Sick

10 Capítulo Dez


As semanas seguintes passaram voando, seguindo a mesma rotina. Gerard assinava os papéis, Maria limpava a casa, Margarida e Mikey faziam visitas regulares, Frank vinha as três e ia antes das sete, Raymond trazia as compras as sextas, por volta de sete e meia – e fingia não ter visto nada naquela fatídica sexta-feira, ao que Gerard agradecia aos céus – e o médico vinha as quintas-feiras.

Tinha progredido muito em seu tratamento. Agora seus remédios ocupavam uma pequena lata de biscoitos de champagne, e sua casa não era tão impecavelmente limpa. Deixara de usar máscaras para todos, e não apenas para Frank. Mas as pessoas ainda tinham que lavar as mãos com álcool, apesar de ter abandonado as luvas cirúrgicas.

Tudo corria bem.

Aquele sábado amanheceu frio e chuvoso. Frank foi acordado por sua mãe, que abriu a porta do seu quarto cedinho, dizendo:

- Frank querido, vou visitar sua avó, passarei o dia lá. Vamos?

O menino gemeu e puxou as cobertas para cima da cabeça, pois sua mãe abrira as cortinas. Ouviu a mãe suspirar e sentiu que ela sentou-se aos pés da cama.

- Frank, faz quanto tempo que você não visita sua avó? Ela ficaria tão feliz...

O menino virou-se de bruços e cobriu a cabeça com o travesseiro. Linda girou os olhos, dando-se por vencida, e saiu do quarto dizendo que voltava a noite.

Frank ouviu a mãe terminar de se arrumar e depois o barulho do carro deixando a garagem. Fechou os olhos e tentou dormir de novo, mas a luz o impediu.

- Puta que pariu, ela faz idéia de que horas são? – resmungou, sentando-se na cama e vendo que, de acordo com seu relógio de cabeceira, eram seis da manhã.

Suspirou e levantou. Tomou banho, escovou os dentes, penteou o cabelo, fez desjejum... Sentou no sofá. Sete horas. Ninguém está acordado no sábado às sete horas. Girou os olhos.

Gerard dormia profundamente em sua cama, nem ouvia o barulho da chuva lá fora. Até que foi interrompido por seu interfone, tocando sem parar.

Abriu os olhos e demorou um tempo para situar tempo e espaço, bocejou e se espreguiçou, levantou da cama lentamente, e atendeu ao interfone, que já tocara mais umas vinte vezes.

- Bom dia!

- Porra Frank, são sete horas da manhã de um sábado – olhou pela janela – e está chovendo!

- Foda-se, diga ao Tom que eu posso subir...

- Tudo bem Tom, deixe o pirralho entrar – Gerard disse, destrancando a porta e indo escovar os dentes e depois fazer café. Quando o menino chegou, ele apenas gritou que a porta estava aberta, e logo depois, Frank apareceu sorridente na cozinha.

Gerard amarrou a cara para ele.

- Desculpa, minha mãe é louca e me acordou, e eu não tinha mais o que fazer...

- Aí resolveu vir me acordar, claro.

- Porra, se eu soubesse que quando você não dorme fica assim nem vinha – o menino amarrou a cara também – só achei que você fosse gostar se eu viesse.

Gerard sorriu.

- Oks, ‘ta tudo bem, quer café? – disse, dando a volta na mesa e colocando a garrafa de café na mesa.

Frank riu e foi em direção ao maior, juntando seus lábios com os dele, num beijo doce e calmo. Gerard envolveu seus braços na cintura do garoto, trazendo-o o mais perto possível, enquanto o menino afagava sua nuca. Quando os toques foram aumentando sua intensidade, e o beijo foi se tornando mais acelerado, o maior fez menção em parar, mas o menino não permitiu, ficando na ponta dos pés para juntar seus lábios novamente.

Eles não sabiam muito bem como ia acontecer, e Gerard nem tinha certeza se queria que acontecesse, mas essa não é uma daquelas horas em que você realmente pensa. Então, aos poucos, as roupas foram sendo esquecidas no chão, criando um caminho em direção ao quarto.

Ali, Gerard, de novo, sentiu-se um pouco incerto. Mas, para não perder o costume, Frank deu continuidade, empurrando-o para a cama e, ao caírem, ambos sorriram aproveitando o momento para trocarem carinhos.

Gerard alisou a face do menor, sorrindo, e este deitou sua cabeça no peitoral no outro, acompanhando sua respiração leve e suave. Por alguns segundos ficaram assim, nesse contato gostoso de se sentir. Até que o mais velho se sentisse confortável o suficiente para deixar que sua mão passeasse tranqüila e calma pelas costas do menor, que aproveitou o momento para um novo beijo.

Já em um ritmo acelerado e partilhando um beijo quente e envolvente, Gerard deixou que suas vontades falassem mais alto que seus sentimentos, sentindo-se confiante o bastante para retomar um antigo ato que há muito não praticava, e de um modo que nunca havia feito antes.

Frank, por sua vez, apesar de nunca ter feito isso um dia, confiava no mais velho e tinha desejo. Além do mais, Gerard tinha um modo de tocar-lhe tão delicado e cuidadoso... O menino sentia-se perfeitamente bem.

Gerard girou-se para cima do menor, cuidadosamente, apoiando um braço na cama para não depositar todo seu peso em Frank. Ambos se encararam por um momento. Estavam apaixonados, e os sentimentos não cabiam apenas dentro de si, almejavam loucamente manifestar-se fora do corpo. Fora do coração.

E foi isso que fizeram: em atos demonstraram aquilo que sentiam. Não foi exatamente do modo que imaginaram, se é que alguma vez aquilo havia passado na cabeça de um dos dois, mas foi melhor do que poderia ter sido em qualquer ilusão. Ambos demonstravam todo o cuidado que tinham pelo outro através de pequenas ações, talvez até insignificantes, porém afetuosas, suaves e delicadas.

Não é certo quanto tempo passou, e na verdade, nem o desconforto inicial relevou-se muito, já que predominavam o carinho e a intimidade que os dois tinham. Cada movimento, cada ato, completamente precipitado e ao mesmo tempo, totalmente planejado, era apaixonado, e continha amor, transmitia amor, exalava amor...

Logo após o término daquele momento especial demais para ser descrito com palavras, ambos viram-se entrelaçados, ofegantes, maravilhados, e acima de tudo satisfeitos. Trocaram mais alguns carinhos, e um último beijo antes que, sentindo o aroma doce e inconfundível de Gerard, o pequeno adormecesse seguro e feliz demais para conter-se.