Silêncio nas montanhas
22 Epílogo: O Show de Truman
“Senhoras e senhores, esta noite temos convidados muito especiais! Um livro que conquistou o mundo, revelou segredos sombrios e deu voz àqueles que precisavam ser ouvidos. Silêncio nas Montanhas não é apenas um best-seller — é uma obra que expôs verdades chocantes e inspirou milhares de leitores ao redor do mundo.
E hoje, temos aqui os autores por trás dessa história impactante! Eles não apenas escreveram um livro, mas trouxeram à tona um passado enterrado e uma mensagem poderosa sobre coragem, justiça e liberdade.
Por favor, recebam com uma grande salva de palmas… Alec e Anna Pratts!” – o entusiasmo da apresentadora somado às palmas da plateia davam a noção do quão impactante aquela história é para legião de fãs que vibram enquanto os autores aparecem de mãos dadas no palco, acenando e agradecendo com gestos pelo carinho recebido.
— Muito obrigada por terem aceitado o convite – diz a apresentadora enquanto cumprimenta ambos e faz sinal para que pudessem se sentar.
— Nós que agradecemos ao convite maravilho – Anna responde com uma voz acolhedora e tranquila, mas que transparece a sua felicidade em estar lá.
— Ficamos lisonjeados com o convite – diz logo em seguida Alec.
— Silêncio nas Montanhas rapidamente se tornou um fenômeno literário. Quando vocês perceberam que essa história precisava ser contada? – a apresentadora pergunta enquanto cruza as pernas e sorri para o casal.
Alec faz sinal para que Anna comece a falar
— Esse livro passou por várias versões antes de chegarmos ao final certo. Não queríamos apenas um suspense ou um mistério—não que haja problema nisso — ela ri suavemente— mas queríamos que a história tivesse um impacto real, algo que qualquer pessoa pudesse sentir como seu
Um jovem na plateia ergue a mão no meio da entrevista. Ele nem precisa de microfone quando sua voz embarga ao dizer: 'Esse livro salvou minha vida!' O auditório silencia por um segundo, como se o peso das palavras tivesse atingido a todos ao mesmo tempo. Então, murmúrios emocionados se espalham pela sala, e algumas pessoas assentem, visivelmente tocadas.
— A escrita desse livro levou alguns bons anos por isso. Queríamos que as pessoas parassem ao final deles e de fato refletissem sobre o que estava por trás do livro. Todo livro é uma história, mas só por ser uma história precisa ficar evidente se é real ou não. Eu como escritor há mais tempo que a Anna sempre quis trabalhar com a metalinguagem e a Anna sempre quis escrever sobre como o ato de fugir ser uma resistência. Esse livro nos deu a oportunidade de juntos, explorarmos temas que já ansiávamos há muito tempo
— Muitas pessoas especulam sobre a cidade real por trás de Maple Hollow. Podem nos dizer se há verdade nos eventos narrados? – essa era a pergunta que muitos queria saber a resposta. O silêncio na plateia mostrava claramente isso.
— Sabe, é impressionante como sempre nos perguntam isso. É a pergunta de um milhão de dólares. Maple Hollow, é qualquer contexto, um cenário, por isso ela é fictícia. Ela é pode ser a cidadezinha do interior onde uma única família detém todo o poder e controle sobre a vida de cada um. Maple Hollow pode ser o lar de alguém que vive se sentindo preso em uma vida abusiva. Maple Hollow não é um lugar, é o sentimento de estar aprisionado. – Anna responde.
— A opressão raramente se apresenta de maneira óbvia. Muitas vezes, ela se disfarça de tradição, de normalidade, de ‘como as coisas sempre foram’. Mas quando você questiona isso, quando decide ver além, percebe que a verdadeira liberdade exige coragem – coragem para partir, coragem para falar, coragem para não aceitar menos do que o que é justo. – Completou Alec
— Os personagens do livro são intensos, cheios de camadas. Algum deles foi inspirado em pessoas reais?
— Acho que a resposta para essa pergunta é individual, todos conhecem algum adolescente que têm um pai controlador e abusivo e uma mãe fragilizada. Todos conhecem uma pessoa enlutada tentando seguir com a vida, mas sendo sugada pela depressão. Todos conhecem aquele símbolo de resiliência, aquela pessoa que cuida de todos e torna isso uma missão de vida. Essa é a mágica da história. – Anna diz de maneira genuína – Eu conheço muitas dessas histórias como psicóloga. Apesar de não serem sempre contadas, essas histórias estão por toda parte—muito mais do que imaginamos
— Essas pessoas andam por aí, fingindo que está tudo bem, fingindo que estão vivendo enquanto apenas pensam em sobreviver um dia após o outro – Alec completa – falou isso porque já fui uma dessas pessoas. Já me vi preso em um cenário desfavorável que eu insistia que a melhor maneira era mudar o cenário de dentro para fora, mas isso era burrice. Quanto mais eu tentava, mais doente eu ficar. Decidir fugir, não é desistir, pelo contrário é insistir em recomeçar.
Alguém na plateia solta um suspiro baixo. Algumas cabeças balançam em concordância, como se entendessem perfeitamente o que ele quer dizer.
— O livro mistura mistério, drama e thriller psicológico, com um humor ácido. Como vocês equilibraram esses elementos para manter os leitores presos à narrativa?
— Acho que nós colocamos um pouco de nós mesmos na história. O humor ácido a gente pode dividir igualmente, nós dois sempre tivemos esse olhar mais crítico no quesito político e social e sempre embalamos ele nesse humor ácido, num ironia mais direcionada. – Alec ria enquanto explicava – Quando ligamos a TV temos duas opções ou choramos pelo derrocada que o mundo está tendo ou fazemos piada por cima dos escombros. Não quer dizer que não levemos a sério, quer dizer que o humor mais ácido as vezes se torna mais acessível.
— Os alemães têm uma expressão muito própria para isso “Selbst-Schadenfreude” que quer dizer rir da própria desgraça. O mundo em colapso pode não parecer um problema seu ou meu, mas é um problema de todos. E colocar isso sobre a perspectiva humorada, permite maior acesso e talvez maior contemplação do que a mensagem se trata – terminou Anna.
Alguém na plateia solta uma risada curta e concorda em voz alta: "Essa é a única forma de sobreviver nesse mundo!" A plateia responde com risadas suaves e algumas palmas.
— Após a publicação, vocês receberam mensagens de leitores que se identificaram com os personagens?
— Muito mais do que esperávamos. E para cada um que nos escreveu por email, instagram, facebook, nosso eterno agradecimento. – Alec responde de um jeito mais contido.
— O livro foi feito para vocês e receber esse retorno foi incrível – finaliza Anna
— Se pudessem deixar um recado para quem vive em um lugar como Maple Hollow, qual seria?
— Nós fomos feitos para acreditar que nossos medos nos definem, que nossas perdas nos tornam fracos. Mas a verdade é que a perda nos ensina a viver de forma mais profunda. E, mesmo nos momentos de dor encontramos nossa força. Fugir de algo que não te faz bem, as vezes é o seu maior ato de resistência e de autopreservação. Não é fraqueza, porque precisa de muita coragem para isso. – Finaliza Anna
Um silêncio profundo toma conta do auditório. Algumas pessoas na plateia trocam olhares, talvez se reconhecendo naquela metáfora.
— Maple Hollow é mais do que uma cidade. Ela é um reflexo de um mundo onde os que detêm o poder moldam a realidade para servir a seus próprios interesses, deixando os outros à mercê do sistema. Muitos, como nós, vivem em um espaço de ilusões, onde a verdade é moldada pelas mãos daqueles que controlam a narrativa. O que fizemos, o que buscamos, não é apenas a nossa liberdade, mas a liberdade de todos que têm suas vozes silenciadas. O que me movia não era apenas escapar, mas mostrar a todos que a prisão não é sempre feita de barras de ferro, mas de mentiras que nos impedem de ver o que realmente importa
- E para quem ainda não leu Silêncio nas Montanhas, o que vocês diriam?
-Que cada um encontrará uma resposta diferente dentro dessas páginas. Mas, acima de tudo, esperamos que encontrem coragem. – Responde Anna com uma piscadinha no olhar
— Porque às vezes, sair de cena não é o fim de uma história, mas o começo de outra. – Finaliza Alec com um sorriso olhando direto para cada espectador.
Um breve silêncio toma conta do ambiente antes que a plateia exploda em aplausos, alguns espectadores se levantando para uma ovação de pé.
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