Silent Hill: The Artifact
18 Inflamável
Notas iniciais

–Matthew, por favor! Veja onde estamos! Não podemos nos desesperar!
Chang tem razão, sim ele tem. Ao olhar pra mim, vejo o que essa droga de cidade me tornou... No sentimental Matthew, aquele cara que eu matei, aquele rapaz que ficou para trás. O Matthew emocional deixou de existir a muito tempo e eu tenho que fazer jus a sua morte. Chang olha pra mim esperando alguma resposta ou reação, me fazendo enxugar as lágrimas.
–Você tem razão... Desculpe-me.
–Onde está aquele rapaz que eu conheço? Matt, você não era nem um pouco assim...
–Eu... eu sei.
Estamos agora subindo uma escadaria de metal, que provavelmente vai dar em alguma espécie de montanha russa. Chang parece preocupado com alguma coisa, desprezando completamente o que se passa em minha mente.
–Olha Matt, tem uma coisa que eu preciso te falar, mas não sei se vai ser seguro agora.
–Então é melhor não falar, Chang.
Ele assente com a cabeça e continuamos subindo as escadarias. Chegamos ao ponto mais alto e vejo uma pequena construção, pelo que parece é a sala de controle do brinquedo. Chang vai até a porta e verifica se está aberta: nada. Tiro o canivete do bolso e abro a porta com facilidade, girando a maçaneta ao ouvir o som de um “click”. O brinquedo parece que não foi usado há anos. Tem um pequeno recado pregado ao vidro da sala. Ilumino com a lanterna:
“Devido ao problema com os portões do parque, verifique se o brinquedo está desligado ao caminhar pelos trilhos. Josh”.
–Okay, então pra prosseguirmos teremos que andar pelos trilhos, certo?
–Sim, é o que parece. – Chang assente.
Damos mais uma olhada no local. A luz de “power” está vermelha, indicando que o equipamento está desligado. Saímos da sala e Chang pula as grades que separa a plataforma dos trilhos e eu faço o mesmo. Começamos a caminhar sobre os trilhos da montanha russa. É um pouco alto, então eu sinto um pouco de medo ao caminhar. Ele vai à frente, segurando agora a lanterna e olhando para baixo em alguns pontos procurando alguma espécie de escada. Eu apenas o sigo, evitando olhar pra baixo por meu medo de altura. O comum cheiro de podridão continua a invadir minha mente e o selo de Matatron bem guardado dentro da mochila. Continuamos caminhando por alguns minutos até que Chang para.
–Droga, o resto está quebrado. Não estava antes...
–Mas ein?
Antes? O que ele queria dizer com antes? Por acaso já esteve aqui em Silent Hill? Agora as coisas estão começando a piorar. Chang parece saber de alguma coisa sobre este lugar e talvez seja isso que ele quer me contar desde que me encontrou e me julgou “emocional” o suficiente para não contar. De fato, ele nunca tinha me visto expressar muitas emoções e sendo quem ele é (meu colega de quarto), provavelmente deveria ter visto alguma se eu demonstrasse, pois já são quase dois anos de curso. Mas de qualquer forma, o essa frase de Chang me deixa inquieto, além de quê, ele parece ter certa noção por onde anda. O rapaz olha pra mim ao ouvir minha fala de surpresa. Seu rosto forma uma expressão de uma criança que teve a sua traquinagem descoberta pelos pais.
–Er... Precisamos conversar, mas não agora. Preciso que você use o Selo de Metatron pra trazer esse lugar para a realidade normal e verificar o estado da montanha russa.
–Mas... – Começo tentando esquecer por um tempo do que ocorreu. – E se essa parte que nós estamos estiver quebrada?
Ele olha pra mim sem temor algum no rosto e parecendo desprezar tal argumento.
–Só temos um jeito de saber, Matt.
Tentando me equilibrar pelos pés e algumas grades de proteção nos trilhos, abro a mochila e vasculho pelo objeto circular, encontrando-o rapidamente e o puxando para fora. Seguro-o firme em uma das minhas mãos e fecho os olhos, tentando imaginar o local sem aquele cheiro horrível e névoa e como se fosse por mágica, sinto um puxão na barriga, o que me faz abrir os olhos e ver Chang sendo torturado mentalmente. Lembro-me das primeiras vezes que havia mudança entre Silent Hill e essa outra realidade, chegava a ser uma tortura. Pelo que vejo, acho que me acostumei, diferente de Chang que parece estar morrendo de dor de cabeça. Logo vejo o escuro ir embora e os trilhos da montanha russa se prolongarem para além do buraco formado pelo brinquedo quebrado. O cheiro de podridão e enxofre desaparece, os trilhos enferrujados e sujos de sangue se tornam apenas trilhos enferrujados. O lugar vai ficando mais claro gradativamente, até que começo a ver a conhecida névoa e algumas partes do Amusement Lakeside Park. Parecia ser um lugar legal na infância. Chang começa a se recompor, se segurando firme na grade de proteção do brinquedo. Ele abre os olhos e se depara com uma montanha russa completa. Ele sorri.
–Que bom que eu estava certo!
–Estava... Agora vai ter que me contar sobre o que você sabe de Silent Hill.
–Bem, okay... Acho que já escondi demais. Talvez você esteja pronto pra ouvir a verdade sobre tudo isso que está acontecendo.
–A verdade?
–Sim. Mas primeiro precisamos sair dessa coisa.
–Bem, você sabe o caminho.
–É... Eu sei que eu sei.
Pela primeira vez consegui rir de verdade nessa droga de lugar. Eu sei, não teve a mínima graça. Mas talvez piadas sem graça façam pessoas rirem em momentos horríveis onde não se há resquício algum de alegria. Quem sabe, rir de uma piada sem graça seja o desespero do ser humano em sentir um pouco de alegria quando nada mais lhe resta. Chang riu comigo.
–Bem, hora de irmos rapaz.
Assinto com a cabeça. Chang volta a andar enquanto eu jogo o objeto dentro da mochila mais uma vez e o sigo. Estamos andando em frente e ele parece procurar alguma coisa.
–Achei!
Olho na mesma direção que ele e vejo uma pequena escada enferrujada se projetando para algum objeto quadrado e amarelo, parecido como algum container de colocar lixo.
–Por aqui Matt, vamos descer e então conto a história reveladora pra você.
–Okay.
Chang coloca os pés na escada e pouco depois as mãos. Ele desce devagar, e eu faço o mesmo. Passamos um pouco de tempo trocando os pés e as mãos pelos degraus da escada até que finalmente ele chega até o ponto do objeto amarelo, sendo imitados alguns minutos depois por mim. Ele sorri ao perceber que estamos bem e na parte “normal” de Silent Hill. Andamos um pouco pelo local, um pátio vazio com alguns quiosques de tiro ao alvo e de comida, provavelmente todas estragadas.
–E então, va...
Chang é interrompido por um barulho ensurdecedor, como se fosse ferro batendo em ferro. Detrás de um quiosque sai alguma coisa que vai ficando mais nítida à medida que se aproxima de nós. O melhor de tudo é que Angela descarregou a arma, então não temos nenhuma arma além da pesada chave inglesa. A coisa se aproxima mais e vejo uma criatura aparentemente humana, mas com traços de outras coisas. Era enegrecida, como se estivesse sofrido um sangramento há dias. Seu rosto era deformado e apenas era visível algumas ligas de metal saindo de dentro e entrando no que poderia ser a boca daquela coisa, como se fosse uma espécie de aparelho ortodôntico. Seus braços eram atrofiados, a criatura não vestia nenhuma roupa e não possuía nenhum indício de “homem ou mulher”, tendo mais ou menos um metro e meio. O emaranhado de metal que saía e entrava da sua boca parecia manipulável pela própria coisa, se projetando para dentro ou para fora a medida que a criatura movia a “boca”, fazendo assim um terrível barulho de ferro sendo retorcido por ferro. A coisa se aproximou mais e projetou o metal para fora, acertando em cheio o braço de Chang.
–Chang!
A criatura gritou e partiu para cima de mim. Tento correr e por pouco não sou acertado também pelo “aparelho” da coisa. Vejo Chang tentando se reorientar, seu braço parece sangrar muito.
–Matt, corre pra porta!
Tento olhar ao redor e vejo duas em lugares extremos. Não sei pra qual ir primeiro, então corro até Chang.
–Idiota, eu disse pra você entrar.
–Mas em qual?
A criatura irrompe da névoa se jogando contra nós. Vejo mais uma vez o metal retorcido se projetar pra fora, dessa vez quase acertando meu ombro.
–Ali!
Puxo Chang pelo braço e saio correndo desesperadamente. Jogo-me contra a porta, mas ela não abre. Puxo imediatamente o canivete e abro a porta sem mais problemas, correndo para dentro e puxando Chang. Vejo a criatura ao longe e fecho a porta, trancando-a com o canivete. Sei que isso não vai parar por muito tempo, mas nos dará algum tempo de vantagem. Olho em volta e vejo que entramos em alguma espécie de dispensa. Procuro qualquer coisa e percebo que há várias coisas nesse lugar, desde produtos de limpeza até artigos de primeiros socorros. Aproveito pra fazer algum curativo em Chang.
A criatura começa a investir contra a porta. Chang não fala nada, apenas observa. Não consigo pensar em absolutamente nada para derrotar aquela coisa, que provavelmente vai nos perseguir até nos matar. Mas que diabos de coisa mais feia era aquela? Mais algumas batidas na porta e meu coração acelera ainda mais, fazendo com que eu comece a me desesperar.
–Chang, o que eu faço?
A criatura dá uma terceira investida, conseguindo fazer alguns furos com o emaranhado de ferro.
–Eu não sei... Tô pensando!
–Então pensa rápido!! Essa coisa vai arrombar essa porta e estaremos ferrados.
A coisa investe uma quarta vez, arrancado um pedaço da porta. Agora vemos a criatura mais nitidamente. Ela continua a investir.
–Chaaang!
–Eu não sei, Matt!
–Mais que Droga!
Tento olhar em volta, vejo vários produtos de limpeza, inclusive alguns a base de álcool, contendo um aviso de produto inflamável.
–É isso!
Pego o produto se seguro em minha mão. Tento olhar mais uma vez para as prateleiras da dispensa torcendo pra encontrar uma...
–Caixa de fósforos!
Jogo a caixa de fósforos pra Chang e abro o produto de limpeza. Um forte cheiro de álcool toma conta do lugar. Pego pouco da gaze que sobrou dos curativos dele e molho com um pouco do produto de limpeza, jogando em seguida pra o rapaz.
–Chang, quando essa coisa derrubar a porta, eu vou me jogar nela e tentar derramar isso. Quando eu conseguir, jogue esse rolo de gaze acesa na coisa, entendeu?
–Sim.
A criatura da mais uma investida arrancando mais um pedaço da porta, o que me dá mais tempo, pois parte da porta ficou travada no “aparelho” da criatura. Ela demora cerca de um minuto, talvez o minuto mais longo da minha vida e dá a última investida, derrubando a porta mais com parte presa no emaranhado de ferro. Com o frasco aberto, me jogo com toda força na coisa a derrubando no chão e derramando, no ato, praticamente todo o conteúdo do recipiente na coisa que ainda no chão e atordoada com o forte cheiro do produto de limpeza não consegue se levantar.
–Agora Chang!
O rapaz vem correndo com a gaze pegando fogo e o joga em cima da criatura segundos depois que me levanto. A coisa começa a queimar diante dos nossos olhos emitindo gemidos que quase nos ensurdece. Mas pelo menos a coisa está morta, finalmente. O cheiro de queimado que emana da criatura é horrível, me fazendo quase vomitar. Não consigo acreditar, a coisa era completamente horrível principalmente com aquele aparelho. Aquela coisa que metia medo em qualquer criança, inclusive em mim. Todas as vezes que ia ao dentista... Tinha medo que meu pai me fizesse usar aparelho, medo tivesse que usar aquilo por toda a vida...
–Ufa! Essa foi por pouco... – O rapaz expressa sentando no chão.
–Chang... Essa cidade, ela continua arrancando coisas da minha mente!
–Só da sua? Ah, bem queria que fosse só da sua!
–Como assim?
–Matthew, está na hora de eu te contar tudo!
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