Silêncio nas montanhas

16 Capítulo 15: O infiltrado


Peter/Ben

Após a aula, segui com o meu combinado com o Max e fomos juntos estudar trigonometria na minha casa. Eu não sabia que merda eu havia feito para Deus estar me punindo desse jeito, mas como "nunca é dado um fardo maior do que você aguenta carregar", eis aqui meu fardo.

Chegando em casa, meu pai pareceu radiante quando viu que o Max estava comigo, e a cada atitude dele eu sentia mais nojo por ter o nome dele na minha falsa certidão de nascimento. Minha mãe havia feito uns lanches para a gente, e fomos nos sentar na sala de estar para estudar.

— Finalmente você tomou algum juízo. Soube que terminou com aquela menina, Nicole, né?

— Achava incrível como as notícias corriam rápidas na cidade, mas a performance da Nicole foi um show que realmente deveria ser compartilhado.

Preferi me manter quieto, mas obviamente ele ia continuar falando merda.

— Você precisa manter um relacionamento com pessoas influentes, que podem edificar sua vida, como os Thompson. Não é mesmo, Max? — E podem pagar o suficiente para você dar fim a um bebê. Muito edificante. Só olhei para o Max, sorrindo e perguntei:

— Qual sua dúvida em trigonometria?

— Assim, cara, eu não sei diferenciar as formas, sabe... Seno e cosseno... o que que é isso? Não sou uma negação, mas falta entender isso, sabe? O que o seno e o cosseno têm a ver com o triângulo? Parece uma parada muito sem sentido, só isso mesmo que era a minha dúvida. Nada muito surreal.

Por que eu não gravei essa fala? Nick ia chorar de rir ouvindo isso.

Ele só não sabia isso... Minhas expectativas já eram baixas, mas essa me pegou de surpresa.

Respirei fundo, tentando a todo custo não rir e pensar em como explicar trigonometria para um completo idiota.

— Beleza, vamos lá! Trigonometria parece um bicho de sete cabeças, mas na real, é só sobre triângulos e ângulos. Pensa assim: imagina um triângulo retângulo (aquele que tem um cantinho de 90°). A trigonometria basicamente responde perguntas tipo: Se eu sei o tamanho de um lado, como descubro os outros? Se eu sei um ângulo, como descubro os lados? Agora, tem três fórmulas que mandam na parada.

Escrevi do jeito mais simplificado possível, com todos os truques que conhecia, e o idiota continuava sem entender. Tive que reexplicar pelo menos duas vezes. Como essa pessoa estava há um ano de se formar? Nick estava certa, o nosso sistema educacional era falido.

Depois de três horas de suplício, ele foi embora sabendo pelo menos como era a fórmula do cosseno e do seno. Já era mais do que aquele infeliz havia aprendido em toda a vida. E, diga-se de passagem, tivemos que contornar duas crises de raiva porque ele não conseguia decorar a fórmula. Acho que a Joe realmente tinha razão sobre ele ter algum transtorno mental. Não era algo normal. Era como se, de repente, ele não fosse mais ele, e aquilo me assustou. Eu não sabia o que ele iria fazer se eu o corrigisse. Deixei um monte de exercícios errados porque simplesmente não queria dizer que aquela outra "coisa" estava errada.

Acho que, no fundo, os professores o aprovam por medo do comportamento dele ao ser contrariado ou por medo da família. Talvez ele seja o resultado de crescer com uma família ameaçadora e problemática. Demorei um pouco para entender o que tinha acontecido na aula e quão rápida foi a mudança no temperamento dele. Não foi como se ele tivesse se estressado de maneira gradual. Eu apenas havia dito:

— É quase isso, mas temos que acertar essa fórmula...

E quando fui corrigir, ele simplesmente pegou o lápis da minha mãe e jogou na parede.

Meu pai fingiu que não foi nada e disse:

— Relaxa, isso acontece sempre, escapou da sua mão.

Tentei seguir como se não tivesse me abalado, mas, quando ele finalmente foi embora, percebi que queria muito vomitar. No banheiro, liguei para Nick e disse que iria para lá às 23h, logo depois que meu pai dormisse.

Saí do banheiro ainda respirando fundo. Nem quis jantar e fui aproveitar as poucas horas que tinha para descansar. Pedi para minha mãe me acordar às 22:30h, e ela prometeu que o faria.

Às 23h, já estava pronto para sair. Olhei mais uma vez para ter certeza de que todos haviam dormido e saí devagar pela janela, tomando cuidado para não me arrebentar igual da última vez. Como seria estranho alguém correndo no meio da rua àquela hora, cortei caminho por dentro da floresta. Sabia exatamente a rota para sair atrás do celeiro da casa da Joe. Enquanto corria, pensava por quanto tempo eu aguentaria aquela jornada e por quanto tempo seria necessário para chegarmos ao final disso tudo.

Quando cheguei, já fui recepcionado por um amigo da Joe que estava lá e não me deu um tiro por ter sido avisado que eu viria pela floresta. Eu não havia comentado com a Nick sobre isso, mas claramente havia subestimado a Joe.

— Boa noite, senhor. Me chamo Peter, a Nick e a Joe estão me esperando.

— Sim, sim, elas me avisaram que você chegaria. Mas você me deu um baita susto.

— Desculpe, senhor, não foi minha intenção.

— Me chame de Alfie, Peter.

— Claro, Alfie.

Ele apontou para o celeiro, e fui andando até lá.

Assim que abri a porta, fui recebido por um abraço da Nick, que eu não esperava, mas estava precisando. Parecia que todos os meus problemas durante o dia haviam sido completamente irrelevantes.

— Está com fome? Vovó fez lasanha.O cheiro da comida estava ótimo, eu não tinha como recusar.

— Claro, acabei não jantando para dormir um pouco.

— Como foi a aula com o Max?

Ela já me perguntou sabendo que eu faria careta.

— Bem, se antes você suspeitava que ele tinha algum transtorno, hoje eu tive certeza. O Max arremessou um lápis na parede da minha casa quando fui corrigir um exercício que ele havia feito completamente errado, mas eu disse que só precisava mudar um pouquinho...

Enquanto eu falava, a Joe trouxe um prato com um pedaço generoso de lasanha, colocou na minha mão e me arrastou até a mesa.

— Come e fala, assim a gente agiliza.

— E como ele tá em trigonometria?

— Ele nem sabe o que o triângulo tem a ver com a trigonometria.

— Mas como ele passou?

— Você ouviu a parte em que eu disse que ele arremessou um lápis na parede tão forte que quebrou o lápis? Que professor arriscaria reprová-lo?

— Seu pai não viu nada de errado no comportamento dele? – perguntou Nick e parecia que ela de fato não havia entendido como era a dinâmica na cabeça do meu pai.

— Disse que acontecia, que não era para ele se preocupar. Ele nunca vai tomar qualquer decisão que faça com que pare de receber propina. Na verdade, eu nem acho que ele pense estar correndo risco de vida, ele só quer continuar ganhando o dinheiro fácil dele. Acreditando fielmente que é mesmo amigo dos Thompson e que não faz parte da grande massa de manobra que é comprada na cidade. Hoje, eu não sei quem é mais burro o Max ou o meu pai... Mudando de assunto, descobriram mais alguma coisa?

— Sim que o álibi do Carl Thompson é falso porque encontramos fotos dele no dia aqui na cidade. – Nick pegou as fotos para me mostrar.

— Mas quem tirou essas fotos? Sua mãe?

— Não, o Joseph. Ele passou dias seguindo os Thompson e ele deixou uma carta para a esposa dele enviar todo o material para a minha mãe na Flórida, que ela saberia o que fazer, caso algo acontecesse com ele. Mas só as fotos não provavam nada; apenas que eles haviam mentido sobre o álibi. Além disso, tinham a declaração de vários médicos afirmando que Carl havia dado entrada lá.

— Mas eu lembro muito bem de ter visto esse menino quando estava indo na floricultura, o Joseph queria que testemunhasse, mas a Nora pediu para que eu não me metesse e que ela ia tentar fazer o possível. – Ela parecia realmente triste com isso. – Eu tinha me decidido já em ir, mas a Nora me ligou implorando para que eu não falasse nada. Eu me arrependi por muitos anos, mas fiz o que meu coração de mãe pediu

— Não ia mudar em nada seu depoimento, só iam te matar para você não testemunhar perante o júri.

— Também achamos o álibi do Willian Barns, no primeiro relatório ele disse que estava limpando a igreja na hora e o padre confirmou. Mas no segundo depoimento o padre disse que havia confundido as datas e não confirmou o álibi. Dois dias antes, o irmão do padre deu entrada no hospital depois de ser atropelado enquanto fazia sua caminhada matinal.

— Nossa, que coincidência – mais um para conta dos Thompsons. – Ele sobreviveu?

— Sim. E todas as despesas médicas foram pagas por Alex Thompson que deu uma entrevista ao jornal local dizendo que se sentiu tocado com o tamanho horror que aconteceu com o Irmão do padre e que sentiu um chamado divino para pagar pelo tratamento e recuperação dele.

— Estou começando achar que não tem lugar no inferno que possa causar o sofrimento que esses filhos da puta merecem. – Eles estavam me fazendo questionar tudo em que eu acreditava. – Como pode existir pessoas assim?

— Eu nem sou religiosa, mas sei a resposta: Todos temos o livre arbítrio de sermos e fazermos o que bem entendermos. Não deixe a sua raiva e frustração questionar sua fé. Você se manteve firme mesmo depois de todas as merda, não deixe que eles tirem isso de você. Não que eu acho que você precisa ser cristão, mas eu acho que a sua fé é importante para você. Não dê esse poder a eles. – Nick sempre sabia como ser a voz da razão quando minha mente começava a se perder em contradições.