Silêncio
1 Destruição é uma forma de criação.
Notas iniciais
''A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.''
Emil Cioran.
Albus segurava várias pílulas estranhas, suas mãos tremendo.
Um, dois, três.
Suas mãos estavam geladas, na verdade, seu corpo inteiro estava. Queria ter dado uma boa olhada no seu quarto pela última vez, sabe, ler as cartas da sua avó, ver as fotos antigas com seus primos e ouvir seu disco favorito do The Cure. Mas, na verdade, lá no fundo ele sabe que nada disso importa, quer dizer, ele não se lembrara ou sequer terá uma consciência daqui alguns minutos. E essas coisas também seriam bons motivos para ele desistir.
Um, dois, três.
Para um suicídio completamente indolor você precisa de um local que não entre qualquer tipo de oxigênio. E gelo, gelo é muito importante. Quando o gelo passa do estado sólido para o estado liquido, ele libera dióxido de carbono, numa quantidade dessas e em um lugar pequeno e fechado, é o suficiente para tirar a vida de quem quer seja que esteja dormindo no local. Sem dor, ou sofrimento... você apenas dorme e não acorda mais. Bem simples no ponto de vista de Albus, e ah, você vai precisar de boas pílulas que te façam dormir também. Porque é definitivamente impossível dormir sabendo que você não vai acordar depois.
Albus fez a contagem mentalmente de novo.
Um, dois, três.
Para Albus Potter, suicídio era uma forma de auto-punição.
Ok, ele realmente deveria tomar as pilulas agora, tinha medo de desistir mais uma vez, e não era a primeira vez que ele tentava se matar, mas algo sempre acontecia para impedi-lo, fosse uma ligação surpresa de James ou mesmo sua covardia. O que era estranho, quer dizer, se ele tem um anjo da guarda e esse tipo de coisa esse cara tinha um senso de humor bizarro pra caramba.
Sempre fora muito sensível ao mundo, as tragedias, os preconceitos e a violência... O mundo é um lugar horrível. Albus simplesmente não o suporta, cada dia que acorda é como um soco em seu estômago. Sempre houve aquela nuvenzinha negra em cima da sua cabeça, aquelas vozes dizendo coisas horríveis e as crises depressivas. Era tão difícil, deuses, ele queria ser um cara insensível como Hugo ou egocêntrico como Dominique, ou até ter o senso de humor de James, a pessoa mais calma e de bem com a vida que existe, nada abala James Sirius Potter.
Fez terapia por um ano mas não adiantou muita coisa, escreveu mil e uma cartas de suicídio e até tentou se tratar com aqueles remédios de tarja-preta, mas aquelas coisas só pioravam o seu estado. As cartas mostravam o quão covarde ele era, os desenhos eram horríveis e os remédios piores ainda. Seus pais não sabiam mais o que fazer e toda a sua família o olhava como se vissem algo realmente triste nele, o tratavam como se ele fosse um garotinho de oito anos, preocupados o tempo inteiro e tudo mais.
''Al precisa de algo?'' ''Al comprei esse livro pra você... achei a sua cara'' ''Al qualquer coisa é só me chamar ok?''
Al.
Albus Severus Potter, dois nomes de grandes diretores da maior escola bruxa da grã-bretanha e o nome do bruxo que derrotou o maior inimigo que seu mundo já teve.
Ele era destinado a ser grande, um famoso auror, jogador ou até um perfeito medi-bruxo. Caramba... isso é horrível pra caralho. Al odeia essa coisa de ser corajoso, e jogador de quadribol e medi-bruxo? Pior ainda. Sua coordenação motora nunca daria para o quadribol e ele não quer a responsabilidade de uma vida em suas mãos, muito obrigado.
Um, dois, três.
Albus Potter gosta da Sonserina, apesar de ser um Lufano, sempre achou que a casa de Salazar tivesse muita classe, eles não são estupidamente bobos como os Grifinórios ou estupidamente exibidos como os Corvinos, realmente queria ter caído nessa casa, mas há muita emoção e sensibilidade em sí, o que não combina nada com ser um Sonserino. Então caiu na Lufa-Lufa, e ele até que gosta disso.
Albus Potter é amável e fiel.
Depois de seus pais, seus avós são as pessoas que mais ama no mundo, juntamente com James e Scorpius. Ele não se da muito bem com Lily e nunca entendeu o porquê.
Scorpius é o cara mais bacana do mundo, por exemplo, se você estiver com frio e tudo mais, ele é o tipo de pessoa que da seu casaco pra você, sabe? Ele é muito bacana, todo mundo ama Scorpius Malfoy. E só de pensar nele Al teve vontade de chorar. Nunca mais o veria, e sequer escreveu um bilhete... que tipo de amigo era, meu deus.
Mas ele estava triste demais para sequer ter forças para pegar um papel e uma caneta, e é isso que a depressão faz com uma pessoa, simplesmente suga toda e qualquer energia ou vida que ela tem, a depressão faz um dia de sol virar uma noite escura e fria. A sensação que Albus tem é a de afogamento, agoniante e desesperador.
As pessoas amam Albus mas ele não consegue ver isso. Outra coisa que a depressão faz, ela distorce qualquer visão que você tenha de sí. No seu ponto de vista ele é um cara bem sem graça, suas roupas não são legais como as de Fred II, que sempre coloca meias coloridas por cima da calça e é o cara mais maneiro do mundo por isso, seus olhos não chegam nem perto de serem tão bonitos quanto os azuis elétricos de Lily e ele é chato pra caramba, sério mesmo. Não é descolado, ou sequer um maroto nato como seus primos. Seu gosto para seriados é horrível também.
Na verdade, se fosse uma coisa, Albus seria um seriado chato, tinha certeza.
A coisa mais legal que já fez em seus dezessete anos de vida foi ter dado um soco em Kevin Longbottom no quarto ano, quando ele chamou sua prima Rose de sapatão. De resto, não há muita coisa legal a seu respeito.
Albus Potter tem depressão, insônia e odeia amarelo. Suas coisas favoritas no mundo são refrigerantes coca, Joy Division e os cabelos de Roxanne Weasley.
Lembrar de Roxanne o fez ter vontade de chorar.
Droga! Se ficasse a noite inteira lembrando das pessoas que amava nunca teria coragem de fazer aquilo, e ele simplesmente não aguenta mais. Pois mesmo que ame desesperadamente as pessoas e coisas ao seu redor isso não é o suficiente. Não é.
Al fechou os olhos com força e respirou fundo.
Os olhos cinzas de Scorpius vieram a sua cabeça. Albus simplesmente não aceita que os olhos de Scorpius pudessem ser tão cinza daquele jeito, era um mistério, os olhos de Scorpius lembravam sua quarta coisa favorita no mundo, tempestades. Al amava o fenômeno que fazia com que todo o céu entrasse em guerra, a briga constante de Zeus e Poseidon era algo que o entretia.
Balançou a cabeça tentando espantar a imagem.
Rose Weasley acenava animada, o disco raríssimo da sua banda favorita na mão, era seu aniversário de dezesseis e ele ficou semanas, senão meses, procurando aquele LP, deuses... Só a filha de Hermione Granger para conseguir algo assim. Albus a ama tanto que dói.
Um, dois, três.
Ele não podia deixar esse mundo sabendo que nunca mais veria os cabelos de leão de Roxanne, os olhos alucinantes de Scorpius e a esperteza de Rose. As meias coloridas por cima da calça de Fred II e os cachos de James. Os olhos azuis de Lily.
Mesmo que não tenha muita intimidade com sua irmã, Al a ama como qualquer outra pessoa da sua família, não acredita que vai simplesmente morrer sem nem saber sequer qual é a sua cor favorita.
Abriu os olhos, dando uma última olhada no quarto, a mancha de tinta no seu poster favorito de Guerra nas Estrelas chamou sua atenção. Fora James que fizera aquilo no quinto ano, alegando que aquele era o pior filme que já viu. No fundo Albus concordava, mas era um poster legal, de qualquer forma.
Um, dois, três.
Ginny Potter diz que ele é a melhor coisa que já lhe aconteceu e Harry Potter o abraça, dizendo que Albus é a pessoa mais corajosa que já viu.
Um, dois, três.
Albus começa a chorar desesperadamente, engole as pilulas de uma vez antes que desista de novo. Suas mãos ainda tremem.
Dominique tentando arrumar seu cabelo mais uma vez, pois ela não aceita ter um primo tão desarrumado quanto Albus! Quando seus olhares se encontram ela sorri. E pensando bem, Dominique não é tão egocêntrica assim.
Um, dois, três.
No natal dos seus quatorze anos Al ganha de Lily a enciclopédia completa sobre constelações, um dos livros mais caros da livraria, deve ter custado no minimo duas mesadas inteiras da sua irmã, a criatura mais egoísta que Albus já viu. Ele sorri.
Um, dois, três.
Seus pensamentos começam a perder o sentido, os olhos de Scorpius e os abraços de Ginny já não estão mais tão claros em sua mente. Seu corpo começa a pesar. É estranho, é como se ele estivesse flutuando.
Um, dois, três.
Al acha que tem alguém batendo na sua porta, mas não tem certeza. É muito cansativo e quase impossível pensar com clareza no momento.
Um, dois, três.
Tinha certeza que seu último pensamento antes de adormecer completamente foi algo bem interessante, mas na verdade não se lembra muito bem dele no momento.
Um, dois, três.
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