Silêncio nas montanhas

14 Capítulo 13: A caixa de Pandora


— Já organizei o celeiro e desci com algumas caixas durante a madrugada. — Olhei para minha avó com uma expressão de julgamento. Ela não deveria estar fazendo tanto esforço.

— Querido, estou velha, não tetraplégica. Para que você acha que faço pilates e ioga?

— Mas precisava ser de madrugada? Podia ter caído.

— Nicole, insônia não é exclusividade sua e do Peter. Aliás, vocês precisam dormir, ou a cidade vai começar a achar que o apocalipse zumbi começou.

Olhei para Peter, que tentou conter a risada, mas falhou.

— Ela sempre é assim? — ele sussurrou para mim.

— Não, costuma ser pior. — Respondi, rindo. — Eu te avisei que não tem ninguém normal na minha família.

Ao entrarmos no celeiro, ficamos impressionados. Minha avó tinha montado um grande quadro de investigações, daqueles que aparecem em delegacias, para irmos fixando as pistas. Havia três mesas grandes: duas cheias de caixas e uma terceira com três cadeiras ao redor.

— Tem certeza de que ela era só enfermeira? — Peter perguntou, analisando tudo.

— Ela ama assistir Criminal Minds e CSI.

— Isso explica muita coisa.

Minha avó bateu palmas, animada.

— Vou preparar um café bem forte e ligar o alarme da casa. Já volto.

— Desde quando a casa tem alarme?

— Desde o seu bate-papo com o Max no refeitório na primeira vez.

O celular de Peter tocou. Ele olhou a tela e atendeu rapidamente.

— Oi, mãe. Sim, cheguei bem. Já ia ligar.

Ele ouviu por alguns segundos e suspirou.

— Tá bem. Vou chamá-la. — Ele olhou para minha avó. — Joe! Minha mãe quer falar com você.

Ela pegou o celular e atendeu sem cerimônia.

— Oi, Alice, o que foi? — Fez uma pausa, escutando atentamente. — Ahamm... — Seu olhar ficou pensativo. — Dá um laxante para ele. Depois, à noite, passo aí, finjo examiná-lo e digo que pegou uma virose. — Ela sorriu como se tivesse acabado de resolver um grande problema. — O que acha?

Peter entendeu imediatamente o plano e tentou disfarçar o riso enquanto mexia em uma das caixas.

— Não, meu bem, é só dar mais um pouco do calmante, pôr na comida e acrescentar o laxante. Simples. — Ela revirou os olhos. — Diga que o Peter está com os mesmos sintomas. Alice, querida, presta atenção: homens são fracos para doença. Se você convencer o Hank de que ele está doente, ele vai começar a sentir que realmente está. Diga que o Peter está com febre e dor de estômago. E garanta que o Hank passe o dia todo no banheiro.

Ela respirou fundo e finalizou:

— Querida, eu sei que é estressante, mas você precisa tomar o controle da sua vida. Faz isso e, mais tarde, passo aí para dar um remédio que corta o efeito. Estamos entendidas? Beijo, querida.

Ela devolveu o celular para Peter como se nada tivesse acontecido.

— Aqui, Peter. A propósito, na volta, você vai ter que entrar em casa pela janela do quarto, exatamente de onde saiu. Vou te deixar lá e dizer que você e o Hank estão com virose. Estamos entendidos?

Peter endireitou a postura e bateu continência.

— Sim, senhora.

Minha avó riu, satisfeita

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- Sua mãe também era assim? – ele me perguntou após minha avó deixar o celeiro.

— Assim como? – Ele olhou para mim rindo – Diferente? – perguntei rindo, mas eu sabia o que ele queria dizer – Não, minha mãe era bem tímida, nada irônica. Na verdade, meu pai que era assim, por isso ele se deu super bem com a minha avó assim que minha mãe veio apresentar ele. Parecia que se conheciam a anos, segundo a minha avó.

— Vamos começar a olhar as caixas. Alguma preferência. Parece ter um papel de anotação em cima de todas as caixas.

— Conhecendo minha mãe ela provavelmente listou o que tinha em cada caixa, ela tinha uma certa mania de organização.

— É você tá certa, olha o que está escrito nessa:

Álibi de Carl HollowayAutópsia dos FostersProntuário médico dos Foster (anterior ao assassinato)Álibi de Willian BarnsFotos dos FostersMedida cautelar contra Carl Foster


- Nessa tem muita coisa sobre o Jornalista e o nome do seu pai.

Assassinato de JosephLista de crianças perdidas nos estados fronteirasMenino de 6 anos encontrado em NYHank Sullivan – extratos bancáriosAlva Lopes – morte suspeita


— O que o meu pai tem a ver com isso? – ele pegou o papel e ficou paralisado – Podemos começar por essa? Se você não se importar... – ele ainda parecia estar meio aéreo – Eu sei que o meu pai não é flor que se cheire, mas não consigo imaginar ele participando disso.

Fui tirando as coisas da caixa, tinha uma fita, vários cadernos de anotação, o material que a gente já havia achado do Joseph na biblioteca, e uma pilha de papeis que pareciam ser transações bancárias. Muitas delas estavam marcadas.

— Vou olhando os cadernos e você os extratos? – perguntei

— Não, prefiro que você olhe os extratos posso deixar algo passar ou não querer ver algo que está na minha frente.

Fiz que sim com a cabeça e comecei olhar as páginas e páginas de extratos bancários. Minha mãe havia marcado várias transações e escrito caderno n° 4 capa vermelha.

— Me passa o caderno n° 4 de capa vermelha, por favor. – ele passou enquanto olhava os demais.

Dia 10/09 – Hank recbe 100mil dólares de Alex ThompsonDia 11/09 – Hank gasta 50 doláres na farmácia na beira da estradaDia 11/09 – Hank abastece o carro em Nova York. Dia 11/09 –Hank saca 10mil dólares em Nova YorkDia 12/09 – Hank paga 20 dólares num brechóDia 12/09 – Hank saca mais 20 mil dólares em Nova York. Dia 13/09 – Hank abastece em Maple HollowDia 18/12 – Hank recebe 50mil de Alex ThompsonDia 20/12 – Sullivans saem da cidadeDia 09/10/96 – Hank saca 40 mil dólaresDia 11/10 – Peter é adotadoNão há registro de Peter Cameron na fila de adoçãoAssistente social responsável: Alva LopesAlva Lopes infarta em casa 4 dias após a adoção, encontraram uma mala com 30 mil dólares. Quem é Peter Cameron? Sem identidade, sem registo em maternidade.

— Peter, olha o que encontrei nas anotações da minha mãe e nos extratos bancários. Parece que há algo muito estranho acontecendo. Em setembro, o Hank recebeu 100 mil dólares de Alex Thompson. No dia seguinte, ele gastou 50 dólares numa farmácia na beira da estrada, e depois, abasteceu o carro em Nova York. Ele ainda sacou 10 mil dólares lá, mais tarde no mesmo dia. No dia 12, ele pagou 20 dólares num brechó e sacou mais 20 mil dólares em Nova York. E, em Maple Hollow, ele abasteceu o carro no dia 13. – Olhei para ele e parecia que estava começando a entrar em pânico.

— Está tudo bem?

— Só continua lendo – ele se sentou no chão, parecendo que não tinha oxigênio suficiente no ar.

— Ok, vou continuar. Depois, em dezembro, ele recebeu mais 50 mil de Alex Thompson, mas, nesse meio tempo, os Sullivans saíram da cidade, o que é estranho, né? E então, em outubro de 96, ele sacou 40 mil dólares. E foi nessa mesma época que o você foi adotado, mas há algo ainda mais estranho... não há nenhum registro de você na fila de adoção. A assistente social responsável por isso era a Alva Lopes, mas ela morreu de infarto quatro dias depois de você ser adotado. E, quando a encontraram, tinham 30 mil dólares numa mala. Eu não sei você, mas tudo isso não parece certo. Parece que tem algo muito maior acontecendo aqui. – Ele estava apenas se balançando sentado tentando respirar. – O seu nome antigo não Peter Cameron não existe em registro algum.

— Bem o que descobrimos até agora? — Minha avó entrou carregando café – Peter querido, está tudo bem? – Ela rapidamente largou o café na mesa e se sentou ao lado dele para medir os sinais vitais.

Mostrei as anotações e extratos para ela. Mas o fato dela não ter se impressionado com nada, não foi a resposta que eu esperava.

— Não parece surpresa.

— Primeiro vou acalmá-lo, depois explico tudo, ok. Petter, deite-se no chão, isso... agora começa a contar quantas ripas tem de madeira no telhado, conte em voz alta. Cada vez que contar uma, respire, okay.

— Uma... duas... três... – Aos poucos ele foi estabilizando e conseguiu se sentar novamente – Obrigado.

— Nada querido, foi só uma crise de pânico.

— Sentem-se nas cadeiras e peguem um pouco de café. Temos muito o que conversar. Eu já suspeitava disso há um tempo, mas agora com as anotações da Nora... tudo mudou. – Posso te fazer uma pergunta, querido?

— Aham – respondeu enquanto tomava um gole do café

— Você tem uma marca de nascença nas costas, perto do ombro esquerdo?

A xícara que estava na mão do Peter caiu da mão dele enquanto ele falava sim, mas com os olhos marejados.

— Eu acho que você já sabe disso há muito tempo, mas não quis acreditar. Sua marca é em formato de coração, não é? – ele assentiu enquanto tremia. Não consegui me conter e abracei ele – Querido, seu nome não é Peter, é Benjamim Foster, eu estava presente no seu parto. Eu vi a marca de nascença. Espere um minuto aqui que quero te mostrar uma coisa.

Continuei abraçando-o, eu não sabia nem o que falar para alguém na situação dele. A vida dele havia sido uma inteira mentira. Com o tempo, os tremores foram diminuindo e ele se afastou.

— Desculpa pela caneca – ele ia abaixar para juntar os cacos e eu o impedi

— Isso é só uma caneca, não importa – olhei nos olhos dele – Eu sei que é muito para assimilar, mas se eu puder fazer algo para te ajudar, me fala.

Minha avó entrou carregando uma foto antiga, colocou sobre a mesa e perguntou:

— Sua marca é parecida com essa?

— É igual

Na foto estava uma mulher, com cabelos escuros de biquini numa piscina junto com a minha mãe e uma mulher parecida Alice. A mulher com a marca estava de lado na foto e dava para ver a marca no ombro esquerdo que realmente parecia um coração.

Peter levantou a camisa e virou de costas, a marca era a mesma no mesmo lugar.

— A mulher na foto é a Maggie Foster, sua mãe biológica. Quer falar algo?

— Falar o que? Minha vida foi uma mentira, meus pais (que não são meus pais) estão envolvidos no assassinato dos amigos deles?? Por que eu fiquei tanto tempo com aquela família alcoólatra? Eu nem sei quem eu sou mais.

— Você continua sendo a pessoa engraçada, adorável e que se importa com os outros que eu conheci na escola. Eu sei que é muito para assimilar, mas se quiser chegar até o final de tudo isso, você vai ter que fingir que não sabe de nada. Consegue fazer isso?

— Não sei. No momento eu quero morrer – ele começou a chorar de soluçar e eu fiz a única coisa que podia, o abracei enquanto a gente se sentava no chão. Minha avó ficou do outro lado dele tentando consolá-lo. Mas o que a gente poderia dizer?