Simplória

1 Capítulo 1


"Era uma vez..."

Era exatamente assim que começavam as histórias lindas que a personagem principal desse conto costumava ler quando criança. Na verdade, essa é a premissa de outros contos igualmente fantasiosos e distantes da sua realidade, como as comédias românticas clichês que tanto apreciava. De fato, se pararmos para pensar, Hollywood cumpre maravilhosamente bem com seu papel de criar um complexo e inalcançável imaginário, inatingível para qualquer ser-humano racional e com a renda média que a maior parte da população brasileira possui. Por exemplo: uma mulher que larga a vida e parte em uma viagem de um ano, um retiro espiritual sabático, em busca do verdadeiro significado para sua vida. Pois bem, trazendo para a realidade, o máximo que muitas famílias poderiam bancar seria uma viagem... bem, nem uma simples ida para o interior do estado seria algo alcançável para tais famílias.

Bem, a personagem deste conto, que chamaremos de L, ainda vivia encoberta pela ilusão dos filmes e das histórias. Muitas pessoas diriam que ela vivia "nas nuvens". O que exatamente isso significa? A bem da verdade é que a realidade simplória e monótona da vida ainda não a tinha abalado (ou inibido). As pessoas são assim, preferem viver pela imaginação a viver pela vida. Tudo bem, de fato, em algumas ocasiões, a imaginação é um refúgio realmente prazeroso e muitíssimo melhor que a realidade. Não é exatamente essa a razão do enorme sucesso de 'Harry Potter'?

Feita as introduções de nossa heroína, começaremos essa nossa crônica (não é um conto, como disse anteriormente. Um conto conta uma história fantástica. Essa não é uma história fantástica, e sim a representação dos anseios e desejos de uma típica menina de classe média. Essa personagem, é tão comum -e insignificante- que nem lhe daremos um nome. Seus problemas não são de real calibre, e, claro, existem relatos muito mais impressionantes que sua singela história)

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L era uma pré-adulta, no final de sua adolescência não vivida. Não pensem que ela fora, de alguma forma, privada do lazer e dos prazeres da vida pela necessidade. Ela nunca precisou trabalhar ou tirar o sustento para sua família, e por isso era extremamente grata, sim senhor. Nossa personagem não é uma menina alienada inconsciente dos problemas sociais. Minha constatação se refere ao fato de que L não vivia sua vida do jeito que a sociedade a obrigava a viver. Constantemente, em encontros familiares, as mesmas perguntas de sempre importunavam nossa heroína. Passados alguns anos, as perguntas não obtinham nenhuma resposta nova. L se perguntava se aqueles encontros anuais não eram um constante lembrete da sua falta de participação nos processos que a vida lhe destinava. Se não está acompanhando esse raciocínio, caro leitor, irei exemplificá-lo.

"Como você está" era normalmente a pergunta que começava seu martírio. Essa pergunta é uma bobagem. Ninguém quer saber como realmente estamos, apenas queremos nos assegurar que as pessoas ao nosso redor não estão pretendendo fazer algum ato premeditado. Queremos ter a consciência limpa que "fizemos nosso papel" pelo bem estar de alguém, simplesmente por perguntarmos se o outro está bem. L sempre respondia a essa pergunta com o fatídico "tô bem". Essa mesma resposta fora utilizada em vários momentos de sua vida, mesmo que não estivesse nada bem. Fora usada, por exemplo, no ano em que tivera sua pior desventura amorosa na escola (o que, para nossa personagem na época pré-adolescente, era o fim dos tempos). Também fora usada quando ganhou presentes fantásticos ao longo do ano, e seu estado de espírito pedia mais que um simples "tô bem". E, por último mas não menos importante, quando seus níveis de ansiedade chegaram a um patamar tão elevado que acordava todas as manhãs com dores de cabeça. Todas as facetas e acontecimentos de sua vida eram escondidas- aos olhos estranhos (não é só porque eles são sua família que não sejam completos estranhos)- por esse tímido "tô bem".

As perguntas prosseguiam como rotina em eventos familiares do final do ano. Bem, não iremos nos prolongar sobre essas perguntas e respostas monossilábicas, mas espero que você, leitor, tenha entendido que L não demonstra seus sentimentos. Agora, quanto a minha constatação de "não vive a vida do jeito que a sociedade queria", irei explanar sobre.

L é uma pessoa que adora se relacionar com amigos, mas sente até preguiça e cansaço para fazê-lo. De fato, ela não ia à festas, não usava drogas, não estava no auge de sua vida sexual. Não era o clichê adolescente visto e difundido por todos (o mais impressionante, é que esse clichê não condiz com um terço da massa de adolescentes que existem no mundo). Todavia, era uma menina dedicada, amorosa e muitíssimo esforçada e estudiosa. Amava ler e ficar em contato com a natureza. Porém, de que essas características adiantariam? Isso não são coisas que os esteriótipos adolescentes mandam fazer. Se falasse que não gostava de bebidas, estava agindo como criança. Se falasse que não ligava para fofoca ou relacionamentos amorosos, estava se achando superior. É, as características e os anseios individuais não são respeitados na adolescência. Somos obrigados a seguir um padrão, que induz à alienação e à perda da própria essência. L não perdeu a sua, se mantendo fiel ao que acreditava. Porém, porque sua cabeça lhe dizia que não tinha vivido sua adolescência? Afinal, essa fase da vida se resume unicamente a seguir padrões e "meter o louco"? Bem, nossa heroína não sabia, e isso era uma coisa que estava destinada a mudar quando se tornasse maior de idade. Ela seria "livre" e iria finalmente viver a sua vida!! Realmente viver, como nos filmes e nos esteriótipos.

Antes, porém, de iniciar a sua vida (aos 18 anos), seria obrigada a passar na amedrontadora prova do vestibular. Sendo essa a causa de toda sua incerteza, insegurança e ansiedade, passava noites em claro sofrendo com o dia em que abriria o site e (não) veria seu nome na lista dos aprovados. Só de pensar, já sentia um frio na barriga. Ela, que sempre dera o seu máximo nas atividades escolares, tinha como maior inimigo uma coisa chamada de autoestima. Ela mesma era a principal causadora de todos os seus medos, pois não acreditava que tal pessoa chegaria tão longe na vida. Porém, não pense que L não estivesse ciente das más línguas que a rodeava. Só de ouvir uma fraquejada alheia, as tias se esbaldavam! Como era bom falar mal dos outros, colocar-lhes defeitos, duvidar de seu potencial, rebaixar seus feitos. Comentários como "eu sabia que não ia conseguir" e "eu avisei para não tentar". Era tão bom. L seria a próxima vítima, estavam só esperando a hora certa para comentar.

Depois de muita luta, lá estava ela na faculdade. Claro que só ela e Deus sabiam quanta folha de rascunho, energético e stress aquela menininha passou para chegar onde chegou. As tias chamaram esse esforço de "sorte". Bem, agora ela iria viver a vida! Começou, claro, a se aventurar em outros campos do saber.

Se aprofundou nos filmes. Assistiu de tudo: Woody Allen, Martin Scorsese, e outros bam-bam-bam do cinema. Ficou chocada ao descobrir que todos os filmes tão bem conceituados eram, na verdade, tão chatos. Ela se perguntou o que estaria fazendo de errado, já que não tinha gosto para coisas 'cult'. Será que ainda sou uma criança?

Vendo que a sétima arte fracassara, resolveu frequentar outros lugares. Passou a ir em festas, socializar e se divertir. Depois da quinta vez que se perguntou (em trinta minutos) o que estava exatamente fazendo ali, no meio daquela gente desconhecida e tão distante, resolveu simplesmente não insistir em voltar para aquele ambiente específico.

Nossa heroína, depois de novas experiências, descobriu que sua personalidade, agora aos quase 20 anos, já era imutável. Não iria se obrigar a gostar de coisas que eram socialmente amadas por todos. Partiria, então, em um ano sabático de viagens, para conhecer sua pessoa interior. Descobriu que o seu dinheiro permitia, ao máximo, uma viagem até a esquina de seu prédio. O processo de autoconhecimento deveria ser feito internamente.

Essa história, caro leitor que possuiu a paciência de ler até aqui, vai terminar com um final feliz. É claro. A felicidade pode ser um produto comercial difundido nos meios de comunicação ou nas redes sociais, mas é ainda uma das metas da humanidade. Uma vida feliz de verdade, eu digo, e não essa ilusão que nos rodeia quase sempre que abrimos o Instagram.

L terminou feliz!!! Não estou dizendo que ela se apaixonou por alguém, sinceramente não entendo essa necessidade tão grande e esse medo que temos por ficarmos sozinhos. Não. L terminou feliz porque passou a se conhecer. Conhecer o que a fazia feliz, o que a deixava com medo, o que a impedia de realizar coisas que gostava. Parou de se importar com a opinião alheia, focando na sua opinião. É claro que uma viagem para o interior da Itália em um retiro espiritual teria deixado esse processo mais chique, mas o que importa é que ela se encontrou.

Não é o final pessimista para uma história pessimista. Que pena! Lamento se te decepcionei, mas essa história deveria retratar outros lados da vida de uma adolescente classe média. Muita coisa está faltando, claro, e recomendo fortemente que comece a pesquisar sobre pluralidade de vozes e de experiências. Todavia, convenhamos que, deixar de sonhar porque a realidade é boa demais para ser vivida é a meta da L. É a minha meta também. E, sinceramente, se não for a sua, se sua realidade é completamente condizente com seus sonhos, você atingiu os Céus (e uma utopia).

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!