Sick
17 Capítulo Dezessete
Notas iniciais
Esse capítulo é bem curtinho, ok? E não é uma continuidade na história, por assim dizer. q
E ele caminhou pelos corredores do hospital, pela primeira vez totalmente consciente da presença das outras pessoas. Pela primeira vez ele olhou para elas como os milagres que eram, e não como os figurantes de sua vida, como nós vemos.E ele saiu do hospital e maravilhou-se então ao ver como o azul do céu era bonito, e como tudo era tão grande e ele tão pequeno no meio daquele infinito, e percebeu o quanto nós passamos a vida sendo egoístas quando pensamos que valemos de alguma coisa naquilo tudo.E então as lágrimas rolaram sem ser percebidas, mas não de tristeza. Frank não estava triste, ele estava maravilhado. Cada coisa que penetrava seus olhos parecia ter outra cor, outra forma e outro gosto. Era tudo novo, como ver pelos olhos de uma criança que não se acostumou ainda com o mundo.Como pelos olhos da garotinha que chamava a atenção do pai para um cachorro, como se nunca antes tivesse visto um. E aquele pai, ah, aquele pai, apenas sorria, sem ver a beleza que a garota via.Mas a beleza estava ali! Estava em todos os lugares! Estava na grama verde que crescia naturalmente sem que nenhum humano fizesse nada por ela; estava nos pássaros, nas árvores, nas nuvens, no ar, nas pessoas...Era tudo maravilhoso demais para ser ignorado daquela maneira... o tempo era algo precioso demais para ser desperdiçado daquela maneira. E tanta gente correndo, engravatada, olhando em seus relógios... tanta gente entediada, matando o tempo com alguma coisa qualquer...Não era o jeito certo de viver, estava errado! Ele ali, consciente do milagre que era ele apenas respirar e essas pessoas todas ignorando tudo. E ele sentiu vontade de gritar. Gritar que não estava certo, que não era assim que as pessoas deviam viver, que elas deviam dar valor a vida, ao tempo, a tudo! Que elas deviam parar de reclamar de qualquer coisa que pudesse não estar certa e abrir os olhos para aquelas que estavam certas.E então ele riu de si mesmo, percebendo que ali estava ele reclamando de algo que não estava certo. E olhou para o lado, para o olhar indagador de Gerard sobre suas lágrimas e riso misturados.E então ele abriu os olhos para algo que estava certo. Gerard ali, em sua frente, e como eles estarem juntos e se amarem era um milagre. E pela primeira vez ele realmente o viu. Ele passou seus olhos por seu rosto branco – quase transparente – e redondo. E por seus lábios finos, e seu nariz empinado e para as cortinas negras que seus cabelos criavam em volta disso tudo.Sorriu mais abertamente e chorou mais descontroladamente. E viu Gerard abrir a boca para murmurar algo que fizesse Frank explicar o que acontecia, mas interrompeu-o com um beijo. Não se importava com sua mãe ali ao lado, ou com as pessoas ou com qualquer coisa.Ele precisava compartilhar tudo que sentia com Gerard, e aquela era a única maneira. E ele tentou passar todo o amor e gratidão naquele beijo.E no momento em que os seus lábios tocaram os do maior, ele realmente entendeu o que as pessoas queriam dizer com ‘como se fosse o último’. Por que a partir de agora, tudo teria de ser feito como se fosse a ultima vez. E cada ‘até mais’ poderia se tornar um ‘adeus’. E ele beijou Gerard como se fosse a última vez.Ele se esforçou pra aproveitar cada milésimo de segundo e sentir cada contato que sua língua e seus lábios faziam com os de Gerard. E ele selou seus lábios nos dele como se fosse a última vez, e então olhou para sua mãe – que tinha uma expressão que misturava espanto e admiração – e a abraçou, agradecendo por cada pequena coisa de que se lembrou.E então, mais feliz do que esperava se sentir depois de descobrir que morreria dentro de pouco tempo, ele deu sua mão direita a Gerard, indo em direção ao carro.
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