Signal Fire
33 Estrelas
Notas iniciais
Na atual situação emocional em que Rachel Berry se encontrava, relembrar um momento não era a melhor das opções, entretanto, não era como se a morena tivesse uma opção. Aquele auditório cheio e explodindo emoção em muito lembrava outro auditório no qual ela se apresentara com o seu New Directions em busca do título das Nationals e também lembrava os seus primeiros anos em sua curta passagem pela Broadway.
Rachel se recordava do sorriso de Quinn nas Nationals, brilhante pela conquista do título e gigante pela própria aceitação de que era uma perdedora feliz em meio a outros iguais a ela e também se recordava da ausência do sorriso dela na primeira fileira de sua apresentação na Broadway. E, como Quinn era uma constante em sua vida, marcada a fogo em sua essência, ela também estava presente naquele instante em meio as suas lembranças.
O passado distante, o passado próximo e o presente. Todas essas linhas do tempo emaranhadas pelas lembranças de sons familiares em forma de aplauso, do calor em forma de euforia e da presença de uma só pessoa.
Não qualquer pessoa e, sim, Quinn Fabray.
A dona de seu passado incompreensível, de seu presente destrutivo e de seu futuro... Imprevisível.
Rachel sentia tudo ao seu redor, entretanto, seus olhos encontraram Quinn e não a abandonaram desde que entrara, novamente, no auditório emocionado pela apresentação do New Directions. A morena estava orgulhosa de seus alunos, porém, muito mais do que isso, estava estagnada e ainda inebriada por Quinn. E, a cada segundo que passava corrido, a cada minuto que se estirava... Mais Rachel tinha a certeza de que aquele encantamento, aquela paixão e esse amor jamais passariam. Ele permaneceria, a fogo, a sangue e à alma em seu coração.
Ao seu redor, o mundo continuava a girar e as pessoas vagarosamente voltavam a se sentar, as emoções se acalmavam e toda a explosão diminuía. Os últimos membros do New Directions passavam próximos a ela, correndo e sorrindo como legítimos adolescentes, um casal não passou despercebido porque a felicidade nos rostos delas era a mesma que Rachel gostaria que fizesse morada no seu. Claire e Christine não haviam se soltado e as mãos estavam tão firmemente ligadas que elas pareciam uma só.
Atrás delas, Arthur caminhava como uma espécie de guardião, sempre preocupado e atento, exatamente o bastante para que ele encontrasse os olhos da antiga treinadora em meio à multidão. O jovem era, naquele momento, uma dolorosa lembrança de Finn Hudson, porém, era preferível que ele a enfrentasse a Claire ou qualquer outro. Arthur era tranqüilo e, de certa forma, apaziguador.
Arthur se aproximou com as mãos nos bolsos da calça, ele sorriu de forma triste conforme vencia a distância que o separava da treinadora. A expressão em seu rosto não condenava Rachel e essa constatação fora um elixir para a morena tão debilitada. O jovem pigarreou e, respeitosamente, comentou:
— Acho que nenhum de nós esperava que a senhora pudesse arrumar, novamente, um tempo para o coral... Ainda mais depois da sua partida tão silenciosa.
— Eu peço desculpas, Arthur... Eu não quis, de forma alguma, que vocês pensassem que não são importantes. Vocês são e muito. — Rachel estava envergonhada e essa vergonha estava impressa em suas palavras arrependidas e em seus olhos vazios. Não existia mágoa no tom de voz de Arthur e sim, decepção. Mas, essa desapareceu logo que ele percebeu quão machucada a treinadora estava. Era difícil enxergar Rachel Berry tão amuada e ela estava exatamente daquela forma. Desajeitado, Arthur colocou uma mão sobre o ombro caído da treinadora e, sem jeito, sussurrou:
— Por que também não diz isso aos outros? Apesar de que eu acho não ser necessário, ninguém julgou a sua atitude... Muitos de nós iríamos atrás do nosso sonho se tivéssemos uma segunda oportunidade.
— Não tente tornar a situação mais aconchegante, Arthur... Eu não mereço isso. — Rachel sorriu de forma desgostosa antes de grunhir as palavras. Essa certeza não a machucava, afinal, ela não merecia muita coisa depois de dar tão pouco a quem lhe deu tudo que podia. E essa verdade não abrangia somente Quinn e sim, todos os membros do Glee.
Aqueles garotos a acolheram e devolveram a ela parte de sua essência que se perdera há muito tempo. Os seus alunos lhe entregaram a música e, tudo que ela fez, foi abandoná-los no momento em que ela deveria ter entregando a força que eles precisavam. Felizmente, Quinn estava lá para eles.
A partir daí, Rachel não conseguiu não perguntar-se quem esteve para Quinn quando ela partiu. A morena entregara a solidão quando Quinn confiou e concedeu o abandono quando Quinn jamais lhe negou a companhia.
Rachel falhara com todos, mas, a sua maior cicatriz sempre pertenceria a Quinn.
— Bem, eu confesso que alguns ficaram bastante indignados com a sua atitude... Por isso, acho melhor que a senhora se aproveite do nosso momento de felicidade para se reaproximar. Nenhum de nós está com amargura suficiente para lhe negar algo! — Arthur tentou soar sério, mas, ele acabou rindo no final, de uma forma leve e descompromissada. E Rachel, em meio a tantas quedas emocionais naquele dia, optou por se deixar levar por aquela tranqüilidade que Arthur emanava, assim como se deixou envolver pelo braço do rapaz.
Arthur a guiou pelo auditório e, depois, pelos bastidores. Os dois caminhavam em silêncio, o jovem não sabia, mas, era ele quem recarregava a coragem de sua treinadora. Ela sabia que encontraria Claire e Quinn nos camarins, também sabia que Christine com certeza estaria lá.
Não estava pronta para nenhuma delas, mas, tinha que tentar... A coragem era uma das poucas coisas que ela possuía e uma das únicas armas que ela ainda podia usar naquela guerra que parecia cada vez mais perdida. E, é claro, o seu combustível era feito de esperança, por mais que essa tivesse sido brutalmente derrubada por Quinn anteriormente.
Rachel não desistiria daquilo que deixara, covardemente, para trás.
Naquela caminhada, Rachel mantinha o seu aspecto de estrela ainda que o brilho estivesse desaparecido, há muito tempo, de seus olhos. Assim como uma estrela, estava sozinha em uma imensidão escura que parecia se estender diante de si pela eternidade. A morena não mais conseguia enxergar uma luz à frente porque esteve, sempre, muito acostumada e segura de si para caminhar sob o próprio brilho. Tampouco conseguia escutar as palavras e os sons que a cercavam porque estava acostumada à própria voz e, principalmente, ao silêncio.
Provavelmente, estes eram seus maiores defeitos... Ela recusou a luz quando a possuíra, ela negou escutar quem só queria ao seu bem e ela não falou quando deveria ter gritado.
Rachel pesava cada um dos seus erros e contrabalanceava-os com os seus sentimentos. Ela buscava perdão em suas ações para tranqüilizar-se do que poderia receber de cada pessoa que magoara. E, nessa simulação, os resultados a assustavam.
Porque nem mesmo Rachel era capaz de perdoar a si mesma.
Essa sentença para os erros que cometera apenas tornou o seu corpo mais pesado e seus passos mais lentos. A morena, imersa em sua culpa e nos fardos que optara por carregar, estacou em frente ao camarim do New Directions. Arthur parou ao seu lado, franzindo a testa em curiosidade e preocupação diante do comportamento de sua ex-treinadora e Rachel engoliu em seco.
O interior do camarim se fazia ouvir diante das risadas animadas e as conversas satisfeitas, contrastando completamente com o exterior silencioso do corredor dos bastidores. E, essencialmente, a alegria de um grupo desafiava a tristeza de apenas uma pessoa. Rachel tentou ajeitar a postura, mas, os ombros caíram e os olhos arderam. Arthur voltou a colocar a mão sobre o ombro da mais velha e sorriu quando ela se virou, ele, sendo corajoso pelos dois, girou a maçaneta da porta e encontrou no camarim, guiando Rachel.
Não existiu uma reação imediata à entrada de Rachel no local, a conseqüência da presença da morena foi apreendida aos poucos e, lentamente, cada um dos membros do New Directions somados a Quinn Fabray — que se encontrava próxima a Claire e Christine, rindo de algo que as garotas sorridentes falavam — se calou e fechou a expressão. Rachel sentiu o peso de mais de uma dezena de olhares condenando, reprovando e menosprezando a sua presença.
A morena firmou os pés no chão por pura obstinação porque todo o seu corpo, tomado pela vergonha e pelo medo, queria fugir dali. Rachel recusou-se a erguer os olhos em direção a Quinn, por mais que tivesse plena consciência dos orbes esverdeados que mutilavam o que ainda restava de si sem piedade alguma, e tentou olhar aleatoriamente para qualquer outro lugar que parecesse mais receptivo.
Entretanto, não existia calor nos olhares que eram direcionados a si... Apenas o frio e, Rachel se perguntou para onde fora a esperança que Arthur despertara nela há minutos.
— Pessoal, agora não é hora para esse tipo de comportamento... Essa noite foi muito especial e, no fundo, cada um de nós sabe que nada seria possível sem Miss Berry. — A voz de Arthur falhara em alguns momentos, mas, a firmeza de sua posição de liderança era evidente e, portanto, muitos membros abrandaram a expressão ou remexeram os ombros, incomodados. Rachel finalmente optou por abaixar a cabeça e silenciar-se até que chegasse a hora certa para que pudesse tentar. — Ela pode ter nos deixado quando...
— “Deixado”? Ela nos abandonou, Arthur! E não foi somente a nós... Ela simplesmente deu às costas a tudo pelo que prometeu ficar... E, por quê? — Claire interrompeu Arthur bruscamente e Rachel, ao escutar a voz dela, ergueu os olhos. Não se surpreendeu com a decepção que encontrou em sua aluna, mas, surpreendeu-se com a força que vinha dela. Essa força calou Arthur e fez com que os outros membros do coral acenassem a cabeça em concordância. — Por causa dos sonhos dela! Ou melhor, do egoísmo dela! Miss Berry pode escolher e a única verdade é a de que ela optou por abandonar qualquer um que jamais sairia do lado dela...!
Rachel fechou os olhos e respirou profundamente, as suas pálpebras lutaram contra as lágrimas que queimavam. A morena foi forte e não chorou, porém, quando abriu os olhos castanhos, eles estavam derrotados e pedintes... Por perdão, por carinho ou por qualquer outra coisa que não fosse a repreensão.
Claire estava sendo contida pelo segurar do seu pulso por Christine e pelo olhar cuidadoso de Quinn. Pela forma como a loira tratou a aluna, Rachel entendeu perfeitamente que ela queria evitar um conflito e, principalmente, a morena compreendeu que Quinn não mais lutaria. Ela estava desistindo, tanto de lutar como de defender. Quinn estava deixando a batalha nas mãos de Rachel, uma batalha que estava, cada vez mais, perdida.
As palavras faltaram quando Rachel engasgou e a coragem esvaiu-se quando ela voltou a abaixar os olhos. Não era de ficar sem falar e, muito menos, de desistir sem tentar... Contudo, naquele instante, ela não conseguia sequer pensar em, ao menos, minimizar os estragos que fizera.
E no instante em que Rachel achou que, novamente, ia decepcionar a todos, outra voz falou por ela... A mesma voz que a fez acreditar em um improvável perdão novamente se fazia ouvir para tentar fazê-la ter esperança mais uma vez. Christine afagou o pulso de Claire que, desconfiada, virou-se para ela. Quinn também assumiu uma expressão confusa e a jovem respirou fundo antes de, corajosamente, dizer:
— Miss Berry errou, mas... Qual de nós não errou? Ninguém aqui é perfeito e, tampouco, podemos julgar o que ela fez. Sonhos são sonhos, só quem sonha entende do que é feito aquilo que deseja.
As palavras dela provocaram, pela primeira vez, uma divisão entre os membros do New Directions. Alguns concordaram, outros, sequer procuraram compreender. Rachel sorriu de forma triste para Christine e a aluna acenou em apoio, afinal, ambas sabiam sobre erros, sonhos e redenções.
E Christine podia ter alcançado o seu perdão, porém, Rachel estava distante disso. Tanto Claire quanto Quinn continuavam com as expressões fechadas, a mais nova parecia mais decepcionada porque não poupou as palavras ao vociferar:
— Assim como os sentimentos são sentimentos e somente quem sente sabe o que é e as conseqüências do que escolhe sentir... E você, Chris, deveria saber, mais do que ninguém, o que eu estou dizendo.
Christine retrucou, mas, mais uma vez, Rachel se fechou para o mundo. Ao redor de si, todos debatiam opiniões contrárias motivadas, unicamente, pelas ações inconseqüentes da morena. No centro do conflito, Arthur permanecia protetoramente ao lado de sua professora enquanto Rachel parecia se encolher em sua diminuta estatura quando, na verdade, ela tentava extravasar o que estava preso em seu peito.
Rachel fechou os punhos e sentiu sua garganta secar. Lutou contra a ausência das palavras e focou-se nas batidas de seu coração, ritmando os seus sentimentos de encontro a essa sensação, Rachel ergueu a voz, rouca e sôfrega, ao dizer:
— Eu não vim até vocês esperando por perdão. Entretanto, eu ainda estou aqui, pedindo, por favor, para que vocês me perdoem. Não há justificativa para o que eu escolhi fazer. Eu senti a esperança renascer em meus sonhos perdidos e os escolhi, mesmo sabendo que eu já tinha muito mais do que merecia em minhas mãos. Vocês me fizeram voltar à música, assim como Lima trouxe de volta o que havia de melhor em mim. Todo esse meu retorno trouxe o que foi tirado de mim há muito tempo. E, em vez de pedir por perdão, eu deveria agradecê-los. Muito obrigada e vocês não devem, de forma alguma, dar mais do que acreditam ser o mínimo a mim. Se esse pouco não inclui um perdão, não quero que me perdoem por obrigação.
Os ombros da morena voltaram a se erguer depois de um dos fardos serem delicadamente tirado de seus ombros. Ela sorriu para cada um dos membros, demorando-se o bastante para memorizar suas expressões que iam da surpresa à admiração. Os seus últimos olhares, os mais agradecidos e amorosos possíveis, foram para Arthur e Christine. Esses dois alunos tinham brilhos iguais nos olhos, a luz daqueles que se orgulhavam. Rachel, desajeitada, acenou e preparou-se para sair do camarim, mais frágil do que entrara, mas, aliviada.
— Miss Berry! — Uma voz grave a chamou e Rachel se virou ansiosa. Os braços de Arthur a prenderam e, assim como fora quando a morena entrara no camarim, um a um, os membros do New Directions se aproximaram e a envolveram em um abraço.
Rachel não se sentiu tão perdida em meio ao infinito, pelo contrário, sentiu-se aquecida pelas outras dezenas de estrelas que a abraçaram e emprestaram um pouco de seus próprios brilhos a ela. E a morena até teria explodido em uma supernova se somente mais uma pessoa estivesse também abraçada a ela.
O seu sol, o seu fogo... Quinn Fabray mantinha-se à distância, os seus olhos estavam amenos em relação ao perdão coletivo que recebera, entretanto, eles não foram capazes de esconder a mágoa que ela carregava. Rachel voltou a minguar e voltou a se encolher, de frio e com medo pela escuridão que voltava a envolvê-la.
Uma pequena estrela cujo astro-rei recusava-se a ajudar a brilhar... Ou, apenas Rachel, a qual Quinn não era capaz de perdoar.
*****
Uma semana depois e Rachel ainda lembrava-se do exato momento em que o apresentador anunciara o título de campeão nacional ao New Directions. A morena lembrava-se da explosão de seus alunos e da sensação absurda de orgulho que a preenchera e, brevemente, ocupara todos os vazios dolorosos dentro de seu peito. Também se recordava do abraço coletivo que, novamente, envolveu-a nos instante em que seus alunos gritavam e sorriam como se todos os problemas do mundo tivessem se extinguido diante de sua vitória.
A morena também se lembrava da ligação escandalosa de Christine, no dia seguinte, relatando o teste sensacional de Claire para Julliard em que ela cantou, nada mais e nada menos, do que Celine Dion. Rachel saboreava o calor de ser, novamente, querida, ainda que, desde então, não mais se lembrasse o que era ser amada.
Porque, em cada uma dessas memórias, fosse literal ou sensorial, tudo o que Rachel sentia vindo de Quinn era a mágoa, ás vezes, permeada pela tristeza e, muitas outras vezes, de um ódio velado. A morena sabia que Quinn provavelmente não odiava o que era e sim, o que fizera. De qualquer forma, não existia brandura no que vinha da loira, assim como não existiam esperanças.
E foi dessa forma que, mais uma vez, Rachel desembarcou em Lima. Sem esperança e sem destino, como se tivesse, por acaso, caído na cidade. Dessa vez, a amargura deu lugar ao gosto agridoce da saudade... O sabor que lembrava a ela de tudo que tivera e que, irresponsavelmente, deixara para trás. A sensação de já não ter o que era de suma e única importante em sua essência.
Afinal, de todos os sonhos, pessoas, posses e achados... Quinn era a sua única constante. O único porto seguro que permaneceu intacto durante todos aqueles anos em que esteve perdida em New York, a única mão que estendeu para apanhar a sua quando ela chegou acabada a Lima, a única boca capaz de lhe devolver a vida com um beijo, o único coração que batia em equilíbrio com o seu e a única alma que se encaixava, perfeitamente, na sua.
Rachel afastara quem lhe devolvera a música e o sonho, não das formas como estava acostumada, mas, da forma como precisava. Quinn se tornara a dona dos seus sonhos, a inspiração de sua música e, atualmente, a responsável por Rachel duvidar da existência da esperança.
A morena não se demorou em seu desembarque, assim como não se preocupou em absorver e sorver das lembranças que a invadiram e soterraram sua mente e seu coração. Lima, novamente, era dolorosa e daquela vez, a culpa era exclusivamente sua. Por isso, Rachel tomou um táxi enquanto se lembrava, saudosa, da forma como Quinn se aproximou e lhe deu uma carona (para a inesperada felicidade) em seu primeiro dia de sua anterior volta à cidade. O trajeto à casa de seus pais foi feito em silêncio e quando ela finalmente se viu sozinha, em frente à casa de sua infância, tudo que quis era estar naquele apartamento pequeno que dividiu, por poucos e inesquecíveis dias, com Quinn.
Cada aspecto da cidade lembrava Quinn, em menor ou maior intensidade. Talvez, não fosse a cidade e sim, a própria Quinn, que estava marcada a fogo no peito e na cabeça de Rachel. A morena sabia que não era capaz de esquecê-la assim como sabia o peso de seus erros. Por isso, Rachel só conseguia enxergar um futuro solitário e isolado. Hoje, um futuro sem Quinn assustava muito mais do que um novo despedaçar de seus sonhos...
Porque, no final de contas, Quinn fora a sua realidade por tempo bastante para se tornar um sonho repleto de felicidade, alegria e, principalmente, amor.
Rachel chacoalhou a cabeça, segurou firmemente na alça de sua mala de rodinhas e arrastou-a pelo caminho de cimento que levava à porta da casa dos Berry. Cada passo à frente parecia uma martelada certeira em seu peito, estava de volta a Lima e, daquela vez, sentia-se ainda mais distante de Quinn e de tudo que era antes de abandonar a cidade pela segunda vez.
Porém, nessa volta, Rachel estava acordada e não esconderia os sentimentos por covardia. A morena enfrentou corajosamente as lágrimas que já escorriam de seus olhos ao bater na porta de seus pais, sua visão embaçou e seu corpo fraquejou, mas, Rachel apoiou-se da melhor forma que podia e ajeitou a sua postura, o máximo que seus fardos permitiam. Quando seu pai Leroy abriu a porta, Rachel tentou sorrir, mas, as lágrimas voltaram a molhar suas bochechas. O pai estava absorto pela surpresa de ter a filha de volta e não sabia o que fazer, enquanto isso, a morena limpou suas lágrimas, o máximo que pode, e a voz saiu falha quando ela sussurrou:
— Olá, pai.
— Estrelinha...! O que você...?! — Leroy finalmente saiu de seu transe e, quando seus olhos escuros visualizaram as lágrimas da filha, ele se adiantou e envolveu-a em seus braços. Rachel agarrou-se ao pai com força, como se quisesse que ele voltasse a protegê-la da mesma forma como fazia quando era pequena, ela soluçou nos braços de Leroy e ele afagou os seus cabelos. A respiração do homem falhava enquanto ele tentava, no abraço, transferir a dor da filha para si.
Rachel era uma bagunça composta da saudade, do apego e da dor. Esses sentimentos estiveram tão presentes nos últimos dias que a morena já se acostumara a eles, porém, eles jamais haviam se misturado dessa forma. Rachel não sentira saudade com tanta intensidade que chegava a dor e, também, não se apegara aos braços protetores do pai como fazia naquele momento.
O preço de seus erros e suas escolhas impensadas se fazia presente em cada lágrima que ela derrubava e em cada pontada que atingia seu peito. A cada dia que passava, a dor se intensificava e nesse instante, embalada nos braços do pai, Rachel se sentia um pouco menos fraca. Mas, nada que a fizesse voltar inteira para o campo de batalha em que ela mesma transformara a sua relação com Quinn.
Rachel afundou-se nos braços do pai, mas, escutou os passos de seu papai. Hiram chegou à cena, descabelado, porque mal saíra do banho antes de escutar o marido chamar o apelido da filha. Ele chegou à porta com os óculos tortos e a aflição presente em cada uma das rugas de sua expressão. Leroy afastou a filha e olhou para o marido, a dor de Rachel refletia-se nos olhos dele, e Hiram observou quando a filha, carente, apertou os dedos saudosos no braço do pai.
Hiram jamais tinha visto sua estrelinha tão desolada e tão... Escura. Era como se todo o brilho de Rachel tivesse sido drenado. Mais uma vez, New York — a cidade dos sonhos de sua pequena estrela — tirara tudo o que ela tinha de especial. E se, na primeira vez, Rachel esteve forte para transformar a dor em amargura, dessa vez, ela estava frágil e refletia a dor... Nos olhos dela não existia espaço para nada que não fosse a dor e o arrependimento.
A morena sentiu seu corpo puxado para dentro da casa, Leroy a levou para a cozinha enquanto Hiram colocava sua mala do lado das escadas. Em seguida, os pais dividiam o cômodo com ela, Leroy preparava algo enquanto Hiram estava em frente à filha. Os dois trocaram um olhar, ambos sabiam muito bem o que acontecera, e Rachel, em tom de desculpas, sussurrou:
— Sinto muito por não tê-los avisado que eu voltaria à cidade.
— Não sinta por isso, querida. Estamos felizes de ter você de volta, mas, preocupados com a sua volta... O que aconteceu? — Leroy voltou à interação, entregou um copo d’água para Rachel que o apanhou, as mãos trêmulas machucaram os dois pais e Leroy apoiou-se na bancada enquanto Hiram ajeitava as mechas castanhas da filha. Este pai sorriu triste e, olhando compreensivo para a filha, sussurrou:
— Acho que não foi somente Quinn quem teve o coração quebrado nesse seu retorno a New York.
Rachel ocupou-se em engolir a água. Falar sobre a sua relação com Quinn tornava tudo muito mais real e muito mais dolorido. A morena só conseguiu erguer os olhos para os pais e acenar de forma afirmativa com a cabeça, os dois suspiraram, tão tristonhos quanto ela. Hiram afagou os cabelos castanhos e Leroy, sério, disse:
— Você sempre soube que isso era uma possibilidade, querida.
— E, se você achou que era capaz de viver de sonhos, estava enganada... — Hiram continuou o raciocínio e Rachel, cansada, contemplou as palavras dos pais. Ela não queria falar sobre Quinn, mas, estava exausta de procurar uma solução enquanto observava tudo se agigantar diante dela. Hiram ajeitou os óculos e Rachel finalizou o copo. — De nada vale uma vida sem amor.
— Eu sei, assim como eu sei que não tenho mais nada... Os sonhos se foram junto com ela. — Dizer as palavras que se passavam em sua mente doeram muito mais do que Rachel esperava. Ela voltou a abaixar a cabeça e entrelaçou as mãos sobre seu colo, agarrando-se a sua pele fria em busca de calor. As lágrimas voltaram aos seus olhos e ela respirou fundo, tentando sufocá-las... Mas, como tudo que vinha fazendo, foi em vão e elas escorreram preguiçosas em suas bochechas. Leroy arqueou a sobrancelha para o marido e Hiram apanhou uma das mãos da filha, apertando-a entre as suas, ele respirou fundo e disse:
— Lembra quando você nos disse que estava com Quinn e eu, totalmente perdido em meus julgamentos, disse que não aceitava muito bem?
Rachel apenas acenou e a sua atenção estava, totalmente, no pai. Hiram sorriu para ela, um sorriso que queria devolver a ela a esperança que se perdera. A morena apertou a mão do pai e ele continuou:
— Você me enfrentou e saiu de casa porque precisava dela... Naquele momento, eu acreditei no que você disse sentir. A Quinn sempre esteve em você, muito antes de vocês se relacionarem. Existe algo em vocês duas que faz as pessoas ao redor de vocês acreditarem. No amor, em almas gêmeas, em complementação... O que for. Eu sei que vai doer amar sozinha, mas, um amor não acaba se um dos lados ainda acredita. Você não pode exigir o perdão, porém, ainda pode acreditar no que vocês sempre tiveram.
— Para eu acreditar, eu deveria ter esperança... E, em nossa última conversa, ela deixou claro que não ficou. Ela se foi, papai... E a culpa é exclusivamente minha. — Rachel ofegou as palavras e, mais uma vez, elas tornaram a realidade ainda mais perversa. A morena abaixou a cabeça, puxou a mão que o pai segurava e envolveu seu rosto. Os sons de seu choro, contigo e desesperado, tomaram a cozinha silenciosa. Hiram encolheu os ombros, sem saber o que dizer.
Leroy, por outro lado, segurou um dos ombros da filha e o apertou em sinal de apoio. Os soluços de Rachel se mantiveram, mas, o choro se perdeu em meio a sua respiração pesada. Ela ergueu os olhos castanhos vazios e sem esperança, Leroy beijou-lhe a testa e disse:
— Não é hora para se ter esperança. Você partiu o coração dela e, por mais que isso tenha lhe feito entender o que era importante, você ainda a machucou cruelmente. Porém, se você sabe e acredita em sua culpa, talvez, devesse acreditar. Não no amor, mas, na cura dela. Talvez, a sua redenção esteja em um recomeço de Quinn.
As palavras do pai doeram.
Porque, por mais sábias que elas fossem, elas ainda eram feitas de verdade. E a verdade, naquele momento da vida de Rachel, a machucava.
A morena sabia que quase não existiam chances de Quinn perdoá-la e também sabia que, se fosse permitido a ela permanecer na vida da loira, provavelmente, não seria da forma como gostaria. E Rachel sabia que doeria ver Quinn feliz com outra pessoa, a morena sabia que, no instante que arrumara a sua mala para New York, também tirara a felicidade da loira.
E, somente a ideia de alguém ser capaz de devolver aquele sentimento a Quinn — o sentimento que ela arrancara do peito da loira — a machucava. Rachel não sabia se conseguiria ser “mais uma” quando também fora “a única” para Quinn.
Rachel suspirou, seus olhos derreteram-se em mais algumas lágrimas e o seu coração bateu acelerado. Ela não sabia o que fazer, não sabia no que acreditar. Mais uma vez, a sua única certeza era Quinn.
Ainda a amava, ainda a queria. E não sabia se isso, um dia, mudaria.
*****
Santana estava inquieta enquanto batucava a ponta da caneta na mesa de madeira, a ansiedade estava começando a tomar o seu corpo e ela não conseguia extravasar de outra forma que não fosse aquela. Sabia que os seus movimentos estavam incomodando — e estava satisfeita por Frances Pole grunhir a cada batucada da caneta no tampão de madeira — só que não conseguia parar. A ansiedade estava ocupando cada pedaço de seu corpo.
O tribunal foi seu lar por muito tempo, assim como os juízes, promotores e colegas de profissão foram seus companheiros quando a grande parte das pessoas que estava em sua vida desapareceu. A latina fez casa em meio ao Direito, à procura por justiça e as batalhas judiciais. Quando ela estava perdida na confusão em que sua vida se transformara, o Direito era o único que permanecia, intocável, imutável e constante.
E, novamente, quando a sua vida voltava à bagunça, Santana estava em um tribunal. Porém, daquela vez, a batalha judicial não era uma distração para Santana e sim, uma necessidade. A ansiedade tomava conta da latina, não por duvidar de sua capacidade profissional e sim porque ela não saberia o que fazer se Joaquín saísse impune e Kathryn continuasse nas mãos dele.
Santana fizera uma promessa e não estava disposta a quebrá-la.
Os julgamentos de Kathryn Aleed e Joaquín Hernandez contra o Estado da Califórnia receberam a atenção da mídia, aquele era um caso diferenciado, com aspecto cinematográfico e um desfecho imprevisível como qualquer thriller de suspense. Santana e Kathryn chegaram sozinhas ao tribunal de Los Angeles, em meio à multidão de fotógrafos nas portas de entrada, a latina segurou a mão da ruiva entre as suas e a apertou.
A caminhada até a sala de audiência foi silenciosa e incômoda e as duas só se saltaram quando, novamente, tiveram que assumir os papéis de advogada e cliente. Assim como do lado de fora, existia uma platéia. Santana assumiu uma postura austera e profissional e, por mais que ela parecesse fria aos olhos desconhecidos, Kathryn sabia que ela estava, apenas, se mantendo racional.
Afinal, o que estava em jogo ali era muito mais do que uma vitória na carreira da latina. O que estava em jogo talvez fosse um dos aspectos mais importantes da vida de Santana.
As duas sentaram-se em uma das mesas da defesa, Santana exigiu que ficassem separadas de Joaquín e Frances Pole. Por mais que existisse certa preferência em manter o canalha distante de Kathryn, Santana também fizera aquilo de forma estratégia porque não queria que o júri, os espectadores e até mesmo o juiz relacionassem a imagem da ruiva ao homem que aterrorizou todos os seus dias. Por isso, Santana também se sentou de forma que podia privar Kathryn de, até mesmo, olhar para Joaquín.
Logo após a chegada das duas, a Promotora Vellini entrou majestosamente no tribunal, atraindo a atenção de todos para o seu porte elegante e comprometido. Não era certo que ela demonstrasse qualquer reconhecimento em relação a Santana, mas, a promotora não se preocupou em olhar para a latina ao lado de sua cliente e sorrir. Afinal, todas eram mulheres que estavam ali única e exclusivamente para defenderem umas às outras diante daquele homem desprezível.
Claro que esse gesto de apoio mútuo não passou despercebido por muitos que estavam à espera da audiência. Os cochichos começaram e só se calaram quando as portas da sala de audiência voltaram a se abrir. Frances Pole caminhava à frente, sorrindo e cumprimentando a todos os presentes. Santana revirou os olhos e Kathryn endureceu a postura, atrás do advogado, Joaquín Hernandez caminhava tranquilamente. Os dois sentaram-se à outra mesa dedicada a defesa e Frances Pole sussurrou:
— Seria mais vantajoso que tivéssemos trabalhado juntos para garantirmos os desejos dos nossos clientes, Srta. Lopez.
— Achei que tivesse deixado claro que eu não me preocupo com o seu cliente. Por mim, ele estaria preso na pior penitenciária do país! — Santana não pesou as palavras ditas, entretanto, a sua expressão dissimulada não entregou o ódio que descarregou em cima do seu colega de profissão. Frances Pole franziu a expressão, chateado e Joaquín se inclinou para frente, apenas o necessário para acenar para Santana e Kathryn.
As mãos da latina fecharam-se como garra nos braços da cadeira e os lábios se crisparam. Tudo o que queria era avançar contra aquele homem e fazê-lo engolir cada um dos dentes que ele ainda tinha na boca. Santana sentiu quando uma das mãos de Kathryn, fria, envolveu a sua. A frieza da ruiva acalentou a ebulição no interior da latina, as duas se olharam e estavam prestes a se perderem uma na outra quando um policial clamou:
— Todos em pé, por favor.
O juiz, uma mulher sexagenária de aparência severa e profissional, entrou no tribunal e todos se sentaram somente quando ela se acomodou. Ela bateu com o martelo e anunciou:
— Estamos aqui hoje para julgarmos Kathryn Aleed e Joaquin Hernandez por crimes cometidos na Califórnia. Peço que a Promotoria e a Defesa sejam profissionais e que a lei da Califórnia seja respeitada acima de tudo. No mais, os ouvidos do júri e os meus estão dispostos a escutar assim como nossas mentes estão dispostas a protelar. Portanto, declaro aberto esse julgamento.
Santana e Frances se olharam pela última vez. A latina tranqüilizou-se ao perceber que o seu colega parecia tão nervoso quanto ela. Talvez, Joaquin não devesse estar tranqüilo... Talvez, o joguinho dele não funcionasse tão longe de Ohio.
A audiência cumpriu com todas as expectativas de Santana. Ela realmente esperava que fosse difícil persuadir o juiz e quebrar as provas que a Promotoria tão competentemente apresentara. A latina era amiga da Promotora Vellini, mas, nem por isso, pediu para que a colega pegasse leve nas acusações. Como a própria Kathryn dissera, não existiam santos naquele julgamento.
E, de fato, não existiam. As fichas de ambos era gigantesca, Kathryn tinha crimes de menor impacto, mas, Joaquín estava até o pescoço em acusações. Porém, assim como o acusado tinha crimes e mais crimes em seu nome, ele também tinha todo um maquinário a sua disposição e metade das testemunhas que Santana convocara, capazes de defender Kathryn, não compareceram ao tribunal. A latina bem sabia que ele ameaçara cada uma delas e os dois poucos corajosos — um dos diversos administradores dos negócios imobiliários de Joaquín e outro criminoso, um estelionatário, sem nada a perder — tiveram seus depoimentos praticamente invalidados porque existia o interesse pessoal de ambos na condenação de Joaquín.
Santana até mesmo arrependeu-se por ter dispensado tanto Quinn quanto Puck, entretanto, sabia que, naquela altura da vida deles e na situação em que se encontrava sua amizade com o policial e a professora, não podia exigir que eles se arriscassem daquela forma. Se Joaquín saísse ileso, o que era de se esperar, Puck e Quinn jamais teriam paz.
Ainda restavam os depoimentos escritos de ambos. Puck era um policial de renome e que, impressionantemente, possuía uma carreira transparente e invejável e Quinn era uma pessoa de renome na sociedade de Lima, o caráter de ambos era inquestionável e esses depoimentos, por mais frágeis que pudessem ser, ainda estavam lhe dando uma boa dianteira.
As circunstâncias eram favoráveis à Kathryn, mas, Santana não conseguia ficar tranqüila. Ela não estava lutando somente pela justiça, também estava lutando contra um homem que não possuía limites para os crimes que cometera. A latina temia por sua derrota porque ela podia representar o seu fim.
Santana levantou-se de sua mesa e caminhou até onde Joaquín estava sentado. No banco dos réus, sorrindo o mesmo sorriso tranqüilo e despreocupado, que a irritava profundamente. A latina arregassou as mangas de seu blazer e cruzou os braços, Joaquín jurara dizer a verdade, mas, a sua expressão dissimulava qualquer juramento. Santana suspirou e, enérgica, perguntou:
— O que tem a dizer sobre o assassinato de Julianne e Michael Urie, Sr. Hernandez?
— Por que não pergunta a sua cliente, doutora? Ela estava lá também, sabe tanto quanto eu o que aconteceu. — Joaquín respondeu calmo, inclinando o corpo para o lado para, novamente, olhar Kathryn. Santana não precisou olhar por cima dos ombros para saber que a ruiva se encolhera. Um silêncio pesado pairava no tribunal e a juíza vociferou:
— Responda a pergunta, Sr. Hernandez.
— Mas, eu respondi, meritíssima! É de conhecimento geral que Kathryn estava comigo quando os assassinatos ocorreram. As circunstâncias são de conhecimento dela, também. E se ela não foi capaz de dizer isso a própria advogada, então, não sou eu quem darei a minha versão sozinho. — Joaquin manteve-se tranqüilo, como se fosse inalcançável. Santana revirou os olhos e bufou, impaciente. O sangue voltou à subir sua cabeça e ela, irritada, exclamou:
— Minha cliente foi detalhista no relato do assassinato dos Urie, Sr. Hernandez. O que eu quero é saber, justamente, o seu lado da história! Você está aqui para falar a verdade, nada além da verdade... E eu estou aqui para arrancar tudo de você ou para complicar e muito a sua situação, por isso, eu sugiro que fale comigo.
— Protesto, meritíssima! Minha colega está ameaçando o meu cliente. — Frances Pole exclamou excitado, como se esperasse por esse descontrole de Santana desde o começo da audiência. A latina amaldiçoou-se mentalmente, não podia deixar que Joaquín e Frances entrassem em sua mente daquela forma. A juíza bateu o martelo e anunciou:
— Protesto concedido. Reformule a sua pergunta, Srta. Lopez.
— Qual a sua versão a respeito do assassinato de Michael e Julianne Urie, Sr. Hernandez? — Santana voltou a perguntar, bastante chateada. Joaquín sorriu para o seu embaraço enquanto o júri observava os dois de olhos atentos e desconfiados. Pela primeira vez, a platéia incomodou Santana e ela encolheu os ombros.
Joaquín iniciou a sua versão e destacou, mais de uma vez, que Kathryn era a sua companheira muito antes dos assassinatos terem sido cometidos. Ele também ressaltou que a ficha de Kathryn era tão extensa quanto a sua e que a maioria dos crimes foi cometida em conjunto. Santana viu aí a sua deixa, a latina sorriu para as palavras do homem e, assim que ele terminou o seu relato, disse:
— Já que o senhor fez questão de deixar bem claro que tinha uma relação com a minha cliente, eu gostaria de determinar a natureza dessa relação. Peço para apresentar as provas de número 45 a 62, por favor.
A juíza autorizou e, através do projetor instalado no tribunal, quase duas dezenas de fotos começaram a ser exibidas para o júri e os espectadores. Santana viu pelo canto dos olhos quando Kathryn abaixou a cabeça e pode sentir, ainda que não pudesse ver que ela chorava. Santana perdeu-se em seus movimentos, mas, logo os retomou obstinada. A latina virou-se, primeiro para o júri e, depois para a juíza, antes de dizer:
— As fotos foram tiradas com o devido consentimento de minha cliente e os documentos se encontram anexados ao processo. Como podem ver, Kathryn Aleed é a vítima e não a executora. A ficha de minha cliente não indica que ela tenha propensão ao assassinato e essas imagens determinam o tipo de relacionamento que o Sr. Hernandez possuía com ela.
— Protesto, meritíssima! Essas fotos são recentes e não tem relação com as acusações ao meu cliente! — Frances tornou a interromper, só que dessa vez, ele estava nervoso. Santana sorriu para o descontrole dele e olhou em expectativa para a juíza, por mais que esse ato fosse tirado do julgamento, as imagens não sairiam da cabeça dos jurados quando eles fossem protelar o veredicto. A juíza franziu a testa e ajeitou os óculos, antes de dizer severa:
— Protesto negado, Sr. Pole. As provas expostas pela sua colega contribuirão para a formação da identidade e do caráter de seu cliente.
Frances encolheu-se na mesa e Joaquín rangeu os dentes, era a primeira vez que o sorriso tranqüilo desaparecia de seus lábios desde que ele entrara no tribunal.
Se pudesse voltar atrás, ainda assim, Santana não deixaria de expor Kathryn daquela forma. Fora necessário que as agressões cometidas fossem de conhecimento do júri, aquelas fotos eram as cartas coringa de Santana para aquele julgamento e ela não podia desperdiçá-las, ainda que trouxessem sofrimento a Kathryn.
Nem Francis e nem Joaquín esperavam que ela pudesse ter registrado as agressões. Aquelas fotos eram provas incontestáveis da natureza violenta e vingativa dele, as provas materiais em relação aos assassinatos de Julianne e Michael Urie tinham se perdido no tempo, mas, a personalidade cruel de Joaquín era um trunfo a ser explorado, assim como seus atuais crimes.
E Santana era uma advogada esperta que se tornara ainda mais perigosa porque estava realmente se esforçando para que Kathryn pudesse ter uma vida segura, sem Joaquín em seu cangote e, de preferência, ao seu lado. O que movia Santana era muito mais do que justiça e sim, amor.
Aquele julgamento fora a sua maior prova de que estava disposta a ter um futuro com Kathryn. Manter-se alheia à relação que as duas tinham fora do tribunal fora um verdadeiro desafio, tudo que Santana queria era abraçar a ruiva em todos os momentos nos quais ela demonstrou fraqueza. Santana não queria que aqueles homens tirassem o pouco que Kathryn ainda possuía e no qual ela se segurava para se manter forte.
E eles tentaram, da pior forma.
— A defesa de Joaquín Hernandez está autorizada a fazer perguntas a Kathryn Aleed. — A juíza anunciou com um tom de voz austero, olhando diretamente para Frances Pole. Santana observou o advogado levantar-se e ajeitar o terno, ele transpirava e respirava com dificuldade, visivelmente nervoso. A latina conseguiu segurar o sorriso vitorioso que ameaçou chegar aos seus lábios, entretanto, não conseguiu deixar que sua mente não sonhasse com um final feliz.
Os olhos escuros de Santana encontraram, primeiro, os olhos acinzentados de Kathryn. A ruiva respirou fundo, olhando nos olhos da latina, encontrando nela a força que precisava para enfrentar um dos homens que destruíra a sua vida. Em seguida, os olhos de Santana encontraram Caroline e a promotora sorriu discreta, o sorriso de quem estava em uma silenciosa torcida para que tudo desse certo.
Frances Pole caminhou até o banco dos réus onde Kathryn estava injustamente sentada. Ele sorriu de forma maliciosa para a ruiva que, surpreendentemente, não se encolheu. Pelo contrário, Kathryn aprumou a sua postura e permaneceu à espera, elegante e calma. O advogado arqueou a sobrancelha para o comportamento dela e começou:
— A Srta. Lopez a representa há quanto tempo, Srta. Aleed?
— Eu não sei ao certo, já faz alguns meses. Bem antes das agressões de Joaquín, na realidade, ele me bateu daquela vez porque soube que eu estava atrás de um advogado. — Kathryn respondera corajosa, ainda que sua expressão denunciasse a curiosidade que possuía em relação à pergunta. Santana também estava pensativa, em nenhuma de suas previsões, Frances fazia uma pergunta como aquela.
O que ele estava pensando em fazer?
Frances voltou a sorrir, um sorriso que, dessa vez, trazia a crueldade como sua principal natureza. Santana engoliu em seco e apoiou as mãos na mesa, sentindo-se subitamente nervosa pelo que não esperava e pudesse vir a seguir. O advogado olhou, discretamente, por cima do ombro para o seu cliente e Joaquín acenou com a cabeça. Frances, então, perguntou incisivo:
— Qual a natureza de sua verdadeira relação com a Srta. Lopez? Eu me pergunto sobre isso porque as duas, desde o início do processo que, até então, era de divórcio, sempre pareceram próximas... Até demais. De uma forma que contraria a ética profissional de qualquer advogado de bom senso.
Kathryn não respondeu e foi essa ausência de palavras que a entregou. Santana olhou ao seu redor e os comentários logo começaram a se tornarem audíveis. A juíza não fez menção alguma de pedir silêncio porque parecia tão chocada quanto a própria advogada. A latina não conseguia acreditar em quão sujo Joaquín e Frances eram. Santana ficou em pé de súbito e o tribunal voltou a se calar, Caroline a observava, preocupada e a latina grunhiu furiosa:
— Protesto, meritíssima! O meu colega está envergonhando a minha cliente e eu não vejo como isso pode nos ajudar a elucidar essa vida de crimes que o cliente dele viveu.
— Protesto concedido, Srta. Lopez. Não há necessidade de relatarmos a primeira pergunta do Sr. Pole à Kathryn Aleed. — A juíza atendeu ao pedido de Santana visivelmente chocada e os olhos dela fixaram-se na latina, vagos e impossíveis de serem interpretados. Santana voltou a se sentar, mas, ainda tremia de raiva. — O Sr. Pole pode continuar, se insistir nesse assunto, perderá a chance de inquirir a acusada em favor do seu cliente.
— A defesa do Sr. Hernandez não tem mais o que perguntar se assim for, meritíssima. — Frances anunciou dramaticamente, antes de se virar para a mesa de defesa e sorrir satisfeito ao encontrar Santana Lopez imersa em sua fúria. Ele se sentou sorridente e Joaquín, ao seu lado, parecia tão satisfeito quanto. Os jurados observavam tudo que se passava, atentos e, naquele momento, curiosos.
Santana ainda não havia se mexido quando a Promotora Vellini se colocou em pé. Ela se aproximou de Kathryn e abriu os botões do blazer, preparando-se para a sua argüição. As perguntas que Caroline faria eram incógnitas para Santana, mas, ela esperava que Kathryn estivesse preparada para o que fosse vir. Kathryn colocou as mãos sobre a madeira e esperou ansiosa. Caroline sorriu para ela e disse:
— Já que estamos procurando estabelecer a natureza das relações da Srta. Aleed, gostaria que me dissesse quem era Charlie Thomas e o que ele representava em sua vida.
Aquele era um aspecto delicado em todo aquele julgamento. Charlie não fora importante somente para Quinn e a morte dele ainda pairava, dolorosa e pesada, sobre Santana e Kathryn. Ambas culpavam-se o bastante a ponto de sentirem como se elas próprias tivessem disparado a arma. Joaquín fora capaz de assassinar um homem inocente para tentar conseguir o que queria e continuava ali, sorrindo vitorioso como se nada fosse capaz de puni-lo.
Santana uniu as mãos sobre a mesa e Kathryn suspirou pesado. Uma lágrima escorreu pela pele pálida e ela, com muito esforço, a limpou. A expressão no rosto da Promotora Vellini se abrandou e ela, compreensiva, disse:
— Demore o tempo que quiser, senhorita.
— Protesto, meritíssima! A Promotoria está, claramente, beneficiando a Srta. Aleed! — Frances tornou a se manifestar, mais nervoso do que as outras vezes, sequer lembrando o homem que, até então, se sentara como um rei ao lado de seu cliente. Joaquín estalou as juntas dos dedos das mãos, incomodado e perigoso. Santana fechou os olhos e respirou fundo, torcendo para que aquele momento do julgamento se acabasse. A juíza semicerrou os olhos para o advogado e, entediada, respondeu:
— Protesto negado, Sr. Pole. A Promotoria também inquiriu o seu cliente a respeito do assassinato de Charlie Thomas e ele alegou não saber de nada. Portanto, escutaremos a versão da Srta. Aleed.
— Na verdade, meritíssima, eu gostaria de clarificar o ocorrido. Por favor, peço a prova 73 do processo. O vídeo do sistema de vigilância do Departamento de Polícia de Lima, Ohio. — Caroline anunciou profissional, gesticulando para a imensa tela que voltou a projetar algo que fez Kathryn abaixar os olhos.
Na tela, o corpo de Charlie estava envolvido pelo sobretudo, sendo guiado por Puck. Ele quase conseguira romper a multidão de repórteres e fotógrafos quando os sons de tiros interromperam a natural balbúrdia da mídia. Charlie estava prestes a entrar no carro quando fora atingido, Puck imediatamente olhou na direção dos tiros e, depois, saiu do campo de apreensão da câmera enquanto corria de encontro ao assassino. Caroline interrompeu o vídeo nesse ponto, ela voltou os olhos para Kathryn e, delicada, disse:
— Eu preciso que você me diga quem foi Charlie Thomas em sua vida, Srta. Aleed.
— O Sr. Thomas me acolheu quando Joaquín voltou a me ameaçar quando eu resolvi continuar o nosso processo de divórcio. — Kathryn, diferentemente do que Santana esperava, pareceu se encher de coragem ao ver o que acontecera com Charlie. A latina continuou calada, sentindo seu peito se apertar enquanto observava Kathryn entregar a verdade, que tanto a machucava, para todo aquele tribunal. — Não é a primeira vez que terceiros se ferem ou morrem por eu tentar me desvencilhar de Joaquín. Ele me acolheu e me escondeu, até tentou me proteger, mas, Joaquín o matou quando queria atingir a mim.
— Protesto, meritíssima! A acusada está acusando o meu cliente de forma irresponsável, a investigação ainda está em curso e correndo em segredo de Justiça. — Frances voltou a se manifestar, parecendo prestes a explodir. Sua gasta pele envelhecida estava avermelhada e seus olhos estavam esbugalhados. Joaquín abaixara a cabeça e esmurrava a mesa, totalmente insatisfeito. Santana observou Caroline virar-se confiante para a juíza, esta olhou da promotora para o advogado e disse:
— O protesto somente será aceito se a Srta. Aleed não tiver algo concreto contra o Sr. Hernandez.
Kathryn encolheu os ombros e Santana suspirou derrotada. Frances estava prestes a abrir um sorriso vitorioso quando Caroline voltou a falar:
— O inquérito permanece em segredo de justiça sim, mas, o depoimento do Sgt. Noah Puckerman e da Srta. Lucy Quinn Fabray, respectivo investigador e amiga próxima do Sr. Thomas, deixam evidentes que a vítima não possuía inimigos na cidade. Eu não os digo que o Sr. Hernandez é o responsável, mas, as evidências iniciais da investigação apontam única e exclusivamente para ele. E, um homem que levou uma prévia vida de crimes, depois, matou para assumir a identidade de um homem inocente e continuou a cometer vários delitos contra a Justiça merece que levemos isso em conta. Com isso, a Promotoria encerra as suas indagações, meritíssima.
Se Santana pudesse, ela teria aplaudido Caroline de pé.
Finalmente, um som interrompeu o falatório que circundava Santana. Um policial entrou à frente do grupo de jurados que, após três horas de julgamento e mais três horas de discussão, tinham chegado a uma decisão. O policial entregou o resultado a juíza que passou os olhos sobre o papel, impassível. Em seguida, um dos jurados se ergueu e a juíza perguntou:
— Vocês chegaram a uma decisão a respeito desse julgamento?
— Sim, senhora. — Respondeu a jurada em questão e Santana suspirou aliviada, pelo menos, a maioria dos jurados eram mulheres e aquilo poderia contar a favor de Kathryn. Ao seu lado, a ruiva inclinou o corpo discretamente em direção ao seu e Santana permaneceu paralisada, sabia que, se mexesse um centímetro sequer, se jogaria nos braços de Kathryn.
Aquela poderia ser a última vez em que ficariam juntas nos próximos anos.
Quando a apresentação de provas e evidências foi finalizada juntamente com as argüições, a juíza chamou Santana e Frances à frente. Ela olhou para os dois advogados, demorando-se inexplicavelmente em Santana, a latina não vacilou o olhar. A juíza, então, desviou os olhos da latina e perguntou:
— Há alguma possibilidade de acordo?
— De forma alguma, meritíssima. — Santana respondeu rapidamente, sentindo os olhos de Frances a fuzilarem enquanto ele permanecia de boca aberta. A juíza acenou com a cabeça e voltou a dizer:
— Vocês têm a sua última fala diante ao tribunal. Boa sorte.
Santana voltou à mesa, Kathryn a olhava de forma curiosa e a latina tentava não se deixar levar para a presença magnética da ruiva. As duas ficaram em silêncio, mas, um silêncio que deixava claro que estavam ali uma para outra, independente de como aquele dia terminaria. Era uma promessa sem palavras, mas, ainda assim, inquebrável.
Frances Pole foi o primeiro a falar, destacando a ausência de provas contra o seu cliente no caso dos assassinatos dos Urie e, também, em sua vida atual. O advogado não tentou tirar a culpa do cliente em relação ao caso do roubo da identidade e, tampouco, mencionou o caso de agressão doméstica. Frances, experiente e esperto, estava tentando abrandar a pena do cliente e não condená-lo a pena máxima. Quando ele terminou de falar, o silêncio no tribunal não deixava transparecer nada.
Santana, então, se levantou. Os seus saltos clicaram no piso bem encerado da sala de audiência e ela parou próxima ao banco de jurados. Olhou no rosto de cada um daqueles que tinham em mãos o futuro de Kathryn. A latina respirou fundo e, corajosamente, discursou:
— Como podem ver pela posição do meu colega, nem ele mesmo acredita na inocência do seu cliente. Eu, por outro lado, acredito em minha cliente porque eu a conheci durante todo esse tempo... Não sei se ficou evidente, da forma como eu queria, o papel de Kathryn Aleed em todo esse julgamento. Por isso, eu volto a repetir, ela não é a assassina, muito menos, a ladra de identidade. Kathryn é uma vítima, como muitas mulheres, que esteve presa a um homem cruel durante muitos anos. Sim, a ficha dela como Kathryn Aleed é enorme, mas, a vida dela como Julianne Urie é ainda pior... Minha cliente foi espancada, perseguida e ameaçada durante todos os anos em que esse homem esteve em sua vida. Ela não tinha como se defender e a sua única segurança vinha do seu silêncio. Ela não falou porque esteve ameaçada e ela não procurou o sistema porque este já a havia abandonado. Ela só procurou a justiça porque eu insisti. Eu disse a ela que, dessa vez, podia ser diferente. Eu disse a ela tudo isso porque eu ainda acredito no sistema e acredito que as pessoas podem ser diferentes, mesmo diante das piores situações. Por isso, eu pergunto a vocês: dessa vez, será diferente? Vocês condenarão uma mulher pelos crimes que ela cometeu no passado? Vocês a prenderão por causa de um homem que a fez mais uma vítima de todos os seus crimes? Seja o que for que decidirem, é a liberdade dessa vítima que está em jogo e, principalmente, é a segunda chance dela que está em jogo.
Mais uma vez, o silêncio. E Santana, totalmente tomada pela emoção, limpou discretamente uma lágrima que caíra no canto dos seus olhos. Se ela não estivesse tão imersa no seu amor por Kathryn, ela teria percebido que a maioria dos jurados pensava como ela.
— Em relação ao caso dos assassinatos de Michael e Julianne Urie, consideramos Joaquín Hernandez culpado. — A jurada anunciou com a voz calma, retratando muito bem a sua tranqüilidade em relação a decisão que tomara. Santana se permitiu abrir um sorriso discreto, mesmo que não se sentisse totalmente vitoriosa. — Em relação ao roubo de identidades das vítimas anteriores e da especulação imobiliária, às ameaças e à violência doméstica contra a outra ré, também o consideramos culpado. O júri não propõe a pena de morte e sim, a prisão perpétua, destacando que há outro julgamento em curso, o caso do Sr. Thomas, ao qual o réu deve responder.
Joaquín bateu com as mãos na mesa e se levantou bruscamente, ele teria avançado contra qualquer um em seu caminho se dois policiais não tivessem sido rápidos o bastante para imobilizá-lo e algemá-lo. Santana sorriu de verdade dessa vez e Kathryn, corajosamente, envolveu a sua mão embaixo da mesa. As duas se olharam aliviadas e só romperam o contato por que a voz da jurada voltou a se erguer:
— Em relação ao assassinato de Michael e Julianne Urie, consideramos Kathryn Aleed inocente pela falta de provas. Em relação ao roubo de identidade das vítimas anteriormente mencionadas, considerados que a ré estava sob ameaça e pressão do outro acusado e não pode responder por seus atos. Inocente.
Kathryn não esperou até o final da sentença, ela, enfim, explodiu. A ruiva se colocou em pé e jogou-se nos braços de Santana e a latina a recepcionou, sentindo seu coração explodir dentro de sua caixa torácica. As duas, imersas no calor uma da outra, não viram Joaquín ser arrastado para fora do julgamento e, tampouco, puderam ver Frances Pole recolher seus pertences, envergonhado e derrotado.
Surpreendentemente, palmas foram ouvidas no interior da sala de audiência e Santana deixou que suas bochechas doessem, tamanho era seu sorriso. A juíza recolheu-se com uma expressão aliviada e satisfeira e Caroline finalmente abandonou a sua postura de promotora e se aproximou, tão feliz quanto Kathryn e Santana, a promotora sorriu e, apertando Santana em um abraço, sussurrou orgulhosa:
— Parabéns pelo espetáculo!
— Obrigada, eu não teria conseguido sem você! — Santana agradeceu sincera, separando-se de Caroline. A promotora também abraçou Kathryn e depois se retirou, elegante, da sala. Santana e Kathryn saíram depois, inconscientes de suas mãos dadas que somente foram separadas na porta do tribunal, quando a multidão de repórteres enfiou câmeras e microfones em seus rostos.
Santana colocou-se a frente, o sorriso em seus lábios e o brilho em seus olhos revelava muito mais do que qualquer palavra que ela pudesse dizer. A latina, ainda assim, declarou:
— Eu e minha cliente estamos satisfeitas pela justiça ter falado mais alto hoje. No mais, não temos qualquer outro comentários. Esse julgamento foi uma página virada.
As duas abriram caminho em meio à multidão e logo entraram no carro que Santana alugara. Nesse mesmo instante, o celular de Santana vibrou. Ela abriu o aplicativo de mensagens e sorriu para quem, novamente, se fez presente em sua vida:
Parabéns pela sua conquista! Estou muito orgulhosa de você e realmente quero que vocês cheguem logo a Lima, preciso me desculpar com Kathryn. Eu amo você, S. — Quinn.
Santana sorria para a mensagem e Kathryn a observava, impressionada. Ela não se lembrava de ter visto Santana despista das tensões, do estresse e de toda a adrenalina que ocupou todo aquele tempo em que se conheceram. O sorriso de Santana parecia muito mais especial e muito mais verdadeiro naquele momento, era como se uma nova pessoa estivesse diante de si.
E Kathryn continuava a se apaixonar, perdidamente, por aquela pessoa.
A latina digitou uma mensagem rápida e virou-se para a ruiva. Santana beijou-a delicadamente nos lábios e sussurrou eufórica:
— Vamos para casa, meu amor.
*****
Muito obrigada, Q... É muito bom voltar a ler esse tipo de coisa vinda de você! Estarei de volta a Lima à noite e poderíamos jantar juntas... O que acha? Também amo você, ex-Juno. — Santana.
A mensagem enviada por Santana no dia anterior era um elixir de vivacidade e uma das poucas coisas em que Quinn se segurou para enfrentar aquele dia. Esse foi um dos poucos sorrisos que os lábios de Quinn desenharam nos últimos dias. Se grande parte da sua vida encontrava-se fora do lugar, a loira estava aliviada por, pelo menos, Santana ter voltado ao lugar do qual não deveria ter saído. A latina era a sua melhor amiga e nenhuma outra pessoa seria capaz de ocupar esse lugar, nem mesmo Rachel.
Por isso que, nesse instante, Quinn percebia que o desequilíbrio de seus julgamentos em relação a Santana e Rachel quase fizera com que ela perdesse as duas. Pelo menos, diante de todos os desastres que se sucederam nas últimas semanas, Santana permanecera exatamente da forma como tinha falado que faria. E, aquela constância da latina era tudo que Quinn precisava naquele momento.
A professora voltara ao McKinley High junto com seus alunos há uma semana e vira a recepção surpreendente e calorosa que os membros do Glee Club tiveram ao chegar ao colégio. Em muito lembrou o que o New Directions, em seu ano, teve quando voltou com o mesmo título. Houve festa, espumante e bagunça na sala do coral... Mas, nada dos acontecimentos festivos pode apagar o que Quinn passara em New York.
O reencontro com Rachel fora ainda mais avassalador do que Quinn esperara. Tinha as palavras prontas em sua garganta e por mais que tivesse vociferado cada uma delas, Quinn ainda sentia como se tivesse falado e feito pouco. Ainda havia certa agonia dentro do seu peito e a amargura ainda perturbava o seu paladar. A verdade era que Quinn, infelizmente, ainda sentia que a história delas não tinha acabado.
Porque, por mais intensas que tivessem sido suas palavras, por mais dolorosas que tivessem sido as lágrimas que derramara após o reencontro e por mais machucado que o seu coração batesse, Quinn não conseguia se esquecer de Rachel. Lembrava perfeitamente dos olhos castanhos dela que se derreteram em choro, assim como lembrava os lábios trêmulos e calados da morena e não sabia se conseguiria esquecer a forma como ela pediu para tentar de novo.
Quinn temeu que aquela Rachel — quebrada e ansiosa por uma nova chance — jamais deixasse de assombrá-la, assim como temia que, o “eu te amo” que ela não permitiu que Rachel proferisse fizesse falta no futuro. A loira não sabia o que esperar daquele caminho escuro e desconhecido que se estendia a sua frente, ela não sabia o que o futuro poderia ter guardado para essa sua caminhada solitária.
Mais uma vez, Quinn repetiu o seu ritual e desviou os seus pensamentos de Rachel. Quanto mais pensava na morena, mais se perdia dentro de si mesmo, diante das suas escolhas e de suas atitudes. A sua vida estava tão atrelada a da morena que era complicado pensar que, naquele instante, estavam distantes uma de outra... Como se fossem estrelas perdidas em galáxias diferentes.
A professora ocupou-se em guardar os seus pertences em sua bolsa, fora um dia de aulas mais tranqüilas e participativas, não estava verdadeiramente cansada fisicamente, mas, emocionalmente, precisaria de um coma para se recuperar. Quinn saiu da sala de aula e a trancou, seus passos ecoaram no colégio que há muito estava vazio. Os primeiros sinais do anoitecer já desenhavam sombras solitárias pelos corredores e Quinn caminhava devagar entre elas.
O silêncio era acolhedor e gratificante, depois de um dia de aulas, a ausência de sons era um bálsamo para a audição desgastada. Entretanto, naquele fim de tarde, o silêncio foi interrompido pela música... Notas delicadas estavam sendo dedilhadas em um piano. Quinn sabia de onde vinha aquele som, seu coração acelerou enquanto a sua mente tentava, a todo custo, não deixar-se ludibriar pelo sentimento.
Totalmente guiada por seus instintos, Quinn seguiu o som e até mesmo precaveu-se em seus passos quando chegou próxima a sala. Não ousou olhar quem tocava, mas, a voz que chegou aos seus ouvidos era reconhecível mesmo em uma orquestra de sons diversos. Quinn, naquele momento, concluiu que jamais esqueceria aquela voz. Não era a sua mente quem lembrava e sim, o seu coração.
Assim como fora seu coração que, mesmo sem saber quem cantava e baseando-se unicamente na esperança de escutar aquela voz mais uma vez, guiara o seu corpo até ali.
Please don’t see just a girl caught up in dreams and fantasies
Please see me reaching out for someone I can’t see
Take my hand, let’s see where we wake up tomorrow
Best laid plans; sometimes are just a one night stand
I’ll be damned; Cupid’s demanding back his arrow
So let’s get drunk on our tears
No interior da sala do coral, Rachel não tinha noção de que estava sendo ouvida. Por isso, permaneceu com os olhos fixos nas teclas do piano que dedilhava, essas se pareciam infinitas diante de seus olhos, assim como sentia que, de certa forma, existia parte de seu amor que possuía a mesma natureza.
Talvez, tudo que sentia por Quinn acabasse no futuro, mas, esse não era o dia do fim. Pelo contrário, hoje, o que sentia estava intenso como sua voz e delicado como as notas que formavam a melodia de suas preocupações e arrependimentos. Rachel, mais uma vez, deixava que a música tirasse o que havia de mais bonito de seu interior.
E, por mais que doesse, cantar sobre Quinn era uma forma de mantê-la viva em sua memória e protegida em seu peito. Nas notas do piano e nos timbres alcançados por sua voz, Quinn sobrevivia ilesa através da música. Por meio da melodia, Rachel podia falar o que falhara ao dizer. Na música, as palavras se faziam entender porque eram proferidas com o máximo de amor que existia no peito de Rachel.
Afinal, ela sempre cantara com o coração. E, desde que Rachel quebrara o próprio coração em busca de sonhos insensatos, todos os pedaços que conseguira reunir remetiam a Quinn.
And God, tell us the reason youth is wasted on the young
It’s hunting season and this lambs is on the run
We’re searching for meaning...
But are we all lost stars trying to light up the dark?
Quinn tinha as costas apoiadas na parede que a separava da sala do coral e de Rachel. E, mesmo tão distante, podia sentir as vibrações sonoras ecoarem através do cimento e dos tijolos, atingindo os músculos de suas costas e, por consequência, o seu coração. E, mesmo àquela distância, ela podia sentir, de alguma forma, toda a dor que se mesclava aos timbres perfeitamente alcançados por Rachel.
A professora sabia que conhecia aquela voz perfeitamente, todos os agudos, todos os graves e todos os nuances lhe eram familiares. Ela podia determinar em meio aos tons altos e baixos onde Rachel falhava, onde ela acertava e, principalmente, onde ela sentia. E, naquela música, a morena estava sentindo tudo em todos os pontos... A sua voz era sôfrega e, ainda assim, possuída de uma força delicada e corajosa.
Por entre as notas do piano e os tons do vocal, Rachel se entregava e Quinn se surpreendia ao perceber que a conexão das duas, na música, ainda estava intacta. Naquele campo, as duas ainda se entendiam e as palavras ainda faziam sentidos. Rachel cantava sobre amor e Quinn sentia-se amada.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A morena se perguntava onde erraram e Quinn repetia a indagação. A música as mostrava que elas ainda estavam na mesma sintonia, ainda que o tempo já não fosse o mesmo.
Em meio à ausência de esperança dos últimos dias, aquela música trazia um afago aos corações tão machucados. Se a música bastasse, Quinn voltaria a acreditar em Rachel.
Who are we? Just a speck of dust within the galaxy
‘Woe is me if we’re not careful turns into reality
Don’t you dare let our best memories bring you sorrow
Yesterday I saw a lion kiss a deer
Turn the page; maybe we’ll find a brand new ending
Where we’re dancing in our tears
Se Rachel pudesse se fazer entender através da música, ela sabia que conseguiria ser perdoada. E se a música fosse o necessário para que ela pudesse curar Quinn, Rachel também sabia que seria bem sucedida. Entretanto, a música era um mero aspecto de sua personalidade, um talento que a levou do céu ao inferno e que, particularmente, jogara-a em um purgatório cruel.
Afinal, a mesma música que a levara para longe de Quinn era a única capaz de trazê-la perto. Tão palpável como o motivo de sua partida, a música, naquele momento, era capaz de trazer as melhores lembranças de Quinn de volta para a mente de Rachel. Ao fechar os olhos ela se lembrava, com muita clareza, todos os aspectos que a levaram a amar, por tanto tempo, Quinn Fabray.
Em seus olhos fechados, os olhos verdes de Quinn brilhavam daquela forma especial que revelava as discretas partículas douradas em suas íris. Na escuridão, Rachel conseguia encontrar o seu caminho através do brilho jovial do sorriso indescritível de Quinn. E, na ausência de sua visão, ela encontrava-se na voz aveludada da loira que, por tantas vezes, sussurrou as palavras de amor que jamais merecera.
Principalmente, quando tudo era frio, escuro e caótico, Rachel encontrava o seu amor. A parte mais pura e mais bela do seu interior, o que ainda era capaz de lhe fazer dormir enquanto os seus demônios — do arrependimento e do arrependimento — martelavam em sua cabeça e, essencialmente, o amor que a fizera voltar a sonhar... Os sonhos que jamais imaginara ter e que se tornaram os certos, os únicos e os essenciais.
O caráter sedutor da fama deu lugar a paz de uma vida tranqüila, os palcos foram substituídos pela nobre arte de ensinar e a cidade dos sonhos voltou a ser a cidade natal... Tudo por causa de um sentimento, tudo por causa de uma pessoa e, sobretudo, tudo por causa do amor.
Hoje, Rachel já fora feita de música e hoje, tudo em sua existência remetia ao amor.
And God, tell us the reason youth is wasted on the young
It’s hunting season and this lambs is on the run
We’re searching for meaning...
But are we all lost stars trying to light up the dark?
Quinn pensou, mais de uma vez, que pudesse dar às costas àquela voz. Porém, o seu corpo deixara bem claro, com seus pés fincados no chão do corredor, que o que a ligava a Rachel era muito mais forte do que as suas tentativas de se afastar. Qual era a razão de ainda sentir algo que tanto a machucara?
A loira tentava encontrar as suas respostas, mas, os seus ouvidos pareciam erguer, cada vez mais, o volume da música e, principalmente, o volume de Rachel. Quinn a encontrava em meio à letra e agarrara-se aos timbres da voz dela, ainda sentia-se ligada a ela, por mais que tivesse mantido uma distância segura (e corajosa) entre elas.
As decisões de Quinn estavam questionando-a naquele momento enquanto o seu coração deixava claro e evidente que, no meio de toda aquela confusão, o que permanecia ainda era o seu sentimento. O seu amor sofrido, bagunçado e dolorido que ainda a fazia se apaixonar, todos os dias, por Rachel e por tudo do que ela era composta.
Quinn amava a voz de Rachel que, quando cantava, era mais sincera que qualquer palavra que ela pudesse proferir. Assim como sentia falta dos olhos castanhos que, arduamente, aprendera a ler. Também sentia saudades dos lábios cheios, do sorriso de 1000 watts e do corpo pequeno que, quando a abraçava, se agigantava e a protegia. Quinn sentiu saudades, naquela música e naquele corredor.
De uma forma insensata, suas mãos alcançaram a maçaneta e abriram a porta, apenas alguns centímetros... O necessário para que a voz se tornasse mais perceptível e o bastante para que Quinn pudesse ser, mais uma vez, inundada por Rachel.
Naqueles minutos de música, não existia passado para elas e estavam presas em um vórtice atemporal. Rachel não errara, assim como Quinn não se afastara. Naqueles minutos, elas conseguiam alcançar o infinito porque se reencontravam. A escuridão ao redor delas se desfazia em um imenso Big Bang e elas se reencontravam, corpos estelares separados que gravitavam de encontro uma à outra.
O sol, naquela melodia, iluminava a estrela. E a estrela explodia em uma supernova, pronta para renascer se assim lhe fosse permitido.
I thought I saw you out there crying
I thought I heard you call my name
I thought I saw you out there crying
But just the same
Porém, novamente, o sol partiu. Quinn se foi no exato momento em que as lágrimas começavam a brotar em seus olhos. Ela correu pelo corredor, procurando se afastar da música e, principalmente, de Rachel.
Aquela proximidade a assustara porque era real o bastante para fazê-la sentir. Sentir saudade, medo, angústia e arrependimento... E Quinn, naquela altura da relação, não poderia se permitir a tanto. Suas escolhas estavam feitas e não era como se pudesse voltar atrás, afinal, se escolhesse Rachel, talvez, voltasse a negar a si mesma.
And God, tell us the reason youth is wasted on the young
It’s hunting season and this lambs is on the run
We’re searching for meaning...
But are we all lost stars trying to light up the dark?
Are we all lost stars trying to light up the dark?
Rachel finalizou as notas e seus olhos, finalmente, se abriram. As lembranças de Quinn se dissiparam na mesma lentidão preguiçosa das notas que se perderam no silêncio. Os olhos castanhos observaram a sala ao seu redor, confusos, como se não tivessem certeza de que aquela era a sua realidade.
A morena enxergou a porta aberta e sua testa se franziu diante da incerteza de ter ou não deixado-a aberta. Porém, aquela questão não era importante porque, mesmo se existisse alguém ali, com certeza não era quem ela queria que a escutasse.
Rachel, então, levantou-se do piano e caminhou pela sala, recolheu seus pertences e apagou as luzes. A escuridão, sua companheira inseparável e incansável, a envolveu, ela sorriu triste para a forma como a sua sombra se desenhou tímida no chão. A luz do luar lançava seu brilho prateado em sua silhueta e Rachel Berry, naquele momento, não aparentava ser a estrela que um dia fora.
Aquela estrela estava perdida no brilho dourado dos olhos de Quinn Fabray, na voz aveludada que proferia seu nome com carinho e no corpo que a preenchia com tanto que ela explodia em música, em sorriso e amor.
Sobretudo, aquela estrela perdera a sua constante, o seu sol, o seu fogo... E sem as suas fontes de calor, encontrava-se perdida no infinito caótico, frio e solitário. Assim, Rachel caminhou pelo corredor aparentando carregar mais do que a sua pequena silhueta permitia. Em seus ombros, os pesos de seus erros. Em seu peito, o coração quebrado sem reparo. E, em seus olhos, a ausência do brilho e da esperança.
Porém, ela continuava a caminhar, os olhos fixos à frente e dotados do objetivo que se tornara a sua única saída... Ela ainda faria Quinn feliz, ainda que, para isso, tivesse que deixá-la ir.
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