Silent Hill: The Artifact

3 A Lenda de Silent Hill


Notas iniciais
"Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda." - Marcel Jouhandeau

—Segundo a lenda... – ele abre um sorriso – Silent Hill é uma cidade que foi construída sobre um território que um dia foi povoado por indígenas que realizavam rituais no local e o referenciavam como um lugar muito espiritual... – ele passa o slide mostrando índios em volta de uma fogueira – Bem, essa imagem não é do local, mas só usada como exemplo. Naquela época e civilizações desse tipo, era muito comum haver rituais que contam com sacrifício de animais e até mesmo de humanos para a obtenção de proteção ou de bens, tais como alimentação farta, chuva e outras coisas. O lugar foi colonizado por ingleses e vou pular esta parte de coisas históricas as quais vocês vão encontrar nos materiais de vocês como datas, acontecimentos políticos e outras coisas... Quero focar apenas na parte mais “lenda” da coisa. Bem... Os ingleses colonizaram aquela região e como sabemos que os Estados Unidos foi uma colônia de povoamento, foi construída uma cidade no lugar assim como em vários lugares do país. Consequentemente, a interação entre os índios que ainda permaneceram no lugar e os colonizadores promoveu uma alta miscigenação, inclusive na cultura. Os ingleses acabaram aderindo aos preceitos religiosos indígenas e incorporaram alguns poucos conceitos ditos cristãos nessa mistura... O que surgiu disso foi uma nova religião que, de fato, se fundamentou em Silent Hill denominada de a Ordem...

—Professor, e onde entra a parte lendária? – Uma menina pergunta.

—Ah, vou já chegar nessa parte. Os membros dessa religião acreditavam na existência de um deus, anjos e espíritos que cuidavam da cidade e os ajudava a manter a Ordem. Por ser um lugar especial, segundo eles, Silent Hill era abençoada pelos deuses e seria o local onde o deus deles nasceria e traria ordem, luz e o paraíso a Terra. Daí vem o nome da religião. Isso porque a cidade passava por estranhos ciclos inexplicáveis, onde era banhada pela escuridão em momentos específicos, entrando assim em outra realidade e mostrando algo que as pessoas de Brahms costumam chamar de o Outro Lado. Eles também costumam afirmar que a cidade trazia a essa realidade elementos impressos nela mesma de pessoas que morreram lá e das pessoas que estavam nessa realidade, trazendo a cada pessoa uma percepção diferente da cidade.

—Professor, existe alguma explicação para essa cidade apresentar esse Outro Lado? – Resolvo perguntar.

—Bem, não ao certo. Mas segundo o que conheço e o que andei pesquisando, acredita-se que seja devido a uma prisão construída ali em um determinado período. Nessa prisão aconteciam execuções horríveis, tortura e outras coisas piores que promoveram uma energia pesada na cidade. Isso junto com a presença de entidades que eram de certa forma, adoradas pelos nativos e posteriormente pelos membros dessa religião com outro nome. Desse modo, a cidade ficou alterando sua forma e coisas estranhas começaram a acontecer, como por exemplo, a explosão de uma usina de carvão mineral, desaparecimento de pessoas... Ah, vale salientar que Silent Hill era uma cidade turística, principalmente porque possuía um lago chamado lago Toluca. Dizia-se que o por do sol visto desse lago era incrível. Depois de todos esses acontecimentos, a cidade entrou em decadência e várias pessoas morreram principalmente as pessoas que promoviam esse turismo na cidade. Algumas pessoas mais idosas de Brahms ainda contam que viram muitas pessoas saírem da cidade como loucas. Em alguns livros aqui na biblioteca mesmo contam poucos relatos, mas contam alguma coisa. Temos pouca informação sobre isso porque as pessoas que foram à Silent Hill pesquisar sobre isso nunca mais foram encontradas.

—Isso é sério professor? – Pergunta a mesma menina que havia feito outra pergunta.

—Seríssimo! As coisas que tem nos livros da biblioteca foram escritas com muita dificuldade por homens que se encontravam loucos de pedra! Foram os que conseguiram voltar. De alguma forma, eles conseguiram relatar algumas coisas... Mas se você ler a biografia desses homens, escritas por seus filhos, é claro, você verá a morte de cada um. Ou se matou, ou morreu de um acidente catastrófico... Além de ver seus filhos relatando os últimos dias dos seus pais, seu comportamento.

—Professor, o senhor tentou ir lá? – Pergunto.

—Ah, não. Quase não tenho tempo pra fazer pesquisa. Mas bem que eu gostaria muito de ir e verificar com meus próprios olhos a veracidade de tudo isso. – Ele passa o slide e aparece uma menina vestida de roxo, cabelo preto e indiferente. Na foto, estava escrito Alessa. – Ah! Pensei que havia esquecido de colocar!

—Quem é? – Anette pergunta. A turma inteira permanece fixa no professor.

—Essa é Alessa Gillespie. Lembra que eu falei que a Ordem esperava o nascimento de um deus? Pois bem. Segundo essa religião, Alessa foi à escolhida para dar a luz a esse deus. Reza a lenda de que, Alessa nasceu com capacidades especiais... Ela possuía poderes paranormais e por isso era apta a dar a luz a esse deus. Ela foi doutrinada desde criança e em determinada idade, ela teria que dar a luz a esse deus que traria o paraíso na Terra. Porém, momentos antes do ritual ela desistiu, mas o ritual foi realizado assim mesmo. O ritual consistia em queimar o seu corpo para gerar dor e sofrimento na garota, fazendo com que isso alimentasse o deus. Mas aconteceu algo errado e o ritual não funcionou eficazmente, pois Alessa decidiu não gerar mais o deus, conseguindo assim poder suficiente para dividir sua alma em duas. Fazendo isso, ela levou a outra metade de sua alma para longe da cidade, mas de alguma forma tinha poder suficiente para trazer sua vingança para a cidade e todos os habitantes que concordaram em fazê-la sofrer. A lenda continua dizendo que isso fez com que o deus se mantivesse vivo dentro do corpo queimado de Alessa, alimentando-se dessa vingança e dor. Isso fez com que a cidade ficasse mais obscura.

—Mas... Como acabou a história?

—Bem... – Ele pensa um pouco. – Ah, sim! Alessa tentou usar um objeto especial que conferia poder ilimitado e incontrolável para quem o possuísse e o soubesse usar: o Selo de Metatron, uma entidade cultuada ou conhecida por eles que continham o próprio poder dele. Mas, se eu não me engano, e posso trazer na próxima aula para vocês, Alessa não conseguiu usá-lo antes que conseguissem encontrar a outra parte da sua alma e a juntassem, fazendo com que desse origem ao deus. Por fim, um homem conseguiu matar esse deus, não sei como, ou pelo menos retardar seu nascimento, algo assim. A história acaba com a morte de Alessa.

—Professor, o senhor pode falar um pouco mais sobre o selo de Metatron? – Pergunto.

Ele olha pra mim com certo desdém e sorri torto. Seus olhos parecem invadir minha mente e me arrependo por ter feito a pergunta.

—Como é seu nome, rapaz?

—Matthew... – Respondo sentindo-me nervoso.

—Bem, Matthew... O selo de Metatron, segundo a mitologia da Ordem possui todo o seu poder, um poder muito forte e devastador. O usuário do selo pode controlar esse poder, mas de modo bem limitado pois é um poder de uma entidade muito poderosa para eles. O selo (ele mostrou um slide que mostrava uma espécie de artefato circular com um símbolo que possuía um círculo com algumas palavras escritas e uma pirâmide no meio) de Metraton tinha alguma importância no que se diz respeito a impedir o nascimento do deus que estava sendo gerado em Alessa, mas não se sabe como. Inclusive, Matthew, eu peço até desculpas por não poder falar muita coisa, afinal, é uma lenda um pouco explorada. Próxima aula eu pretendo trazer algo mais pra vocês antes de começar sobre o próximo assunto. Bem... Estão liberados por hoje.

Todos os alunos começaram a se levantar, pegando suas mochilas. Eu fiz o mesmo e saí da sala esperando Anette. Não consigo parar de pensar em tudo isso que ouvi na aula. De algum modo, sinto que talvez isso tenha algum respaldo real, mesmo não tendo muita esperança. Talvez fosse o momento de tentar pela última vez. Durante todo o curso, ouvi falar sobre mitologia e lendas várias vezes e tentei investigar a maioria delas... Mas nunca encontrei algo que realmente comprovasse de fato a veracidade delas ou pelo menos alguma relação entre o mundo material e outro mundo, que me parece cada vez mais se esvair das minhas crenças.

—Legal essa aula, não é?

—Ah, Anette... Gostei bastante. Você não imagina as coisas que voltaram à minha mente.

Começamos a andar para fora do departamento nos direcionado ao estacionamento. Anette sorri ao me ouvir falar.

—Sei... Vai começar com aquela paranoia de novo? Matthew! São mitos e lendas, nada disso é real.

Reviro os olhos. Estamos atravessando agora o estacionamento e chegando ao meu carro.

—Quer uma carona?

—Não, obrigada. Eu vim no carro de uma colega minha... Acho que ela está... Ali! – Ela aponta para um carro branco do lado oposto ao do meu carro. – Tchau Matthew, até próxima aula. Vê se não volta para aquela vida de doido caçador de mitos! – Ela ri.

—Há há há! Achei muito engraçado... – Entro no carro, faço o conhecido ritual. Passam-se dez minutos e estou sentado de frente ao meu computador, refletindo sobre a aula que acabei de assistir. Se eu encontrasse pelo menos alguma prova, sei lá... Talvez aquele selo de Metatron... Seria incrível se ele funcionasse exatamente comigo. Claro que, talvez seja utopia achar que logo comigo isso funcionaria e talvez metade do que o professor disse não seja verdade. Mas... Seria legal tentar.

Começo a vasculhar na internet buscando informações sobre Silent Hill e o Selo de Metatron. Depois de cinco minutos, sinto sono e decido deitar ainda lembrando de tudo que vi na aula. Adormeço.

Notas finais
Os acontecimentos deste capítulo são anteriores aos eventos ocorridos em Prólogo, todavia posteriores aos descritos em Aula de Mitologia.