Sim ao paraíso.
1 Seu.
Scott McCall nunca soubera como dizer adeus, o fim não era um pensamento que ele alimentava com regularidade, ele imaginava que se não pensasse nisso, deixaria de existir. Assim como as coisas mais dolorosas de se lidar, empurradas para o fundo do seu subconsciente; até que, claro, como de costume, arremessadas novamente para seu consciente de forma brusca e desavisada. E assim aconteceu quando levou sua namorada, Alisson Argent, para o aeroporto.
A ficha só caiu mesmo quando ela andou para longe dele, foi então que o rapaz se tocou: ela foi embora! E então ele chorou tudo que não havia chorado durante toda a relação. Quando o avião decolou, Scott sentiu o coração partir junto, por entre as nuvens na mais possível distância. A melancolia não era algo agradável de se sentir, definitivamente não para ele.
Naquela noite, a primeira sem sua namorada, ele se reprimiu por estar triste. Ela foi estudar em Paris! Ela vai ter uma carreira brilhante! Pare de chorar! Egoísta!
E foi assim que ele lidou, dentro de potes de sorvete e garrafas de cerveja. Bebeu sua tristeza e comeu sua saudade. Imaginou ele, quando a bebida havia subido à cabeça, que estar sozinho numa hora dessas não era uma das coisas mais sensatas que ele poderia escolher fazer. Ligou para Isaac.
— Por que não chamou Stiles? — foi o que ele disse quando Scott abriu a porta, mas este estava bêbado demais para notar a sua antipatia. Entrou e jogou-se no sofá, a testa franzida.
— Ele está com a Lydia — relatou, sentando-se ao lado do amigo. A TV estava ligada num canal de culinária, mas Isaac preferiu não questionar Scott. — Como você sabe, Alisson foi para Paris. Foi seguir a vida dela, sabe? Sem mim...
Isaac estava pronto para revirar os olhos e proferir alguma frase pronta sobre como superar um término de relacionamento e de como tudo iria acabar bem, e que no final os dois iriam se reencontrar. Mas então Scott pousou a cabeça em seu ombro, fazendo um barulho que se assemelhava à uma mistura desconfortável entre um choro e um liquidificador estragado. Por mais bizarro que aquilo parecia, ele sentiu pena. Não era muito bom em consolar as pessoas, e Scott sabia bem disso, mas só dessa vez resolveu dar uma chance.
— Não se preocupa, Scott — ele disse com a voz mansa, levando uma mão até o ombro do rapaz e dando leves batidinhas. — Estou aqui com você.
Scott retraiu o rosto do ombro de Isaac e o encarou profundamente nos olhos, como se em seus olhos azuis se encontrasse a resposta para o fim do seu sofrimento. Mas encontrou outra coisa, no torpor de sua miséria, se sentiu pela primeira vez atraído pelo rapaz em sua frente. Seu amigo! Poderia muito bem ter avançado e tentado alguma coisa, agido no impulso de agarrá-lo pelo pescoço, mas até mesmo bêbado e em pedaços, poderia racionalizar coerentemente. Não saberia como olhá-lo nos olhos no dia seguinte, ainda mais se Isaac se afastasse em nojo.
Deitou a cabeça no encosto do sofá e caiu em gargalhadas, numa tentativa de espantar os pensamentos. Isaac notou perfeitamente, naquela fração de segundos em que a mira do olhar de Scott fuzilava seus lábios, que o rapaz sentiu algo. Sentiu-se desconfortável com a situação, e se confortou com a ideia de que era tudo fruto da bebida. Nada real.
Não demorou muito para Scott adormecer, ali mesmo deitado no encosto do sofá, enquanto Isaac remoía o que acabara de acontecer, dando volume no programa de culinária para distrair a mente. Ele não sentia nada por Scott. Absolutamente nada. Mas por que então atendeu à ligação de Scott às 2h da madrugada pedindo para encontrá-lo em seu apartamento? Era coisa de amigos, certo? Ou algo a mais?
Que seja! Não importava, Scott provavelmente apagaria tudo de sua mente na manhã seguinte e agiriam como se nada houvesse acontecido. Iriam rir e deixar aquela noite cair no esquecimento.
Foi até o quarto do rapaz e pegou uma coberta de sua cama, tapando-o enquanto deslizava seu corpo para deitar-se no sofá. Antes de voltar para o quarto de Scott, aonde passaria a noite, pousou os olhos no corpo adormecido, analisando sua feição tranquila. Não queria ter de lidar com o sentimento de rejeição. Era doloroso demais não ser correspondido. Era melhor, com toda certeza, reprimir qualquer sentimento que possa ter sido evocado naquela noite. Era o que iria fazer.
Quando Isaac despertou na manhã seguinte, resolveu limpar a bagunça que o amigo havia feito na sala e preparar algo de almoço. Scott deve ter acordado com o cheiro da comida, pois levantou-se do sofá assim que a comida estava pronta. Isaac botou os pratos no balcão e serviu os pratos enquanto Scott ia ao banheiro.
— É macarrão com queijo! — Isaac bradou da cozinha enquanto pegava uma garrafa de água e depositava ao lado do prato do amigo.
— Valeu, Isaac! — agradeceu, bebendo quase metade da garrafa d´água. — Não precisava ter feito isso.
— Não precisa agradecer. Só... sei lá, é o que os amigos fazem, né?
Scott anuiu, mastigando o delicioso macarrão. A expressão em seu rosto era evidência o suficiente da qualidade da comida.
— Lydia e Stiles estão inseparáveis recentemente, e não os culpo. Só não quis incomodar ele com minha vida amorosa, ainda mais tão tarde da noite. Você deveria ter me mandado à merda, aliás!
Ambos riram enquanto terminavam de almoçar. Após isso foram sentar-se no sofá.
— Scott, ontem à noite você... quer saber? Deixa pra lá. Vamos assistir àquele filme?
Isaac não conseguiu conter-se. Queria saber se o que ele sentia, era algo em que pudesse ser investido. Só não queria que após isso a relação de amizade entre os dois torna-se azeda. Além do mais, para todos os efeitos, Scott era hétero!
— O que, cara? Pode falar!
Não poderia. Não conseguiria. Mordeu o lábio inferior, cerrando os olhos afim de que tudo aquilo não passasse de um sonho. Ele e sua boca maldita!
— É que você me olhou estranho ontem, depois que deitou no meu ombro. Você não deve nem lembrar... então deixa pra lá!
Scott ergueu o canto dos lábios um sorriso desconfortável, dobrando as pernas e bebericando da garrafa de água.
— Por que você diz isso? Você tem sentimentos por mim? Se tiver, tá tudo bem! Não sou um daqueles caras loucos.
Isaac arregalou os olhos.
— Eu? Sentimentos? Não! Claro que não! Achei que você teria sentimentos por mim... Me equivoquei. Deixa pra lá, por favor!
Scott riu.
— Por que acha isso? Só porque o encarei ontem à noite? Escuta, Isaac — sua voz era suave e despreocupada, acomodou-se no sofá virando o rosto para o amigo, que parecia querer se esconder debaixo da terra. — Notei algo em você ontem, te vi de uma forma diferente. Só isso, entende? Não é algo de atração, nem nada. É natural. Um sentimento de gratidão por você estar lá quando eu preciso. Não que eu tenha... sentimentos. Sim, você é bonito. Mas admitir isso não me torna menos heterossexual.
Isaac balançou a cabeça, evitando contato visual. Aquilo parecia, de fato, um sonho.
— Entendi, Scott. Que bom que tiramos isso do caminho, então. Vamos... vamos assistir um filme?
Scott concordou com a cabeça.
— Isaac? — chamou.
— Sim? — encarou-o.
— Você me acha atraente?
A pergunta foi rápida, ríspida, e brusca. Não esperava tamanha franqueza na pergunta. Uma onda fria percorreu a espinha de Isaac.
— Sim.
Não havia porquê esconder isso. Eram seus verdadeiros sentimentos, ali, expostos. Não tinha para onde correr. Cansou-se de ocultar, reprimir.
Houve um minuto de silêncio completo no apartamento, interrompido pelo pigarro de um Isaac assustado com a falta de reação do amigo. E quando estava pronto para abrir a boca, sentiu seu corpo chicotear para trás com o avanço de Scott contra o dele, sua boca preenchendo a dele, os lábios tocando-se com aspereza num beijo que tornou-se molhado e enrolado. O corpo pesado do amigo sobre o dele, os dentes que se bateram de início, a língua em sua boca, a dança caótica entre duas energias que emergiram das sombras e dançaram desarmoniosamente numa atração fatal. O perigo do desejo.
— Você me quer? — Scott perguntou sem ar.
A resposta foi um gemido baixinho enquanto retornava sua boca na dele. Cada membro do corpo de Isaac tremia em antecipação, querendo provar do que antes julgava ser proibido. Abocanhou a maçã vermelha e deleitou-se com o conhecimento da intimidade de Scott. Seria ele seu agora que Alisson havia partido? Esperava que sim, mas tê-lo em seus braços mesmo que por meros minutos era o suficiente para saciar sua vontade de anos.
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