Silêncios no Corredor
8 Gestos Que Ficam
O inverno aproximava-se devagar, trazendo consigo manhãs frias e tardes que escureciam mais cedo. Os corredores da escola estavam cobertos por uma luz pálida e difusa que entrava pelas janelas altas, e Aoi sentia o peso do silêncio com mais intensidade. Apesar disso, havia algo diferente. Um fio invisível ligava-a a Ren, quase imperceptível, mas suficientemente forte para mudar a forma como ela atravessava cada corredor, como respirava e como sentia os dias a passar.
Naquele dia, Aoi entrou na sala de aulas mais cedo do que o habitual. Queria organizar os livros e preparar o caderno antes de a aula começar. Mal se sentou, percebeu que Ren já estava lá, encostado à parede com um livro fechado entre as mãos. Ele olhou para ela, e pelo canto do olho, Aoi sentiu aquele reconhecimento silencioso, familiar e reconfortante. Não precisavam de palavras. Um simples olhar bastava para perceber que o outro estava presente.
O professor entrou, iniciou a aula, mas a atenção de Aoi oscilava. Era difícil concentrar-se quando cada gesto, cada movimento do rapaz parecia gravado em cada fragmento da sua memória. Ela notava o modo como ele ajeitava o cabelo, como torcia o livro entre os dedos e como respirava suavemente, quase sem se dar conta. Cada detalhe tornava-se importante, como se a rotina pudesse ser observada com carinho e atenção minuciosa.
Durante o intervalo, decidiram ir à biblioteca. Aoi sentia uma mistura de excitação e nervosismo. Cada passo lado a lado parecia mais leve, mas carregado de significado. Sentaram-se à mesma mesa, e desta vez houve mais coragem nos gestos. Ren passou-lhe discretamente um lápis quando a sua caneta quebrou. Aoi sorriu, mas o gesto dizia mais do que qualquer palavra poderia. Era um cuidado silencioso, uma atenção discreta, mas cheia de intenções.
— Obrigado — murmurou ela, a voz quase inaudível, mas cheia de sinceridade.
— De nada — respondeu ele, com um sorriso que iluminou o rosto, mesmo através da frieza do Inverno. — Sabes, às vezes, os gestos dizem mais do que as palavras.
Aoi assentiu. Ele tinha razão. Os gestos, os olhares, os pequenos cuidados, tornavam-se a linguagem mais honesta que conheciam. Naquele instante, percebeu que não precisava de dizer tudo, que o silêncio e os gestos poderiam construir a intimidade que tanto desejavam.
Quando a tarde terminou, caminharam até à saída juntos. O céu estava tingido de tons dourados, o sol prestes a desaparecer atrás dos prédios. As suas mãos aproximaram-se, mas não se tocaram. Um gesto tímido, quase imperceptível, mas que ficou gravado na memória de ambos. Aoi sentiu o calor da promessa naquele toque quase inexistente, a certeza de que aquele vínculo estava a crescer, sólido, apesar da ausência de palavras.
Enquanto atravessavam o pátio coberto de folhas secas, Aoi percebeu que os gestos não apenas preenchem o silêncio, mas constroem pontes que a voz ainda não ousou atravessar. E, naquele instante, soube que estava pronta para continuar, passo a passo, gesto a gesto, até ao momento certo em que tudo poderia finalmente ser dito.
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