vejo pela sua expressão que não está completamente mudando de ideia, enquanto eu apelo. – Se você for, não estarei aqui quando voltar.

Ele sorri, e em seguida está rindo. – Vai mesmo chantagear-me?

— Vou. Não vou correr o risco de te perder. Você vai?

Alexandre me observa por alguns segundos, ainda sorrindo. Mantenho minha expressão séria, tentando parecer desgostosa daquilo, porque eu realmente estava.

Ele levanta os braços, em rendição.

— Tudo bem, senhora mandona. Não irei a lugar nenhum sem sua aprovação. – ele ainda está zombando de mim, mas ondas de alivio correm meu corpo.

Momentos mais tarde, absorto em seus pensamentos, ele segue para o banho. Sozinho. Eu disse, não disse?

Naquela noite, leio para ele dormir, desejando que ele realmente não quebre sua promessa de ir para Londres. De ir para longe de mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.