Silêncio nas montanhas
15 Capítulo 14: Terra Selvagem
Peter
Depois que a Joe foi embora, pude finalmente parar de fingir que estava doente, como o Hank. Não conseguia mais chamá-lo de pai, nem mesmo em pensamento. Minha mãe trouxe um lanche para eu comer antes de dormir. Eu me sentei na cama, encarando-a, enquanto minha mente fervilhava com tudo o que havia descoberto. Aquela sensação de estar perdido me consumia. Eu precisava falar com alguém. Ela não podia ter feito parte de algo tão hediondo como aquilo. Ela me criou com tanto carinho e paciência... Como pode ter me roubado da sua melhor amiga?
— Mãe, você sabe de quem eu sou filho, né?
— Não conhecia seus pai...
De pronto, interrompi ela.
— Não minta. Você sabe quem são meus pais, não sabe? Sabe o motivo de eu nunca poder ir ao hospital, sabe o motivo de o Hank não ter querido voltar... — Meus olhos começaram a marejar. — Ela era sua amiga... Como pôde?
Naquele momento, vi que ela havia entendido a pergunta e que era a resposta que ela mais temia em me dar.
— Eu não sabia... Uma assistente apareceu com você em Nova York, e seu pai logo quis fazer tudo muito rápido. Não vou mentir, sua adoção não parecia ser algo legal, mas eu queria tanto um filho... Só percebi que era você quando fui te dar banho e vi a marca de nascença. Eu procurei a assistente social, mas ela não me atendia. Depois acabei descobrindo que ela havia infartado e o caso estava sendo investigado. Fiquei sem saber o que fazer. Eu sabia que seu pai deveria estar enrolado até o pescoço com isso. Se eu te entregasse para a polícia, você iria para um abrigo. Eu fui egoísta, mas tentei honrar a memória da Maggie. Eu queria te chamar de Benjamim, mas seu pai não quis. Disse que manteríamos Peter. — Ela começou a chorar. — Eu voltei porque queria que você vivesse onde tinha nascido. Foi egoísmo meu, eu sei, mas o Hank não pode nem sonhar que você descobriu. — Ela soluçou e passou a mão no meu rosto. — Eu não estava envolvida com a morte dos Foster. Eu não sei como você chegou até Nova York. Eu juro.
— Eu acredito. Porque eu sei quem me levou para Nova York.
— Quem?
— Hank. Ele recebeu uma grande quantia dos Thompsons antes do assassinato e viajou para Nova York, onde ficou por três dias.
— Ele me disse que ia atender um paciente que estava mal, internado em Nova York.
— Ele sacou mais de 30 mil dólares dos 100 mil que recebeu dos Thompsons. Com certeza era para pagar alguém. Só parou numa farmácia e em um brechó no caminho. Ele me largou lá com alguém. Meu nome não existe no sistema da fila de adoção. Não tem nenhum Peter Cameron. Era isso que a Nora ia vir falar com você.
A gente se entreolhou em meio às lágrimas.
— Eu acho que talvez a gente tenha que sair da cidade, sem o Hank, e recomeçar em outro lugar. Agora que comecei, eu mereço saber toda a verdade. Por favor, não tente me impedir. E se contar ao Hank, vai assinar minha sentença de morte.
— Eu não consigo sair daqui, querido. Mas prometo que vou te proteger com a minha vida, se precisar. O Hank não vai saber de nada.
— Por que não consegue sair daqui? Vai me deixar sozinho? — Como ela podia fazer isso comigo?
— Quando estiver bem longe, junto com a Joe e a Nick, eu vou contar tudo que sei a todos os jornais que me ouvirem.
— Vão te matar.
— Eu preciso fazer isso. Perdi minhas duas melhores amigas e roubei o filho de uma delas. Eu mereço morrer. Mas eu não vou cair sem lutar. Eu preciso que você não esteja aqui. Nem a Nick. Eu vou proteger o legado delas. Sem isso, nunca vou ter paz. Me entenda.
Eu ainda estava chorando, pensando em como convencê-la do contrário.
— Eu preciso acertar as contas com o meu passado. E não pense que só a nossa família estava envolvida com isso... Os policiais corruptos, o delegado que prendeu o Barns, o promotor que acatou a denúncia sem provas e o juiz que o condenou... Quando tudo surgir, essa cidade vai ficar coberta por um banho de sangue. Hank se acha muito especial para os Thompsons, mas vamos ser um dos primeiros a morrer.
Ela me abraçou, ainda chorando.
— Eu sei que não fui sua mãe nas condições certas, mas eu te amo, filho. Na hora que percebi quem você era, soube que não podia demonstrar ao Hank que eu sabia, porque ele deve pensar até agora que o plano dele foi infalível. Por isso ele está tão obcecado com o seu relacionamento com a Nick.
— A gente vai fazer um grande show no refeitório para fingir que terminamos algo que nem começamos. — Eu sabia que era a opção correta, mas me deixava com uma raiva enorme.
— E vou virar o melhor amigo do Max.
— Você odeia ele.
— Mas ele precisa de ajuda em trigonometria. Se não for eu o tutor, ele vai procurar a Nick. Quero manter aquele idiota longe dela.
— Traga o imbecil para estudar aqui em casa. Assim, seu pai se acalma, e você pode sair à noite para ver a Nick, se a Joe concordar. Vou conversar com ela mais tarde, esperar o Hank dormir.
— Ele acordou. Está vindo aqui. — Eu reconhecia o passo dele.
— Deite-se e finja que está com dor ou algo do tipo.
Assim que terminei de deitar e me arrumar, minha mãe colocou a mão na minha cabeça e a porta se abriu:
— Está fazendo o que aqui?
— Vim ver como o Peter estava, e a febre dele voltou. Precisa de algo amor?
— Sim, preciso que a minha esposa cuide de mim, estou com frio, preciso de mais cobertas. Você só se preocupa com ele.
—Desculpe amor, eu já dei o remédio para ele, vou lá para te cobrir.
Ela deu um beijo na minha testa e sussurrou: seja um bom menino, eu sei me cuidar.
A porta se fechou logo depois e ainda dava para ouvir ele aos gritos com ela. Se ele podia se levantar para vir até aqui como não podia pegar a própria coberta. Que merda de pessoa
A noite foi longa e sem sono. O dia seguinte chegou rápido demais, e eu já estava me arrastando para fora de casa. Eu tinha que falar com o Max para ele vir estudar comigo depois da escola logo que chegasse, para tentar afastar ele da Nick na hora do refeitório.
Amanheceu e já era a terceira ou quarta noite que eu não dormia... meu cérebro já estava ficando lento, minha cabeça doía tanto e meu estômago estava se recusando qualquer comida.
Me arrumei e sai o mais rápido que pude de casa, fui a pé para ver se encontrava o Max, o ônibus demoraria ainda para passar e ele curtia chegar cedo para ficar com a gangue dele. A
Assim que cheguei ele estava onde eu previa, no muro com o grupo de drogados dele, fui até ele e dei um bom dia. Ele pareceu não entender nada então tive que explicar.
— Nicole me disse que precisa de uma ajuda em trigonometria, é verdade?
— Oh, então a feministazinha passou a mensagem – Isso é só um teste, respira a fundo.
— A Nicole me falou que foi até lá pedir ajuda, mas caso você não saiba ela é péssima em trigonometria.
— É ela me disse algo do tipo.
— Então vai querer minha ajuda?
— Sua namorada vai estar lá também?
— Não estamos namorando.
— Disse isso a ela já? Porque ela está igual a uma idiota te esperando na entrada.
— Ainda não mais de hoje não passa.
— Qual o problema dela, cara?
— Louca e complicada demais, não vale esforço – cada palavra que saia da minha boca parecia tão errada que me deixava com mal-estar pior do que eu já estava.
— Eu ia tentar investir nela, cara
— Nem perca seu tempo, deprimida e louca demais e vive sempre com a avó que outra maluca.
Por favor, deixe as duas em paz, são as melhores pessoas que eu já conheci e as únicas que estão me mantendo são no momento. Eu não posso perdê-las.
— Então trigonometria, depois da aula na minha casa? Pode ser?
— Combinado, cara. Se eu passar vou te recompensar.
Eu só sorri e dei tchau antes que a minha cara de nojo me entregasse.
Andei até a Nick, não a abracei como de costume e ela não me entregou um saquinho com um lanche reserva, ela só me disse:
— Coloquei no seu armário – nos dois tivemos que conter o sorriso. Caminhamos juntos até a sala de aula dela. – Preparado para o Show no refeitório?
— Nem um pouco. Mas vamos lá. Por favor, ignore o que eu vou falar, não é minha opinião. E parte do plano é te chamar de louca.
— Tudo bem, nerd sem graça.
Eu a puxei para o corredor, um pouco mais afastada da entrada da sala.
— Acho que antes de dizer toda uma mentira, você merece saber a verdade. Você é uma pessoa incrível que me tirou do fundo do poço e sua avó é a criatura mais bondosa que eu já conheci em toda a minha vida. Eu sei que você veio para cá por causa de um trauma horrível, mas te conhecer foi o ponto alto da minha vida. Não chora, eu preciso terminar. – Ela respirou fundo – Em resumo, o que eu quero te dizer é que... eu te amo. Guarda isso quando a gente estiver brigando, porque eu não posso te magoar.
— O sinal já vai tocar.
E assim foi, o sinal tocou.
— Peter – ele chamou baixo e falou tão baixo que tive que fazer leitura labial – Eu também te amo.
Nos outros dias eu queria que as horas passassem rápida para ver a Nick na nossa janela, agora, eu queria que cada aula demorasse o dobro do tempo. Com certeza ela sacaria alguma teoria sobre relativismo do tempo no contexto psicológicos e me daria uma aula sobre isso. Preciso me manter focado nisso.
O sinal do intervalo tocou e meu coração veio até a boca, fui andando o mais lentamente que podia, eu não queria aquilo. Queria sentar e ouvir a Nick contar alguma piada sobre o pai dela... ou contar um pouco do irmão. Não sei nada do irmão dela...
Foco, Peter, você precisa de foco.
Sentei-me na mesa com a cara fechada e percebi pelo canto do olho que o Max estava de olho, que comece o show.
— Precisamos conversar – disse um pouco mais alto do que normalmente a gente conversa
— Sobre? – ela fazendo essa voz ingênua me dava mais vontade de não continuar com aquele show. – Sobre o fato de ter me dado um bolo no sábado e não ter respondido nenhuma das minhas ligações? Com quem você estava – Ela percebeu que eu ia precisar de uma ajudinha, porra, como ela consegue ser brilhante.
— Eu te disse que esta doente! – Falei mais alterado.
— O final de semana inteiro? E nem podia atender meus telefones?
— Qual é você me ligou 18 vezes! Isso não é normal.
— AH AGORA VOCÊ QUER DIZER QUE EU NÃO SOU NORMAL, SOU O QUE ENTÃO LOUCA??? – Alguém deveria trazer o oscar para ela
— Está vendo a gente tenta conversar e você enlouquece do nada
— DO NADA?? DO NADA! EU TENHO MEUS MOTIVOS NÉ? PORQUE QUANDO SEU NAMORADO IGNORA 18 CHAMADAS NÃO É BEM DO NADA.
— Para mim já deu, sua louca.
— Vai se foder Peter! – ela pegou a bolsa e saiu correndo do refeitório, mas antes jogou um copo de suco na minha cara... Ela nasceu para ser atriz, tive que conter minha risada.
Na mesma hora o Max, veio até minha mesa
— Cara, que garota surtada
— Nem me fala. Ainda quer tentar algo com ela? – perguntei de forma irônica, mas eu realmente queria saber a resposta.
— Deus que me livre – Nicole fazendo um milagre, convertendo um merda desse ao cristianismo. Ela sempre me surpreende.
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