Simples Assim.
1 One Shot.
Notas iniciais
Título baseado na música "Simples Assim - Projeto Capela".
O som envolvente do piano chegou aos seus ouvidos assim que entrou na casa. Imediatamente, um largo sorriso se formou em seus lábios. Deixou a pasta de documentos e sua bolsa sobre a bancada da cozinha, andou até o armário e pegou duas taças de cristal, logo em seguida uma garrafa de vinho, e então despejou certa quantidade do líquido dentro das taças. Tirou o casaco e pendurou-o em uma cadeira, tomando as duas taças em mãos e se dirigindo à sala de estar. Era de lá que vinha o som que ela ouvia todos os dias, várias e várias vezes e, mesmo assim, nunca enjoava. Saiu da cozinha e se viu na área aberta da casa; um longo corredor ladeado por um jardim incrivelmente bem cuidado. “Se não fosse por ela, essa casa seria uma bagunça” pensou. Chegou à sala de jantar. Uma grande mesa de madeira escura ocupava a maior parte do cômodo. “Desperdício” dissera na hora da compra. “Somos apenas três...”. Oito cadeiras. Um candelabro com seis velas, agora apagadas, estava colocado decorativamente no centro da mesa. Um grande lustre de cristal no teto abrigava algumas lâmpadas que brilhavam fortemente. Na parede, um móvel com algumas gavetas e fotos de família. Ah, e uma tigela com doces. Sempre havia doces. Do seu lado direito pôde ver as escadas que levavam ao segundo by Text-Enhance\">andar; quartos, sala, banheiros. Mas esse não era o seu destino. Caminhou calmamente até a grande sala de estar. A porta ao lado dava visão de dois grandes sofás de couro na cor preta. Um tapete macio, uma mesa de centro, desenhos nas paredes. Uma televisão não tão grande nem tão pequena, apenas o suficiente para a família, ficava em cima de uma pequena estante que também continha gavetas. Nestas, guardavam CDs e DVDs. Algumas partituras, também. E doces. Doces, é claro.
Mas o cômodo preferido era mesmo a sala de estar. Todos os dias, quando chegava do trabalho, a grande lareira de pedras estava acesa, o calor e o estalar baixo do fogo traziam um clima confortável e aconchegante. Os quadros nas paredes eram, em sua maioria, pinturas feitas por ela mesma em uma sala no by Text-Enhance\">andar de cima. Havia um lustre também, um pouco menor do que o da sala de jantar, mas quase nem se notava a diferença. Encostado na parede pintada de branco um móvel que ela não sabia exatamente para que servia, mas ele era, de fato, maravilhoso. O grande tapete vermelho seguia livre até o pesado piano de cauda preto que ficava no canto esquerdo da sala, ao lado de uma porta de vidro que dava acesso à varanda. Mãos ágeis e delicadas pressionavam as teclas do piano, fazendo sair dele uma música magnífica. Composição dela, se não estava errada. A mulher no piano já havia percebido sua presença. Ah, mas é claro que sim! Ela sempre percebia. Andou até o móvel e repousou uma das taças ali. “Enfim uma utilidade” divertiu-se. Deu alguns passos até o piano e se sentou no mesmo banco em que a morena estava sentada. As leves ondas negras que eram seus cabelos caíam soltas até perto do meio das costas, cobrindo uma pequena parte do vestido azul que usava. Em nenhum momento deixou que seus olhos se abrissem para encarar a outra... Mas não era problema, by Text-Enhance\">por hora. Ela adorava ficar admirar a pianista daquele jeito, tão envolvida na coisa que mais amava fazer. A morena se movimentava graciosamente de acordo com a música, abrigando um sorriso tranquilo em seu rosto.
A outra levou a taça de cristal aos lábios. Ela gostava de vinho; era sua bebida favorita. Fechou seus olhos e deixou-se levar pela melodia. Alguns segundos depois, a música parou. Ao abrir os olhos, encontrou um par de olhos azuis a encarando. Ela poderia passar a vida inteira perdida naquela imensidão azul sem a mínima vontade de se encontrar.
– Oi, amor – a mulher disse, deixando seus lábios se curvarem mais em um sorriso deliciosamente cativante.
– Oi – a outra a beijou. Foi um beijo lento, suave... Apaixonado. Sem cobranças, sem pressa, sem urgência. Os beijos se tornaram algo comum há alguns meses; de manhã, à tarde, à noite. Ela nunca perdia a oportunidade de se deliciar nos lábios carnudos e macios da morena. Mas mesmo ocorrendo todos os dias, esses beijos sempre traziam novidades. “Logo quando eu penso que é impossível amá-la mais do que já amo...”.
Afastaram seus lábios. A morena, sorrindo, voltou a tocar o piano – dessa vez uma música que ambas conheciam. A mulher começou a cantarolar baixinho, logo sendo seguida pela outra... E acabaram em um dueto. Simples, genuíno e até meio desengonçado. Mas suas vozes se completavam tão perfeitamente que era quase impossível não se apaixonar. Uma lágrima escorreu discretamente do olho direito da mulher que, aquela altura, já havia abandonado a taça de vinho no chão ao seu lado. Ela se lembrava de, quando criança, perguntar a todos ao seu redor qual era a fórmula do verdadeiro amor. Alguns diziam “confiança”. Outros arriscavam dizer que era “honestidade”. Ela nunca havia chegado a uma conclusão; todos diziam coisas distintas e isso a confundia. Mas depois que conhecera seu Anjo (era assim que chamava a morena), todas as suas dúvidas se dissiparam. Conseguiu perceber que o verdadeiro amor nada mais é do que encontrar uma pessoa que a princípio é desnecessária, mas você anseia por estar perto dela cada segundo do dia, da semana, do mês, do ano... “Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários”. Ao olhar para sua vida, para o lugar em que se encontrava... Ao olhar nos olhos sinceros da mulher que fazia cada minuto do seu dia valer a pena, ela sabia que tinha encontrado o verdadeiro amor. O amor de sua vida. “Ela é única” pensava todos os dias ao acordar e perceber a sorte que tinha por tê-la ao seu lado. Havia, no mundo todo, apenas mais uma garota que fazia sua cabeça girar, suas pernas tremerem e as palmas de suas mãos começarem a suar. Seu coração acelerava sempre que ouvia sua voz. E naquele momento, seus batimentos cardíacos se tornaram mais rápidos. A garota chegou de mansinho e pulou em seu colo. “Oi, mamãe”.
Notas finais
Simples como fila de cinema. Simples como canção de ninar. Simples como sorrir de bobeira, como grade de cadeia e um sofá pra descansar... ♫
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