Silício
7 Cobweb
— alô? — o telefone toca quatro horas da manhã.
— Cassie por favor, venha até o hospital. É o Dr. Abraham.
— Ok. Já tem mais pistas?
— Temos mais vítimas.
Desligo o telefone apreensiva, rapidamente me levanto e vou direto ao hospital.
05h33 am — Então Doutor...
— Senhorita veja com os teus próprios olhos. Esta se agravando. — ele fala descobrindo um corpo sobre a maca.
— Ai meu Deus! — sussurro colocando as mãos sobre a boca.
— Necrofilia. É isso que eu vejo.
Havia um corpo repleto de marcas de espancamento. As gengivas estavam ensanguentadas por conta de cortes feito com navalha. Uma de suas mãos estava sem unhas dos cincos dedos e havia dois X, um em cada lado do olho, feito também com navalha. A crueldade foi maior dessa vez, a vítima havia sofrido sem nenhuma anestesia ou droga. Suas partes genitais estavam machucadas e hemorragicamente ferida.
— Uma necrofila! — gritei.
— Seja lá o que for, a piora é decrescente. — responde o médico.
— E onde ocorreu o assassinato dessa vez?
— Em uma das mansões, perto do lago. Sammie Lincoln, 45.
— obrigada. — respondo pegando minha bolsa, esbarrando nos bisturis e voltando de volta para a entrada.
Quando cheguei no local da atrocidade, havia policiais investigando canto por canto da casa. Havia também uma mulher em choque abraçada ao seu esposo e centenas de pessoas vestidas de galas. No meio delas encontro M. Ela está tremendo e faranto que não é de frio. Ela chora profundamente e tem como apoio, o colo de uma mulher.
Quando eu entro no seu campo de visão, Mercúrio imediatamente se levanta e vem em minha direção e cai sobre os meus braços. Seu corpo está frio.
— Cass... — ela fala num tom des falecido.
Eu passo os meus braços por sobre seu corpo e encosto sua cabeça no meu ombro.
— Calma, estou aqui. Já acabou. — Consolo M passando as mãos em seus cabelos.
— Foi tão terrível. Uma hoea estávamos todos comemorando o noivado da Clair. Em outra, havia pessoas gritando no último andar!
— M, senta aqui. Me explique melhor, o que aconteceu? Quem era a mulher?
— Eu... eu não sei. Ellen... a mãe da Clair, era a mãe da Clair, senhora Hastings!
— Ela subiu as escadas e foi para o último andar, e então, minutos depois só ouvimos gritos! Cass...estou apavorada. — termina M aumentando ainda mais as lágrimas grossas.
— Não, estou aqui, vai ficar tudo bem.
Era como se quando a vi naquela situação, dentro de mim, acionou um instinto protetor que queria acalmá-la e cuidar dela. Toda minha barreira criada e estruturada contra contato humano estava se desmanchando.
O sol já beirava, já era manhã e todos que participaram do rebu, havia se acalmado. Algumas tinha até ido embora. Eu, eu estava intacta ali, segurando M. Olhei para ver se tinha se acalmado, ela estava dormindo lindamente. Parecia uma criança na qual eu precisava proteger. Tão serena... Me mechi para o norte da cadeira por conta do desconforto da posição e então ela acordou. Falei que poderia continuar dormindo, mas ela se levantou, pegou seu casaco e com o cabelo desajeitado saiu pela porta da frente olhando para mim e soltando uma piscadela do tipo "te vejo mais tarde".
Continuei com o meu trabalho. Subi no andar de cima e fui até onde ocorreu o crime, no banheiro da suíte. Tinha sangue até nas teias de aranha, mas nenhum sinal de impressões digitais. Dentro da privada só habitava vômito aonde era para habitar água sanitária. No espelho estava escrito "Would you run?", a mesma frase que estava tatuada na vítima anterior. Quem estava fazendo isso sabia que estava sendo investigada e queria ser procurada. Para ela, era um jogo. Uma espécie de cama de gato. Decífra-me ou eu te decifrarei.
Mas não estou brincando de investigar, isso tem que parar.
Reúno o máximo de pistas possíveis e volto para o hospital de diagnóstico.
07h00 pm Depois de ficar o dia todo concentrada no assassinato que ocorreu eu tentei dar um tempo para minha mente. Chego no apartamento e Lauz está no meio da sala, trabalhando. O apartamento todo está lacrado, pensei que tinha entrado numa espécie de casulo, queria até perguntar o porque mas estava cansada demais, então passei por ela indo direto para o quarto.
— Não me disse que estava namorando. — interrompe Lauz minha caminhada.
Eu paro como se fosse cair no chão de cansaço.
— Não estou namorando. De onde tirou isso?
— Mercúrio. Ela me disse tudo e confesso que fiquei surpresa. Já a conhecia antes?
— Calma, o que ela disse, que estamos namorando? E..eu me esbarrei com ela no bar e vamos nos ver hoje.
— Ela me disse o suficiente, que vocês se amam, só fiquei chateada por não ter me contado antes...
— Espera, o quê, ela gosta de mim?
Ela gostava de mim. Achei rápido demais mas não importava, ela gosta de mim. Minha vontade de chorar, sorrir e gritar ao mesmo tempo era imensa. Minhas forças se renovaram, mas não deixei que isso transparecesse à Lauz.
— Me desculpe Lauz, não tinha idéia da imensidão do sentimento que ela tinha por mim e...
— Hm? Não vai falar?
— Queria sua ajuda para me vestir...essa noite.
Laura deu um pulo de onde estava, fazendo eu me lembrar da Jeena. Exatamente como ela reagiria a tudo isso.
— Porque não me disse logo? Vem! — finalizou ela colocando as mãos sobre meus ombros e me levando até o quarto.
— Olha, não quero nada exagerado, você sa...
— Cass por favor! Confie em mim.
Eu soltei uma risada indo para o banheiro enquanto Laura escolhia a dedo a roupa de hoje.
Nesse dia, estava usando uma legging de couro e um lindo top cropped cinza. Confesso que não imaginava que seria essa a roupa que usaria, mas era exatamente o que adorava vestir. Roupas pretas, cores neutras e casual. Usava também meu coturno de sempre e por cima um sobretudo de jeans verde musgo. Meus cabelos estavam cacheados por conta do babyliss, estava eu mesma.
Antes mesmo de bater na porta, eu pensei duas vezes se era realmente isso que queria. Arrumei meus cabelos e então, bati.
Ela abriu a porta e quando olhei para ela, estava deslumbrante. Ainda mais que na noite do bar. Sua cobertura era grande, espalhafatoso e forte, exatamente como ela. O lugar não era nada diferente do que imaginei, tinha cores neutras nas paredes e móveis contemporâneos, mais nada que fugisse do clássico e confortável.
— Oi, você está linda.
Ela fala olhando profundamente nos meus olhos.
— Digo o mesmo sobre você. Parece gostar de vestidos.
Dessa vez está usando um Sambrini de veludo nude.
— E você gosta de preto, certo?
Eu soltei uma risada e olhei para o chão.
— Não quer entrar para ver minha coleção de vestidos? — M falou abrindo o restante da porta.
Quando entrei precebi que o apartamento era ainda maior, e no meio da sala tinha uma mesa inteira de vidro com cadeiras de madeira. Era mesa para dois e uma vela no centro da mesa. Tocava Paris, da Camille. Essa mulher era romântica das antigas.
— Você tem um ótimo gosto.
— Obrigada. Não quer se sentar? — responde ela arrastando a cadeira para que eu me sentasse.
— É alguma espécie de comida vegana? — pergunto olhando para o colorido do prato.
— Sim, sou vegana.
— E então, o que está acahando dessa viagem ao passado? — fala ela abrindo o vinho francês na qual a safra é 1958.
Eu dei risada e depois sacudi meus cabelos.
— Estou adorando. Gosto de coisas conservadoras.
Ela era tão excêntrica e ao mesmo tempo, misteriosa.
09h00 Uma hora havia se passado de conversa. Falei sobre mim e no fim da noite quando notei, ela havia falado desvaradamente mais do que eu, e não sabia absolutamente nada sobre ela.
— Você quer dançar? — ela levanta, me convidando pelos braços.
— Adoraria.
A música tocava e nossos ritmos a acompanhava. Meu queixo estava sobre o ombro dela e as mãos dela sobre meu cox. Repentinamente, o rosto dela se aproxima ao meu, encostando nariz por nariz. Meu sangue subiu de uma tal forma que parecia que ia desmontar no tapete dela. Estamos à milímetros de distância, até o momento em que ela quebra isso, encostando seus lábios macios nos meus. Eu via faíscas. Eu sentia a presença forte dela na minha mente, era como se pudesse sentir os sentimentos dela perfurar meus neurônios e persuadi-los.
A música para, e então eu me afasto dela. M senta no sofá com toda delicadeza de uma dama. Ela é uma dama, me convidando a sentar também. Minhas mãos estão frias, portanto, meu corpo está em chamas. Olhamos uma a outra, eu vejo dentro de seus olhos uma outra presença, outra pessoa. Me sobe um medo incandescente. Mais uma vez retornamos ao beijo pausado, e agora, sabe lá quando essa troca irá parar.
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