Signal Fire

24 Perdões e Agressões


Notas iniciais
Boa noite, galerinha! Como vocês estão? Espero que todos estejam bem e animados, como eu estou, para mais um capítulo da nossa novela mexicana chamada "Signal Fire" HSUAHUSHUAS Bem, esse capítulo foi escrito sob efeito de boas doses de romance, comédia e drama... Espero que vocês gostem! Está longuíssimo! HSAUASHUAS Boa leitura!

Rachel procurou não fazer barulho ao abrir a porta de casa, mas foi traída pelo molho de chaves que caiu ao chão. A morena proferiu um palavrão enquanto pescava as chaves e o chaveiro de estrela dourada e encaixava a chave da porta da frente do lado de dentro da maçaneta, trancando-a. Tinha acabado de fechar a porta quando as luzes da sala se acenderam.

Rachel revirou os olhos, ainda de costas. Realizou um de seus rituais para respiração e repetiu, para sua mente e coração, que deveria se acalmar e preparou-se, concentrada, para a conversa longa que ela preferia ter deixado para a manhã seguinte. Colocou as mãos nos bolsos da calça jeans que usava e virou-se para encarar os pais.

Leroy estava de braços cruzados, parado sob o portal da sala com uma expressão que pretendia ser séria e bronqueadora, mas que falhava miseravelmente quando observada mais atentamente, Rachel percebeu que ele estava com os lábios repuxados e controlando-se para não sorrir. Hiram estava sentado na poltrona antiga da sala, a expressão indecifrável, as pernas cruzadas e as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

Os três Berrys olharam-se por alguns minutos, em silêncio. Rachel sustentou o olhar dos pais com força, ela não iria fraquejar e muito menos duvidar a partir de agora. Quinn já fizera muito pelas duas, era a sua hora de agir. E mais, ambas prometeram, ainda que não proferissem em voz alta, que lutariam dessa vez e lutariam até o final. Aquilo tudo se acabaria só quando uma decidisse proferir em voz alta que acabara.

Leroy era mais sensitivo quando comparado a Hiram, também eram o mais emocional e o que mais protegia a filha. Por isso, também, era o que mais conhecia a pequena quando ela procurava esconder as coisas de ambos. E, naquele momento, o coração do homem não cabia dentro de seu peito diante de tamanha alegria e de tal alívio... Rachel estava melhorando, estava voltando a ser a garota sonhadora otimista e, aos poucos, estava amadurecendo e tornando-se uma mulher forte e independente. Porém, olhando-a chegar em casa, tarde da noite e com aqueles olhos castanhos brilhando tão intensamente e tão esperançosos... Ele sentiu como se, finalmente, a sua pequena estrelinha estivesse voltado para casa. E melhor, trazendo uma mulher tão incrível escondida dentro de si. Ele estava orgulhoso, não havia outra palavra para descrevê-lo naquele momento.

Quanto a Hiram, este se sentia estranhamente perdido ao observar a filha caminhar até a sala e sentar-se no sofá, a sua frente. Leroy permaneceu em pé enquanto Hiram observava a filha, analítico. Enquanto seu marido era a emoção, Hiram era a razão. Ele era o que colocava um pouco de juízo na cabeça dos dois quando os sonhos falavam mais alto, também era o que ajudava Rachel com os deveres de casa do colégio e também foi aquele que cuidou de toda a situação dela em NYC quando a filha partiu... Devido a essas qualidades, era ele quem bronqueava e era ele que era o mais distante naquela família. E ele se sentiu ainda mais longe de sua filha quando a pegou desviando os olhos dos seus.

Ninguém parecia querer falar, mas dentre os três, Leroy também conseguia ser o mais corajoso e, ao mesmo tempo, cara de pau. O homem saiu de sua posição original e caminhou até onde a filha se sentara, segurou a mão direita dela entre as suas e pigarreou, procurando as palavras. Assim que as encontrou, perguntou com cuidado:

– Algo que queira nos contar, querida?

Rachel ergueu, lentamente, os olhos que estavam encarando os próprios pés. E ambos os pais perceberam a mudança finalmente se manifestar por todo o rosto dela e não somente nos olhos. A pequena abriu um sorriso enorme, as bochechas coraram e algumas lágrimas teimosas chegaram aos seus olhos. Hiram observou Leroy acompanhar todas as mudanças na filha, entusiasmado. Rachel apertou a mão dele que envolvia a sua e orgulhosa, respondeu:

– Eu e Quinn nos acertamos.

– E, dessa vez, parece que vocês estão seguindo a velocidade normal das coisas e, também, me parece que vocês estão deixando a vida guiá-las, não é? — Leroy constatou com um sorriso genuíno e que transbordava tanta felicidade quanto o de Rachel, a morena acenou com a cabeça afirmativamente antes de finalmente ceder à emoção e jogar-se nos braços do pai. Leroy a apreendeu para si com uma gargalhada rouca. — Ainda bem, vocês duas ainda parecem adolescentes quando brigam.

– Eu realmente fico tocada com a sua sensibilidade e a sua confiança em relação a nós, pai. — Rachel murmurou irônica e arqueando a sobrancelha com um sorriso. Hiram percebeu que nunca tinha visto aquela expressão no rosto de sua filha e sim, no rosto de Quinn Fabray. Seu peito apertou, um pouco e doeu. O homem suspirou e colocou as mãos sobre os olhos, procurando controlar as próprias emoções e tentando não ser um carrasco naquele momento tão importante para Rachel.

Ele amava a filha, talvez, fosse por isso que não confiava em Quinn. Enquanto a ex-cheerio era somente a melhor amiga de sua filha, ele poderia confiar que ela não a magoaria de forma alguma, amigos erram, mas sempre se redimem depois... Mas a dor de um coração quebrado, essa ele sabia que jamais seria curada. Ele já vira Rachel com o coração quebrado e não fora por Finn, foi naquele dia, na plataforma de trem, quando ela foi a New York sem se despedir de Quinn Fabray... Naquele dia, ele soube por quem Rachel era verdadeiramente apaixonada.

Por mais que, nos anos que se seguiram, ele recebeu Quinn em sua casa como se fosse sua filha, ele sabia que fazia aquilo porque acreditava que o amor era platônico e unilateral. Quando Quinn correspondeu, ele se viu em perigo. Leroy não percebera, mas Hiram soube, no momento em que as duas ficaram juntas, que Rachel sairia machucada da história. E ele cresceu e engrandeceu como pai, ele foi proteger a sua menina e acabou machucando-a ainda mais... Rachel entenderia se ele explicasse que fizera tudo por amor?

Imerso em seus pensamentos, Hiram não percebeu que estava sendo observado discretamente pela filha. Rachel o olhava, esperançosa, esperando silenciosamente que ele finalmente aprovasse quem seu coração escolhera para ser sua. Sabia de todos os defeitos de Quinn, assim como conhecia todas as qualidades de Quinn... Mas depois de tudo que passaram naqueles últimos meses, ela só se apaixonara ainda mais e só a amava com ainda mais intensidade. Ela realmente não queria ter que lutar contra seu papai se ele entrasse no caminho de sua felicidade.

E vendo-o ali, desolado e perdido... Seu coração se apertava e internamente, travava uma batalha ferrenha contra seu egoísmo que gritava para que ela o esquecesse e fosse ser feliz com Quinn.

– Tem algo a dizer, Hiram? — Mais uma vez, foi Leroy quem tomou a coragem de dizer as palavras pelas quais ninguém se responsabilizara. Hiram afagou o rosto com as duas mãos e, finalmente, baixou-as. Leroy e Rachel puderam enfim enxergar sua expressão culpada e cansada, Hiram suspirou e respondeu fracamente:

– Na verdade, sim.

– O que está esperando, papai? — Rachel questionou ansiosa e deixando seu tom de voz entregar seu nervosismo. Leroy percebeu a fragilidade da filha, o sorriso desaparecera enquanto ele a envolvia com um de seus braços e a puxava para seu colo. Olhou severamente para o marido, procurando encontrar qualquer indicativo do que ele falaria, mas Hiram sempre fora bom em esconder aquilo que pensava. Hiram levantou-se de sua poltrona e caminhou até a filha, ajoelhando-se na frente dela e segurando as duas mãos pequenas que envolveram as suas com pressa e saudade. Hiram sorriu de lado e suspirou, antes de dizer derrotado:

– Eu não posso mudar sua cabeça, querida. Muito menos, o seu coração... E eu estou muito velho para discutir com você todos os dias e agüentar seu pai me bronqueando depois.

– Ou seja... Você não vai mais implicar com Quinn? — Leroy, em sua ausência de filtro que Rachel acabara herdendo, apressou-se e perguntou confuso. Hiram deu um olhar cortante para o marido, aquela era uma conversa entre ele e a filha, já havia drama demais sem seu marido surtando no meio de tudo. Voltou a olhar Rachel que derramava lágrimas enquanto trazia em sua expressão toda a angústia de finalmente ser aprovada por ele. O coração de Hiram se apertou e ele limpou as lágrimas da filha, sentindo-se péssimo. Com a voz falha, continuou:

– Eu ainda acho que Quinn não é a pessoa certa para você, também acho que ela vai partir seu coração quantas vezes for possível... Mas eu realmente estou disposto a tentar mudar minha opinião em relação a ela e, principalmente, eu estou preparado para reconstruir seus pedaços quantas vezes forem necessárias. E, na verdade, eu adoraria que ela conseguisse mudar o que eu penso e eu enxergasse o que você e Leroy vêem de tão importante nela.

A cena, antes tão dramática e pesada, tornou-se cômica. Leroy e Rachel formaram expressões iguais de surpresa. As bocas abriram-se e os olhos arregalaram-se, assim como as mãos direitas foram levadas ao coração. Hiram finalmente riu e foi derrubado ao chão pelo peso do corpo da filha que apertava seu pescoço e beijava seu rosto com entusiasmo. Em meio às risadas da filha, Hiram teve certeza que escutou Leroy fungar pesado e começar a chorar.

Hiram finalmente sentiu-se mais leve e, a muito custo, conseguiu se levantar e sentar-se na poltrona velha. Rachel não desgrudou dele e acabou ficando no colo de seu papai, Leroy olhava para os dois com os olhos brilhando de emoção. Rachel sorria no pescoço do pai e, sorridente, disse:

– Muito obrigada, papai. Você não sabe como isso me dá ainda mais forças para enfrentar qualquer coisa que venha pela frente.

– Eu que agradeço, querida... — Hiram respondeu com um sorriso gentil e apertando as bochechas de Rachel que logo beliscou seus dedos e fez uma careta emburrada. Os dois riram e Leroy sentou-se no braço da poltrona, abraçando o marido e a filha ao mesmo tempo. Hiram suspirou, ainda estava com o coração apertado. — Eu espero que vocês comecem certo dessa vez, sem pressa.

– Nós já começamos certo, papai... — Rachel disse com um sorriso luminoso, aquele dos 1000 watts de potência que iluminava tudo ao redor, inclusive aquela noite que começara tão escuro e sufocante. Rachel olhou para seus dois pais, ela não se lembrava de se sentir tão em casa nos últimos tempos como se sentia agora. — Nós começamos a caminhar com vocês e Quinn sabe que vocês são a maior prova de amor que ambas conhecemos.

Leroy começou a chorar alto, Hiram brigou com ele. Mas Rachel viu lágrimas contidas no canto dos olhos de seu papai. Ela se entregou aos braços dos dois. Finalmente e com certeza, as coisas estavam dando certo daquela vez.

***

Santana acordou de um sono sem sonhos e sim, com muita dor. Sua cabeça estava explodindo e ela sabia que ao abrir os olhos, eles arderiam e ela xingaria toda a atmosfera. Decidiu ficar acordada, ainda de olhos fechados, desfrutando do sofá encalombado de Sam. O rapaz não fora tão receptivo daquela vez e a deixara dormindo na sala depois de ambos detonarem, pelo menos, três garrafas de vodka.

Escutou o barulho de passos ocuparem o espaço físico ao seu redor. Também sentiu o sofá afundar ao lado de sua cintura e uma mão masculina acariciar seus cabelos antes de murmurar no tradicional mau-humor matinal:

– Eu sei que você está acordada e sei que você sabe que seu celular gritou durante toda a madrugada.

Finalmente abriu os olhos e ocupou-se de protegê-los da claridade, mas mesmo assim, eles arderam e sua cabeça foi atingida por uma pontada de dor aguda. Bufou, irritada e sentiu o gosto amargo e nojento em sua boca. Estalou as costas e sentou-se, sonolenta e furiosa. Observou Sam a sua frente e ele estava tão pior quanto ela.

Seu amigo (e de Quinn) estava com olheiras por sob os olhos verdes. Os cabelos loiros estavam arrepiados e ele tinha a mesma expressão pregada e de ressaca que Santana sabia que também vestia. A latina estendeu a mão para ele e agarrou o braço musculoso do rapaz, afagando ali com carinho e compreensão. Ela sabia o que Sam estava passando e teria uma conversa séria com Quinn a respeito disso, mas não seria naquele dia. Ela tinha que finalmente enfrentar seus próprios problemas. A bebida a fizera abandoná-los no dia anterior, mas Santana Lopez jamais fugia de suas batalhas.

– Quer que eu faça alguma coisa para você comer? — Sam perguntou depois de alguns minutos, entregando o celular para Santana. A latina foi até o menu de “Chamadas Não-Atendidas” e deparou-se com 14 ligações, três delas de um número local que ela sabia ser da delegacia onde Puck trabalhava e as outras 11 ligações de um número local, desconhecido, arqueou a sobrancelha com curiosidade. Mas não se importou muito, colocou-se em pé e espreguiçou-se antes de responder sonolenta:

– Só café, Sammy. Posso tomar um banho?

– Claro, as roupas que você deixou aqui da última vez estão em meu guarda-roupa, na prateleira de cima do lado esquerdo. — Sam respondeu desatento, enquanto colocava água e café na jarra de vidro da cafeteira. Santana aquiesceu com a cabeça e tomou seu caminho para o quarto do rapaz, apanhou a roupa e a toalha e trancou-se no banheiro.

Olhou-se em seu espelho e tudo que enxergou foi o reflexo do arrependimento e da dor em seus olhos. Sua face cansada não era nada perto dos seus olhos. Por dentro, seu peito se apertava e ela se contorcia de dor... Não deveria ter tratado Kathryn daquela forma, não quando ela fora tão sincera com ela. Santana não estava acostumada com sinceridade depois de ser enganada por Brittany, não estava acostumada em escutar um “eu te amo” e enxergar a verdade em quem o proferira. E, talvez, fora por causa disso tudo que, em uma crise de revolta e fúria, trancara Kathryn em uma cela por uma noite.

Sentia-se traída e, ironicamente, aquilo lhe doía. Traíra muitas pessoas, principalmente durante seu ensino médio e, na maioria das vezes, Brittany sofria com suas puladas de cerca. Depois, na faculdade, traía a si mesma envolvendo-se com mulheres para esquecer a traição de Brittany... Mesmo acostumada a relacionamentos em que a traição estava envolvida, aquela vez, com Kathryn, atravessara seu peito e quase arrancara o pouco do que ela tinha reconstruído de seu coração. Doera tanto porque fora real demais, Kathryn mentira para ela e quebrara sua confiança.

Santana sentira-se enganada e revidara na forma de vingança enquanto Kathryn procurava explicar suas ações... Naquele momento, encarando-se no espelho, Santana sentia-se ridícula. Tinha vergonha da sua ressaca, teria vergonha ao encará-la em uma sala na delegacia e teria mais vergonha quando a levasse para casa. Mas tinha que fazer isso... Tinha que se redimir de alguma forma e o remorso nunca a machucara tanto como agora.

Com as dores físicas contrabalanceando suas dores emocionais, Santana terminou seu banho e vestiu a calça social preta e a camisa social rosa listrada. Colocou a camisa por dentro da calça, secou os cabelos e os prendeu em um rabo de cavalo tão firme quanto aquele que usava nas Cheerios. Passou maquiagem, escondendo todo o seu fracasso da noite anterior e olhou uma última vez no espelho, treinando sua melhor expressão profissional e saiu do banheiro.

Chegou à cozinha e Sam assoviou e sorriu divertido para ela, enquanto colocava café em uma garrafa térmica. Santana respirou fundo e, estranhamente sem confiança, perguntou:

– Como estou?

– Nem parece a mesma. — Sam respondeu com um sorriso gentil, contornando o balcão e entregando a garrafa térmica para Santana, a latina tomou um bom gole e logo sentiu o café fazendo milagres em seu corpo, sentiu-se melhor e mais acordada. Sam abraçou-a com cuidado, Santana não era adepta de demonstrações de carinho, mas aceitou de bom grado. — Vai lá e conserte seja lá a merda que você fez ontem. Creio que Puck também ficará feliz em te ver.

Santana sorriu de lado e apanhou sua pasta de trabalho e sua bolsa, tomou mais um gole de café e saiu do apartamento de Sam gritando uma despedida nervosa. Sam acenou e parou no corredor, observando-a descer as escadas e, antes de entrar, olhou triste para a porta do apartamento de Quinn a sua frente, com a mesma sensação de Santana habitando seu peito.

A delegacia de Lima estava estranhamente movimentada. Havia poucos repórteres na frente da mesma, mas estes pareciam determinados a arrancar qualquer informação que fosse a respeito da prisão dos Urie. As notícias que chegavam de dentro do prédio eram confusas diziam A respeito de falsidade ideológica e assassinatos, em uma cidade pequena como àquela, era difícil acreditar nesse tipo de coisa e muitos estavam ali mais pela curiosidade do que pelo dever do trabalho.

O táxi de Santana parou na esquina do prédio quando o relógio marcava 11 horas da manhã. A latina entregou o dinheiro para o motorista, junto com uma boa gorjeta, e saiu. Colocou os óculos escuros e ajeitou toda a sua roupa e sua postura. Decidida, atravessou a rua e caminhou alguns metros com passadas largas e seguras. Assim que os jornalistas notaram sua presença, vieram com perguntas estridentes, as quais ela ignorou com um aceno das mãos. Assim que entrou no prédio, retirou os óculos.

Dentro do prédio, estava um pandemônio. Oficiais corriam de um lado para o outro com vários papéis nas mãos, os quais Santana suspeitava que fossem sendo arquivados nas fichas criminais de Kathryn Aleed e Joaquin. A latina respirou fundo e caminhou até o balcão de informações, colocou sua melhor expressão fechada e chamou a atendente com um:

– Bom dia, eu preciso falar com o Sargento Puckerman.

Antes mesmo de terminar a frase, Santana percebeu que seria ignorada pela atendente. A latina revirou os olhos e debruçou-se sobre o balcão, arrancando o fone do telefone das orelhas da mulher que assumiu uma expressão ofendida e assustada. Santana sorriu, um sorriso sem dentes e extremamente sarcástico e, autoritária e impaciente, vociferou:

– Sou Santana Lopez e preciso falar com o Sargento Puckerman, agora.

A atendente se atrapalhou com o telefone, mas logo digitou o ramal de Puck. Minutos depois, Santana estava caminhando pelo corredor, com a calma que não era vista nos demais oficiais que esbarravam nela. Santana não fez questão de bater na porta do escritório de Puck, mesmo notando pelos reflexos na janela que ele estava acompanhado. Assim que abriu a porta, viu Frances Pole confortavelmente sentado em uma poltrona em frente à escrivaninha de Puck, seu amigo estava em pé, com as mãos na cintura e tinha uma expressão cansada e, surpreendentemente, Charlie Thomas estava em pé ao lado dele.

Os três olharam confusos para ela e Santana os ignorou, entrando na sala e jogando um papel em cima de Puck. O rapaz o leu rapidamente e ela, tranquilamente, pigarreou:

– Tenho uma autorização do juiz de Ohio para falar com a minha cliente e ela ficará sob minha responsabilidade até que saia seu pedido de liberdade.

– Ela não é sua cliente, Dra. Lopez. — Frances Pole sibilou irritado, colocando-se de pé e confrontando a latina. Santana colocou sua pasta e sua bolsa sobre a mesa, tirou outro papel de dentro da pasta e jogou-o em direção a Frances, o advogado apanhou-o com dificuldade e ela continuou:

– Kathryn Aleed me procurou ontem, no final de meu expediente e concordou a me contar todo o envolvimento dela com Joaquin...

Santana estalou os dedos na direção de Puckerman que ainda estava abobalhado, olhando do papel para o confronto da amiga com o tão poderoso advogado de Lima. Quanto finalmente entendeu o que a amiga querida, engoliu em seco e respondeu:

– Hernandez.

– Continuando, Kathryn Aleed me procurou ontem para relatar todo o envolvimento dela com Joaquin Hernandez, desde a vida dos dois no orfanato até a Califórnia, onde ambos tornaram-se Sr. e Sra. Urie após o assassinato dos verdadeiros donos destas identidades. — Santana continuou poderosa, autoritária, sem tremer ou gaguejar, mesmo que sua cabeça continuasse a explodir de dor. Frances Pole fez menção a questionar, mas a latina o calou com um gesto rude. — E o senhor tem em suas mãos uma das cópias da transcrição do áudio da conversa que eu tive com ela em meu escritório.

– Essa gravação não está anexada ao processo que acabou de ser aberto contra meu cliente, Dra. Lopez. O documento que a senhora me apresenta aqui não tem validade. — Frances Pole argumentou de volta, ele estava estranhamente vermelho e não tinha mais a mesma expressão arrogante que trajara no primeiro encontro deles. Internamente, Santana sorria a todos os eventos, orgulhosa de si mesma. Eles não sabiam, mas a latina tinha várias cartas a serem jogadas no final daquela manhã e todas elas foram conseguidas depois de duas ligações e em menos de 3 horas.

Santana Lopez era mais poderosa do que Frances Pole e seu cliente imaginavam.

A porta se abriu novamente e Puck olhou assustado, vendo seu escritório ser ocupado por uma quinta pessoa. Uma mulher alta, com cabelos castanho-avermelhados e pele branca, tinha sardas no nariz e os lábios volumosos, olhos escuros e expressão fechada. Ela cumprimentou a todos na sala e acenou com a cabeça para Santana que sorriu. Puck e Charlie notaram que ela era conhecida dos advogados, pois enquanto Santana sorria, Frances Pole mordia os lábios com agressividade.

– Sou a Promotora Caroline Vellini do estado de Califórnia e peço desculpas pelo meu atraso. — Ela apresentou-se com um forte sotaque e uma voz pesada e tão autoritária quanto à de Santana. A latina sorriu pela primeira vez desde que entrara na sala e observou o movimento ao seu redor, observando que Puck estava boquiaberto e com o olhar vidrado. Era bem a cara dele. — Fui chamada, pelo Judiciário do estado de Ohio para assumir esses dois processos: Joaquin Hernandez x Estado da Califórnia e Kathryn Aleed x Estado da Califórnia os quais ambos correrão juntos devido à relação entre os acusados e, ao contrário do que o senhor acaba de dizer, Dr. Pole... O documento que Santana acabou de apresentar está anexado a ambos os casos. Portanto, ele tem validade.

Frances Pole amassou a folha em suas mãos e olhou furioso para Santana. A latina apenas devolveu a ameaça com um olhar corajoso e punhos fechados. Santana conseguira tudo e com tal rapidez porque ela e Caroline foram colegas de faculdade até que ela se casou e foi morar na Califórnia com o marido. As duas perderam o contato, mas quando Santana a ligou naquela manhã e contou toda a história de Kathryn, encaminhando tudo que conseguira reunir no meio de seus papéis do antigo caso de divórcio de Julianne e Michael Urie. Caroline adorou o desafio e logo o assumiu, animada.

E agora, estavam ali, lutando mais uma batalha judicial, juntas.

O escritório abafado estava em silêncio e Frances Pole olhava de Santana para Caroline com uma expressão que beirava a psicopatia. Charlie Thomas estava sufocando um sorriso em seu canto e, Santana e Caroline trocavam informações a respeito dos casos. O celular de Santana tocou e ela o atendeu, rapidamente:

– Sim, claro... Ótimo, muito obrigada, senhor... Creio que a Promotora Vellini pode cuidar dessa parte...? Bem, muito obrigada, eu aguardei com a minha cliente. Até mais.

Os demais ocupantes da sala olharam com certa curiosidade para Santana. A latina apenas deu um sorriso vitorioso e apanhou a pasta e a bolsa sobre a mesa. Em seguida, virou-se para Puckerman e disse séria:

– Acabei de receber uma ligação do juiz que estava encarregado das prisões aqui em Ohio. Minha cliente foi autorizada a esperar o julgamento em liberdade, devido à burocracia de ter sido presa em um estado no qual residia e não onde cometera os crimes, o pedido de liberdade dela foi aceito somente agora e ela somente poderá sair no fim da tarde. Porém, eu pretendo ficar ao lado dela durante todo o dia e espero que o senhor não se oponha a isso, Sargento Puckerman.

Puck olhou para a amiga, surpreso e admirado com o poder que transbordava em cada uma de suas palavras. O policial olhou orgulhoso para a amiga e não pode deixar de conter um sorriso que, mesmo não sendo retribuído pelos lábios de Santana, chegou aos olhos dela. Puck logo assumiu a expressão séria e disse:

– Não será problema, Dra. Lopez. Eu aguardarei e tratarei da prisão e libertação da Srta. Aleed pessoalmente.

– Muito obrigada. — Santana agradeceu sincera e dando às costas aos outros ocupantes da sala, abriu a porta e estava prestes a sair quando tornou a se virar. — O Sr. Thomas está autorizado a ficar comigo durante esse dia, ele é o único contato que a Srta. Aleed tem em Ohio. No mais, creio que a promotora do caso ficará feliz se o senhor atualizá-la a respeito das prisões.

Caroline deu um sorriso agradecido em direção a advogada e sentou-se em uma das cadeiras em frente à mesa de Puck, o rapaz acenou com a cabeça e, virou-se para Frances Pole que estava encolhido em um canto do escritório, com a voz calma e controlada, ordenou:

– Essa é uma reunião a portas fechadas entre a Promotoria e a Polícia de Lima, Sr. Pole. Creio que o senhor sabe muito bem que não deve ficar aqui.

Frances Pole apanhou a própria maleta de trabalho e saiu da sala apressadamente, com Santana e Charlie em seu encalço. Assim que a porta se fechou, o advogado grisalho virou-se bruscamente, tornando a enfrentar a latina. Eles se fuzilaram com os olhos até que Frances vociferou ameaçador:

– Eu vou acabar com você no tribunal, Lopez!

– Sua luta não é comigo, Pole. Sua luta é com o Estado da Califórnia. — Santana sibilou irônica, com a coragem fluindo em seu corpo tal como a dor a preenchia anteriormente. Ela arqueou a sobrancelha para Frances, na tradicional expressão ameaçadora que a manterá no topo durante o ensino médio e de sua vida de cheerio. — E acredite: Caroline Vellini não está à venda para o escroto do seu cliente. O jogo acabou de virar, meu caro. Prepare a sua defesa e suas melhores cartas... Porque eu vou tirar tudo que você e seu cliente ainda tiverem.

Frances Pole não respondeu, apenas deu-lhe as costas e saiu caminhando pelo corredor, sem toda a pose e a arrogância que lhe eram familiares. Santana sorriu ao observá-lo caminhar devagar, parecendo doente e cansado. Ela queria estar presente no ataque de fúria que seria desencadeado quando Joaquin Hernandez, o antigo e detestável Michael Urie, soubesse o que lhe aguardaria na Califórnia.

Santana estava imersa em sua crise de euforia quando escutou a voz tímida e risonha de Charlie dizer:

– Eu tenho que admitir, ela estava certa a respeito de você, Lopez: ou você tem muita coragem ou é muito teimosa.

Santana riu aliviada, não era a primeira vez que escutava aquilo na vida.

***

A sineta anunciando o final das aulas da manhà já tocara há alguns minutos, Christine deveria estar no refeitório almoçando com Claire, porém, estava sentada em sua escrivainha, na sala de Literatura. Observava apreensiva enquanto os olhos de sua professora, Miss Fabray, corriam pela folha que entregara há minutos para ela. Aquele papel, tão simples e tão comum, contia as palavras que poderiam mudar seu futuro.

– Huuum... — Quinn fez um som de apreciação, ajeitando os óculos de leitura no nariz e respirando fundo. Christine agarrou-se às beiradas de sua cadeira, ansiosa. Já conhecia aquela expressão avaliativa e severa e tinha medo de observá-la por mais tempo. Desviou os olhos para a porta aberta da sala a tempo de ver Miss Berry caminhar pelo corredor, lhe dando um discreto sorriso. Quinn colocou a folha sobre a mesa e ergueu os olhos para Christine, tirando os óculos. — Acho que está ok... Mas você realmente tem que melhorar ainda mais se quiser entrar em Yale, Chris.

– Eu também achei que ela estava boa, mas não o bastante para me colocar em Yale... — Christine concordou, ligeiramente desanimada, e um pouco envergonhada de forçar a sua genial professora àquele texto. Aquela folha era a sua redação que era exigida, juntamente com seu histórico escolar, na inscrição para Yale. No começo, Christine teve medo de pedir ajuda para Quinn por medo de fazer sua professora relembrar a própria situação, porém... Quinn a surpreendeu e aceitou ajudá-la nos finais de aula.

Quinn sorriu fracamente para ela, tinha que ser sincera com Christine. Não era fácil entrar em Yale, assim como não era fácil enfrentar a universidade e, de certa forma, se sentia obrigada a alertar a jovem a respeito do que o futuro lhe reservava. Quinn achava que isso se devia ao fato de Christine ser tão parecida com ela, via muito de si nela, mas não queria que ela tivesse as mesmas decepções que ela trazia em sua alma. Por isso, concordara em ajudar. E prometera ser sincera em cada palavra que dissesse. A professora levantou-se e acompanhou Christine até a porta, com um sorriso ameno, disse encorajadora:

– Mas você está muito mais perto do que Yale quer agora do que esteve antes. Só precisa de alguns ajustes... Foque-se no que você tem para oferecer a instituição, não ressalte suas conquistas, deixe que eles fiquem curiosos e procurem saber sobre você.

– Obrigada, Miss Fabray. — Christine agradeceu com um sorriso enquanto segurava a alça da mochila, depois de um momento tenso, a aluna reuniu coragem e abraçou a professora. Quinn deu uma gargalhada rouca e retribuiu, sentindo-se envergonhada e, ao mesmo tempo, orgulhosa do que fazia por aquela garota. Christine separou-se dela e deu um sorrisinho malicioso, olhou por cima dos ombros, divertida. — A propósito, acho que Miss Berry acabou de passar aqui em direção ao banheiro no final do corredor.

– Acho que essa intimidade toda está te fazendo perder a noção das nossas posições aqui, Chris! — Quinn bronqueou risonha, tentando não deixar transparecer a vergonha que já se fazia presente no vermelhidão de suas bochechas. Christine gargalhou e deu de ombros, o ar falsamente inocente arrancou mais sorrisos de Quinn. A ex-cheerio acenou e virou na direção oposta a qual apontara a Quinn, desaparecendo na curva do corredor.

Quinn, por sua vez, fechou a porta atrás de si e caminhou pelo corredor, em busca de Rachel. A sensação de ausência e saudade apoderou-se de seu corpo e, quando deu por si, caminhava rapidamente em busca de sua pequena. As portas pelas quais passava estavam fechadas e então, lembrou-se que havia um banheiro no fim daquele corredor. O mesmo banheiro em que ela acertara um tapa no rosto de Rachel e, também, o banheiro na qual as duas tiveram a conversa a respeito do casamento de Finn e Rachel e do passe de metrô entre New Heaven e NYC, que nunca fora usado...

Esperando que estivesse certa e encontrasse Rachel naquele banheiro, Quinn quase correu pelos corredores e quando encontrou a porta, jogou seu corpo com bastante força para dentro do local. Rachel, que estava com o nécessaire sobre a pia e retocava o lápis dos olhos, assustou-se e olhou através do espelho. Mas o choque desapareceu de sua expressão, dando lugar a um sorriso quando percebeu quem era. Quinn, vermelha e envergonhada de seu desespero, nada disse. Rachel sorriu para suas mãos e cumprimentou desconcertada:

– Bom dia, Miss Fabray.

– Me desculpa por, ahm... Por quase arrombar a porta. — Quinn respondeu constrangida e coçando a nuca, caminhando até onde Rachel estava. A morena levantou os olhos e as duas olharam-se através do espelho, Rachel tinha aquele sorriso de 1000 watts e os olhos castanhos estavam tão calorosos que Quinn viu-se afundando em todo o calor que eles passavam. Quinn virou-se para Rachel e segurou a mão esquerda dela, afagando-a em movimentos circulares com o polegar. Rachel arrepiou-se por completo e deu um passo em direção à loira, sua testa encontrou a boca dela e Quinn a beijou com carinho. — Estava preocupada contigo, não te vi na entrada.

– Cheguei um pouco mais tarde, tomei café com meus pais... — Rachel respondeu com uma pequena risada, achando engraçado como Quinn a queria mais perto agora. E, como se estivesse escutando seus pensamentos, Quinn envolveu o pequeno corpo da morena e abraçou-a, aspirando profundamente seu perfume em seu pescoço. Rachel retribuiu, ficando na ponta dos pés para conseguir deixar um beijo no pescoço alvo. Essa foi a vez de Quinn se arrepiar, ela afastou-se apenas o necessário para Rachel ser atingida pela paixão impressa nos olhos verdes. Quinn beijou a palma de sua mão e, com um sorriso torto, bronqueou:

– Senti saudades, não faça mais isso.

Rachel apenas gargalhou roucamente e, inconscientemente, puxou Quinn para um beijo, ignorando o fato de ambas serem professoras e estarem se agarrando no banheiro da escola na qual lecionavam. Tão logo os lábios se tocaram, as mãos de Quinn percorreram e envolveram a cintura de Rachel enquanto a morena segurava-lhe pelo pescoço, arranhando-a e a puxando cada vez mais para perto. Foi Quinn quem cedeu e permitiu a entrada da língua de Rachel em sua boca,

Novamente, a mesma sensação de fogos de artifícios invadiu Rachel, assim como o calor foi transferido da pele da morena para Rachel. As duas se atraíram como ímãs e as mãos encontraram os locais certos para dedilharem o corpo de cada uma. Quinn afagou o pescoço da morena com a mão direita e apertou a base das costas de Rachel com a mão esquerda, Rachel tinha as duas mãos puxando os cabelos de Quinn pela nuca. Ambas respiravam, entre o beijo, com sofreguidão. Rachel afastou-se para retomar o ar e estava prestes a voltar ao beijo quando a porta do banheiro abriu-se abruptamente e a voz esganiçada de Mrs. Pillsboury foi ouvida entre os gemidos de Quinn:

– Interrompo alguma coisa?

As duas se soltaram tão rápido quanto puderam. Quinn recuou dois passos e encostou-se na pia enquanto Rachel permaneceu parada e procurou juntar as próprias mãos e encarar o chão. Ambas estavam coradas e recusavam-se a olhar para a mulher ruiva que as observava com um sorriso brincalhão e uma expressão de quem segurava uma grande risada. Mrs. Pillsboury pigarreou somente para deixar as duas mais envergonhadas. Quinn respirou fundo e, constrangida, disse:

– Ahm... Não interrompeu nada, eu acho.

– Que bom, Quinn... — Mrs.Pillsboury comentou com um falso tom de alívio na voz, percebeu quando Rachel olhou de esguelha para Quinn que, agora, ocupava-se em tentar manter a expressão séria e intocável. — Pois William quer falar contigo, algo relacionado à Christine. Parece que a mãe dela está aqui.

– Ah sim, ok. Então eu já vou até a diretoria. — Quinn comentou apressada, passando por Rachel como um raio e saindo do banheiro sem olhar para Rachel. Mrs. Pillsboury riu ainda mais da atitude da atual colega de trabalho e a risada atraiu a atenção de Rachel.

As duas mulheres trocaram olhares e Emma demonstrou, através disso, que sabia muito bem o que estava acontecendo. Rachel deu um pequeno sorriso culpado, sentindo o coração acelerar satisfeito dentro do peito. Emma balançou a cabeça de um lado para o outro, com um sorriso gentil e, brincalhona comentou:

– Lembre-se de trancar a porta antes, Rachel...

Quinn não sabia muito bem como conseguira chegar à sala de Mr. Schue. Aliás, ela não sabia muito bem onde colocar toda a vergonha que carregava naquele momento, muito menos onde poderia se livrar daquele calor que transbordava em seu corpo. Aquele calor era de Rachel e era proveniente de tudo que a morena representava, naquele momento, em sua vida. Não conseguia pensar direito, não conseguia sequer sentir direito... Pensava e sentia Rachel em todas as partes de seu corpo e, principalmente, em seu coração. Seu coração batia com tanta força que estava quase arrebentando seu peito e Quinn sentia que, a qualquer momento, explodiria de felicidade e de... Amor.

Devido à criação que tivera, não imaginava que um sentimento daquela magnitude fosse capaz de ser sentido. Seus pais não eram os melhores exemplos de amor e de confiança, muito menos de entrega e de matrimônio. Quinn não tinha bons exemplos vivos que comprovassem a existência do amor, suas relações não eram as melhores... Claro, tinha bons amigos e ainda tinha Charlie. Porém, ela nunca esperava que fosse desejar tanto uma pessoa e que fosse capaz de dividir absolutamente tudo que era seu com ela... Mas claro, existia Rachel Berry. E Rachel provara a ela que o amor existia, acima de tudo.

Rachel a tirara da monotonia e do marasmo. E Quinn não era arrogante, mas sabia o que provocara na vida da morena. As duas se encontraram quando ambas estavam perdidas em duas vidas separadas e sem sentido. Quinn acreditava que as duas deveriam se encontrar novamente para que, novamente, pudessem viver. Porque a loira sabia muito bem como vivera no seu último ano da escola enquanto esteve em companhia de Rachel. As duas pareciam ser a continuidade uma da outra. E sendo partes de um todo, não viveriam mais separadas.

Os pensamentos de Quinn corriam em sua mente tão velozmente quanto o coração da loira batia em seu peito. Ela até mesmo se assustou quando percebeu que estava com a mão na maçaneta da porta de Mr. Schue. Pelas janelas de vidro, percebeu que havia outra pessoa na sala conversando com ele e que esta estava sentada nas poltronas em frente à mesa. Uma expressão confusa instalou-se em suas feições. Quinn abriu a porta e, embaraçada, perguntou:

– Pediu para que me chamassem, Mr. Schue?

– Já lhe disse que você pode me chamar de “William”, Quinn... — Mr. Schue respondeu contrariado, mas com um sorriso gentil que, mesmo depois de tanto tempo, fez com que Quinn se acalmasse. Ele ainda era uma das figuras masculinas que ela mais admirava e que mais a confortava quando as coisas pareciam ruins. — Na realidade, outra pessoa quer falar contigo.

A mulher, sentada à frente de Mr. Schue levantou-se e se virou para Quinn. Elizabeth Manson, mãe de Christine Manson, estava parada a sua frente com um sorriso que não chegava aos olhos. Quinn lembrou-se, vagamente, de quando a encontrou no supermercado, as outras lembranças do encontro se perderam em sua cabeça... Mas Elizabeth parecia ter envelhecido uns bons anos desde a última vez que se viram. Quinn percebeu que estava com a expressão chocada, apertou a mão que a mulher lhe estendia e Elizabeth, esgotada, cumprimentou:

– Bom dia, Miss Fabray... Creio que se lembra de mim, sou mãe de Christine e nos encontramos no supermercado, sua mãe estava conosco.

– Ah sim, claro... — Quinn apressou a responder, sentindo seus nervos à flor da pele e suas mãos começando a tremular. A menção de sua mãe, Mr. Schue aprumou a postura e ficou tenso, ele sabia quão delicada era a relação de Quinn com os demais Fabrays, porém, o diretor ficou impressionado com a capacidade de sua aluna em dissimular e sorrir. — Me perdoe, mas o que lhe traz aqui, Sra. Manson?

– Estou preocupada com Christine, ela tem se afastado de mim e de meu marido e como a senhora é a professora que ela mais admira, achei que soubesse de alguma coisa... — Elizabeth tentou manter-se tranqüila, mas o tom esperançoso em sua voz fez-se claro e Quinn realmente sentiu pena daquela mulher. Ela mesma fora uma adolescente distante da família, muito mais pelos pais que possuía do que pela própria vontade e aprendera, com o passar dos anos, que os amigos podiam substituir, mas sangue ainda era sangue e ainda importava, afinal... Quinn não admitia, mas a ausência de comunicação entre ela e os pais ainda a incomodava e machucava, ou melhor, abria uma ferida que jamais cicatrizaria.

Estava tentada a contar o que estava se passando com Christine e com Claire, mas por experiência própria, sabia muito bem que aquele tipo de coisa era pior quando contada por terceiros. Ela se preocupava com suas alunas, sabia que elas não estavam fazendo por mal... Quando adolescente, por vezes, é muito mais fácil adiar a verdade do que enfrentá-la. Aliás, não somente quando se é adolescente, Quinn pensou. E mais, não tinha o direito de se meter na vida de suas alunas, elas deveriam contar quando fosse a hora... Porém, vendo o sofrimento mudo nos olhos daquela mãe, Quinn amoleceu e, conciliadora, disse:

– Sra. Manson, eu realmente não sei o que está acontecendo com sua filha e também não sei se a senhora chegou a conversar com a minha mãe sobre mim... Mas nós começamos nos afastando, exatamente como Christine está fazendo agora com a senhora e seu marido. Porém, meus pais não souberam se aproximar de mim, melhor... Eles não quiseram se aproximar de mim. Eu tive uma sorte enorme. Eu tive amigos durante a minha vida que me guiaram na direção certa.

Conforme Quinn falava, a mágoa crescia em sua voz. A loira percebeu que Mr. Schue se levantara e estava atrás de sua cadeira com as mãos em seus ombros, dando todo e qualquer apoio que ela precisasse para continuar naquela conversa tão profissional e tão pessoal, ao mesmo tempo. Quinn respirou fundo, segurando as lágrimas que, tão teimosamente, vinham aos seus olhos toda vez que ela pensava nos pais e na irmã. A professora olhou para Elizabeth que estava assustada com seu comportamento, mas também, curiosa para saber onde a conversa as levaria. Quinn apanhou as duas mãos da mulher e, olhando-a firmemente nos olhos, disse convicta:

– Christine precisa conversar. As coisas estão acontecendo muito rápido com ela, a senhora já foi adolescente e sabe bem como as coisas funcionam... Porém, ao mesmo tempo em que a velocidade a assusta, ela também tem muito medo de magoá-los. Sejam compreensivos. Coloquem o amor que sentem por sua filha acima dos erros dela. Sejam capazes de amá-la até mesmo quando ela cometer o pior dos erros, só assim a manterão por perto...

Elizabeth não foi mais capaz de segurar as próprias lágrimas e finalmente cedeu a elas. Quinn, sem jeito, envolveu a mãe de sua aluna em um abraço desejando que entre seus braços estivesse sua própria mãe. Silenciosamente, a própria loira deixou-se chorar e suspirar pesado. As duas se separaram e Elizabeth agradeceu com um aceno na cabeça e um sorriso triste antes de sair da sala.

Mr. Schue apertou o ombro de sua ex-aluna, em um gesto que mesclava o apoio e o orgulho e, com um sorriso emocionado, disse:

– Seus pais não sabem a filha maravilhosa que têm.

– Eles sabem que têm uma filha, professor. — Quinn respondeu ainda emocionada, limpando as próprias lágrimas e colocando-se em pé, ajeitando a roupa. Ignorou a careta que Mr. Schue fez diante do vocativo e sorriu divertida enquanto o amargo tomava seus olhos verdes. — Mas, na cabeça deles, eu só sou a vergonha da família. Espero que o mesmo não aconteça com Chris, ela é parecida comigo, mas não deve passar por tudo que eu passei...

Mr. Schue acenou em concordância enquanto Quinn caminhava para fora da sua sala. Observando os ombros curvados de sua ex-aluna, ele não mais ficou tão preocupado como antes... Quinn era a pessoa mais forte no Glee, sempre fora. Porém, ele realmente queria que, pelo menos hoje, naquele exato momento, ela possuísse um porto seguro onde pudesse enfim, desabar.

***

Santana observava a porta cinza da sala de interrogatório com uma expressão séria e compenetrada. Nem ela mesma sabia como estava conseguindo permanecer tão fria e profissional, superficialmente, se, por dentro, estava explodindo de nervosismo e medo. Ela sabia muito bem o que tinha feito na noite anterior e sabia muito bem que poderia esperar uma atitude bem negativa de Kathryn. Mas precisava tentar... Santana Lopez não era conhecida por ser uma pessoa muito calma ou que acertava tudo na primeira tentativa. Pelo contrário, aliás, muito pelo contrário.

– Você não vai abrir a porta, Dra. Lopez? — Charlie Thomas perguntou risonho, enquanto observava o nervosismo da advogada com diversão. Santana suspirou pesado e olhou por sobre o ombro para o senhor atarracado que estava parado ao seu lado, sua coragem parecia esvair-se pela ponta de seus dedos conforme tentava reuni-la. Charlie colocou a mão sobre o ombro direito da latina e sorriu gentil, dando forças. — Acho que vocês duas precisam conversar sozinhas e não tema o que encontrará ali dentro, ela realmente gosta muito de você.

O coração de Santana pareceu respirar, aliviado de um afogamento que a própria sequer percebera que se enfiara, só sabia que as palavras de Charlie foram capazes de desapertar tudo que estava sufocando dentro de seu peito. Com a coragem renovada e uma expressão fechada no rosto, a latina abriu a porta e fechou-a atrás de si.

Seus olhos escuros encontraram Kathryn sentada à mesa de metal que se encontrava na pequena sala. Os cabelos ruivos estavam cobrindo-lhe a face, pois a mesma estava abaixada e escondida entre os braços pálidos da mulher, cujos pulsos estavam algemados e as mãos, entrelaçadas sobre o tampão metálico. Santana aproximou-se devagar, com passos leves e silenciosos e se sentou em frente a ela, com a expressão preocupada, sem saber o que falar.

O silêncio perdurou entre elas. Enquanto Santana observava Kathryn, podia escutar a respiração ritmada e aparentemente regular da mulher. Porém, a preocupação vinha do fato de Kathryn não ter dito nada depois que ela entrara na sala, sequer tinha levantado os olhos. Santana suspirou alto, colocou as mãos sobre a mesa de metal e ali as apoiou, paciente e incansável. Kathryn se mexeu a sua frente, levantou a face lentamente e os olhos estavam fechados quando, confusa, perguntou:

– O que está fazendo aqui, Dra. Lopez?

– Eu ainda sou a sua advogada. — O tom de voz de Santana parecia seguro e autoritário, mas ela estava nervosa. Os olhos de Kathryn abriram-se, escuros e acinzentados, Santana perdeu-se no olhar vazio e distante. Depois de alguns minutos contemplando, percebeu que tudo que via naquele olhar era a decepção. — E como sabia que era eu?

– Você ainda usa o mesmo perfume... Não foi difícil. — Kathryn respondeu apática, levantando-se ao mesmo em que Santana se sentava. A advogada observou a ruiva dar-lhe às costas e olhar para o vidro espelhado, respirando profundamente. As duas sentiram o silêncio pesar no espaço entre elas. Nenhuma das duas sabia muito bem o que falar, aliás, ainda havia coisa para falar?

Antes, enquanto caminhava até aquela sala de interrogatório, Santana tinha todo seu discurso pronto em sua mente. Sabia que deveria chegar ali e pedir desculpas e coroar a sua redenção com a libertação de Kathryn no fim daquele dia... Mas agora, frente a frente com a ruiva, Santana percebera que as conseqüências de seu ataque de fúria estavam impressas profundamente no coração de Kathryn. Santana percebeu que, depois de tudo que prometera, se igualara a Joaquin: maltratara Kathryn e sequer se preocupara em se perguntar como ela se sentia.

Esse pensamento imediatamente enojou Santana, sentiu ódio de si mesma por ser tão explosiva e tão impulsiva. Durante toda a sua vida pagara pelas suas palavras ditas no calor da raiva e suas atitudes resultantes da fúria... Mas tinha a impressão que nenhuma dessas vezes fora tão cruel como agora. Não conseguia deixar de observar os ombros caídos de Kathryn sem sentir um desconforto em seu peito. A perda da esperança nos olhos e nas atitudes daquela mulher pareciam apunhalar seu coração. E ela nunca se sentira daquela forma, nem com Brittany...

– E você não é mais minha advogada, deixou isso claro em nossa última conversa. — A voz de Kathryn não soou mais alta do que um sussurro, Santana quase não a escutou. O peso de suas palavras novamente fez suas costas doerem, Santana suspirou cansada e passou a mão pelo rosto, tentando achar as palavras certas para uma situação tão errada. Respirou fundo e, arrependida, disse:

– Eu sei, mas eu voltei ao seu caso. Eu quero e vou tirar você daqui, Srta. Aleed.

– Você foi contratada por Julianne Urie, essa morreu há dois anos na Califórnia. Kathryn Aleed não a contratou. — A ruiva respondeu de forma fria, por cima do ombro. Santana espalmou as mãos na mesa de metal e conteve a onda de irritação que tomou seu corpo, procurou se colocar em ordem quando rosnou:

– Pois eu tive contato com ambas e assumi ambos dos casos. E não vou desistir de nenhum dos dois!

– O que você quer aqui, Santana?! — Kathryn explodiu, virando-se abruptamente para a advogada. Os cabelos ruivos estavam sem brilho e caíram sobre seus ombros, pesados. Os olhos acinzentados estavam furiosos naquele momento e, lentamente, a pele pálida avermelhou-se e, logo depois, lágrimas começaram a escorrer pela face alva. Santana colocou-se em pé de súbito e atravessou a distância entre elas, Kathryn encolheu-se à parede, amedrontada. — Não se aproxime de mim!

– Me desculpe, por favor, me desculpe... — Santana pediu sofregamente, dando um passo de cada vez conforme Kathryn recuava. As duas trocaram olhares. Da parte de Santana, havia o medo da perda e a paixão, do lado de Kathryn, o peso da quebra de confiança e do abandono... Ambas estavam feridas e não sabiam como lidar com suas lesões abertas, jorrando cada pedaço de suas almas e corações para fora.

Mais uma vez, o silêncio se fez presente. A cada olhar que Santana direcionava para Kathryn, esta fugia e olhava para as mãos algemadas. A situação dela estava deplorável e Santana sentia a culpa e o arrependimento tomarem a sua cabeça, estava prestes a surtar de raiva contra si mesma. A advogada aproximou-se mais uma vez e daquela vez, Kathryn não teve como correr, pois suas costas estavam encostadas na parede cinza fria da sala.

Santana, relutante e trêmula, ergueu o braço e as pontas de seus dedos tocaram as algemas que aprisionavam os pulsos brancos e trêmulos. Santana envolveu suas mãos no metal frio que lhe separava da pele pálida e ergueu os pulsos aprisionados e beijou as palmas das mãos. Ergueu o rosto novamente e encontrou Kathryn a observando, quebrada e entre soluços, Santana a olhou com firmeza e calmamente, pediu:

– Me perdoe, por favor. Se você não for capaz de me perdoar, eu mesma vou me amaldiçoar pelo resto da minha vida... Eu percebi o que tinha feito no mesmo segundo em que vi você sair do meu escritório. Eu sei que você não escolheu tudo aquilo que viveu e sei que você não merece estar aqui.

– E se eu perdoar você? O que vai acontecer agora? — Kathryn perguntou rancorosa, puxando os pulsos das mãos de Santana rudemente. Santana observou a frágil mulher revidar machucada. — Você vai me defender? Lembra que você me pediu uma relação pautada em confiança e sinceridade? Nós não fizemos isso e sabíamos que isso estava errado desde o começo... Então, o que você vai fazer, Santana Lopez?

Santana observou-a e dessa vez, criticamente. Observou e percebeu quão ferida Kathryn estava e também sentiu a dor dela ecoar dentro da sua. Via tudo de fora, mas sentia tudo por dentro... Sabia desde o começo em que estava se metendo, sabia que entregaria seu coração a ela e que ela a machucaria, tão ou mais do que Brittany fizera. Sabia de tudo isso e mesmo assim, entregara. Tudo pelo amor. Tudo por sentir seu coração reclamar aquela mulher a sua frente.

E mesmo diante de um novo nome, de um novo caso, de uma nova mulher... Santana ainda estava amando-a. Jamais deixaria de amá-la, sabia disso agora. E olhando nos olhos de Kathryn, sabia que era recíproco e que era real. O amor machucava, Santana sempre soubera disso e era aquele tipo de dor que a mantivera viva depois de tanto tempo longe de Brittany. E era essa dor, arrebentando toda a sua razão e todo o seu profissionalismo, que a mantinha viva e forte para lutar por Kathryn o tempo que fosse necessário.

E foi essa dor que a impulsionou para frente. Kathryn tentou afastar-se dela, mas sem sucesso, com o próprio corpo, Santana a pressionou de encontro à parede da sala e ali a manteve, cativa de seus olhos e de seus sotaques. Gentilmente, segurou o queixo de Kathryn e trouxe os olhos acinzentados ao mesmo nível dos seus, sorriu tristemente e, sôfrega, respondeu:

– Então, eu vou te proteger. Exatamente como prometi naquele dia. Eu vou te tirar dele, vou te proteger dele... Porque nada mudou, nada se alterou. Eu te amo e isso não vai mudar.

A expressão de Kathryn contorceu-se em um choro sufocado. A ruiva deixou-se ser abraçada e começou, imediatamente, a chorar alto quando enfim, conseguiu dizer:

– Por favor, não me deixe de novo...

– Eu não vou, meu amor... — Santana murmurou debilmente, preocupada, enquanto ninava a ruiva em seus braços. — Eu não vou.

***

Rachel dedilhou as teclas frias do piano, na sala do Glee, com um sorriso enorme que mal cabia em sua face. Dedilhou mais algumas e, dessa vez, até mesmo algumas lágrimas chegaram aos seus olhos... Era estranho que, dentre as tantas músicas que ela conhecia, logo aquela estava em sua cabeça quando pensava em Quinn.

Com um sorriso no rosto e o amor guiando suas mãos, mais algumas notas soaram na sala vazia. Rachel respirou fundo e fechou os olhos, seu coração acelerou sem que ela percebesse e aquela sensação de calor e tranqüilidade lhe tomou o peito. Riu de si mesma e ainda com a gargalhada impressa em sua expressão apaixonada, entoou:

The perfect words never crossed my mind

Cause there was nothing in here but you

I felt every ounce of me, screaming out

But the sound was trapped deep in me

Rachel deixou-se levar pelas notas, principalmente, pela letra da música. Aliás, muito mais do que a música e a letra, Rachel deixou-se levar pelos sentimentos. Aqueles sentimentos que, durante tanto tempo, estiveram trancados em seu coração sem a mínima possibilidade de virem à tona e que, agora, estavam encharcando cada parte de seu corpo com carinho e devoção.

All I wanted, just sped right past me

But I was rooted fast to the Earth

I could be stuck here for a thousand years

Without your arms to drag me out

As notas a levaram de volta para o reencontro. Uma Rachel Berry tão cheia de ódio e tão machucada pela quebra de seus sonhos voltava a Lima para encontrar uma Quinn Fabray tão gentil e tão confusa que, não era demais que o primeiro encontro delas, depois de tanto tempo, fosse ser tão explosivo. Porém, naquele primeiro encontro, no meio de tantas palavras rudes e de tanta mágoa, Rachel já sentia que respirava melhor... Já sentia que atingira a superfície depois de tanto tempo se afogando. E tudo isso ocorrera por causa daqueles olhos esverdeados que, ao atingirem os seus, já a deixaram ver um pouco de luz no meio de tanta escuridão.

There you are, standing right in front of me

All this fear fall away to leave me naked

Hold me close, cause I need to you guide me safely

Rachel sabia, e não fora aquele reencontro que lhe mostrara, que desde sempre, Quinn Fabray era parte importante e essencial em sua vida. Quinn sempre fora seu modelo, sua busca e também, seu amor. Mesmo quando esteve com Finn, desconfiava de tudo aquilo que sentia por Quinn... E mais, sempre fora ela que a guiava, em meio a sua obsessiva busca por atenção, às coisas que estavam destinadas a serem suas, sem esforço. Quinn sempre fora a verdade no meio de tantas mentiras em sua vida.

No, I won’t wait forever

Rachel não quis esperar a coragem que sabia não possuir quando terminara o ensino médio. Fora por isso que, na primeira quebra de confiança da parte de Quinn, decidiu-a deixar no passado enquanto New York abria-se desafiadoramente para si. Mas, dentre as mulheres com as quais se envolveu e dentre tudo aquilo que passou sozinha na cidade, Quinn sempre esteve presente em seu interior, provando-lhe que sim, ela esperaria o tempo que fosse para voltar e revê-la.

In the confusion, and the aftermath

You are my signal fire

The only resolution and the only joy

Is the faint spark of forgiveness in your eyes

E quando o destino as colocara juntas novamente, Rachel viu coisas nos olhos de Quinn que há muito não enxergava em ninguém. Sem dizer absolutamente nada, Quinn a perdoou e a compreendeu. Quinn a reergueu quando tudo que ela queria era cair e afundar-se em sua própria escuridão. Quinn, mesmo ferida com tanto que a vida lhe dera, resolvera ser sua força e guiá-la em meio a seu próprio renascimento. Quinn forneceu o fogo necessário para que Rachel finalmente queimasse, explodisse e iluminasse, como uma verdadeira estrela... Quinn fora seu sinal de fogo que, finalmente, a iluminou.

There you are, standing right in front of me

All this fear fall away to leave me naked

Hold me close, cause I need to you guide me safely

E Rachel, com os olhos fechados e o coração disparado, sabia que Quinn jamais a abandonaria. No silêncio daquela sala do Glee, dedilhando as notas daquela música, Rachel sorriu aliviada quando percebeu que, enfim, voltara a ser a mesma. E tudo por causa de Quinn. E sabia que, independente de qualquer que fosse a situação, Quinn a esperaria e voltaria para ela... Quinn seria, para sempre, a sua primeira e única opção, o seu sinal de fogo...

No, I won’t wait forever

E sim, ambas não esperariam para sempre porque já tinham encontrado uma a outra no meio de tudo aquilo pelo qual passaram.

A música cessou quando o som da última nota ecoou na sala vazia. Rachel pousou os dedos sobre as teclas, sentindo-se rejuvenescida e cheia de sentimentos que sequer conseguia nominar. Não se sentia assim, tão realizada, desde a época do colégio... Rachel sorriu bobamente, envergonhada de seu amor e colocou a mão sobre o rosto, emocionada. Então, atrapalhando o silêncio agradável e reconfortante, aplausos secos foram escutados.

Rachel virou o corpo, em direção ao som, e encontrou Sam Evans a observando com um sorrisinho de lado, muito parecido com o sorriso irônico que Santana ás vezes dava a ela. A morena engoliu em seco, a aura de felicidade que antes a envolvia, fora substituída por uma expressão defensiva e séria. Rachel ficou de pé, conforme Sam se aproximava dela. O rapaz fechou a expressão e, irônico, disse:

– Eu realmente espero que você esteja cantando isso para Quinn.

– Você sabe que é para ela, Sam. — Rachel respondeu rapidamente, sentiu-se ofendida com a dúvida na voz e na fala do rapaz. Rachel o encarou com determinação, sem medo de lutar pelo que possuía com Quinn. — Só existe ela, você sabe disso.

– Sabe, Rachel? Eu realmente não sei se só ela existe na sua vida... Eu vi tudo o que aconteceu com Quinn depois daquela noite. Eu vi quão quebrada e ferida ela ficou e eu simplesmente detesto quando fazem isso com meus amigos, principalmente com ela! — Sam retrucou com a expressão séria e ameaçadora que produziu exatamente o efeito contrário em Rachel. A morena sorriu para ele, mas não era um sorriso para irritá-lo e sim, um sorriso para provar a ele todos os seus pontos e todos os seus sentimentos. Sam não se abalou e cruzou os braços, Rachel suspirou e disse:

– Sim, nós duas nos machucamos muito naquele dia. Mas nós voltamos e resolvemos tentar, mais uma vez. E eu prometi a ela que começaríamos certo dessa vez e que nada, nem ninguém, ficariam no nosso caminho. Portanto, Samuel, o que você tem a ver com a escolha dela?

– Eu sou o melhor amigo dela, Berry! — Sam explodiu exaltado e protetor, os olhos flamejando fúria. Rachel percebeu, naquela pequena frase, que era tudo mais intenso e profundo do que ela imaginava. Seus olhos arregalaram-se quando Sam se aproximou dela. — Eu tenho que protegê-la! Ela não vai quebrar o coração de novo por sua causa!

– Você é o melhor amigo dela, deveria confiar no julgamento dela e não vir me atacar quando ela não está por perto! — Rachel esbravejou contida. Foi a vez de o rapaz gargalhar ironicamente e afastar-se dela, visivelmente fora de si. Sam virou-se para encará-la mais uma vez e frio, respondeu:

– Você não a ama, Rachel. Nós dois sabemos disso!

Os próximos movimentos da cena foram muito rápidos. Quando Rachel escutou e compreendeu o que Sam dissera, avançou para ele com uma força desproporcional ao seu pequeno tamanho. A morena o empurrou e, quando Sam tentou contê-la, acertou-lhe um soco no canto do rosto que resultou em um Sam atordoado ao chão e um punho pequeno doendo. Rachel fez uma careta de dor quando observou sua mão inchar, aos poucos e, furiosa e entre dentes, gritou:

– Eu a amo, sempre a amei, Evans! Nunca mais ouse dizer algo do tipo, nunca mais se aproxime dela para dizer algo dessa natureza! Eu não sou como Finn, Puck e até mesmo você... Eu a amo de verdade e eu só vou sair da vida dela quando ela mesma me ordenar e, mesmo assim, eu vou lutar por ela!

Sam gaguejou uma resposta, mas sua mandíbula começou a doer e ele só pode observar Rachel apanhar a bolsa com a mão esquerda e sair da sala atordoada. Os olhos de Sam marejaram e o motivo não era a dor, era vergonha...

Sam percebeu que Rachel não era como Mercedes.

***

Quinn discou novamente o número do celular de Rachel e, mais uma vez, ele tocara várias vezes para cair na caixa de mensagens. A loira suspirou e respirou fundo, preocupada. Rachel não ferraria tudo, mais uma vez, desaparecendo logo após o acerto das duas... Ou ferraria? Quinn bufou impaciente e atravessou o apartamento até o banheiro, verificando se a banheira já estava cheia o bastante.

O dia fora longo e estressante. Não só pela conversa com a mãe de Christine e, também, pelas lembranças de sua família que a atormentaram o restante da tarde. Mas também, pelos sumiços de Santana e Rachel. Sua melhor amiga avisara rapidamente por mensagem que estava na delegacia de Puck, resolvendo um problema no caso, o que levou Quinn a olhar o site de notícias de Lima e verificar se algo a respeito do “Caso Urie” tinha saído e Rachel simplesmente desaparecera desde o encontro entre as duas no banheiro.

Não havia muito que fazer se as duas não queriam ser encontradas.

Quinn procurou relaxar e voltou à sala. Caminhou até o som que estava em sua estante e ligou o mp3, procurou uma música específica e sorriu quando as primeiras dedilhadas no violão, de “You Belong To Me” (Carla Bruni), preencheram seu apartamento. Depois, voltava à cozinha quando a campainha tocou. Quinn caminhou até a porta e a abriu rapidamente, deparando-se com uma Rachel Berry de expressão vaga e olhar perdido.

Quando Rachel a focalizou, a morena abruptamente jogou-se para frente e a envolveu em um beijo saudoso e repleto de amor. Quinn, surpresa, envolveu os braços na cintura da morena e a puxou para dentro, ao mesmo tempo em que fechava a porta. Encostou-a na parede do hall e retribuiu o beijo com a maior intensidade que podia, o ar lhe faltou e ela procurou se afastar, sendo puxada para perto por Rachel, novamente. Rachel estava suspirando pesado e Quinn, finalmente, sentiu o gosto salgado em seus lábios... Rachel chorava.

Quinn afastou-se rapidamente e segurou a mão dela, Rachel rapidamente puxou-a de volta com um gemido dolorido. Quinn olhou para ela e Rachel enxergou preocupação nos olhos verdes. Quinn beijou-lhe a bochecha, carinhosa, e perguntou:

– O que aconteceu, meu amor?

– Eu tive que dar um murro em seu melhor amigo. — Rachel respondeu amarga, com a voz destilando veneno. Quinn ficou para trás, atônita, enquanto a morena caminhava até a cozinha e tirava um recipiente de vidro de dentro dos armários e colocava pedras de gelo dentro dele para, depois, colocar a mão ferida ali dentro. — Ele foi até a sala do Glee tirar satisfação sobre a nossa volta e ainda teve a capacidade de dizer que eu não te amava.

Quinn quase sorriu naquele momento, porque, afinal, Rachel Berry estava lutando literalmente por elas. Quinn não conseguiu sentir pena de Sam naquele momento e, talvez, mais tarde tivesse uma conversa com ele. Mas, naquele momento, tudo o que queria era cuidar daquela baixinha briguenta que estava de costas para ela, provavelmente, emburrada. Quinn se aproximou com um sorriso nos lábios e envolveu a cintura da morena pelas costas. Sentiu o corpo de Rachel tencionar-se, afastou alguns cachos escuros do pescoço e deixou um beijo no pescoço moreno antes de dizer risonha:

– Então, quer dizer que a senhorita brigou com ele porque ele duvidou do que a gente tem?

– Claro que sim, Quinn! — Rachel respondeu exaltada, virando-se nos braços de Quinn. As duas se olharam e Quinn procurou ficar séria enquanto Rachel gesticulava, segurando o recipiente com gelo na mão esquerda e mantendo a mão direita dentro dali. — Ele ousou dizer coisas que sequer tem noção do que são e...!

Quinn a interrompeu com um beijo delicado. Lentamente, conforme as mãos de Quinn tocavam seu corpo e a língua dela fazia magias em sua boca, Rachel foi se acalmando até que a respiração se regularizou e ela até mesmo sorriu de encontro aos lábios rosados de Quinn. A loira segurou a face morena com a mão direita e, com a mão esquerda, puxou a mão sadia de Rachel para a sua cintura. As duas mexeram-se no som da música. Rachel gargalhou quando sentiu um beijo abaixo da sua orelha e Quinn, rouca, cantou em seu ouvido:

– “Just remember darling all the while... You belong with me.”

Rachel derreteu-se nos braços de Quinn e as duas permaneceram juntas até que a música acabasse. Quando as últimas notas foram tocadas, Quinn se separou dela e aplicou um beijo demorado em sua testa. Rachel sorriu de olhos fechados e Quinn a puxou pelo corredor, com um sorriso gentil e um ar envergonhado, antes de dizer:

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– Vamos por aqui, Menina de Ouro... Eu vou cuidar dessa mão.

Rachel sorriu e grudou seu corpo ao dela, sentindo que a dor intensa em sua mão valeria à pena se ela tivesse Quinn Fabray como enfermeira para o resto da vida.

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Notas finais
Acho que o amor de muita gente pela Quinn e pela Rachel transbordou depois desse capítulo, não? *-* Bem, acho que fiz um bom trabalho abordando toda a situação entre Christine e a família, o porquê de Sam duvidar da Rachel, o amor Faberry e a relação intensa de Kathryn e Santana... Mas só vocês podem me dizer se fui realmente bem, por isso, comentem! E para quem ainda não viu, tem capítulo novo de Everlasting e one-shot nova, chamada I Choose You. Leiam e comentem nessas também! Até a próxima, FerRedfield