Sick

4 Capítulo Quatro


Frank bem que tentou ir ao apartamento de Gerard no dia seguinte, mas como se desconfiasse, Linda não saiu o dia todo. Ele foi a janela, mas Gerard não estava. Na verdade o maior passara o dia todo esterilizando toda e qualquer coisa onde Frank tocara, e ainda por cima teve que chamar o médico, por que jurava sentir uma dor lacinante no peito, e achava que podia ser algo que pegou na rua.

O médico negou, é claro, mas Gerard não se deu por vencido e comprou mais um remédio para a sua coleção. Quando foi olhar a janela, Frank não estava mais lá. Não que ele esperasse. Sabia que o garoto não voltaria, ele tinha vida demais para perder seu tempo com o vizinho doente, mas mesmo assim isso o deixou triste. Se apenas de observar o menino já tinha um carinho especial por ele, imagine agora que o conhecia?

Por achar que o menino não voltaria é que foi uma completa surpresa quando, na segunda-feira às três da tarde, Frank, que voltava do colégio, acenou para ele lá da rua e entrou em seu prédio.

Os dois conversaram durante um bom tempo, sobre muitas coisas. Frank não contou sobre sua mãe para o mais velho, pois achou que isso o magoaria, mas achou que o outro desconfiou quando as quinze para as sete ele saiu correndo igual cinderela à meia-noite.

E todos os outros dias da semana correram assim. Quando conversavam, não viam a hora passar. Desenharam juntos na parede da sala, e depois passaram mais uma mão de tinta por cima, e desenharam de novo. Jogaram xadrez, comeram muffins que Margarida fizera... Todo dia, antes das sete, Frank voltava para casa.

Gerard passava algumas horas esterilizando a casa depois, mas não se importava. Valia a pena passar o tempo com Frank, ele era um menino adorável. Frank, por sua vez, encontrara alguém que pensava como ele. Gerard era mais maduro por já ter vinte e sete anos, mas ainda era de certa forma inocente, por viver fechado em seu próprio mundo. Assim como Frank que era maduro para seus dezesseis anos, mas ainda tinha alguns pensamentos infantis. Eles se davam bem por causa disso. E em poucas semanas eles se tornaram muito amigos.

Frank se preocupava com Gerard por ele estar perdendo sua vida à toa, mas não falava nada, achava que o mais velho ficaria bravo. Ele explicara inúmeras vezes a Frank sobre suas doenças, e Frank estava mais do que convencido que eram apenas imaginação. Tentou algumas vezes começar uma conversa para dizer ao maior que ele precisava de tratamento, mas sempre perdia a coragem antes de falar.

Gerard por sua vez se preocupava com Frank por que dizia que o menino era pálido demais, parecia estar fraco, e vivia tendo tonturas. O mais novo dizia que não era nada... Era normal e estava convencido de que isso era apenas algo que Gerard enxergava com sua imaginação muito fértil.

E de se preocupar um com o outro e passar tanto tempo juntos é que foi surgindo algo diferente. Frank já não pensava mais em sua ex-namorada e Gerard, que antes não passava do achar bonito sentia falta de Frank quando este ia embora. Queriam estar perto um do outro, embora nenhum admitisse isso.

Depois de algumas semanas e algumas doenças novas, Frank se convenceu que teria que conversar com Gerard sobre aquilo. Ensaiou em frente ao espelho o que falaria, com medo de magoar o mais velho e pesquisou na internet sobre a doença para não falar besteira.

Naquela segunda-feira, como em todos os outros dias, foi ao apartamento de Gerard depois da aula. Tomavam café quando Frank tomou coragem:

- Ger... Você não acha que isso é normal, acha? – sua expressão era puro medo e insegurança

- O que? – Gerard perguntou indiferente, sem tirar os olhos do seu donut.

- Essas... Luvas e máscaras que temos que usar, e esse álcool todo! Esse negócio de não sair de casa por causa das bactérias e essa caixa gigante cheia de remédios! – Gerard ergueu os olhos, mas a sua expressão não revelava nada, Frank respirou e continuou – Não acha normal, acha?

- É claro que não é normal, pequeno – sorriu – eu sou um homem doente e...

- Não, Ger, aí é que ta a... Anormalidade. Você não é um homem doente! O médico já não te disse isso inúmeras vezes? Ger é coisa da sua cabe...

- Não Frank, não é coisa da minha cabeça. Se fosse coisa da minha cabeça eu saberia... Não me interrompa! – disse quando Frank tentou argumentar – eu sei o que estou fazendo e... Bem, você é apenas um adolescente, o que sabe da vida?

- Com certeza mais do que um cara que nunca saí de casa! – Frank se arrependeu do que disse assim que viu a expressão do maior. Gerard tinha a cara triste, decepcionada.

- Frank, acho que você devia ir pra casa agora.

- Eu... Não... Des..

- Frank, por favor?

O menino mordeu o lábio inferior, olhou para baixo, resmungou um ‘tudo bem’ e saiu, sentindo como se um pedaço de si mesmo tivesse sido arrancado.

Já brigara com amigos antes, e já os magoara antes, mas nunca se sentira assim. Nem quando aquela garota terminara com ele, sentira-se assim. Um nó formou-se em sua garganta, mas ele se segurou e não chorou.

Controlou-se para não voltar ao apartamento e implorar por desculpas, e entrou em casa, às quatro horas. O que se faz em casa às quatro horas? Ele não lembrava. Aquele horário era o horário do Gerard.