Silêncio nas montanhas
18 Capítulo 17: O Grande Truque
Peter/Ben
No final da aula, Max me abordou enquanto ia para o ponto de ônibus:
— Vamos lá para casa estudar dessa vez. -Quando ia comentar algo sobre meus pais ele já havia se prevenido – Relaxa, seu coroa já te liberou. Já hoje com a gente lá.
— Preciso dos meus livros... Passo em casa e vou...
— Entra no carro logo Peter. Tem livro para caramba no escritório do meu tio Carl – Fiquei sem desculpas, sem plano B e com o coração na mão, mas não podia perder o meu disfarce. Não era só a minha vida em risco.
— Okay, já que você insiste – era melhor deixar claro que eu estava obedecendo a ele. Enquanto ele acreditasse que tudo estava sob controle dele, eu não seria um risco. Esse era o jogo mais seguro a se jogar no momento. – O que quer estudar hoje?
— Sabe, meu tio Carl fez Direito, ele tem alguns livros cabeças lá... e preciso melhorar minhas notas em filosofia, sociologia e cidadania... aquele blablá de esquerda sabe... Quero que me explique algumas coisas disso para a prova.
— Ah, saquei, aquele discurso politicamente correto que não pode fazer nenhuma piada mais? – repeti a frase que já havia ouvido sair da boca do Hank, aproveitei para dar uma risada. – Fora que a Professora de debates é uma visão melhor do que aquela velhoca que ensina a fazer compostagem...
— Agora, está sendo sincero comigo, gostei – Ele começou a fumar dentro do carro – Pode abrir as janelas, esqueci da sua asma. – Abri e posicionei meu rosto bem virado para fora do carro – Nunca entendi essa sua ficção por debate, agora tudo fez mais sentido – rimos juntos de uma piada que não havia graça, de uma mentira que me atravessava violentamente. O debate era tudo para mim, mas eu precisava manter o meu personagem.
— Isso, cara, essa coisa ai de feminismo, esse blá blá mesmo... esse papo de esquerda idiota. Você não acredita nisso né?
— Não, mas estudo para tirar nota boa no debate, era isso ou ter que fazer economia circular pela minha grade... não curto sujar minhas mão com terra e minhocas... – ri de leve, mas com a minha mão tremendo no meu bolso. Esse personagem nem de perto era eu, mas fiquei de fato surpreso com quanto eu estava me virando, eram mentiras, mas que eu falava com uma convicção que me assustava. Vai ver, Friedrich Nietzsche não estava tão errado quando disse:
“Somos sempre muito mais artistas do que imaginamos.”
Depois de uns 20min de estrada, com o coração saindo pela boca, chegamos na casa dele. O pai dele veio me recepcionar, falando sobre as maravilhas que eu estava fazendo com o filho dele (pelo visto puxar saco também é algo que faz com que se tenha poder... ele fazia isso com meu pai o tempo todo, deve ter pensado, filho de peixe, peixinho é).
— Obrigado senhor Thompson pelo convite, estou gostando muito de interagir mais com o Max.
— O que vão estudar hoje?
— Aquela palhaçada de filosofia “ser ou não ser, es a questão” – disse enquanto ria e para não ficar para trás obviamente ri também.
— Essa escola não aprende, quantas vezes já mandei tirar essa merda da ementa. Isso não vale nada, né Peter?
— Claro senhor, mas acho que é por obrigação de uma lei estatual ou algo do tipo.
— O Estado agora acha que sabe melhor do que nós, os pais, o nossos filhos têm que aprender, é o fim dos tempos mesmos – Ri novamente, mesmo sem já não aguentar mais fingir daquele jeito. Estava sendo muito para mim.
A casa principal era imponente e antiga, mas muito bem preservada. Claro que isso ajudava a manter a fama de poderosos. Um sobrado de dois andares com pelo menos uma dúzia de quartos para apenas 4 pessoas, enquanto passava pelos corredores me perguntava quantos segredos essas paredes esconderam ao longo das gerações.
Enquanto Max me levava até o escritório que a gente ia estudar, eu fiquei pensando:
Que chance uma pessoa que nasce nesse círculo tem de escapar dele? Não estou tentando inocentá-lo, mas ele nunca teve chance... a família é corrupta, desestruturada e que acha que tudo é negociável desde que se tenha dinheiro e poder. Isso era a própria definição de todo o questionamento do determinismo social, seria o homem capaz de fugir das amarras apesar do ambiente? Há movimentos dentro do determinismo social que afirmam que o ambiente limita as possibilidades de uma pessoa e outros que condenam esse pensamento e afirmam que, apesar o ambiente, a escolha cabem aos indivíduos. Mas vendo todo o ambiente no qual o Max é inserido acho muito improvável pensar que ele poderia ter a capacidade de quebrar aquele ciclo e sair daquele ambiente.
Estava perdido nos meus pensamentos quando ouvi o Max falando comigo:
— Peter, está me ouvindo, vamos ficar aqui. – Olhei em volta e era um escritório gigantesco, com uma biblioteca digna de dar inveja a qualquer um que amasse livro. Como um lugar desse poderia existir em um ambiente tão inóspito ao conhecimento.
— Nossa, quantos livros! – São de quem?
— De ninguém na verdade, meu pai e meus tios usam como decoração, inclusive pode pegar uns ai se quiser...
Livros que eram obras-primas da literatura trancafiados em um ambiente de pura ignorância. A Ilíada e A Odisseia de Homero, A Divina Comédia de Dante Alighieri, Dom Quixote de Miguel de Cervantes, Hamlet de William Shakespeare, Vigiar e Punir de Michel Foucault (esse era mais irônico do que a Nick lento Crime e Castigo hoje mais cedo. Livros que deveriam abrir a mente dessas pessoas, ficavam fechados e escondidos.
— Seu tio Carl deve ter lido alguns deles na faculdade, não?
— Leu, mas sempre falou que eram uma grande bosta e superestimados. Meu tio não é muito chegado a ler ou a leis, nem sei o porquê dele se formou em direito.
Bem essa é a prova que não basta ler um livro, você precisa interpretar o que é apresentado ao leitor em cada página. Eu não saberia dizer se tudo isso era ódio ao conhecimento ou o desprezo por nunca o compreender.
— Como assim?
— Ele brinca dizendo que era porque ele tinha uma queda numa garota da faculdade. Digamos que ele não use muito o que ele aprendeu na faculdade... prefere resolver os problemas do jeito dele, sabe como é? Fazer tudo com as próprias mãos.
— Por qual assunto quer começar?
— Não sei, o que vai cair em cada matéria. Sempre vou para aula chapado.
— Em filosofia estamos estudando Aristóteles, Platão e Kant, três filósofos importantes para o desenvolvimento e a propagação da filosofia, que nada mais é do que o estudo sobre os questionamentos do homem. Tipo, Platão falava que o mundo real é só uma sombra do que existe de verdade, Aristóteles já era mais ‘pés no chão’, e Kant misturava razão com moralidade.
— Cara, isso é muita viagem pra mim...
— Platão acreditava que a gente vivia numa matrix, igual ao filme, como se a gente nunca tomasse consciência da realidade. Já Aristóteles acreditava que precisávamos viver a vida buscando realizar o nosso máximo. O Kant por outro lado ele só queria estudar como a razão impactava na moralidade sabe? Tipo, o fato de você achar que está certo, não transforma aquilo em algo moral e tudo vai depender de quem define os padrões de certo e errado e moral e amoral. Depende se uma pessoa seguiria padrões de moralidade próprios ou os tidos como universais.
Tentei resumir, mas ele realmente parecia estava prestando atenção:
Platão acreditava que a gente vivemos numa matrixAristóteles basicamente falava para gente viver sempre buscando alcançar o nosso melhor desemprenhoKant debatia sobre os conflitos associados as definições de razão e moralidade. Porque segundo ele, essas definições poderiam mudar com o tempo, ambiente e personalidade do indivíduo.— Conseguiu entender?
— Sim. Platão é o cara da matrix, Aristóteles é o que quer q a gente sempre dê o melhor e o Kant é o que fala que tudo depende.
— Ótimo – de uma maneira simplista, eu consegui fazê-lo entender um pouco do que esses filósofos defendiam, mas essa não é toda a questão da filosofia? É fazer o homem pensar, não importa como.
— Nossa, você é bom nisso sabia... – É fácil ser bom em algo que você ama
— Eu dou para o gasto, não é muita coisa.
— Vou buscar alguma coisa para gente comer, pensei tanto que até me deu fome. Fica a vontade aí.
Esperei ele sair e comecei a olhar em volta... havia tanta coisa naquele escritório, mas algo na mesa central me chamava atenção... Fui me aproximando lentamente, sempre ouvindo se alguém estava por perto e com um livro na mão para fingir que tinha levantado para pegar o livro. Parei ao lado das gavetas da mesa e esperei por alguns segundos, nenhum barulho. Abaixei rapidamente para abri-las. Na primeira só havia remédios ou drogas, não estava interessado nisso. Fechei devagar e observei se alguém havia vindo, nada ainda. A segunda estava fazia, mas quando fechei percebi um barulho e que estava pesada, comecei a procurar por um fundo falso, batendo do lado da gaveta. Achei
Abri o fundo falso com cuidado e percebi pq estava tão pesada. Tinha uma faca guardada num saco cheio de sangue, nem pensei duas vezes, peguei com cuidado se esbarrar em nada e coloquei dentro do meu casaco. Levantei-me rapidamente e fui até a minha mochila guardar o saco e esperei alguns segundos sentados com um livro qualquer aberto na mesa...
Nada, nenhum passo. Corri de volta até a mesa abri a terceira gaveta, que tinha apenas cadernos. Abri um deles e tinha uma lista de nomes na primeiras páginas e uma foto da Maggie colada em outra escrito “MORRE” em vermelho. Só consegui pegar aquele caderno, notei passos vindo e corri para mesa e arremessei o caderno dentro da minha bolsa, jogando o casaco por cima. Foquei no livro que estava na frente, Os Miseráveis. Conhecia aquela história de trás para a frente, mas fiquei lendo como se nunca estivesse lido antes na vida.
— Trouxe um rango para a gente. Meu pai e meus tios saíram para resolver algum problema. – Vulgo foram ali ameaçar alguém e já voltavam...Meu coração queria sair pela boca. Minha cabeça doí tanto, não conseguia enxergar direito o que estava no prato.
— Está tudo bem?
— Dor de cabeça, tenho que ir ao oftalmologista, mas não estou tendo tempo. Vai passar.
— Quer analgésico? Meu tio deve ter aos montes em alguma gaveta. – É isso eu sabia bem
— Não, tenho na bolsa, mas você poderia pegar um copo de água para eu beber?
— Claro, cara. Já volto!
Enquanto ele saiu novamente corri para ver se havia deixado algum vestígio, mas tudo estava como antes. Voltei para a mesa e fiquei massageando a minha cabeça...
Assim que ele chegou tomei o comprimido que já havia separado, para não ter que mexer na mochila na frente dele.
— Cara, você já me ajudou bastante com esses três caras aí, vou te deixar em casa.
— Uma pena não poder me despedir do seu pai e conhecer seus tios.
— Você não vai conhecer meus tios por um bom tempo, foram resolver um pepino ai e depois devem ficar por fora da cidade por um tempo. Meu pai deve tá de volta amanhã bem cedo ou hoje de madrugada. Digo que mandou um oi para ele. Agora pega suas coisas e vamos embora.
Um alívio me bateu no peito quando soube que o Carl ficaria longe por um tempo, logo ele não iria perceber que um dos cadernos e a faca havia sumido. Fechei a mochila com todo o cuidado do mundo.
— Sabe o que eles foram resolver?
— Não sei, mas parece que é um problema dos grandes, os três não costumam sair juntos?
Tentei manter meu rosto neutro, mas tudo que eu pensava era: Será que descobriram algo sobre a Nick e a Joe? Será que estão indo lá para calar a boca delas?
Enquanto Max parou para ir ao banheiro, peguei meu telefone e mandei uma mensagem.
CUIDADO, ACORDE TODO MUNDO DA CASA, FAÇAM BARULHO. ELES PODEM ESTAR POR PERTO. AMO VCS.
Fechei o celular correndo e enfiei no bolso quando ouvi o barulho da descarga.
— Podemos ir?
— Claro – respondi ainda tentando fingir a dor de cabeça que já havia desaparecido. Queria falar com a Nick. Queria ter certeza de que ela entendeu a mensagem. Com o celular sem som, liguei para a Joe e comecei a conversar com o Max na esperança que ela entendesse.
— Mas Max, você não se importa de ficar sozinho quando seu pai e seus tios saem para resolver problemas.
— Normalmente, nunca fico sozinho. Mas hoje eu não entendi o porquê de eles simplesmente sumirem tão rápido. Deve ter sido alguma emergência na fazenda.
— Entendi. Mas você não se preocupa com eles?
— Eu? Claro que não, quem tem que se preocupar é quem for o problema que eles foram “resolver” – ele disse com a maior naturalidade e rindo... segui rindo enquanto meu coração quase saía pela boca.
— Desliguei o celular antes dele para o carro, para evitar que ouvisse qualquer ruído.
Me despedi e entrei em casa dizendo que estava cansado e que já havia jantado e olhando firme para minha mãe como se dissesse “precisamos conversar”
Ela subiu puxando assunto
— Preciso que separe sua roupa suja, tenho que lavá-la.
— Vou separar de uma vez porque só quero dormir, pode pegar agora então.
— Antes tarde do que nunca né, quarta vez que te peço isso – ela não havia mencionado nada sobre as minhas roupas há pelo menos dois meses.
Ela fechou a porta e olhou para mim:
— Fala.
— Preciso ir na Nick agora, acho que a família do Max vai fazer uma visita na casa dela.
— Deixa a mochila para ir mais rápido...
— Não posso, preciso do que tem aqui dentro.
— Espera — ela pegou um embrulho e me entregou. Era um revólver pequeno. – Sabe usar. – Fiz que sim, travei a arma e escondi embaixo da camisa. – Agora vai.
— Vou ligar para a Joe. Eu invento algo.
Pulei a janela e sai correndo o mais rápido que pude pela floresta, foram os 10 minutos de corrida mais longos da minha vida... cheguei pela mata e vi o lexus dos Thompson parado há três quadras da casa da Nick, isso não era nada bom... Me aproximei do carro pela floresta. Carl estava fora do carro e com bastante raiva.
— E agora? – ele perguntou para algum dos irmãos – A casa está entupida de gente. Você viu os adesivos dos carros, SÃO DE FUZILEIROS!!!!!
— Melhor vocês dois sumirem da cidade por um tempo, aí quando eles forem embora, eu ligo e a gente finaliza o serviço. Não vão ficar eternamente. – Essa voz eu sabia de quem era, Alex Thompson, o prefeito. Não deixaria de reconhecer porque não aguentava mais ouvir a voz dele pelo rádio.
— A gente não pode chamar mais gente e matar todos logo? – esse eu acho que era o irmão do meio, sempre esquecia o nome dele por ser insignificante perto aos outros.
— Claro, vamos matar um bando de ex combatentes e amanhã o FBI vai estar na cidade cagando com todo o nosso esquema. Pensa um pouco Huge. Vamos embora, deixo vocês dois na fazenda e quero que sumam por um tempo. Quando a poeira baixar, resolvemos isso.
O alívio que veio foi tão imediato que quase me sentei no chão, esperei eles saírem e se adiantarem bem para ir para casa da Nick.
— Oi Phil – disse ao senhor que já havia reconhecido da última vez. – Pode me ajudar. Acho que to tendo uma crise de pânico.
— Joe, venha aqui por favor, o rapaz não está muito bem.
— Eu to com um revólver no cós da minha calça, pode tirar para mim, antes que eu me machuque.
Nick chegou antes de Joe e já se jogou no chão comigo.
— Obrigada pelo aviso, nós já estávamos indo dormir.
— Precisamos sumir da cidade – eu tentava falar, mas não conseguia – eu roubei a arma que acho que o Carl usou para matar os Foster e um diário dele. Está tudo na bolsa. – Por que eu não conseguia me acalmar??
— Como assim roubou?
— Max me levou para estudar na casa dele, em um momento ele me deixou sozinho no escritório do Carl e eu vasculhei algumas coisas. Achei duas gavetas com fundo falso. Tinha mais cadernos lá, mas só consegui pegar esse.
— Como ficou sabendo que eles viriam para cá?
— Max me disse que eles tinham ido resolver problema, mas que ele achava esquisito eles irem juntos... Deu a entender que era um problema grande. – minha respiração não cooperava nem um pouco, mas eu precisava terminar de contar – Fingi passa mal e ele me levou em casa.
— Joe, outro ex fuzileiro chamou, telefone para você.
— Já vou Jackson.
— Deve ser a minha mãe. Ela me deu a arma.
— Escute bem, quero que se acalme enquanto atendo a sua mãe e depois terminamos a história. – Fiz que sim com a cabeça. Quando dei por mim, Nick já estava me abraçando para me acalmar.
— Eu cumpri com a minha promessa. Fugi e vim direto.
Com o tempo minha respiração foi melhorando até que a Joe voltou com a cara um tanto preocupada.
— Sua mãe me ligou, disse que está trazendo sua mala. Os três passaram lá e levaram o Hank e não falaram mais nada. Só falaram para entrar no carro.
— Mas porque levariam ele? – não fazia sentido.
— Porque eles me viram conversar com ele hoje no mercado, não estávamos falando nada demais, ele só me agradeceu pelo remédio naquele dia. Mas eu vi o Carl e o Huge observando de longe. Eles devem achar que ele abriu o bico, porque você estava com o Max. Acho que o Max não te chamou a toa para a casa dele, eles queriam saber quem poderia deletar a operação.
— Mas fui eu – Eles vão matar o Hank.
— Mas você só soube um pouco antes deles chegarem. Você fez um milagre nos avisando. E sua mãe confirmou que estava dormindo por conta de uma enxaqueca.
— Mãe? – ela apareceu pela mesma trilha na floresta que eu havia feito.
— Acha que só você conhece os bosques? Eu cresci aqui. – Abandonei meu carro na rodovia e vim pela floresta. Assim eles podem pensar que fugimos. Mas eu vou voltar para casa. Pegue mala e fique com isso. – Ela me deu junto da mala, um colar com a foto dela, da Maggie e da Nora.
— Por que vai voltar? – ela podia sumir com a gente.
— Porque vocês precisam de tempo, e eles virão atrás de mim e de você, assim que finalizarem com o Hank. Arrumem as coisas rápido. Vou ganhar tempo. Não sei quanto tempo, então se apressem. – Phil devolveu o revólver para ela e disse:
— Ninguém merece ir à luta sem armas.
— Só me diga uma coisa? Conseguiu algo para prender os filhos da puta?
— Consegui a arma do crime e um diário escrito pelo Carl planejando a morte dos meus pais.
— Maravilha. Suma, desapareça e tenha uma vida. A vida que eu roubei de você. Cuide dele Joe, ele é o meu maior orgulho.
— Mãe, não vai...
— Benjamin, você sabe que você nunca vai ser feliz aqui e eu nunca vou viver em paz se não acertar as contas que eu devo. Seja feliz, é só o que eu te peço.
— Alguém pode me deixar perto da estrada para eu voltar.
— Mãe, eu sei que não é a Maggie, mas eu sei que fez o seu melhor. E se eu não me tornei um merda igual ao Max, é mérito seu! — Abracei ela e sussurrei que a amava.
Ela entrou no carro com o Phill e foi para a estrada.
Eu sentado no chão só conseguia chorar enquanto a Joe colocava as provas em uma caixa, lacrava e dava a um outro cara para guardar em um dos carros.
— Para onde vamos levar isso? E se essa não for a faca?
— Para um lugar onde essas provas tenham algum valor. – disse Joe – Vai ser a faca que matou alguém, isso já é um começo. Tem sangue o suficiente para fazerem um DNA e provavelmente tem as impressões do assassino – ela olhou bem no fundo dos meus olhos – O nosso tempo já estava acabando e isso mudou completamente o jogo. Você se saiu muito bem. – Ainda olhando para mim ela disse – Nick, pega a sua bolsa, nós vamos embora. Luiza, querida, avisa seu marido que estamos indo.
— Todos nós saindo ao mesmo tempo não vai chamar a atenção? – era um grupo muito grande.
— Vai, mas vai ser como se eles estivessem indo embora. Cada um vai para um lugar diferente e vamos escondidos com o Phil e a esposa dela Della para casa deles no Canadá, junto com as provas. O resto é só uma cortina de fumaça.
O homem que ouvi chamarem de Jackson me entregou documentos novos, passaportes, carteiras de habilitação... tudo novo. Fugir nunca foi tão real quanto naquele momento.
— Deixem as luzes ligadas e o karaokê funcionando. Só vamos encostar as cortinas e as portas. – Joe estava seguindo com as instruções enquanto Nick me empurrava para um dos carros.
— A gente vai precisar deitar-se nesse fundo falso, é apertado, mas cabe nós dois.
— E sua avó?
— Ela vai deitada na frente.
Quando a carroceria da camionete foi fechada escondendo o fundo falso, tudo ficou escuro.
— Se quiser chorar, agora é bom momento – Nick disse de maneira pesarosa. – Você brincou com o perigo indo lá na casa com o Max.
— Ele me encontrou na saída da escola e não me deu alternativas. Tentei escapar. – Deitado no chão da carroceria, eu pude perceber que ainda tremia. – O Hank vai morrer por minha causa.
— Não, ele vai morrer pelas próprias escolhas. Se não fosse agora, em alguma momento, ele seria queima de arquivo. Não seja cruel com você. Meu pai sempre me falou que “Os que vivem de sombras acabam consumidos por elas.”
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