Notas iniciais
Olá pessoas da madrugada! Como vocês estão? Eu confesso que estou ótima... Depois de quase 6 anos, 496 folhas e quase 290 mil palavras, finalmente, TERMINAMOS SIGNAL FIRE! Eu sei que muito desse tempo deve-se ao meu hiatus irresponsável... Mas, é um alívio terminar essa fanfic, mesmo que seja tão tarde. Não me entendam mal, eu AMO Signal Fire, contudo, essa história tem uma importância além de um simples enredo, para mim... Terminá-la é fechar um ciclo da minha vida. Por isso, sem me prolongar mais, espero que gostem desse último capítulo. Leiam-no ao som de "Signal Fire" do Snow Patrol e de "Why We Try" do Matthew Mayfield. Boa leitura!

Aquele dia, no final de julho, amanheceu limpo e ensolarado, como bem pedia um dia de verão e, sobretudo, um dia de festa.

A colação de grau da turma de 2020 do McKinley High seria realizada nos gramados do colégio e os céus colaboraram ao entregar luz, sol e calor aquele dia especial para muitos.

Quinn terminava de se arrumar — maquiando o rosto de forma leve, apenas para realçar os seus olhos e os seus lábios — enquanto, ao mesmo tempo, tentava ajeitar a bagunça instalada dentro de si desde que Rachel (sempre ela) a deixara na “Letters, Love and Dreams” com Santana e Kathryn.

Esse ocorrido já tinha quase três dias e, desde então, Rachel desaparecera. Quinn não negava a sua decepção, esta estava presente em seus olhos esverdeados opacos e em suas feições carregadas de melancolia. A professora não conseguia evitar pensar que, mais uma vez, Rachel escolhera os sonhos à realidade. Porém, daquela vez, parecia não doer tanto. Talvez, porque não esperava que o contrário ocorresse ou, porque não mostrara à morena tudo que ela poderia ter se ficasse em Lima.

Quinn pensava que não doía tanto, mas, isso era muito diferente do que, verdadeiramente, sentia.

Em seu íntimo, atrelada ao seu coração machucado e regada pelas lágrimas silenciosas que derramara desde então, a dor se fazia presente e, mais uma vez, cegava. Quinn sempre soube que tudo relacionado a Rachel a machucaria, entretanto, essa partida doía ainda mais porque, dessa vez, escolhera não tentar... Simplesmente permitiu que Rachel voltasse a voar para longe de seus braços.

Ao mesmo tempo em que amargava a sua decisão, também se perguntava se ainda existia um motivo para fazê-la ficar. Depois de tudo que passaram — da felicidade à màgoa, dos sorrisos às lágrimas, dos beijos ao afastamento, do amor à tristeza -, as razões para deixar Rachel falavam mais alto do que as justificativas para fazê-la ficar. Ainda assim, a dúvida existia e tudo o que Quinn podia concluir a partir dessa pergunta sem resposta era que, de fato, não esquecera Rachel.

E se não fora capaz de esquecê-la, tampouco, deixara de amá-la.

O amor que sentia era algo do qual Quinn, jamais, duvidava. Nem mesmo nos piores momentos das duas em que duvidavam da existência dele, Quinn deixou de acreditar. O amor que sentia por Rachel era algo que a definia, independente de onde a vida a levasse, ela sempre seria Quinn Fabray, aquela que se apaixonada pela vítima, rival e, finalmente, amiga chamada Rachel Berry.

As duas realmente eram inerentes uma à outra, fosse lembrança ou realidade. O que tinham vivido, desde o começo da amizade, era intenso demais para ser minimizado a uma dúvida ou a uma pergunta. Mesmo se Quinn, um dia, respondesse (sinceramente) à questão e se decidisse que Rachel não valia à pena, a morena ainda estaria marcada nela.

Uma ferida marcada a fogo, uma cicatriz que distorceria a sua superfície e que desorganizaria tudo que existia abaixo de sua pele.

Rachel era, simplesmente, assim. Uma estrela cadente que iluminava a noite e tão poderosa que, ao tocar a terra, queimava e explodia. Uma nota alta atingida com perfeição em uma música feita de tons baixos. A última página avassaladora de um livro magnífico. O último ato estrondoso de um musical de sucesso. E, por fim, o último acorde realizado com perfeição por uma orquestra... Rachel era derradeira como qualquer final e, especial, como poucos encerramentos.

Mesmo se existisse um final sacramentado entre as duas, Quinn saberia que, ainda assim, ela ficaria marcada... Para sempre. Rachel era uma estrela, feita de calor e fogo, feita para marcar e para brilhar.

Quinn sabia que os seus pensamentos trairiam a sua aparência, o canto de seu olho direito borrou o lápis que antes o delineara perfeitamente. O filete lacrimoso escorreu tímido, como se pedisse licença antes de macular o rosto perfeitamente arrumado e a máscara de felicidade inteligentemente vestida. Quinn respirou fundo, fechou os olhos e suspirou levemente, tentando se acalmar e, principalmente, tentando recolocar-se dentro de si e não, em Rachel.

A sua falha ficou evidente quando a mão que empunhava o lápis tremeu, Quinn precisou afastar o lápis do olho e respirar fundo, mais uma vez. O delineado não foi perfeito como estava anteriormente, mas, não estava borrado e, tampouco, denunciava a sua fraqueza. Quinn, então, voltou aos lábios. O batom róseo correu pela sua boca e ela avaliou o resultado no espelho quando o finalizou.

Ao menos, conseguira disfarçar as evidências de seu choro e de sua melancolia.

A professora caminhou pelo quarto, apanhando a pequena bolsa esverdeada em cima da cama. A saia do vestido verde-água girou em torno de seu corpo e Quinn ajeitou a gola enquanto passava pelo espelho a caminho da porta. Terminara de calçar os seus sapatos Oxford — elementos que, desde a juventude, jamais abandonaram o seu guarda-roupa — quando a campainha do seu apartamento tocou.

Quinn passou pela sala e abriu a porta, sem sequer olhar pelo olho mágico. Em sua soleira, Noah Puckerman sorria para ela. O policial estava estranhamente incomum, usando calças jeans, camisa social e blazer. Quinn sorriu para ele e Noah, estranhamente tímido, elogiou:

— Você está linda como sempre, Q.

— Obrigada, mas, não se esqueça que você está aqui apenas para substituir Sam que me abandonou justamente hoje! — Quinn agradeceu com as bochechas coradas, estendendo a mão para o amigo que a apanhou com gentileza, colocando-a sobre o seu braço. Quinn achou melhor, mais uma vez, deixar evidente a Noah o que tudo aquilo significava, não precisava de mais um mal entendido em sua vida... Tudo o que queria, hoje, era paz. Puckerman sorriu para Quinn e a esperou trancar a porta, depois, os dois caminharam pelo corredor em direção ao elevador e ele respondeu gentil:

— Podemos ser amigos, mas, eu não sou imune à beleza de uma mulher.

— Continua galanteador como sempre, não é? — Quinn comentou com um sorriso verdadeiro, ela realmente estava feliz por ter Noah a acompanhando naquele dia. Sam viajara com Marley e Eliza, Santana estava resolvendo toda a papelada da herança juntamente com Kathryn e aquele acompanhamento era uma oportunidade de se resolver com Noah.

Ambos foram privados de anos de convivência por causa de mal-entendidos, palavras não ditas e covardia. Eles precisavam conviver, ainda mais agora que estavam dispostos a cuidarem de Beth. E Quinn, apesar de tudo, sentia falta de Noah. Ele foi um dos primeiros que a fez se sentir amada, assim como também foi um dos seus primeiros erros na juventude — o maior deles — e, também, um de seus maiores acertos na maturidade.

Noah Puckerman estava atrelado à vida de Quinn Fabray e, agora, ela não reclamava. Depois de toda a inconstância emocional em sua vida, ela sentia que precisava de rostos familiares. E, sobretudo, ela sentia que precisava praticar o perdão com Noah a fim de, um dia, talvez, poder dizer o mesmo a Rachel.

Porém, sempre que pensava nessa possibilidade, a mesma dúvida rimbomboava em sua mente: Valia à pena tentar, novamente, com Rachel?

Assim como não sabia como dizer que a perdoava, Quinn não sabia a resposta para essa pergunta e, agora que Rachel se fora, era como se essas dúvidas ficassem, para sempre, presas em sua garganta. Sem respostas, sem chance de manifestação... Eram dúvidas que ficavam e amaldiçoavam.

O preço da dúvida doía mais do que a certeza do fracasso.

— Têm certas coisas que não mudam, o meu temperamento galanteador é um deles, Q. — Puckerman respondeu com aquele sorriso charmoso que, há alguns anos, derretar as defesas de Quinn. Agora, porém, ele a fazia sorrir e, principalmente, sentir saudades de um passado em que tudo era muito mais fácil.

E se o sorriso dele invocava a facilidade do passado, as palavras dele traziam à tona todo o incômodo do presente. Realmente, certas coisas não mudavam e Quinn praticamente tinha a certeza de que o seu amor por Rachel era uma dessas situações imutáveis em sua vida...

— Sim... Se Quinn concordar, eu e Kathryn gostaríamos de mudar algumas coisas na livraria. Acho que Charlie ficaria feliz com isso. — Rachel falava para o telefone parcamente equilibrado em seu ombro enquanto tentava calçar os sapatos de salto alto. A morena usava uma saia até os joelhos e uma camisa social de cor clara, parecia uma versão mais amadurecida do que usara no colegial. Na linha, Kurt balbuciava inseguro sobre reformar a “Letters, Love and Dreams”:

Mas, eu não escutei nenhuma palavra dela... Na verdade, eu achava que você ainda estivesse em New York, Berry!

— E eu estive, mas, voltei e pretendo ficar. Estou tão decidida que realmente pretendo investir na livraria se Kathryn e Quinn concordarem... — As palavras de Rachel, dessa vez, saíram inseguras e relativamente machucadas. Kurt estava tão preso em seu surto por modificar algo tão importante para Quinn que, sequer, percebeu. Porém, a morena o conhecia e sabia que, logo, ele faria as perguntas para as quais ela não tinha resposta. Por isso, respirou fundo e sorriu para o seu reflexo no espelho. — Você teria sabido disso mais cedo se não estivesse tão envolvido em sua bolha arco-íris com Karofsky.

Pare de ironia, se você não é feliz, não venha zoar os outros, Barbra...! — Claro que Kurt não tinha intenção de ferir Rachel, era uma resposta brincalhona, contudo, as palavras machucaram da mesma forma e a morena observou a tristeza tomar suas feições através do reflexo do espelho. Nos últimos dias, os seus momentos de felicidade eram rápidos, quase imperceptíveis. E ela esperava que, um dia, esses momentos se tornassem mais longos... Não precisavam ser muitos, desde que fossem longos o bastante para que ela pudesse esquecer a tristeza que ela mesma trouxera para a sua vida. Kurt, do outro lado da linha, pareceu perceber a tristeza em seu silêncio. — Desculpe, eu não quis que isso soasse como soou... Eu... Você está bem, Berry?

— Não precisa pegar leve comigo, até parece que não me conhece, Hummel! — Rachel sabia que o dissimulado tom animado de sua voz não fora capaz de enganá-lo, contudo, Kurt era bastante discreto quando se tratava das emoções alheias. O decorador de interiores simplesmente pigarreou, do outro lado da linha e Rachel terminou de calçar os seus sapatos, dirigindo-se à penteadeira, pronta para se maquiar. — Eu ficarei bem quando Quinn der esse aval para mudarmos à livraria, eu tenho certeza que será o melhor para “Letters, Love and Dreams”, Charlie não teria nos deixado tudo se não quisesse que trabalhássemos juntas para melhorá-la.

Sim, eu tenho certeza disso... Bem, assim que tiver algo dela, me avise. Enquanto isso, eu vou pesquisar algumas coisas e adiantar algumas possíveis amostras. — Kurt estava chateado, a sua voz evidenciava isso. E Rachel, naquele momento, não queria saber das razões que o levaram a ficar daquela forma. Tudo que importava, para a morena, era ter algum sinal de Quinn... Algo que indicasse que ainda podia tentar e que ainda tinha uma chance. Kurt respirou fundo do outro lado da linha e Rachel se lembrava que, quando ele fazia isso, a verdade que vinha a seguir doía. — Só não suma, acho que todos nós sentimos a sua falta, não somente ela, Barbra.

Kurt não se despediu e a linha se desligou antes que Rachel pudesse dizer qualquer coisa. Aquela era primeira vez que alguém reclamava de sua ausência depois de sua volta, lógico que os seus pais ficaram felizes ao vê-la, porém, parecia que eles sabiam que ela voltaria... Kurt parecia ter acreditado que ela sumiria novamente e Rachel questionou-se se Quinn pensara o mesmo.

Não seria surpreendente se Quinn tivesse, simplesmente, perdido as esperanças. Afinal, não seria a primeira vez que Rachel partira e a morena tinha plena consciência que todas as suas atitudes, recentes ou não, mostravam que os sonhos importavam mais do que o que tinha em mãos... Mas, isso fora antes. Agora, tudo o que Rachel queria era a sua realidade de volta, não mais queria voar e sim, queria fincar os seus pés no chão e, de preferência, ao lado de Quinn.

As palavras de Kurt evidenciavam que a maioria das pessoas do seu passado não acreditava em quem era no presente. Dentre essas pessoas, a única que verdadeiramente importava era Quinn. Rachel gostaria de saber o que ela pensava, gostaria de ser, novamente, capaz de ler algo além da dor nos olhos verdes. Acima de tudo, Rachel gostaria de ser capaz de aproximar-se de Quinn.

A saudade a matava. A morena sentia falta do brilho dourado de felicidade nos olhos verdes, também sentia saudade do sorriso aberto e entregue de Quinn assim como os lábios finos dela faziam falta sobre os seus cheios. Rachel sentia falta do perfume, do gosto e principalmente, do coração de Quinn. Quando o quebrara, pensara ser capaz de viver sem ele e agora, tudo que Rachel queria era tê-lo de volta. Queria consertar cada pedaço, costurar cada rasgo, refazer cada desfeita e, principalmente, ressuscitar um amor que parecia morto em meio às dúvidas de Quinn em relação ao seu caráter.

Rachel sempre foi uma mulher das nuvens e dos sonhos, por isso, admitia que, agora, queria voar para os braços de Quinn e sonhava com o perdão dela. A partir desses dois desejos, a morena pretendia reconquistar a sua realidade: o seu amor por Quinn.

O amor que sentia pela ex-agressora, colega e amiga era a única realidade da qual, agora, tinha consciência. O sentimento que carregava dentro de seu coração era tão real que se fazia quase palpável nas lágrimas que derramara e na sensação sufocante de seu coração explodindo contra o seu peito. Também se fazia realidade em todas as suas decisões tomadas desde então. O que fizera no passado doía e isso também tornava o sentimento físico e inegável.

Cada dor, cada ferida, cada lágrima... Tudo determinava como era real e intenso o que sentia por Quinn. E a intensidade era proporcional à saudade.

Por isso, Rachel se sentia cada vez mais esmagada por seus sentimentos e pela saudade que sentia. Esses dois lados a sufocavam, retiravam o ar de seus pulmões e a ânsia de seus olhos, por isso, ela se agarrava firmemente à esperança de um perdão ou, quem sabe, de uma segunda chance.

Mesmo sem saber se poderia tentar de novo, Rachel acreditava.

Ela acreditava e tinha certeza de que o que a movia para junto de Quinn era, praticamente, único. E essa exclusividade remetia à possibilidade de ser tão intenso que poderia ser incapaz de ser evitado... No momento, Rachel acreditava em qualquer coisa que pudesse, de alguma forma, trazer Quinn de volta a sua vida.

Rachel soltou o coque que prendia os longos cabelos castanhos, os fios caíram em seus ombros, ondulados e brilhantes. Os olhos castanhos, contudo, estavam úmidos e distantes, tentando enxergar além do reflexo do espelho. Os lábios cheios também estavam rachados e Rachel optou por começar por eles, o batom usado foi escuro e, em seguida, os olhos foram delineados de forma leve. A pele foi feita para esconder o inchaço dos olhos e a expressão cansada nas feições.

A morena também colocou a sua máscara e concentrou-se nela, exatamente como uma atriz concentrava-se em seu personagem, para ter coragem o bastante de sair do seu quarto.

Ao descer as escadas, não encontrou os pais. O silêncio da casa dos Berry lembrava-lhe como era sozinha naquela cidade que, um dia, fora o seu lar. New York não realizou os seus sonhos, tampouco lhe trouxe lembranças inesquecíveis... Mas, não foi gentil ao tirar-lhe os seus amigos, a sua identidade e, sobretudo, o seu amor. Rachel não deixava de assumir a culpa que sabia ser sua, as escolhas partiram de si, contudo, não podia deixar de amargar o magnetismo que aquela cidade — aparentemente, de sonhos — exercia sobre si.

Tal magnetismo, atualmente, não era tão forte a ponto de fazê-la deixar tudo para trás... Mas, fora crucial para a situação em que se encontrava. Os sonhos de Rachel tornaram-se viciantes, como uma droga e ela, como qualquer viciado, só percebeu onde estava quando, enfim, chegou ao fim de tudo.

E o final de Rachel resumia-se à ausência de Quinn em sua vida. Justamente àquela que era o seu porto seguro, a sua certeza em meio às dúvidas, a sua terra em meio às nuvens em que vivia... Rachel perdeu o seu eixo e a bússola de vida perdeu o compasso. Não era surpreendente que estivesse tão perdida e também não era novidade que, na tentativa de se reencontrar, estivesse estagnada no tempo e espaço.

Para onde iria sem o seu norte? Para onde iria sem Quinn?

Rachel não sabia a resposta para nenhuma daquelas perguntas, também não tinha certeza se gostaria de respondê-las... Naquele dia ensolarado, o único lugar para o qual deveria ir era o Colégio McKinley High. E era exatamente dessa forma que a sua vida tem sido guiada, um dia após o outro.

Rachel preferia contar a ausência de Quinn em dias... Ainda que se passassem anos, ela continuaria sentindo falta de Quinn em dias. Dias eram unidades de medida pequenas, como as horas, os minutos e os segundos e essa pequenez da unidade dissimulava que o tempo também passava de forma pequena.

Dessa forma, Rachel sentiria falta de Quinn por dias e se os anos viessem, ela não os abraçaria... Os anos eram unidades de medida maior e, sendo desse tamanho, também tornavam evidente a magnitude de seu estrago e, principalmente, sentenciavam que não havia pelo que tentar e, muito menos, pelo que esperar.

*****

Christine protegia os olhos claros dos raios solares que pareciam querer cegá-la. Jamais imaginara que Lima pudesse ser quente daquela forma, também não imaginara que o dia de sua colação de grau poderia amanhecer tão bonito. Até parecia que os seus professores tinham feito um trato com as entidades superiores para que nada desse errado naquele dia.

E mesmo com calor, irritada com os raios de sol castigando os seus olhos, Christine não poderia estar mais feliz. Existia certa magia em vestir a beca avermelhada do McKinley High e também existia uma leveza verdadeira em sua alma. Aquele ano fora difícil, por isso, o simples fato de estar debaixo de um sol escaldante, nos jardins de seu colégio em sua colação de grau, tornava tudo especial.

E ela sequer estava contando com Claire nessa equação. A morena era especial demais para ser colocado no mesmo parâmetro de dificuldades ou situações climáticas.

Christine estudava a chegada das famílias e dos formandos, tentando encontrar os membros de Glee — especialmente Claire — entre eles até que os seus olhos foram encobertos e uma voz teatricalmente engrossada perguntou animada:

— Adivinha quem é?

A ex-líder de torcida sorriu para o corpo que se posicionara atrás de si, sabia que, provavelmente, a dona daquelas mãos estava na ponta dos pés. Christine a reconheceu pelo perfume e, por isso, afastou as mãos delicadamente de seus olhos, depois, beijou cada uma das palmas e se virou. Olhos castanhos escaldantes a recepcionaram, assim como um sorriso elétrico. Christine não conteva a necessidade de beijar os lábios de Claire e sussurrar próxima a ela:

— Olá, meu amor!

— Você estragou a brincadeira! — Claire resmungou contrariada com um bico fofo formando em seus lábios. Christine beijou aquela careta e escutou Claire rindo de encontro a sua boca, o som mais bonito que escutara desde que acordara. A pequena lutou contra o sedoso tecido da beca e finalmente encontrou a cintura de Christine, enlaçando-a enquanto a mais alta segurava o seu rosto. — Você não está com calor, parada embaixo desse sol?

— Eu estou, mas... Eu tinha esperanças de lhe encontrar antes da cerimônia. — Christine respondeu apaixonada, as bochechas alvas se tingiram de vermelho enquanto o sorriso encantado brincava em seus lábios. Claire inclinou a cabeça, encantada pela sinceridade que, agora, era inerente a Christine. A loira se acostumara a falar, em voz alta, o quanto Claire importava e, quando não falava, demonstrava isso em atitudes. Elas estavam assumidas para quem quisesse saber e, principalmente, para si mesmas. Claire abraçou Christine, apertado e afundou-se no tecido da beca que, felizmente, tinha o perfume da loira. A menor suspirou e disse gentil:

— Esse é o último dia em que precisaremos procurar uma à outra ou se esqueceu do que nos espera depois da formatura?

— Claro que não, você que deveria estar preocupada. Hoje é o último dia em que pode se livrar de mim... — Christine respondeu brincalhona. Os olhos claros não estavam mais incomodados pelo sol e agora, brilhavam por ter Claire a sua frente. A menor riu roucamente para as palavras de Christine e respondeu apaixonada:

— Como se eu quisesse me livrar de você, tive quatro anos para fazer isso e jamais tive coragem.

— Bem, eu espero que permaneça covarde nesse aspecto! — Christine completou animada, roubando mais um beijo de Claire. A menor não reclamou, pelo contrário, deixou-se ser abraçada, ignorando o calor e os olhares desaprovadores ou não que pudessem ser destinados a elas.

A verdade era que Claire sentia-se invencível quando estava embalada nos braços de Christine, depois de todos os desencontros, ela somente se encontrava quando estava próxima à outra. Depois de todas as decepções, a maior felicidade de Claire era o sorriso sempre presente nos lábios de Christine — e a perspectiva de ser a maior motivadora dele somente a deixava ainda mais feliz — e, depois de todas as decepções, elas souberam encontrar e, principalmente, trilhar o caminho da redenção juntas.

Ainda eram muito novas e, talvez, por isso, o mundo parecia estar todo disponível para que elas o conquistassem, porém, elas não pretendiam conquistá-lo sem a outra. Tanto para Claire quanto para Christine, não existia futuro sem a outra. Era um pensamento sonhador e, sobretudo, imaturo, mas, isso não queria dizer que era inválido. Pelo contrário, toda aquela inconseqüência juvenil as tornava fortes. Era da inconseqüência delas que vinha a coragem. E da coragem, a espontaneidade.

As duas somente tinham certeza do que aconteceria nos próximos dias, que dirá semanas e, quem sabe, no próximo mês... Ainda assim, a incerteza em relação aos meses e anos que tinham pela frente não diminuía as suas coragens de enfrentar o que viesse. Era inconseqüente, era louco... Mas, era algo diferente, algo raro de ser encontrado.

Algo que poucos encontravam e que perdiam pelas ameias da vida.

Elas tinham sorte por serem jovens e terem aquilo, essencialmente, tinham sorte por terem aquilo e por acreditarem nele a ponto de se doarem, inteiramente, aos cuidados da outra.

As duas ainda estavam abraçadas quando um pigarro, seguido de uma tosse, as afastou. Claire e Christine se viraram em direção ao som e encontraram Quinn as observando, elas estavam eufóricas demais para perceberem, mas, a professora segurava algumas lágrimas em seus olhos esverdeados. Quinn se aproximou e abriu os braços para as duas, sendo imediatamente sufocada pelos abraços que recebeu. A professora sorriu abraçada às alunas e disse animada:

— Meus parabéns, meninas!

— Nós não teríamos conseguido sem você. Eu, principalmente, não teria conseguido sem a senhorita, Miss Fabray. — Christine foi bem intensa em suas palavras, os seus olhos claros também revelaram sua gratidão e Quinn conteve as lágrimas, sorrindo para aquela que, praticamente, era uma cópia mais feliz de si mesma em sua época de colegial. A professora ajeitou carinhosamente uma mecha do cabelo de Christine atrás da orelha e respondeu emocionada:

— Eu só dei alguns empurrões, você teria conseguido, de qualquer forma.

— Eu poderia ter me formado, mas, não seria feliz como estou, hoje, sem o seu apoio. — Christine estava segurando o choro, era evidente. Claire olhava da namorada para a professora, também emocionada e muito orgulhosa. Quinn agitou a cabeça, limpando algumas lágrimas teimosas de seus olhos antes de abraçar, novamente, a sua aluna.

Claire acabou se juntando ao abraço e Quinn, em silêncio, sentiu o orgulho tomar conta de seu coração. Já tinha uma quantidade relativamente grande de ex-alunos e teria mais alguns no futuro, porém, aquelas duas garotas em seus braços estavam, eternamente, marcadas em sua memória e, principalmente, em seu coração.

A marca que Claire e Chrstine deixavam ia muito além da semelhança que elas tinham com o que fora no passado com Rachel, também vinha de tudo que enfrentaram e do que sentiam uma pela outra. Aquelas duas alunas eram perfeitos exemplos de coragem e de generosidade. As duas foram corajosas uma pela outra, assim como foram generosas. Elas lutaram pelo que amavam e concederam o perdão a tudo que passaram porque precisavam disso para serem felizes.

Claire e Christine eram novas, inexperientes e, ainda assim, pareciam entender muito mais a respeito do amor do que a própria Quinn. Elas faziam jus aos grandes romances da história, se jogaram de olhos fechados no que lhes era oferecido apenas para voltarem à superfície, mais fortes do que nunca e acompanhadas. As duas mostraram que sempre pode existir uma segunda chance, até uma terceira desde que ambas as partes concordem... Elas perdoaram com a mesma frequência em que foram perdoadas.

O equilíbrio entre elas existia e era isso que as mantinha juntas, até hoje. E Quinn, com toda a sua experiência de vida, bem sabia que elas durariam muito, quem sabe, para sempre.

Claro que a felicidade que elas traziam em seus olhos e sorrisos despertavam certa tristeza na professora. Os anos já haviam passado para ela, o tempo se esgotava mais rapidamente quando se era adulta... A maturidade sugava a coragem, a generosidade e a inconseqüência e Quinn se via cada vez mais presa à rotina e à solidão. Se tivesse um pouco do que trouxera Christine e Claire até aquele momento, com certeza, talvez, ainda tivesse Rachel ao seu lado.

O perdão estava preso em sua garganta pelo medo de concedê-lo e ser desprezada. Quinn não queria viver naquela época em que o medo a calava e a ausência de palavras a faziam perder algo que jamais poderia ter de volta.

Quinn teve saudades de sua juventude. Queria ser capaz de voltar no tempo, de tratar Rachel de outra forma para que não perdessem a coragem, a determinação e a inconseqüência para as disputas, as confusões, os apelidos e o bullying... Quinn queria reviver cada uma de suas escolhas relativas a Rachel. Queria ser capaz de fazer diferente, de não ser a agressora, nem a vilã, muito menos a amiga... Quinn queria ser capaz de voltar no tempo para, acima de tudo, ser o amor de Rachel.

Claire e Christine se despediram e Quinn acenou de forma distraída, ainda presa nas maldades de sua memória que, agora, mostravam a ela as lembranças do que poderia ter se a sua adolescência tivesse sido diferente.

Se Quinn tivesse descoberto Rachel antes, teria ficado com ela por mais tempo... Quem sabe, para sempre. E se Rachel tivesse tido a oportunidade de dar-lhe muito mais do que amizade, não haveria decepções, muito menos, sonhos destruídos. Se as duas tivessem se dado uma chance, New York poderia representar algo mais do que a decepção.

Se o universo paralelo em que elas foram amigas e o sentimento desabrochou naquele amor que possuíam agora existisse, elas, com certeza, estariam juntas. E não haveria necessidade de perdoar ou tentar porque elas não teriam dado motivos para estar separadas...

Diferentemente do que muitos outros acreditavam, Rachel Berry não se recordava de sua formatura, sequer, de sua colação de grau. E isso não tinha relação alguma com alguma triste lembrança e sim, pelo fato de que, quando isso ocorrera, Rachel estava ansiosa demais para deixar Lima.

Rachel lembrava-se apenas da excitação e da ansiedade em deixar a cidade, também se lembrara do que sentira, no dia seguinte, quando não vira Quinn entre os presentes na plataforma de trem. Essa sim era uma lembrança triste que ela não esquecera e que se tornara ainda mais dolorida quando posta ao lado das outras vezes em que Quinn lhe dera às costas nos últimos meses.

Parecia que a ausência de Quinn era algo que não faria sentido em sua vida, Rachel não se acostumara com uma ausência lá de sua juventude e isso era um indicativo de que não se daria bem com outra ausência em sua maturidade.

Bem, era por não se lembrar de sua formatura que Rachel estava ansiosa e eufórica pelo que a esperava no Colégio McKinley High. Naquele ano, diferentemente do seu ano, tudo seria feito ao ar livre. As cadeiras brancas elegantes estavam posicionadas em frente a um tablado de madeira, mais alto, que servia de palco. As famílias chegavam cheias de sorrisos orgulhosos e os formandos pareciam incontroláveis... Existiam certo saudosismo e alívio presentes no ar e a dualidade dessas sensações mexia até com quem não estava diretamente envolvido na celebração.

Rachel não seria homenageada pela turma, mas, estava muito orgulhosa de cada um, especialmente, dos seus alunos do Glee. Cada um deles era especial e eles, também, tornaram o Glee especial. Sabia que, provavelmente, não os marcara como fora marcada, mas, isso não importava... Aqueles garotos a trouxeram de volta à música, com eles, ela descobriu uma vocação que não imaginava existir e, a partir deles, pode viver os sonhos que perderam e outros que sequer imaginava que tivesse.

O Glee daquele ano reensinara Rachel Berry a sonhar. De alguma forma inexplicável e muito especial, Rachel voltou a ser quem era quando perdera os sonhos que a definiam e se permitiu agregar outros. Aqueles garotos a mudaram tanto ou mais do que Quinn a mudou. Rachel também sabia que não teriam chegado até ali sem ela, seria eternamente grata pela chance de viver a música de novo, de forma plena e saudável... Sem qualquer cobrança, obrigação ou imposição. Quinn lhe trouxe a música em sua forma mais pura e Rachel deu aqueles garotos o que adquirira.

Agora, eles estavam indo embora, viver os sonhos que ela ajudara a cultivar. Existia saudade no peito de Rachel, mas, o orgulho era muito mais vívido e intenso. Ela queria dar um abraço em cada um, se pudesse. Queria aconselhá-los para que eles não se perdessem e queria protegê-los, de alguma forma, de todos os perigos que a transição da juventude para a maturidade pudesse trazer... Mas, sabia que não era mais capaz de fazer tudo aquilo. Eles voariam e ela esperava que voassem — e não caíssem — mais alto do que ela.

— Miss Berry? — Rachel se virou em direção a voz masculina respeitosa que a chamava. Os seus olhos encontraram a imensa figura desajeitada de Arthur, o ex-capitão do Glee tentava ajeitar a gola da beca enquanto acenava para ela e Rachel riu, discretamente, da falta de jeito dele. A professora se aproximou de seu aluno e ajeitou a gola da beca, ele sorriu agradecido e Rachel perguntou cuidadosa:

— Nervoso?

— Depois do ano que eu tive? Difícil... — Arthur tentou parecer despreocupado em sua resposta, mas, os seus olhos escuros não se focavam por muito tempo em algo ao seu redor e ele não parava de jogar o capelo nas mãos até que o derrubou e teve que lutar contra o tecido da beca para apanhá-lo. Rachel voltou a rir de seu aluno e disse brincalhona:

— Claro que não está nervoso, apenas prestes a explodir, não é, Arthur?

— Eu não poderia estar diferente, eu realmente achei que não fosse chegar até aqui, muito menos, pensei que fosse me formar, Miss Berry. — Arthur confessou com uma careta de desgosto, finalmente, focando os olhos na treinadora e deixando os ombros caírem. Rachel se aproximou dele, voltou a ajeitar a gola da beca assim como arrumou a peça nos ombros largos do garoto. Deu dois tapinhas em seu peito e encorajou orgulhosa:

— Fique tranqüilo, você vai conseguir subir e pegar o diploma. Caso não consiga, eu dou algum daqueles meus incentivos usados no Glee e ficará tudo bem.

— Ninguém precisa saber da comparação entre eu dançando e um boneco de posto, Miss Berry. — Arthur cochichou reservado, contudo, o sorriso gentil em seus lábios denunciou a brincadeira e Rachel riu ao lado dele, guardando os poucos minutos que ainda restava antes da cerimônia para observar a alegria juvenil e a esperança inocente nos olhos escuros do rapaz.

Rachel daria tudo para ter aquele tipo de sensação de volta. Debaixo do sol escaldante e ao lado de um aluno que tinha quase duas vezes o seu tamanho, Rachel realmente desejou ser menos calejada pela vida. Também pensou que, se a maturidade não viesse com tantas provações e tanta dor, ela seria muito mais proveitosa... Rachel gostaria de ter crescido sem ter perdido tantas coisas pelo caminho.

Não gostaria de ter os seus sonhos espatifados em suas mãos, tampouco gostaria de ter perdido a sua pouca solidariedade em relação aos outros. Talvez, com essas duas coisas em mente, não tivesse partido e destruído o coração e as esperanças de Quinn. Rachel também não gostaria de ter deixado de ser otimista, queria que o seu otimismo falasse mais alto em relação à situação que vivia com Quinn. Gostaria que ele inflamasse a sua coragem e a tornasse insuportável a ponto de conseguir o seu perdão pelo cansaço de Quinn.

Rachel realmente sentia falta da sua personalidade difícil e indomada, dos seus monólogos e de sua inconseqüência em lutar pelo que queria. Hoje, tudo o que tinha era uma personalidade apagada, a falta de palavras e a covardia em enfrentar os piores cenários das batalhas que deveria lutar.

Arthur tinha algo que Rachel temia nunca mais encontrar e esperava que ele, jamais, o perdesse. O rapaz pareceu sentir que a sua treinadora estava entregue aos próprios sentimentos, ele se aproximou e a abraçou, de forma rápida e leve, antes de dizer envergonhado:

— Muito obrigado por tudo. Eu não teria conseguido chegar até aqui sem o Glee, Miss Berry.

— Não é a mim que deve agradecer, eu deixei o Glee quando vocês mais precisavam, Art... — Rachel respondeu gentilmente, o sorriso triste em seus lábios evidenciava que ela mesma se maltratava por essa atitude. E a morena realmente se arrependia do retorno a New York, aquela decisão tirara o pouco que tinha e o essencial que precisava para se manter sã. Arthur agitou a cabeça negativamente e respondeu generoso:

— Justamente por causa disso. Se a senhora não tivesse voltado, eu jamais teria entendido o significado do perdão ou da compreensão e, talvez, eu ainda estivesse fingindo estar bem com toda a minha situação com a Christine... Eu aprendi a me perdoar e a compreender com a senhorita, Miss Berry.

Rachel se viu sem palavras e Arthur não se preocupou em desenvolver o seu argumento. O rapaz sorriu, o mesmo sorriso gentil que invocava proteção e compreensão e Rachel não pode deixar de retribuí-lo. Ele voltou a abraçá-la e, sem jeito, disse:

— Acho que vi Miss Fabray com as meninas, próximas ao palco, talvez, queira vê-las antes do espetáculo e da nossa festa.

A morena acenou de forma débil, a menção ao nome de Quinn sempre a tirava dos eixos e ela mal viu quando Arthur se afastou. Contudo, os seus olhos castanhos se atraíram, imediatamente, para os olhos esverdeados de Quinn. Não precisou procurar, eles simplesmente estavam ali e pareciam, de alguma forma, esperá-la.

Nem Christine e nem Claire estavam com ela, Quinn encontrava-se sozinha a alguns metros e, no momento, abraçava o próprio corpo enquanto desviava os olhos, para a direção oposta. Pela postura dela, Rachel cogitou que estava nervosa e, possivelmente, surpresa por vê-la ali. Provavelmente, Quinn pensara, mais uma vez, que fora embora e Rachel não tirava a razão dela.

Aqueles poucos metros foram uma espécie de purgatório para Rachel. Ela se viu pesando todos os seus erros e acertos, os seus pecados castigavam suas costas e as bênçãos aliviavam os seus ombros. Os seus passos eram lentos, covardes, mas, eram o que ela podia fornecer diante de tudo que trazia dentro de si. Cada passo trazia um erro, cada pedaço de grama percorrido indicada um momento de arrependimento e cada ofegar em sua respiração demonstrava a sua insegurança.

Ela não seria quem era enquanto não pudesse se perdoar pelo que fizera a Quinn... E também não conseguiria se perdoar sem o perdão dela. Contudo, não custava nada tentar, mais uma vez.

Quando Rachel, finalmente, parou próxima a Quinn, parecia que ela tinha andado uma eternidade. Olhando por cima dos ombros, a morena constatou que a distância era muito menor do que parecera ser e que, aparentemente, o peso em seus ombros deu uma trégua diante da aparente recepção de Quinn. A morena pigarreou e Quinn se virou, os olhos esverdeados estavam vazios, mas, não de um jeito ruim. Era como se precisassem ser preenchidos por algo. A loira pigarreou e cumprimentou gentil:

— Achei que não fosse vir depois de nosso último encontro.

— Eu ainda tenho assuntos a resolver em Lima. — Rachel respondeu da mesma forma, até permitiu que um sorriso chegasse aos seus lábios. Não era um sorriso de 1000 watts, mas, detinha um pouco de luz. Esse sorriso abrandou as expressões de Quinn, ela suspirou e perguntou:

— Em relação à herança? Pretende ficar quanto tempo?

— Eu nunca cogitei ir embora desde que voltei, de novo, a Lima, Q. — Rachel respondeu enérgica, os olhos castanhos estavam repletos daquela tola esperança e eles assustaram Quinn. Porém, a loira estava chocada. Não esperava que Rachel fosse aparecer e, muito menos, que ela fosse ficar. A morena parecia satisfeita com o que provocara e dera um passo à frente, contudo, foi interrompida.

Ao redor delas, as pessoas se acomodaram e elas não puderam fazer algo fora o mesmo. Quinn e Rachel voltaram a se afastar, sentando em lados opostos da disposição de cadeiras. Quinn estava entregue à surpresa e Rachel, à realização. A morena se permitira tentar, mais uma vez e a loira não sabia em que local cabia as suas incertezas, naquele momento.

Rachel ficaria em Lima... E agora?

Em nenhum cenário pensado, Quinn imagina que pudesse tê-la, de volta, a sua convivência. Em todas as hipóteses, Rachel seguia o seu sonho... Agora, a morena abandonara tudo para ficar em Lima e Quinn verdadeiramente não sabia o que fazer.

Era tudo impensável, inesperado e imprevisível... Exatamente da forma como Rachel fora, um dia, no passado.

*****

A pilha de diplomas foi, aos poucos, diminuindo. Um por um, os formandos deixaram de ser alunos do McKinley High e passaram a integrar às universidades que haviam escolhido. Com certeza, era um rito de passagem importante. A formatura do colegial mudava os ares e, essencialmente, aqueles que a vivenciavam... A partir de agora, estavam mais próximos da vida adulta do que da adolescência, a vida deixava de ser certa e passava a ser repleta de tentativas.

Era assustador, Quinn sabia disso. Ela lembrava-se de pegar o seu diploma e de senti-lo pesar boas toneladas em suas mãos enquanto a ansiedade e o temor em relação ao futuro se faziam efetivamente presentes, também se lembrava das suas esperanças em relação a um futuro em Yale, próxima a Rachel e, amargamente, também se recordava da dor que sentiu por não poder se despedir e, muito menos, se explicar.

Para Quinn, a passagem da adolescência para a vida adulta era marcada, especialmente, pela partida de Rachel de sua vida.

E a jovem professora não era imune ao que a memória pintava em seu presente. O seu coração estava apertado em seu peito, assim como estava angustiado, ela temia por cada um de seus ex-alunos e esperava que a vida não fosse tão cruel com eles. Nenhum deles estava pronto para o despedaçar de um sonho, a incompreensão de um sentimento e a perda de um amor. Na realidade, nenhum ser humano estava pronto para esses três eventos do destino.

Contudo, eles ainda existiam e quando vinham, dilaceravam e feriam quem encontravam pelo caminho. Ainda assim, eles ensinavam. Com eles, Quinn transformou a dor em companhia para enfrentar a solidão. No meio de tanta escuridão, Quinn manteve o seu sinal de fogo queimando por anos até reencontrá-lo, queimar junto a ele e ser carbonizada pela violência de suas chamas.

De fato, o que sentia por Rachel era feito de juventude, maturidade, caos, equilíbrio, intensidade, frieza... As dualidades existiam naquele sentimento e, essencialmente, tornavam-no o que ele era. Por isso, assim como existiam a amargura e o aperto, também existiam a doçura e a saudade.

Observar os alunos apanharem os seus passaportes para o seu futuro só fazia com que Quinn olhasse por sobre o ombro, em direção ao seu passado. Ou, talvez, ela não estivesse olhando para o que passara... Afinal, Rachel ainda estava ali e, aparentemente, permaneceria.

Rachel Berry era o seu passado melancólico, o seu presente confuso e parecia querer fazer parte de seu misterioso futuro.

Quinn não tinha mais forças de negá-la, porém, também parecia frágil para aceitá-la de volta. O perdão estava preso em sua garganta e ela não sabia se poderia dizê-lo sem esperar algo em troca e, a partir disso, tentar.

As dúvidas eram agonizantes e sedutoras, mas, Quinn preferiu enxergar a realidade. Por isso, ela deixou-se envolver pela postura envergonhada de Arthur ao receber o seu diploma e pelo sorriso imenso de Claire ao apanhar o seu diploma, também se entregou aos olhos brilhantes de Christine e às lágrimas contidas de Richard... A professora se realizou nas comemorações de seus alunos e, por alguns minutos, se esqueceu do que tirara o seu sono nos últimos dias.

— Eu não me lembro de estarmos tão eufóricos assim com o fim do ensino médio. — Noah comentou com um sorriso de lado, brincalhão e leve, enquanto observava um dos rapazes do time de futebol pular enlouquecidamente em cima do palco. Quinn riu do seu acompanhante, uma risada rouca e divertida, antes de responder:

— Eu acredito que estávamos piores do que eles... Ainda assim, eu entendo a situação deles. A esperança no futuro embriaga e enlouquece. Não tem como resistir.

— A esperança é tão avassaladora quanto às decepções que são reservadas a nós na vida adulta... Por isso, mesmo achando essa euforia esquisita, eu gosto de ver que ela ainda existe. — O policial respondeu acanhado, os seus olhos castanho-esverdeados estavam focados na entrega dos diplomas, mas, pareciam enxergar além do evento. Talvez, estivessem focados no passado, envolvidos pelas lembranças da juventude, tentando ignorar todas as mazelas da vida adulta. Quinn desviou os olhos do palco e afagou o braço musculoso do amigo, ele virou para ela e sorriu triste, os dois compartilharam um silêncio entremeado pelos anúncios dos nomes dos formandos e os aplausos dos espectadores.

Na ausência de palavras, ambos lidaram com as suas próprias feridas que, com a vida adulta, demoravam a cicatrizar. A maturidade não concede o tempo necessário para uma palavra incompreendida se fazer entender, tampouco permite que um pedido de desculpas seja refletido e, essencialmente, a maturidade mascara a compreensão e o consentimento do perdão. Na vida adulta, perdoar é tão difícil quanto tentar de novo.

As palmas cessaram e o silêncio se fez presente, igualmente, nos imensos jardins do colégio. Quinn permaneceu com os olhos fixos, não queria enxergar além de Noah porque tinha medo de encontrar os olhos de Rachel na multidão. E aqueles olhos castanhos, mesmo depois de tudo que tinham passado, ainda eram capazes de revirar o seu interior e tirar, de dentro de si, os últimos resquícios do amor que, um dia, dividiram sem medo e sem ressalvas. Aqueles olhos também eram impossíveis, entregando intensidades e sentimentos que afogavam, enlouqueciam e, sobretudo, incendiavam Quinn.

O fogo ainda queimava, machucava e a fazia sentir. Sentir o que, especificamente? Quinn não sabia como responder, mas, desconfiava que o que Rachel entregava queimava e a fazia se sentir viva.

É com muito orgulho que chamamos Christine Mason, ex-capitã das cheerleaders, integrante do Glee Club campeão das Nacionais e, agora, aluna do curso de Arte da Universidade de Yale, para discursar como oradora dos formandos da Turma de 2020! — Apenas algumas palavras poderiam despertar Quinn de seus devaneios relacionados a Rachel e nesse conjunto estavam inclusas àquelas que se referiam a Christine e o seu sonho. Quinn observou a sua aluna subir os degraus do palco, segurando a beca vermelha elegantemente e sorrindo, orgulhosa, para todos que a assistiam.

A professora estava tão acostumada à vivência fria de seus dias que se surpreendeu com o calor morno e delicado que envolveu o seu corpo e abraçou a sua alma. Essa cálida sensação era constituída, sobretudo, pelo orgulho que sentia de Christine. A aluna não dissera, nem dera a entender, em momento algum, que tinha alcançado os seus objetivos... Quinn estava pronta para consolá-la, mas, não estava pronta para estar entregue, tão emocionada, aos sentimentos.

No caminhar de Christine, Quinn se encontrou. Na postura ereta e elegante de sua aluna, a professora encontrou o seu passado escondido e amargado que tanto lhe machucava. E no sorriso de Chris, Quinn encontrou a compreensão e, principalmente, o perdão para o seu próprio fracasso.

Não fora capaz de ir a Yale, talvez, essa fosse uma opção que não coubera em sua vida... Mas, ao menos, pode colocar Christine no rumo dos seus sonhos. De certa forma, o futuro brilhante daquela menina especial tinha grande parte de si. E não havia como não se emocionar com isso.

As lágrimas brilharam na íris esverdeada de Quinn, tornando-a levemente dourada. A professora respirou profundamente e Noah, ao seu lado, afagou-lhe o pulso, o orgulho impresso nas pontas dos dedos calejados dele. Quinn sorriu para as suas mãos e limpou os olhos, delicadamente e, mesmo sendo amparada por Noah, procurou outros pela multidão e, exatamente como previra, encontrou Rachel.

A morena estava há vários metros de distância, aplaudindo em pé enquanto Christine subia ao palco. Porém, o magnetismo entre elas fez com que Rachel virasse o rosto em direção a Quinn e as duas se encontraram novamente. Como tantas outras vezes, os aplausos eram o fundo sonoro da troca de olhares, mas, aqueles aplausos não pertenciam a elas e isso tornava a situação inédita. Não era mais o centro das atenções e sim, duas em uma multidão. E ninguém parecia se importar com o que trocavam exceto elas mesmas.

Quinn enxergou o orgulho intenso nos olhos castanhos, assim como sentiu a eletricidade do sorriso de 1000 watts de potência. As feições morenas estavam emocionadas e viscerais, lembrando, em muito, o rosto pelo qual Quinn se apaixonara. E a loira, imersa no presente e no passado que se misturavam, deixou-se envolver pela familiaridade daqueles olhos e sorriso que lhe eram entregues. Novamente, queimou e, dessa vez, não machucou.

Boa tarde formandos, colegas, amigos, mestres e familiares. Mais do que uma honra, é uma responsabilidade tremenda estar aqui, em nome da Turma de 2020 e eu realmente espero não decepcioná-los. — A voz de Christine estava notavelmente insegura e o seu sorriso era trêmulo, contudo, ela estava feliz. A platéia riu de sua graça e ela suspirou, sentindo-se mais à vontade. Os seus olhos claros procuraram outro par de olhos escuros e os encontraram na primeira fileira. Claire sorriu para ela e Christine sorriu mais confiante. — Bem... A formatura do colegial é um rito de passagem importante e eu não poderia deixar de fugir do clichê ao afirmar que tudo mudará a partir daqui... Porém, o que eu quero deixar claro é que as mudanças são inerentes ao nosso futuro e o que nos diferenciará será a forma como reagiremos às transformações que, com certeza, virão.

Christine, mais do que ninguém, sabia do que falava. As palavras em seu discurso eram verdades absolutas e o sentimento impresso em sua voz era cheio de sinceridade. Logo, todos estavam atentos ao que discursava. Christine falava para todos, ainda que o seu papel fosse falar pelos formandos.

Alguns de nós permitirão que a amargura os impeça de fazer algo, outros serão capazes de usar as feridas e decepções como marcas de guerra para tentarem sair vitoriosos da próxima vez. Não importa como agirmos, não importa quanto tempo fiquemos desacreditados diante do que a vida nos oferece... Tudo o que eu peço e espero de vocês é que tentem. Independente de quão alto seja a queda, de quão dura seja a estrada, de quão despedaçado esteja o seu coração ou os seus sonhos... Não deixem de tentar. Não deixem de esperar por algo melhor. Pior do que o contentamento, somente a falta de esperança. E a vida tentará tirar a esperança de nós, das formas mais cruéis e avassaladoras... E vocês não vão deixar!

As palmas começaram nos formandos e terminaram na platéia. Logo, os formandos estavam em pé e sorriam uns para os outros, repletos de coragem e de ousadia. Quinn os observava com um sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos, as palavras de Christine ecoavam e se faziam entender em sua mente, despertando porções de sua alma e de seu coração que ela julgava ter esquecido.

As palavras de Christine teciam uma linha dentro de si e essa linha levava diretamente ao seu passado, pesando sobre os seus erros e abandonos. Christine era jovem, mas, falava como uma sábia. Ela, em muito, lembrava Charlie. Assim como o senhor que partira, Christine parecia acreditar em razões incompreensíveis para a maioria das outras pessoas. Se a vida era feita de preto e branco, Christine enxergava os diversos tons de cinza e procurava o colorido entre eles.

Christine era feita de esperança porque tudo que alcançara vinha disso. A garota perdoara à vida que cessara ainda dentro de seu corpo, também se perdoara a ponto de lutar para ser alguém melhor para Claire em todos os dias e, acima de tudo, Christine não desistiu diante das primeiras negativas de Yale.

O futuro dela era feito de sonhos e, essencialmente, de esperança.

Dois componentes que Quinn perdera em algum ponto dos seis meses em que a sua vida fora entregue ao passado avassalador e cruel que ecoava em seu presente. A professora se viu pesando o valor do tempo que passou diante do que ainda vivia e do que poderia viver. Não poderia se amarrar aos erros que não podiam ser consertados, nem aos corações que foram partidos... O que tinha em mãos era a liberdade em esperar por algo melhor e, principalmente, a capacidade de perdoar.

Os olhos de Quinn, diante disso, procuraram Rachel. Não sabia por que, mas, aquelas palavras se encaixavam ao que tinham e poderiam significar o que elas tanto procuravam. Entretanto, Rachel não a olhou, dessa vez... A morena tinha um sorriso na boca e chorava delicadamente, duas emoções destoantes que, ainda assim, funcionavam bem no rosto dela. Quinn se viu contemplando a beleza das pequenas imperfeições físicas da morena e, naturalmente, também enxergou a beleza em todas as imperfeições que tornavam Rachel inesquecível.

A obstinação que guiara a sua busca por sonhos era a mesma que a fizera pedir perdão, a coragem em abandonar Quinn era a mesma que a fizera voltar a Lima e o instinto que a levara a New York era o mesmo que despedaçou o coração de Quinn. Ela era o que era, tanto a Rachel que fizera Quinn imensamente feliz como a que a magoou profundamente. A loira não poderia dividi-las, nem determinar qual das duas porções poderia ter de volta, tudo coexistia em Rachel, tudo a fazia ser quem era... E, sobretudo, tudo compunha a Rachel pela qual Quinn se apaixonou.

Sonhos são válidos, assim como sentimentos. Amores são eternos até onde lhe são permitidos durarem. Pessoas permanecem até que a vida se disponha a levá-las de nós. Como reagiremos, como lidaremos com tudo que nos aguarda só depende de nós mesmos. Se você não quer perder algo, corra atrás. Se você não quer ser calado, grite. Se você não quer ser desrespeitado, lute. Se você quer ser amado, permita. E, se você quer ser feliz, perdoe... Entramos num tempo em que tudo pode se perder em um silêncio, em uma palavra incompreendida, em uma ligação perdida e na distância. Não vale a pena tornar mais difícil um momento que já tirará muito de nós. Perdoe a si mesmo, aos seus colegas, aos seus pais... Perdoe e, principalmente, tente de novo.

A explosão de aplausos foi avassaladora, os vivas, também. Christine desceu do palco, eufórica e quebrou o protocolo ao se aproximar do lugar de Claire e engolfá-la em um abraço. Rachel as observou num misto de orgulho e inveja que não tiraram a natureza benéfica do que sentia.

As palavras de Christine tentavam dialogar com todos, mas, para Rachel, pareciam restritas àqueles que ainda tinham muito pela frente. Era um discurso motivacional, repleto de esperança e de conselhos... Rachel não aceitara muitos conselhos na sua vida e, talvez, isso tenha a feito perder a motivação e ânsia em relação aos muitos aspectos fracassados de sua vida.

Rachel tinha muitas cicatrizes em seu interior, algumas pequenas e outras tão grandes o bastante para desfigurarem o que ela, um dia, fora.

Os seus anos em New York escureceram a sua alma, tornaram-na covarde e removeram toda a obstinação que guiara os seus atos. New York, a cidade dos seus sonhos, massacrara cada um deles, atirando-a na sarjeta da realidade obscura e cruel. Ironicamente, cada mês em Lima trouxe de volta uma porção que se perdera na cidade com a qual tanto sonhara. Rachel voltou para a música, os seus sonhos passaram a ser o de muitos e a sua obstinação voltou a se fazer presente no momento em que mais precisou dela.

Uma a uma, as cicatrizes mais desfigurantes foram suturadas e a cura veio por meio de mãos cujos donos poderiam ter abandonado-a.

Rachel descobriu que o seu lugar no mundo era justamente aquele que tanto tentara abandonar. Aos poucos, o seu coração a lembrou de que a sua casa era onde Quinn estava e que os braços dela eram onde poderia repousar. Rachel entendeu tudo o que o seu peito quis dizer, mas, não o escutou quando se deixou seduzir por sonhos que não eram mais seus e por realidades que nunca a pertenceram.

A morena ainda embriagava-se na irresponsabilidade de seus atos e no arrependimento de suas escolhas. E esse gosto amargo a impedia de saborear toda a esperança contida naquele discurso. Rachel estava acostumada com o pior — o gosto salgado das lágrimas, o ruído incômodo do choro solitário, o frio da solidão — e o melhor parecia distante e, até mesmo, impossível para ela.

Por isso, a esperança juvenil não lhe tocava, muito menos, a ânsia pelo futuro promissor. Tudo pelo que se interessava era o presente porque o seu passado estava manchado por erros e o seu futuro era um reflexo fracassado do seu presente confuso e indeterminado.

Nesse momento, Rachel desejou que ainda fosse jovem. As amarras da maturidade machucavam os seus pulsos e tornozelos, impedindo-a de voar para as nuvens — fossem elas representadas pelos seus sonhos ou pelo o que sentia por Quinn — a morena sentia-se presa ao chão, como se toneladas pesassem os seus ombros.

Tudo o que Rachel queria era que as ações de Quinn fizessem par ao que os olhos dela passavam. A morena queria que os seus atos fossem compreendidos da mesma forma que os olhos de Quinn compreendiam os seus quando se encontravam. Também gostaria de se sentir inteiramente ligada a ela, da mesma forma que as duas gravitavam de encontro à outra mesmo diante de uma multidão de pessoas... Rachel queria que as atitudes de Quinn as aproximassem e não as afastassem.

Mesmo querendo tanto, Rachel sabia que merecia pouco. O que fizera machucara e maltratara toda a delicadeza e visceralidade do que possuíram. Rachel sabia quão difícil seria recuperar tudo o que perdera, mas, estava disposta desde que não ferisse Quinn com suas tentativas.

Rachel sabia que receberia, em algum momento diante de toda a vida que tinha em Lima pela frente, um “sim” ou “não” e também tinha plena consciência que, independente do que viesse, ela teria que respeitar e teria que aprender a conviver com o que Quinn reservava a ela.

Quanto mais tempo Quinn ficava em silêncio, mais se fortalecia a hipótese de vê-la feliz com outra pessoa. Essa ideia doía e dilacerava o coração de Rachel e, ainda assim, ela se contentava com isso. Sabia o que fizera, assim como sabia o que merecia receber.

Porém, nenhuma dessas certezas a impediam de esperar. Ela ainda tinha esperanças, os seus sonhos agora se baseavam em uma vida com Quinn e ela esperava que estes não se despedaçassem e, muito menos, se transformassem em uma visão sombria do ideal.

A cada contato visual interrompido, Rachel perdia a fé. Contudo, logo a recuperava quando era bem recebida pelos olhos verdes que tanto a afastaram... Eram sinais dúbios e que não podiam ser interpretados em conjunto e tudo o que Rachel poderia esperar é que eles refletissem alguma espécie de confusão.

Na situação em que estava frente a Quinn, uma confusão era melhor do que qualquer certeza.

Os olhos castanhos desviaram-se da alegria juvenil dos formandos. Eles voltaram a procurar por Quinn e a encontraram caminhando entre os espectadores, alcançando Christine e a abraçando apertado. Rachel sorriu para essa interação, as duas eram muito importante uma para a outra e a morena admirava essa cumplicidade. Cabisbaixa, Rachel rumou na direção contrária, seguindo o contingente de pessoas que abandonavam os jardins.

Acima dela, o céu lentamente se fechara e o sol quente cedia às pesadas nuvens de chuva que se formavam. Era estranho que, em pleno verão, a chuva se fizesse presente, tão ameaçadora e tão pesada, sobre Lima.

Rachel não deu atenção ao clima porque estava imersa na tempestade dentro de si e diferentemente do tempo que mudava ao seu redor, ela sabia que a bonança poderia não esperá-la no fim da chuva. A água cairia, em formas de lágrimas ou de suor, e o arco-íris era tão incerto como o pote de ouro em seu final.

*****

As gotas de chuva castigavam a janela da sala de estar, a casa da família de Arthur não era muito grande, mas, era aconchegante. Porém, não era como se os donos da festa e seus convidados se importassem com isso, a felicidade latente dividida entre eles poderia tornar qualquer lugar confortável assim como praticamente ignorava a tempestade que caía do lado de fora.

Quinn não parara de sorrir desde que chegara ao local, porém, sentia-se deslocada porque os seus alunos estavam eufóricos e muitos estavam a um passo da embriaguez. Não gostaria de ficar com essa última imagem deles. Claire e Christine estavam imersas em seu mundo particular e Quinn não queria atrapalhá-las, por isso, estava solitária, próxima a janela, observando as gotas de chuvas ricochetearem e escorrerem pelo vidro da janela.

Ainda que suas feições denotassem alegria — uma alegria que ela realmente sentia — ela também estava cansada, ligeiramente abatida. Quinn tinha esperanças de que Rachel viesse à festa ou, pelo menos, de que elas pudessem conversar sobre qualquer coisa (a herança ou não) depois da colação. Porém, a bagunça do fim da celebração a impediu de procurar pela morena e a chuva que desabou, desde então, tornou qualquer procura impossível.

Quinn estava preocupada, não sabia se ainda deveria sentir-se dessa forma, mas, gostaria de saber onde Rachel estava. Claro que ela estava na cidade, mas, Quinn sentia falta de simplesmente saber por onde a morena andava.

Essa era uma das muitas necessidades que a atormentavam desde que Rachel a surpreendera ao ficar em Lima e ceder a parte que lhe cabia da “Letters, Love and Dreams” a Quinn e Kathryn. Essas duas atitudes lembravam Quinn da Rachel que lutava por aquilo que acreditava e que era generosa o bastante, mesmo que ainda parecesse egoísta, para ceder muito de si pelos outros.

Quinn não sabia o que sentia, tudo ainda estava confuso e bagunçado, e era exatamente aí que a outra necessidade, mais avassaladora do que a anterior, se fazia presente. A conversa com Santana abrira os olhos de Quinn e ela não conseguia deixar de pensar que devia algo a Rachel, talvez fosse o perdão ou outra chance, mas, a loira sabia que devia retornar algo valioso à morena. Afinal, Rachel dera muito ainda que também tivesse lhe tirado muito.

Elas deviam muito uma à outra e deveriam ser capazes de retribuir, de alguma forma.

Quinn pensava o que poderia dar, contudo, não sabia. O perdão que Rachel pedira estava preso em sua garganta e uma razão inimaginável o impedia de ser proferido. O que a impedia de dar a Rachel o que ela precisava para, ao menos, tentar ser feliz de novo em Lima?

I just want you here with me

Breathing the air you breathe

Whisper the words you know

I’ll never let you go

A professora olhou ao seu redor, os seus alunos riam e brincavam entre si. Aqueles que tinham alguém recolhiam-se aos braços de quem amavam e os que estavam solteiros se dedicavam às bebidas ou à possibilidade de não terminarem aquela última noite sozinhos... Todos estavam com ou à procura de alguém.

Quinn entendeu que não havia muito para ela naquela festa.

A chuva castigava Lima, mas, ela não impediu que Quinn olhasse, pela última vez, para o Glee da Turma de 2020. A loira procurou memorizar os sorrisos ébrios, as expressões felizes, o brilho esperançoso em cada um dos olhares... Portando-os em sua memória e, principalmente, em seu coração, Quinn saiu discretamente da festa.

O gramado do jardim da casa de Arthur estava, praticamente, inundado. Quinn respirou fundo e tirou as chaves do sedan da bolsa, olhou objetiva para o outro lado da rua — onde o seu carro estava estacionado — e atravessou a chuva.

As gostas castigaram a sua pele e até mesmo arderam, tamanha era a intensidade com a qual caíam e Quinn chegou ao carro ensopada. Dentro do veículo, Quinn ligou o vento quente, procurando se secar, sem sucesso algum. As suas mãos tatearam o volante e ela colocou a chave na ignição.

O sedan engasgou o motor, mas, ligou. As luzes se acenderam e ela ligou os limpadores de pára-brisa. Quando conseguiu alguma visibilidade, manobrou para longe do meio-fio e o rádio ligou automaticamente. Uma melodia doce e calma perpetuou no interior do carro, contrastando violentamente com a agressividade da chuva do lado de fora.

Quinn respirou fundo, engatou a marcha e iniciou o seu trajeto de volta. Para onde? Ela não sabia, talvez fosse para a casa, ou para Santana ou, até mesmo, procurasse por algo que pudesse ser seu naquela confusa noite chuvosa de Lima.

I won’t let you go... No

Rachel tinha a absoluta certeza de que o seu celular encharcara e não mais funcionava, claro que essa hipótese a tirava do sério, mas, mais do que isso, não importava tanto assim. Era impossível que existisse algum sinal de telefonia celular naquela tempestade.

E, afinal, a morena estava mais irritada com a sua teimosia do que com a chuva ou com o seu celular. Se não fosse tão teimosa a ponto de sair da colação na primeira oportunidade, poderia ter pegado carona com alguém e à essa hora, estaria segura em casa ou na festa de despedida do Glee.

Claro que não fizera isso — não queria ir para casa e, também, não sabia se queria encontrar Quinn na festa dos garotos — e, no momento, estava caminhando, com os pés chapinhando na enxurrada e nas poças de água, em direção a algum lugar no qual pudesse se abrigar. Mas, não havia nada aberto em Lima e os pontos de ônibus e marquizes de nada adiantavam naquela chuva.

O que tinha para si, naquele momento, era a chuva gelada castigando suas roupas e os sons ritmados de seus pés pisando mais em água do que em calçada. De vez em quando, a noite também reservava um belo banho de um carro que passava correndo por ela, mas, Rachel estava conformada com toda a situação.

E não se referia apenas ao seu estado deplorável, embaixo de uma chuva daquelas. Mas, também, a toda a situação com Quinn. Não havia muito pelo que esperar, na verdade, Rachel nem sabia o que verdadeiramente esperava daquilo tudo. Claro que ansiava por um final feliz, pelo perdão que pedira... Só que diante de toda aquela espera silenciosa e repleta de conflito, a morena se perguntava se não estava esperando, simplesmente, por um desfecho.

O fim para aquela história ou um recomeço para qualquer outra narrativa... Qualquer desfecho que a pudesse erguer a cabeça — ou se afundar no buraco que tinha no peito — e tentar de novo.

So won’t you

Don’t you know I always

Try to

Can’t you see in my eyes

All the reasons you are mine

Lima era assustadora durante a noite e a chuva só tornava tudo mais sombrio. Quinn não apreciava o aspecto interiorano e até meio decaído de algumas partes da cidade, e esses lugares, banhados por aquela chuva assustadora, tornavam-se ainda mais deploráveis.

Lugares como aqueles, em Lima, fizeram-na sonhar com uma vida distante daquela cidade. Quinn ansiou por caminhar pelos campos gramados de Yale, por pegar o metrô para viajar até New York quando quisesse, por noites em bares universitários e dias em aulas interessantes... Quinn desejou muita coisa fora de Lima e abominou muita coisa de sua cidade, no passado.

Mas, agora, mesmo debaixo daquela chuva e de toda a sensação de obscuridade que a tomava, Quinn sabia que não poderia estar em outro lugar que não fosse Lima. Existia algo naquela cidade que a fazia agarrar e não mais soltar aqueles que não quisessem ficar. Lima era o lar de seus erros, de suas derrotas, de seus medos e de seus fracassos... Porém, também era a casa de seus renascimentos, de suas paixões, de Charlie, de seu amor pela literatura e, principalmente, de Rachel.

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Lima também não era a primeira opção da morena, só que dessa vez, ela resolveu ficar. Quinn não ousara perguntar o por que, mas, de certa forma, sabia o que — ou melhor, quem — fizera Rachel ficar.

Mais uma vez, a cidade dera um jeito para que Rachel, uma das que mais quiseram abandonar Lima, ficasse. Quão verdadeira era essa razão? Será que não era só a maldição da cidade se manifestando novamente?

Quinn sabia que não pensava direito, mas, nada fazia muito sentido desde que Rachel entrara em sua vida como um cometa, queimando a sua atmosfera e caindo como uma bomba em sua superfície. Rachel destruiu muita coisa, contudo, ergueu tantas outras, claro que foi de forma catastrófica.

Todavia, Quinn não conseguia negar a felicidade, nem mesmo o desejo e a saudade. Os beijos trocados ainda formigavam os seus lábios, a pele morena ainda era conhecida às pontas de seus dedos, o corpo pequeno ainda cabia perfeitamente em seus braços e os olhos castanhos ainda lhe diziam muito... Essas lembranças ainda eram visíveis e táteis aos seus sentimentos e, por isso, tornavam a saudade ainda mais intensa.

E era justamente a intensidade da saudade que determinava o valor da palavra engasgada em sua garganta. Quinn queria proferi-la, mais do que tentar, Quinn queria dizê-la.

O que a impedia?

Maybe that’s why we try

Maybe that’s why we fight

Maybe that’s why we give it all to keep this love alive

Maybe that’s why we try

Rachel gostaria de rir da ironia em que se encontrava. Era uma pessoa feita de atitude e que, no momento, se via questionando o que fazia. Nunca questionara as suas motivações para suas ações, até porque elas sempre foram extremamente claras no propósito de levarem-na ao sucesso... Entretanto, tratando-se de sentimentos e essencialmente, tratando-se de Quinn, Rachel se via em um mar de dúvidas.

Queria um desfecho, ao mesmo tempo em que se perguntava porque ainda tentava tanto mesmo diante do silêncio ou da distância de Quinn.

Não sabia determinar o que ainda a impulsionava, estava tão perdida em probabilidades, em necessidades e, sobretudo, em saudade que sentia os seus julgamentos cada vez mais falhos e sem propósito. Será que não deveria voltar a New York?

Não, claro que não.

Esse era um questionamento infundado. Não existia nada para ela naquela cidade, não mais. Em Lima, ao menos, tinha os seus pais e alguns poucos amigos que poderia reconquistar. E, talvez, quem sabe, teria Quinn de volta.

Naquele momento, em sua vida, Rachel prezava muito mais pela probabilidade de ter um sonho do que galgar outro. O seu sonho era para ser sonhado junto a Quinn e o seu coração estava preso àquela cidade. Rachel sabia que jamais seria capaz de abandoná-la enquanto Quinn não a pedisse ou enquanto a vida não se encarregasse de, mais uma vez, machucá-las.

Os pequenos pés de Rachel continuaram a batalhar contra a enxurrada torrencial de água. A morena estava molhada da cabeça aos pés e começava a tremer, ela estava distraída e não teria percebido nada a seu redor.

Exceto, um carro que, mais uma vez, passara ao seu lado e jogara mais água sobre si... Como se ela precisasse.

I just want you here with me

Silence and kisses sweet

Say I’m the only one

There’s nothing running we’re running from

No I won’t let you go

Quinn demorou a reconhecer a silhueta pequena através dos limpadores e da chuva que escorria em seu pára-brisa. Mas, conforme se aproximava da figura solitária que caminhava embaixo da tempestade, mais os seus olhos lhe provaram, novamente, que seria capaz de reconhecer Rachel em qualquer situação.

O carro parou bruscamente ao lado da morena, lançando uma enxurrada no corpo pequeno que se encolheu, instintivamente. Rachel se virou instantaneamente para o carro parado, pronto para brigar e só não o fez porque o vidro da porta do passageiro se abriu.

Rachel não reconheceu o carro, mas, seria impossível ignorar o batimento acelerado de seu coração ao reconhecer a motorista. Quinn apertava o volante com as mãos trêmulas, não sabia o que fazer, tampouco, o que dizer. A loira observava as gotas gordas molharem o estofado gasto do seu carro usado. Ela suspirou e, insegura, perguntou:

— Bem, é... Quer carona?

O tom nervoso rapidamente as fez se recordar do primeiro encontro das duas naquela cidade amaldiçoada — ou abençoada — pelos seus passados e presentes. Rachel inclinou a cabeça confusa, alguns fios castanhos grudaram em seu rosto. Não sabia o que respondeu, diferentemente daquela vez, não existia muita amargura no reencontro, nem acidez. Era agridoce, um misto de saudade e tristeza. A morena suspirou e elevando a voz através dos sons da tempestade, respondeu:

— Não precisa, não é como se uma carona fosse fazer diferença no meu estado.

— Eu sei que não faz, mas, você chegará mais rápido em casa, de qualquer forma. — Quinn respondeu bondosa, no mesmo tom do qual Rachel se lembrava da primeira vez, e exatamente da mesma forma, Quinn tomou atitude, ela destravou a porta do carona e se esticou para abri-la.

Nos minutos que determinaram a entrada de Rachel no sedan, o carro recebeu mais umidade. Quinn manteve as mãos firmes no volante e espero, pacientemente, que Rachel entrasse no carro, molhasse o seu estofado e colocasse o cinto, antes de destinar o ar quente para ela e voltar ao trânsito.

Fora a música delicada no som do carro e o som das respirações das duas, tudo era silêncio e assim permaneceu, por um bom tempo.

Won’t you

Don’t you know I always

Try to

Can’t you see it in my eyes

All the reasons that you are mine

O silêncio permeado por música parecia ser a única melodia que cabia a elas. As palavras pareciam ter perdido o valor depois de tanto serem usadas em promessas quebradas e juras que se perderam em erros catastróficos.

Naquele silêncio preenchido por acordes, vozes e melodias, elas pareciam querer estabelecer uma conversa sem palavras. Porém, Quinn sentia as palavras presas em bolo em sua garganta, assim como Rachel sentia as mesmas se desvencilharem de sua língua e se perderem antes mesmo de chegarem aos seus lábios.

Muito tinha ocorrido entre elas e também havia muito a ser resolvido. E o tempo parecia faltar, assim como as dúvidas sem resposta pareciam sobrar e as justificativas pareciam sumir. O perdão era necessário, mas, não se falava por ele.

As duas tentaram, cada uma a sua forma, superar. Quinn quis esquecer, Rachel quis tentar de novo... Mas, o que nenhuma das duas sabia era que, de uma forma ou de outra, elas precisariam da outra. Algo dessa magnitude não era para ser superado ou resolvido sozinho, o que elas tinham, como Santana mesmo dissera, era raro e muito além de qualquer compreensão de alguém de fora ao seu universo.

Nem elas entendiam o que tinham, como poderiam estar prontas para algo?

Tudo o que Rachel sabia era a saudade que castigava o seu coração e voltava a abrir as grotescas cicatrizes que a transfiguravam. E tudo o que Quinn tinha conhecimento eram as palavras presas em sua garganta e a necessidade de dizê-las que assolava o seu peito.

Palavras... Elas precisavam delas. Mas, Rachel tinha a música e Quinn as tinha em falta.

Antes que pudessem proferir algo, elas chegaram ao seu destino. As mãos de Quinn as guiaram de forma automática por Lima, em algum momento, a chuva também diminuíra e agora, elas até podiam enxergar a casa dos Berry através da garoa. O carro parou, a música acabou e o silêncio se manteve.

Rachel pareceu esperar por algo e não o encontrou. Contudo, daquela vez, ela se manteve acordada e abriu a porta. A coragem, daquela vez, não lhe faltou. Ela não fingiria que dormira para evitar qualquer confronto, pelo contrário, ela precisava daquele confronto.

A morena precisava de qualquer coisa que não fosse o silêncio de Quinn.

— Nos vemos por aí? — As palavras de Quinn, decididamente, não eram o que Rachel esperava. A morena voltou a se encostar ao banco e, ligeiramente decepcionada, olhou para Quinn. A loira tinha os olhos mais próximos do verde do que do dourado, ela desejava algo e Rachel não mais sabia o que era, não sabia o que Quinn queria enquanto ela não dissesse. Já os olhos castanhos deixavam evidente o que queriam, ainda que as feições que os possuíssem estivessem entregues à melancolia. Rachel suspirou fundo e tentou abrir um sorriso ao dizer:

— Sim, claro... Nós nos vemos por aí, Quinn.

Quinn sorriu para a resposta, mas, o sorriso que recebeu não tinha potência alguma. Era como se a tempestade de raios tivesse sugado a eletricidade do sorriso de Rachel. Dentro do carro, Quinn a observou dar-lhe às costas, mais uma vez.

Só que, dessa vez, parecia existir uma promessa... Ou, ao menos, uma probabilidade. Ainda assim, não era bem o que Quinn queria. As palavras, novamente, a traíram. O que Quinn queria ter dito era outra coisa... E, essencialmente, queria ter forças para fazer outra coisa. Aquela era a hora, ela deveria ter feito alguma coisa.

*****

As palavras, mais uma vez, constituíram uma promessa que foi quebrada. As duas não voltaram a se ver nos próximos dias e sim, apenas no próximo mês. Um novo ano letivo se iniciou no McKinley High e Quinn se viu envolvida por planejamentos de aulas e novas listas de chamadas. Contudo, nada disso distraiu-lhe da conclusão que se instalou em sua mente desde que deixara Rachel em casa.

Era a hora, não existia outro momento. Ela precisava dizer, seja lá o que fosse.

Mas, não houve reencontrou, nem contato. Rachel desapareceu e, mesmo no primeiro dia de aula, Quinn não a viu.

A professora de Literatura estava na sala dos professores, imersa em seus novos diários de classe quando escutou batidas na porta. Quinn retirou os óculos de literatura e massageou a nuca, os fios loiros estavam mais compridos e a atrapalharam por breves instantes antes de afastá-los e, finalmente, erguer os olhos para quem batia.

No portal, Rachel tinha um sorriso acanhado — mais potente do que o que Quinn tinha na lembrança — e parecia nervosa. A pequena morena tinha os cabelos mais curtos e agora, os usava lisos. Ela também voltara a adotar a franja. Estava ainda mais parecida com a Rachel Berry do colegial. Não existia necessidade de formalidade e cumprimentos entre elas, elas se conheciam e, principalmente, se reconheciam há anos... A morena pigarreou e perguntou:

— Eu tenho algumas muitas audições do Glee para assistir, você aceitaria ser a minha co-treinadora nesse ano?

— Cla... Claro, por que não? — As palavras não traíram Quinn, dessa vez, mas, queimaram a ponto de serem, praticamente, expelidas de seus lábios trêmulos. Rachel não pareceu perceber a sua euforia, a própria morena parecia nas nuvens com a resposta que recebera. Rachel esperou, em silêncio, enquanto Quinn fechava os diários de classe.

As duas saíram juntas, lado a lado, para o corredor cheio de alunos.

Maybe that’s why we try

Maybe that’s why we fight

Maybe that’s why we give it all to keep this love alive

Maybe you’re all that I need

Even when you’re holding me

Everything you and I have got it takes so long to fight

Maybe that’s why we try

O corredor não se abriu para a head cheerio e loser e sim, para as duas professoras que caminharam por entre os alunos. Lado a lado, elas apreenderam mais um pouco da familiaridade de atravessarem aquele corredor. Dessa vez, também não existia ódio ou desprezo, muito menos, Finn Hudson ou qualquer outro garoto. Eram somente as duas, ainda que existisse uma multidão de adolescentes ao redor delas.

Ainda assim, existia reconhecimento naquele ambiente. Elas voltaram a se encontrar, como jovens, adultas e, principalmente, como mulheres.

Nos lábios de ambas, brotaram sorrisos. As mãos estavam inquietas, Quinn as mantinha entrelaçadas enquanto caminhava e Rachel as torcia em um aperto. Havia a necessidade do toque, assim como existia a necessidade das palavras.

As duas chegaram em frente a uma porta, pelo vidro, Quinn visualizou a sala do Glee mais cheia do que o normal. Novos rostos, novas audições, novos começos, novas direções... Em frente à porta, Rachel parou. Ela virou-se para Quinn e perguntou:

— Pronta?

Talvez, as palavras não tivessem o significado, mas, Quinn as entendera. As palavras a tocaram e, sobretudo, a queimaram. O sinal que ela tanto procurava voltou a queimar e a loira entendeu que estava esperando a hora certa, ela acabara de chegar. Quinn retribuiu o sorriso para Rachel, um sorriso caloroso que pretendia, também, escaldar a morena. Rachel, lentamente, deixou que a potência voltasse aos lábios e esperou, mais um pouco, para escutar Quinn responder segura:

— Sempre.

Nos olhos de Quinn, a resolução e o prazer por, finalmente, ser capaz de perdoar, tornavam os olhos verdes vivos, como eles haviam se esquecido de ser. Nos olhos castanhos de Rachel, a paz de quem esperara, pelo tempo que fosse, para ter aquilo que acabara de receber.

Mais uma vez, as palavras foram desnecessárias para o entendimento. Não existiam palavras perfeitas para descreverem o que elas possuíam. Em vez disso, o castanho fundiu-se ao verde e explodiu... A partir dessa explosão, o sinal de fogo queimou e ardeu, mostrando que aquela era a hora pela qual esperavam. Essa era a hora de tentar de novo.

FIM

Notas finais
O que acharam? Bem, não foram poucas as vezes em que eu chorei enquanto redigia esse capítulo, Signal Fire é muito importante para mim e, por isso, eu farei algumas considerações a respeito do enredo. Espero que leiam! Em primeiro lugar, Signal Fire foi originalmente concebida como um AU em que tudo dava errado... Lógico que eu não imaginava que a série também fosse tomar esse caminho. A partir dessa similaridade, eu resolvi mudar muitas coisas. Eis que Signal Fire se tornou uma história sobre dor. Essencialmente, tudo abordado aqui envolve a dor de perder alguém, um amor ou, até mesmo, um sonho. Devido a isso, eu sei que não era a história mais confortável a ser lida, mas, eu agradeço aos que ficaram até o fim. Em segundo lugar, eu não pensava em finalizar dessa forma, quase como em aberto... Mas, o desenvolvimento das personagens, sobretudo, da Rachel, levou a uma divisão entre os leitores. Uns queriam um final feliz, outros, não. Eu pensei em deixar assim... Ali no final, existe a certeza de que elas se perdoaram. Mas, cabe a cada um colocar o que mais lhe agrada. (Eu, honestamente, acho que elas ficaram juntas xD). Em terceiro lugar... Eu amadureci junto com Signal Fire, comecei a fanfic com 17 para 18 anos e hoje, tenho 23. O amadurecimento na escrita é perceptível assim como na forma de lidar com cada enredo. Eu espero, mesmo, que esse crescimento tenha enriquecido a fanfic e não tornado-a pior. E, em último lugar, SF não terá epílogo (porque a organização dela foi feita a partir do capítulo 1) e nem segunda temporada. Bem, depois de todas essas considerações... Quero agradecer àqueles que ficaram até o final, sejam os que começaram junto comigo, ou os que pegaram a partir do hiatus ou até aqueles que descobriram agora. Cada um de vocês contribuiu para a história, fosse lendo e ficando na moita ou lendo e comentando. Eu sou grata, a cada um. Pois, a escrita entrega um pouco de quem escreve e acreditem, vocês tem um pouco de mim e também, me ajudaram em muito durante esse enredo. Ah, um aviso... Com o fim de Signal Fire, Everlasting será retirada do hiatus e as postagens começam a partir do mês que vem. Heart on Fire in Her Hands também será atualizada logo, prometo. Bem, esse foi nosso último contato em SF. Espero que tenham gostado e também espero que não parem por aqui, tenho outras fanfics em andamento e aguardo vocês em cada uma delas. Mais uma vez, muito obrigada pelo carinho! Nos vemos nos próximos enredos, com carinho, Fernanda Redfield (@redfieldfer)
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