Silent Hill - Dead Memories
2 Episódio Dois - "Welcome to Silent Hill"
Há um circulo feito do meu próprio sangue. Insígnias que não sei o significado, e um pentagrama perfeitamente traçado. Estou fraca e tonta, mal consigo diferir o que ou quem está ali. Tudo escuro, breu total. Sombras. Pessoas encapuzadas. Velas negras e um terrível cheiro de morte. É podre e ácido. Meu coração palpita, mas a cada vez que tento respirar, é como se meus pulmões falhassem um pouco mais, até que não haja mais oxigênio e meu coração pare.
Vejo um rosto em meio aos outros encapuzados. É familiar, mas não consigo distinguir os traços, logo vejo apenas um borrão cor de pele e olhos insanos e brilhantes me encarando. De minha barriga, este ser arranca um feto.
Um feto morto.
Meus braços sangram, pois luto para me libertar, e cada vez que faço isso, as correntinhas finíssimas e enferrujadas penetram na minha pele. Eu posso sentir a minha carne sendo dilacerada, e a minha vida – ou pelo menos o pouco que dela sobrou – desvanecendo-se por entre meus lábios que balbuciam palavras sem sentido. Consoantes e vogais que tentam formar um pedido de socorro.
Eu vejo a pessoa cujo feto de mim retirou beijando este na testa. É tão aterrorizante que rezo para que seja morta o mais rápido possível. Eu só queria poder fechar os olhos e ir para um outro lugar. Quando faço isso, vejo uma cidade.
Nela chove torrencialmente, e às vezes há uma névoa sombria, mas nunca há sol. Nunca.
As pessoas dizem que quando você está há um milésimo de morrer – ou pelo menos quase isso – sua vida passa como flashbacks em sua frente. Tudo o que vejo nesse momento são rostos. Os olhos simpáticos de Mattew, o sorriso sarcástico de meu pai Thomas, e o doce abraço de minha mãe Maryanne. Anne.
–Agora contarei de 3 à 1 e você abrirá os olhos lentamente. – O Dr. Patterson fala. Sua voz possui sempre o mesmo tom suave. – Três...
E então me obrigo a olhar para cima. Fugir daquele lugar horrível. Meus cílios curtos e pintados com rímel preto levantam-se sutilmente e meus olhos então deslumbram do teto branco e opaco do consultório. São dezessete horas e vinte e três minutos.
Respiro ofegante, e é sempre assim após cada sessão. O doutor me observa solenemente. Ele é magro, tem as maçãs do rosto bem decalcadas e olhos fundos, rodeados por uma olheira de quem tem uma insônia crônica tenebrosa. Sua barba é rala, concentrando-se no queixo e no maxilar. E também um bigode.
Não sou boa definindo personalidades, mas poderia dizer que ele é o mais perto de um amigo que tenho. Geralmente, quando termina seu expediente, tomamos um café juntos e ele me conta histórias sobre os outros pacientes. Também sei que posso contar com o mesmo. Então não, ele não é um amigo. É um pai.
–O que viu dessa vez, Morrigan? – Ele pergunta. Levanto-me e sento, me apoiando com os braços de forma que fico com as costas eretas e os pés encostados no chão.
–O de sempre. Estou numa espécie de ritual e sou a oferenda. E então depois eu vejo o papai, Matt e mamãe. Isso tem algum significado? – Questiono o mesmo e ele sorri.
–É para isso que você faz as consultas, não é mesmo? Um dia descobriremos. – Ele responde simpático, e então assino a ata para confirmar que fui à consulta e vou embora.
O consultório é três quadras distante de minha casa, e é por isso que vou caminhando. Acendo um cigarro, trago o mesmo e baforo a fumaça lentamente. Observo as pessoas ao redor e são todas tão cinzas. Tão branco no preto. Uma gota do oceano. Imagino o inferno pessoal de cada uma delas. Todos nós temos nosso inferno pessoal.
Jogo a bituca do cigarro no lixo e acendo outro. Sou uma compulsiva. Não há nada com a qual eu consiga lidar sem ser descontroladamente. Tenho dezoito anos e nunca sequer fui para a faculdade. Meus pais estão mortos e meu irmão mais velho é um maldito bem sucedido que me ignora. Talvez pelo fato de que a única coisa em que sou bem sucedida é fracassar.
Estou em casa. É um apartamento minúsculo, bagunçado e claustrofóbico. A sala e a cozinha são uma coisa só. Tem um frigobar e um microondas, com uma mesa de ferro velha no canto superior esquerdo do cômodo e um sofá rasgado com uma televisão antiga em cima de um móvel amarronzado corroído por cupins. O cheiro predominante é ácido, doce, enjooso, desconfortável.
Gosto daquele pensamento de que refletimos na nossa casa quem somos nós.
Entupo minha boca com comprimidos e então os engulo com a ajuda de um copo de vodka. Fecho os olhos e me jogo no sofá.
Vejo tudo um pouco embaçado, e o ponto focal muda, as vezes longe, as vezes perto. Gostaria de entender por que todos que amo vão embora.
Por que sempre gero o caos.
Por que sou o caos.
Não há nada que eu possa fazer para mudar o que aconteceu, mas se houvesse... Qualquer que fosse. E nem que valesse a minha vida, ou até mesmo a minha sanidade mental. Eu faria, e sem pensar duas vezes.
São vinte horas e vinte e sete minutos, o céu está cinza grafite, mas mesmo assim tenho de ir trabalhar. Sou música e toco blues em um restaurante há cinco quadras e três ruas da minha casa. É assim que sustento meus vícios, e é assim que orgulho minha família.
Caminho com a guitarra nas costas, os cabelos curtos e negros cujas pontas são tingidas por anilina púrpura. Os meus olhos são de um verde esmeralda, e em meu rosto, sardas dão à maçã do mesmo uma certa sutileza. Sou uma massa morta, que apenas existe, mas deixou de viver há tempos.
Chego ao trabalho e Phylis está lá. Ele é o vocalista da banda contratada pelo bar, eu sou a guitarrista substituta, e como o cara que deveria está aqui vive internado por não saber se chapar, é com isso que ganho meus trocados.
O bar/restaurante já está um tanto cheio. Vivo numa cidade de boêmios, e assim como eu, é o álcool e as drogas que os mantêm respirando. Vá em qualquer bar às dezoito horas da manhã e verá um punhado de adolescentes rebeldes vomitando nas calçadas e um outro punhado de universitários bêbados conversando sobre coisas sem sentido. Talvez no bar de motoqueiros à leste da rodovia principal você encontre alguns caras mais velhos.
Toco os acordes, mudo a afinação, toco mais acordes, solo, arranho a guitarra, e vejo pelo menos umas três pessoas que estão tão desnorteadas que acabaram por sentar-se na frente do minipalco onde toco. À cada três músicas – geralmente toco nove – há um intervalo de cinco minutos onde eu e os outros músicos vamos para trás do bar e debatemos sobre qualquer coisa relacionada aos velhos e bons clássicos. Bebemos, fumamos e tomamos uns comprimidos. Então voltamos a tocar e até desafinamos, mas somos só mais um daquele monte de bêbados perdidos, estamos em sincronia e que se dane, não há nenhum grande conhecedor de música em um bar às vinte horas e cinquenta e nove minutos.
O show acaba, guardo a guitarra e vou embora. É meia noite. As ruas estão ainda mais movimentadas.
Chego em casa e percebo que há algo de errado.
A porta está entreaberta...
Apanho de meu coturno um canivete e me armo. Mas quando chuto a porta, a única coisa que me ataca é um bando de corvos.
Corvos...? Observo o local. Está tudo exatamente do jeito que deveria está, exceto pelo fato de que na mesa onde costumo jantar há uma caixa.
Caminho em direção a mesma cautelosamente.
Arranco a tampa e jogo fora. Minha face é tomada por uma expressão de espanto.
Há dois bonecos de pano dentro da caixa, exatamente iguais à mim e a Matt, quando éramos crianças – na verdade, Matt era adolescente. O boneco dele está rasgado, e na caixa só vejo uma metade do mesmo. Colada à minha boneca, que está suja e fede à podridão, vejo um bilhete. Nele diz com letras confusas:
“Matt veio ver a mamãe. Por que a Morrig também não vem?”
Pasmo e minha pele branca se torna ainda mais pálida.
Minhas mãos tremem e entro num súbito desespero.
Apanho meu telefone e digito rapidamente o número da casa do Mattew. A esposa dele atende:
–Alô? – Sua voz está trêmula, como se chorasse há pouco tempo.
–Caroline, é a Morrigan. Matt está bem? – Posso ouvir os soluços de choro quando falo isso. – Caroline?
–Ele, ele sumiu há cerca de dois dias. Estava estranho e violento. – Ela respondeu, e após se acalmar um pouco, continuou. – Parou de ir trabalhar e foi demitido. Quando questionei o comportamento dele, quase me bateu. Tudo isso depois que começou a ter sonhos estranhos e em seguida recebeu uma carta. – Agora parecia mais calma e falava tudo pesadamente, mas de forma sincera.
–Que carta? – Por um instante, ela hesita.
–Prefiro falar sobre isso pessoalmente. – Posso sentir a respiração ofegante e estou tão confusa que a essa hora não sei mais o que está acontecendo. – Vá até o Barker’s Coffee. Estarei lá. Por favor, rápido. Eu preciso da sua ajuda.
Visto meu sobretudo e vou até a cafeteria. Chove torrencialmente de uma maneira que nunca havia chovido aqui antes. Estou trêmula e tonta. Peço inconscientemente que isso não seja nada mais do que mais um dos meus sonhos.
Estou no café. A rua está deserta e não há um pé de alma viva por aqui. A porta parece me convidar misteriosamente para entrar, pois quando me aproximo, esta se abre, rangendo.
Uma luz falha pisca alternadamente, iluminando quase que nada do ambiente, mas o suficiente para que eu possa enxergar uma pasta suja de sangue em cima de uma das mesas. Aproximo-me.
Várias fotos antigas minhas com meus pais e meu irmão mais velho na cabana próximo ao lago. A cabana onde costumava passar as férias com minha família. Aquela onde minha mãe desapareceu. A cidade que assombra meus pensamentos e me torna um pouco mais insana a cada dia.
Silent Hill.
Um papel amarelado cai da pasta e pousa sobre meu pé. É a carta. A carta que fez com que Matt perdesse todo o seu bom senso e fosse embora.
A caligrafia é idêntica a da minha mãe. Apanho a mesma e a leio:
“Filho, há tempos penso em lhe enviar esta carta, mas agora sei que é a hora certa. Estou lúcida e os traços da doença e da insanidade que marcavam meu rosto e tiravam suas noites de sono – sua e de sua irmã – foram embora. Eu estou bem e sinto que agora tenho forças para abraçá-lo. Soube por outros do seu grande sucesso, e digo que sempre acreditei nisso. Sempre vi nos seus olhos o quão é um garotinho especial, e sempre será. Sinto sua falta, e sinto falta de Morrigan, assim como também sinto falta de seu pai. Vago por estas ruas e tento encontrar uma forma de sair daqui, mas sei que não vou conseguir. Não enquanto não lhe ver. Não enquanto não ver Morrigan. Por favor, eu sei que no fundo do seu coração, você acredita. Você sabe que eu nunca fui embora de verdade. Sabe que eu espero. Sempre esperei. Com amor, mamãe.”
Todo mundo diz que pelo menos em um momento de sua vida, você terá os vinte segundos de coragem insana onde a adrenalina toma conta de todo seu corpo e você faz o que lhe der na telha.
Eu peguei as chaves do meu carro, joguei numa mochila alguns remédios, comida, dinheiro e cigarros. Entrei no carro, dei a partida e acelerei.
A estrada é de uma mão só, e não há um carro sequer por aqui. É tão escuro que os faróis do meu carro já não adiantam grande coisa. Acelero, e sinto a adrenalina controlar minha mente. Eu não sei por que, e nem sei como, mas sinto que já estou perto de Silent Hill.
Percebo isto melhor quando vejo a névoa, e a chuva. Ligo o para-brisa e limpo o vidro, mas quando me dou conta há algo no meio da estrada. Uma menina.
Desvio o carro, que perde o controle e capota. Capota, capota, capota.
Estou desnorteada, e os vinte segundos de coragem insana se foram. Vejo pés, e ouço risadinhas de criança.
Algo leva a mochila que carregava comigo e havia caído do lado de fora do carro.
Soco o vidro do carro que se espatifa em pedaços e arranco o cinto com o canivete que está no porta malas.
Arrasto-me, e não há sinal da menina que roubara minha mochila.
A minha mente roda, a névoa me deixa desnorteada e perdida, e a chuva machuca os cortes nas minhas pernas. Caio ajoelhada no chão.
À minha frente uma placa enferrujada, com letreiros brancos e de um tom bronze, confirma o que eu já sabia. De uma maneira nada convidativa, a placa diz “Bem vindo à Silent Hill”. Era o que dizia antes pelo menos, já que agora riscaram o “O” de Vindo, e trocaram por um “A”.
Ando alguns metros, arrastando-me e só então me escondo atrás de um carro velho. Fecho os olhos, pois já não consigo mantê-los abertos. Talvez alguém me ajude, talvez haja alguém aqui.
O que importa é que alcançarei meus objetivos.
Levarei Matt para casa e socarei a cara do que for que tenha feito esta pegadinha de mal gosto.
E aquela garotinha, vai me devolver a minha mochila.
Não sinto mais minhas pernas, e antes de fechar os olhos por completo, vejo a silhueta negra de um homem. Ele aponta uma arma para mim, depois verifica meu pulso e me coloca dentro do carro velho.
Ouço a voz grave dizer “Mas que merda você está fazendo aqui garota?”
Ele limpa os ferimentos e me dá um comprimido que faz com que eu me sinta melhor. Ainda estou tonta, sentindo que estou prestes a desmaiar.
–Obrigada. – Agradeço. O homem me encara sério. Ele veste jaqueta jeans, camisa xadrez e calça jeans com sapatos velhos. Usa um boné e seu cabelo é na altura do queixo. –Morrigan.
Ele me observa e da a partida. Dirige até uma farmácia antiga e estaciona o carro nos fundos.
Quando entramos dentro da farmácia, ele tranca a porta. Há uma gambiarra que faz com que haja energia no lugar.
Ele tira o chapéu e se senta.
O remédio que me deu não faz mais efeito.
Desmaio, mas antes disso, lhe conto o que aconteceu e ele diz, me ajudando a deitar no chão.
–Descanse. – E meus olhos se fecham.
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