Shot Night

2 Take a Bite


Notas iniciais
Oie! Me desculpem pela demora em atualizar, eu tô super cansada ultimamente e sem energias zzzz na verdade, não era nem p esse capítulo estar sendo postado aqui assim, eu pretendia que ele fosse muiiiito maior, mas p não demorar aiiiinda mais p poder atualizar finalmente, decidi dividir em dois. Já tenho na cabeça tudo que vai acontecer no próximo, então espero conseguir começar a escrever logo! Espero que gostem, vou ser honesta e dizer que me deixou um pouquinho insegura, heh, como alguns de vocês sabem, minha escrita me deixa bastante insegura às vezes... Anyway, não deixem de comentar e dizer o que acharam, nem de me avisar sobre eventuais erros! Boa leitura!

Yuuri queria, mais do que nunca, sumir. Porque sua cabeça latejava irritante, seu paladar gritava por água e Phichit havia acabo de contar tudo o que aconteceu naquela madrugada.

Beber muito fazia com que Yuuri não se lembrasse da grande maioria das coisas – se não todas – que fazia. Phichit havia trazido para ele um comprimido e garrafa de água e então o perguntou se lembrava de algo. Como esperado, Yuuri disse que não, e sendo assim, seu melhor amigo nada mais podia fazer do que narrar tudo para ele. E às vezes Yuuri desejava do fundo do coração que Phichit não o fizesse.

Enquanto o amigo contava, Yuuri desejava mais e mais afundar no colchão, entrar num outro universo ao cobrir a própria cabeça com o edredom, e simplesmente desaparecer. Enquanto Phichit falava, Yuuri ia, muito vagamente, retomando uma coisa ou outra: recordou-se brevemente de ter ficado sem o amigo por algum tempo, por ter procurado por ele, mas estava completamente fora de sua memória o momento em que o encontrou. Phichit o contou, também, que ele – Yuuri – havia ficado com um desconhecido e esse foi talvez o momento em que Yuuri mais quis desaparecer para sempre. Como ele havia beijado um completo desconhecido? Yuuri sentia-se consumido por uma irritante dor de cabeça e vergonha, mas nenhuma dessas coisas o impediu de pegar o travesseiro e bater com ele em Phichit, recebendo uma risada em resposta.

"Isso é tudo culpa sua! Phichit, se você não tivesse sumido..."

"Não fique assim, Yuuri. E a propósito, quem saiu de perto de mim foi você, dizendo que iria usar o banheiro. Perguntei se queria que eu fosse junto, mas você insistiu que não, e como estávamos perto dos banheiros, deixei... Não entendo como conseguiu sair de lá sem termos percebido. Eu devia ter ido com você. Fiquei morrendo de preocupação, mas pelo menos você estava animado quando nos encontramos. Muito animado." O tom sugestivo de Phichit ao dizer as últimas palavras fez Yuuri grunhir. "Não fique assim, você mesmo disse que o cara era lindo. Você disse," então ele tentou – e falhou – imitar Yuuri ao falar, abafando uma risadinha: "Phichit, eu acabei de beijar o homem mais lindo e gostoso da minha vida!"

"Phichit!" Yuuri o acertou novamente com o travesseiro, suas bochechas queimando pesadamente. "Phichit, por favor... Ugh, eu quero morrer."

"Não diga isso, Yuuri!"

"Você viu quem eram as pessoas de que eu falei?" Yuuri o olhou entre os dedos com que cobria o rosto.

"Não, mas você fez questão de deixar claro que o cara que havia beijado era muito, muito bonito e que tinha um cabelo lindo, também."

Yuuri grunhiu uma nova vez e revirou os olhos, se auto repreendendo.

"Não acredito que não lembra mesmo, Yuuri."

"Eu não lembro." Yuuri afirmou. "Apenas uma coisa ou outra, muito aleatórias e vagas. Não tenho ideia do rosto desse homem."

"Será que ele é aluno daqui, também?"

"Nem brinque com isso!" Yuuri se apressou em dizer.

"Seria interessante!" Phichit riu. "Mas não se preocupe, Yuuri," ele interrompeu o amigo antes que pudesse protestar "se isso for verdade e ele te encher o saco, eu mesmo cuidarei do assunto. E quem sabe ele também não é ruim de memória como você quando bebe, hm?"

Yuuri deixou um pesado suspiro o abandonar antes de jogar a cabeça contra o travesseiro, arrependendo-se imediatamente por fazê-lo tão rápido, parecia que uma pedrinha balançava e pulsava dentro de seu crânio. Realmente não se lembrava do rosto da pessoa de que Phichit falava e achava melhor assim.

"Vou trazer mais água e alguma coisa para você comer, ok?" O peso do amigo abandonou seu colchão e ele murmurou um "uhum" em resposta. Então Phichit deixou o quarto.

Yuuri desejava, mais do que o fim de sua ressaca, que não tivesse beijado nenhum desconhecido naquela madrugada, que não tivesse bebido tanto e que não tivesse ido para longe de Phichit. Mas nada mudaria ficar pesando sobre aquilo, e, portanto, o apropriado a fazer seria esquecer –intencionalmente desta vez.

Cerca de cinco minutos se foram quando Yuuri sentiu o celular vibrar e procurou por ele sobre a cama, a luz apagada não ajudando em nada, e apenas quando vibrou uma segunda vez foi que conseguiu encontrá-lo quase em seus pés.

Os olhos de Yuuri doeram pela luminosidade repentina e ele precisou piscar algumas vezes para finalmente focar e diminuir o brilho do aparelho. Phichit havia enviado uma mensagem perguntando se ele gostaria que colocasse tomate no sanduíche que estava preparando. A segunda mensagem era três pontos de interrogação.

Havia mais algumas notificações, incluindo uma mensagem de um número desconhecido, enviada há quase quatro horas, quando Yuuri ainda estava dormindo. Suas sobrancelhas se juntaram e ele procurou pelo óculos, logo ajustando-o no rosto.

Yuuuuri! Este é meu número ;) espero que esteja bem, sem ressaca, haha. Obrigado pela madrugada. Apesar de ficarmos juntos por poucos minutos, você literalmente salvou minha noite ♥

E enviada há duas horas, quando Yuuri ainda estava dormindo, havia: “Espero que esteja bem ♥"

Os olhos de Yuuri estavam arregalados atrás das lentes e ele não podia não queria – acreditar no que seu cérebro estava pensando. Não fazia ideia de quem era aquela pessoa que falava como se tivessem compartilhado algum tempo juntos. E aparentemente era isso mesmo. Então Yuuri pensou... Aparentemente, era aquela pessoa quem Yuuri havia beijado na madrugada passada? Mas como ele teria seu número?

Yuuri mastigou o próprio lábio e tentou se acalmar, então seus olhos foram para a foto que a pessoa usava e ele a ampliou: um homem de cabelo muito, muito claro, de pele muito clara, também, e os olhos azuis quase fechados devido ao grande sorriso que tinha nos lábios enquanto um grande poodle marrom lambia seu rosto. Phichit havia falado que Yuuri o contou que o homem com quem ficou tinha cabelos prateados e olhos azuis... Não tinha como não pensar que tal homem era o da foto a que encarava.

"Phich-" O comprimido devia ter agido finalmente, porque Yuuri estava prestes a gritar por Phichit quando o amigo voltou ao quarto com uma garrafa de água e um prato com sanduíches em mãos. "Phichit!"

"Yuuri, o que foi?" O amigo pareceu um pouco preocupado. "Vou ligar a luz, tudo bem?"

Yuuri não se preocupou em responder e, por impulso, fechou os olhos quando a claridade tomou conta do quarto.

"Phichit! Phichit, você não vai acreditar nisso..."

"O que houve? Você parece assustado." Phichit deixou a garrafa sobre o cômodo ao lado da cama e o prato sobre o colchão.

"Phichit, olha isso agora." Yuuri deu o celular ao amigo. "Olha essa mensagem que me mandaram mais cedo." E então o olhar do amigo passou de palavra em palavra ao passo que ganhava um brilho que Yuuri conhecia muito bem.

"Yuuri!" Phichit sequer o encarou. Assim como Yuuri, ao terminar de ler as mensagens, clicou na foto. "Ohmygod, Yuuri!"

"Eu sei!"

"Yuuri!"

"O quê?!"

"Você vai ter que me desculpar por isso, mas pensei que estava exagerando quando insistiu em dizer, várias e várias vezes, como ele era bonito, porque você estava tão bêbado," Phichit deixou uma risadinha no ar "mas, wow." Yuuri deu um pequeno empurrão em seu ombro e ele continuou: "E ele tem um cachorro, Yuuri! Vocês são perfeitos um para o outro. Você ama cães, ele ama cães-"

"Phichit!" Yuuri queria acertar o amigo com o travesseiro de novo. "Não diga essas coisas. Não sabemos se esse cachorro pertence a ele e muito menos se esse é o cara da noite passada..."

Phichit revirou os olhos. "Yuuri, faz favor! O que te faz pensar que esse não é o cara?" Yuuri não respondeu. "Qual é o nome dele?"

"Você realmente espera que eu saiba?"

"Victor!"

"O quê? Co-"

"É claro que você não procurou pelo nome, não é?" Phichit riu.

"Ah, queira me desculpar, eu estava muito ocupado encarando esse rosto e esse poodle para me preocupar com o nome." O tom agridoce na voz de Yuuri, igual a todas as vezes em que ele e Phichit se alfinetavam por brincadeira.

"Justo, desculpado. O que você vai fazer?"

"O que você espera que eu faça?"

"Que responda ele? Yuuri! Ele é lindo! E tem um poodle. A capinha do seu celular é de poodles."

"Phichit, você não espera que eu realmente faça isso, não é? Ugh, é claro que espera. Phichit, ele é lindo, sim, mas não sabemos se é uma pessoa bacana ou-"

"Ele tem um poodle."

"Ok, ele aparentemente tem um poodle, mas isso não é um selo de boa pessoa, sim?" Phichit revirava os olhos enquanto Yuuri falava. "Pare de fazer isso."

"Aliás, você não me disse que havia passado seu número para ele."

"Para falar a verdade, eu mesmo não tenho certeza de como ele tem meu número..."

"Vamos responder."

"Phichit! Não!" Yuuri tentou alcançar o celular e Phichit resmungou.

“Ok, ok.” Então ele devolveu o aparelho a Yuuri, que encarou a tela escura por um segundo ou dois antes de, com um suspiro, largar o celular sobre a cama.

"Esses sanduíches parecem estar ótimos."

"E você sabe que estão, porque fui eu que fiz. Vamos, coma." Phichit pegou um sanduíche para si e ofereceu outro para Yuuri, que ria baixinho da fala do amigo. Não era como se Phichit estivesse errado, afinal, ele sempre fazia coisas muito saborosas, por mais simples que pudessem ser.

O assunto mudou enquanto comiam, e Yuuri esqueceu completamente as mensagens de Victor. Mais tarde, após Phichit ter ido para cama, foi que Yuuri se lembrou de seu celular de novo. Fazia horas, agora, desde as mensagens do outro – de Victor. Yuuri comprimiu os lábios. Um lado seu queria responder, se estava sendo realmente sincero consigo mesmo, mas o outro achava que era tolice e embaraçoso – sem deixar de lado, claro, a preocupação por ainda ser um desconhecido.

O status de Victor mudou para online e Yuuri saiu do aplicativo imediatamente, como se o outro fosse vê-lo através do aparelho caso não o fizesse. Será que ele estava realmente esperando por uma resposta? Yuuri olhou ao redor na pequena sala do apartamento que dividia com Phichit, seus dedos tamborilando impacientemente a almofada no colo. Então ele desbloqueou o celular. Victor não estava mais online, talvez tivesse ido dormir. Yuuri deixou um suspiro de alívio e decepção o abandonar antes de, mais uma vez, ampliar a foto que o outro usava.

E Yuuri mal podia de fato acreditar que havia beijado aquela boca há menos de vinte e quatro horas. E aquele poodle, uhh, aquele poodle tão adorável! Yuuri queria fazer carinho nele – ou nela – e viver apenas para isso. Ele voltou para a tela de mensagens e releu mais uma vez o que Victor enviou. No fundo, queria respondê-lo e sabia disso, mas... Devia mesmo fazê-lo? Não seria estranho? Sequer se lembrava com nitidez dos momentos juntos e dos beijos... Talvez se apenas o ignorasse, ele também esqueceria e não mandaria mais mensagens... Honestamente, aquela ideia não agradava muito a Yuuri, de alguma forma.

Mas... quão frustrante era ficar com alguém que não tem qualquer memória fiel sobre o acontecimento quando você vai, sem o efeito de bebidas, conversar com esta pessoa?

"Oi" Yuuri escreveu e ficou encarando. Então apagou.

"Boa noite. Eu estou bem, e você?" Ugh, formal demais... Talvez chamar Phichit para elaborar algo fosse uma boa ideia... Não, de jeito nenhum, era capaz do amigo perguntar quando marcariam de se ver logo de cara.

"Oi, eu estou bem"

"Não." Por que era tão difícil elaborar algo? Yuuri estava realmente considerando responder Victor e quase se sentia louco por isso.

"Oi" Ele escreveu de novo e, de novo, ficou encarando a única palavra. Talvez fosse melhor não respondê-lo de maneira alguma, mesmo. Mas... Era só enviar.

Yuuri mordeu o lábio inferior ao enviar a simples mensagem e seu coração acelerou imediatamente. Ele sequer está mais online, ele não vai ver a mensagem, era o pensamento em que Yuuri queria se agarrar firmemente se não fosse a mudança no status de Victor. Ele estava online. E no segundo seguinte sua mensagem foi visualizada.

Yuuri queria bloquear o celular e deixá-lo de lado no sofá e apenas se lembrar de sua existência quando acordasse no outro dia, mas resistiu, seu coração mais alto do que nunca em seus ouvidos pelo Digitando... na parte superior da tela.

"Yuuri!

É o Yuuri mesmo, não é?"

"Sim"

Yuuri o respondeu, junto com um emoji sorrindo.

"Yuuuri

Já estava pensando que o número estava errado :'("

"Desculpe..."

"Tudo bem ♥ Como você está?"

"Recuperado da ressaca, haha. E você?"

"Ah, não, você teve ressaca? :'((( que bom que está melhor. Eu estou ótimo."

Desculpe pelos acontecimentos na madrugada. Eu não devia ter bebido tanto. Se fiz qualquer coisa estúpida, quero me desculpar. Yuuri queria dizer, mas invés disso escreveu outra coisa:

"Esse poodle na foto é seu? Ele é lindo!"

"Você gosta de cães?? E poodles???

É umafêmea muito inteligente e linda, se chama Makkachin. Você pode chamar ela de Makka."

Enquanto Yuuri lia a mensagem, uma foto foi enviada, e ele apertou os dedos contra a palma da mão, porque precisava suprir a vontade de apertar aquela poodle da foto: Makka estava deitada numa cama, o focinho escondido sob as patas numa pose ridiculamente adorável.

Yuuri só percebeu que demorara muito encarando a foto quando o som de notificação surgiu novamente: uma nova foto. Desta vez, Makkachin estava de cabeça erguida e seu focinho preto e língua tinham destaque na imagem.

Yuuri suprimiu um longo grunhido.

"Estou apaixonado"

Yuuri enviou.

"Espero que pelo dono ; )"

Um leve calor nasceu sob suas bochechas e uma risadinha breve e nervosa o deixou.

"Era para ser uma cantada? Foi terrível."

"hahahahaha

Mais uma foto então, para eu me redimir"

Makkachin estava de volta à posição anterior, as patinhas sob o focinho, e uma mão pálida acariciava sua cabeça felpuda. Ela parecia estar sendo muito bem mimada, como qualquer cachorro deveria ser.

"Pelo menos você sabe como resolver as coisas."

Yuuri brincou.

As reações de Phichit não podiam ser outras quando Yuuri o contou sobre ter respondido as mensagens de Victor: é claro que o amigo ficaria super empolgado e faria mil perguntas sobre o que conversaram e quando vão sair.

"Ele não me chamou para sair, Phichit!"

E Yuuri não tinha, até então, considerado de fato a possibilidade. E se Victor o chamasse para sair, iria recusar? Aceitar? Talvez Victor tenha perdido o interesse em Yuuri durante a curta conversa, estavam bêbados quando ficaram na noite passada, afinal.

"Eu sei o que você está pensando." Phichit interrompeu seu raciocínio danoso. "Yuuri, é claro que ele está interessado em você!" E a voz de Phichit agora vinha cheia de gentileza e carinho, bem como suas mãos nas mãos do amigo.

"Como pode ter tanta certeza?" Yuuri sequer tentou esconder a insegurança.

“Confie em mim, ok?” Phichit piscou um dos olhos, como sempre fazia quando tentava assegurar Yuuri de alguma coisa. “Além do mais, ele te mandou aquela cantada terrível” Phichit o ofereceu um sorriso. “Você sairia com ele se ele pedisse?” E como sempre, Phichit parecia ter a habilidade de ler os pensamentos de Yuuri e adivinhar os pontos x de suas inseguranças.

“Eu não sei.” Yuuri comprimiu os lábios por um segundo. “Quero dizer, apenas conversamos durante alguns minutos e-“

“E se beijaram na noite passada.”

“Mas estávamos bêbados e eu sequer lembro.” Yuuri grunhiu por frustação.

“Ok, não precisa responder agora, tudo bem?” As mãos de Phichit foram para o rosto de Yuuri, o sorriso ainda à mostra. Então ele fez um bico e franziu as sobrancelhas, uma careta rápida, como se daquela forma fosse distrair Yuuri, e riu antes de obrigá-lo a abaixar um pouco a cabeça para que pudesse deixar um beijo em sua testa escondida pela franja preta.

Quando Yuuri voltou ao quarto, havia duas novas mensagens de Victor e ele não podia evitar ficar honestamente surpreso com aquilo. Se Victor ia enviá-lo mais coisas, não esperava que fosse tão rápido. Yuuri também não pôde evitar o sorriso que se formou em seu rosto ao abrir a foto: o focinho de Makkachin descansava sobre a cabeça do dono, que estava deitado, e ele sorria – embora não tão largo como na foto que usava de contato, Yuuri ainda podia ver um pouco do branco de seus dentes –, sua franja pálida charmosamente bagunçada.

Makkachin mandou bom dia! E eu também” era a mensagem que seguia a foto junto com um emoji de coração e outro sorrindo.

Yuuri sentou na cama e manteve a atenção na foto por alguns instantes. Como alguém com a aparência como a de Victor poderia realmente estar interessado em Yuuri, era a pergunta que cercava sua cabeça.

Você é lindo.

Yuuri havia digitado e enviado antes mesmo de processar o que estava fazendo, e quando o pequeno e breve som que avisava que a mensagem havia sido entregue chegou em seus ouvidos, ele se arrependeu imediatamente. Então pensou em pedir desculpa, mas pelo que exatamente? Por elogiar Victor, dizendo a verdade?

Yuuri estava com uma das extremidades do aparelho encostada à testa quando o sentiu vibrar, e suas mãos suaram irritantemente ao passo que seu coração saltava no peito.

Obrigado. Sabe que não tenho como não dizer o mesmo sobre você.” Foi a resposta de Victor.

Está sendo gentil.

Estou sendo honesto

De todas as pessoas naquela festa você era a mais bonita e fascinante.”

Ah, a festa. Será que se dissesse que não se lembrava com exatidão dos beijos e conversas trocadas com Victor lá, que sequer se lembrava de seu rosto antes de ver sua foto em suas notificações, ele deixaria de cantá-lo e ser gentil e amigável? Yuuri mordeu o lábio, não queria que Victor o entendesse mal e deixassem de conversar, ainda que tudo tivesse se iniciado no dia anterior.

Estávamos bêbados.”

Ele enviou.

O que não muda o que eu disse. Mas admito que adoraria vê-lo sem o efeito do álcool.

E me refiro a nós dois, hahahah

Phichit veio imediatamente à mente de Yuuri. Victor estava tentando chamá-lo para sair?

"Eu realmente gostaria."

Está tentando me chamar para sair?

Foi tudo que Yuuri conseguiu dizer em resposta, transformando seus pensamentos em palavras escritas.

Se você aceitar” A mensagem vinha acompanhada de um emoji piscando um dos olhos.

Yuuri queria afundar no colchão. Também queria chamar por Phichit enquanto o fazia. Victor era lindo. Ridiculamente lindo. Yuuri realmente custava acreditar que havia de fato o beijado. Com certeza o faria de novo, se tivesse a oportunidade e coragem – coragem que o álcool o proporcionava.

Seu lábio ainda estava preso entre os dentes, como se fosse deixá-lo menos nervoso e ajudá-lo a pensar. Que mal faria aceitar o convite?

O próximo sábado está bom para você?

Yuuri perguntou, o coração tornando sua garganta dolorida. Não costumava ser direto em diversas coisas, e aquela era uma delas.

Yuuuuri, perfeito!!

Combinaram de comer algo juntos no sábado, antes de encerrarem a conversa, porque Victor sairia um pouco para correr e levar Makkachin para dar uma volta.

Então o que seria a semana mais torturante para Yuuri em tempos começou. Ele se sentia constantemente ansioso para sábado e Phichit, ao mesmo tempo em que tentava mantê-lo calmo, agitava-o ao lembrar, sempre que podia, de seu compromisso com Victor em poucos dias.

Durante as aulas e trabalho de meio período Yuuri conseguia ocupar a cabeça e não pensar em quantos dias faltavam para sábado. Ao longo da semana, ele e Victor não se falaram muito devido aos estudos. Normalmente, Yuuri passava a manhã e início de tarde da faculdade, almoçava por lá e então ia para casa quando não tinha algo para fazer depois do horário de aula – fosse algo ligado ao curso ou não – nos dias em que estava livre do trabalho.

E a escola de dança em que auxiliava com as aulas de nível médio era outro lugar em que podia manter a cabeça ocupada. E ele só tinha a ficar grato por aquilo.

Mas naquela segunda-feira Yuuri ficou depois das aulas. Como era um horário em que todos iam correndo almoçar, os estúdios ficavam vazios e, dessa forma, Yuuri tinha o espaço todo para si para aproveitá-lo como quisesse, e aquilo seria ótimo, porque sempre que se sentia ansioso demais exercitar-se e ensaiar o ajudava imensamente.

Na terça, quarta e quinta-feira Yuuri almoçou e foi para a escola em que trabalhava. Era um ótimo lugar, ele sempre achou, adorava lidar com os pequenos problemas das crianças e pré-adolescentes a quem auxiliava, porque eram sempre tão mais fáceis e resolvíveis.

Na noite de quinta, Yuuri fez companhia a Phichit para assistir um filme cuja trama ele, honestamente, não prestou muita atenção, mas descansou a cabeça no ombro do amigo e sorria toda vez que ouvia sua risada gostosa e absolutamente inconfundível.

"Como você está se sentindo?" Phichit perguntou durante um dos intervalos.

"Cansado." Yuuri murmurou, não se dando ao trabalho de encarar o amigo.

Então Phichit passou o braço por cima de seus ombros e o apertou num abraço firme e rápido. “Vocês já decidiram onde irão?”

“Na creperia.”

“Ótimo, você adora crepes. Ele perguntou sobre o que você gosta?”

Com a voz cansada e sonolenta, Yuuri respondeu que sim.

“Ele está indo muito bem, então.”

Yuuri franziu a sobrancelha por um momento antes de finalmente erguer a cabeça para encarar o amigo. “Você está fazendo aquilo de avaliar com quem estou saindo.”

“Não é como se você realmente saísse com alguém, Yuuri.”

A risada de Yuuri tomou o ar. Phichit tinha razão. A última vez que Yuuri teve algum compromisso com alguém havia sido há pelo menos dois anos e sequer chegaram a oficializar alguma coisa.

Só quando Yuuri decidiu deitar, antes mesmo do filme acabar, foi que pegou o celular de novo. E como – querendo ou não – esperava, havia uma nova mensagem de Victor:

Boa noite, Yuuri! Espero que seu dia não tenha sido muito cansativo. Descanse bem” um coração vinha acompanhado no final.

As aulas de sexta-feira passaram ridiculamente devagar. Parecia que quanto mais próximo ficava de sábado mais o tempo desacelerava e Yuuri queria afundar a cabeça no travesseiro e gritar toda sua ansiedade e expectativa. Várias coisas vinham e iam de sua cabeça: a possibilidade desse encontro com Victor ser uma total frustração e constrangimento; Victor ser, na verdade, algum tipo de maníaco; Victor mudar de ideia sobre tudo quando finalmente percebesse que Yuuri não tem nada de interessante...

Yuuri continuou no estúdio mesmo depois de vazio. Os ensaios já haviam acabado, mas ele continuaria a repetir o que fosse necessário. Como não trabalhava às sextas, aquilo serviria bem para manter sua cabeça ocupada.

Por voltar das seis, Yuuri deixou a faculdade, sua barriga se tornaria um ser à parte de si e o mataria caso contrário, as barras de cereais que havia comido ao fim do período já não a enganavam mais.

Antes de ir para o apartamento, Yuuri passou no mercado e comprou algumas coisas para preparar algo para ele e Phichit, e quando pegou o celular para mandar mensagem para o amigo, a fim de saber o que ele gostaria de comer, não se surpreendeu muito com notificações com o nome de Victor – ainda que suas mãos continuassem insistindo em suar por nervosismo.

Uma foto de Makkachin cheirando os pelos de um outro cachorro acompanhada pela legenda "Yuuri, Makkachin fez um amigo novo!"

Yuuri sorriu. Porque era impossível que não o fizesse. Yuuri amava cães com todo o coração e Makka com certeza estava dentro dele desde a primeira foto.

"Espero que ela me aceite como amigo, também."

Foi sua resposta.

Victor não visualizou de imediato, como fazia na maioria das vezes, sequer estava online, mas Phichit havia respondido e então Yuuri se concentrou em achar o que o amigo havia pedido.

Quando levou os produtos ao caixa, seu celular vibrou.

"Makka gosta de você desde o início, Yuuri! Mostrei sua foto para ela e ela latiu em total aprovação"

Um sorriso tomou os lábios de Yuuri enquanto a balconista passava suas compras e, antes que ele pudesse responder, uma nova mensagem veio.

"Quem não iria gostar de você"

Um leve calor tomou conta de suas bochechas e Yuuri entortou o lábio ao digitar, brincando: "Você é péssimo em flertar"

"Quer dizer que não está funcionando?" Havia um emoji que demonstrava preocupação.

"Infelizmente" mentiu "é tão efetivo quanto ruim"

Yuuri riu para si mesmo ao enviar, mas tão logo sua distração foi interrompida pela voz da balconista, que tentava chamar sua atenção.

"A-ah, desculpe..." Ele guardou o celular no bolso, um pouco sem graça, e deixou o mercado após pagar as compras e colocá-las na sacola.

"Como está para amanhã?" Phichit perguntou ao passar o prato lavado para Yuuri secar.

"Hm, ok, eu acho." Yuuri recebeu o olhar de Phichit, uma sobrancelha erguida, como quem pedia que continuasse. "Mais cedo Victor perguntou se estava tudo certo para amanhã, também. Ele disse que está muito empolgado."

"E você não está?"

Yuuri entortou o lábio por um momento. Claro que estava empolgado, cheio de expectativas que se mantinham lá mesmo contra sua vontade, bem como o nervosismo, insistente na boca de seu estômago e que o fazia pensar e repensar em todas as inúmeras possibilidades daquele encontro ir mal. "Mais negativamente ansioso, eu acho." Yuuri livrou-se de uma risada breve e nervosa e guardou os pratos no armário.

"Yuuuuri," havia um tom divertido e acolhedor na voz de Phichit e Yuuri o agradecia por aquilo. "Sei que está achando que tudo será ruim e que vai querer fugir," era exatamente o que Yuuri vinha pensando "mas não vai ser assim, ok?"

"Então vai ser tudo ruim e vou ser obrigado a ficar lá?"

Surpresa passou pelos olhos escuros de Phichit por um segundo e então sua risada tomou o ar. "Yuuri! Não!" Ele apertou os ombros de Yuuri de leve para confortá-lo. "Vai dar tudo certo. Vocês amam cachorros, então vai dar tudo certo."

Uma nova risadinha deixou Yuuri, sem nervosismo desta vez.

“Já têm algo de que falar.” Phichit concluiu.

Yuuri acordou sem muito problema no outro dia, apesar de apenas ter conseguido pegar no sono depois de pelo menos duas horas tentando dormir. Phichit ainda estava na cama quando levantou, o amigo costumava dormir um pouco mais aos sábados – e ficar acordado até mais tarde às sextas.

Foi só quando finalmente tomou um pouco de café fresco que a sensação de peso debaixo das pálpebras passou e Yuuri pôde focar na tela do celular sem se sentir irritadiço. O relógio digital marcava 9:49 da manhã, ele e Victor haviam combinado de se encontrar às 13h, então Yuuri ainda tinha um pouco mais de três horas até lá.

Nesse meio tempo, decidiu ocupar a cabeça com alguma coisa e checar o e-mail parecia o melhor a fazer no momento. Não se surpreendeu ao se deparar com várias mensagens de professores e da própria faculdade, anunciando estágios e afins, e após ler os que considerava importante ou interessante e apagar a maioria, o relógio do notebook indicava 10:20 da manhã. E Yuuri odiava a tentação de, a todo instante, conferir a hora. Quanto mais próximo do horário combinado chegava, mais nervoso se sentia e mais tentava se conter.

Yuuri fechou o notebook e levou a xícara de café à pia. Então escutou o celular vibrar na pequena mesa da sala.

"Bom dia, Yuuri! Espero que tenha dormido bem ♥

Não vejo a hora de nos encontrarmos."

Yuuri não se incomodava com as mensagens de Victor. Para ser honesto, gostava de recebê-las, adorava as fotos de Makkachin e não havia excluído nenhuma de seu celular. As mensagens o lembravam de que aquilo realmente havia acontecido – a noite na festa da faculdade – e que alguém como Victor estava de fato mostrando interesse em si.

Yuuri não percebeu o pequeno sorriso que se formou em seu rosto ao digitar: "Você esqueceu de mandar foto do Makkachin"

E riu com um sorriso maior ao ler a resposta de Victor, que vinha cheia de emojis tristes, mas que Yuuri sabia serem usados apenas pela brincadeira e por fingimento:

"Eu sabia que você só estava falando comigo por causa da minha cachorra!"

"Desculpe decepcionar você"

"Você tem sorte de ser lindo.

Aqui" na foto enviada, Makkachin olhava na direção do celular, seus olhos escuros arregalados e brilhantes e sua língua para fora. Yuuri se sentia positivamente ofendido tamanha a fofura daquele animal, queria abraçá-la para sempre.

"Olá, Makkachin!"

Um minuto depois e outra foto veio, nela Makkachin estava com as patas dianteiras no colo de Victor e ele acariciava sua orelha. A legenda da foto era a seguinte: "Oi, Yuuri, o papai Victor está muito feliz por sair com você hoje, espero que se divirtam. Pode brigar com ele se for um mau garoto, ok?

Yuuri estava tão confuso, não sabia se ria ou chorava por aquilo. Era bobo demais ter achado adorável, tanto a legenda quanto a foto? Yuuri sentia a palma de sua mão quente contra uma de suas bochechas. Era isso, havia nascido para sofrer de amor e encanto por cães – e aparentemente não conseguir conter o crush que crescia por um dono em específico, de cabelos prateados e sorrisoridículo.

O deixarei a par de tudo, pode deixar."

Yuuri respondeu, entrando na brincadeira.

"Não acredito que você e minha cachorra estão fazendo um motim contra mim."

"Tudo que você precisa fazer é ser um bom garoto"

Yuuri riu ao escrever.

"Eu sou um ótimo garoto."

Antes que Yuuri tivesse a chance de pensar no que responder, recebeu um vídeo: Makkachin ainda descansava as patas sobre o colo de Victor enquanto este continuava a acariciar sua orelha, e a voz de dele logo veio, acompanhando os sons da televisão ao fundo e da respiração de Makka.

"Makka, diga oi para o Yuuri."

Makkachin latiu e tentou lamber o celular, pelo que Yuuri havia julgado enquanto sorria abertamente com o vídeo, mas a mão de Victor deixou sua orelha felpuda e ela aproveitou para lambê-la.

"Diga ao Yuuri quem é a mocinha mais bonita e inteligente do mundo," A voz de Victor veio mais uma vez, bem como os latidos de Makkachin antes dela tentar subir em seu colo. E então uma risada breve. "É claro que é você!" Makka conseguiu subir por completo no colo de Victor e a risada dele e tentativas de dizer alguma coisa, junto com a respiração alta de Makkachin, eram tudo em que Yuuri conseguia prestar atenção. A câmera não mostrava nenhum dos dois, estava escura, mas Yuuri podia imaginar perfeitamente a cena. Yuuri amava cães, indiscutivelmente.

O vídeo acabava poucos segundos depois daquilo, e quando Yuuri o fechou, havia novas mensagens de Victor.

Yuuri tomou banho, vestiu uma calça preta com as barras dobradas, uma camisa listrada preta e branco e uma jaqueta azul escuro, calçou o tênis e arrumou o cabelo, deixando a franja para frente. Estava um pouco menos nervoso depois de conversar com Victor pelo celular mais cedo, era algo como se o encontro tivesse começado ali nas mensagens e a descontração e conforto já estivessem sendo construídas.

Antes de sair, Yuuri foi até o quarto de Phichit. Não faltava muito para uma hora da tarde, mas o amigo ainda dormia. Ele o chamou algumas vezes e foi quando recebeu um remungo um pouco mais longo do que os anteriores que soube que Phichit o ouvia de verdade, embora ainda acolhido pelo sono.

“Está bem tarde para você estar dormindo ainda.” Yuuri falou. “Que horas veio deitar?”

Mais uma vez, Yuuri recebeu apenas um resmungar.

“Estou saindo, ok? Fiz um pouco de comida para você.”

Então Phichit se remexeu na cama, o edredom finalmente revelando sua figura, e ele olhou para Yuuri com os olhos entreabertos e um sorriso pequeno e preguiçoso no rosto. “Yuuri, você é um anjo.” A voz rouca, mas que nunca perdia seu timbre alegre, veio baixa aos ouvidos de Yuuri. “Obrigado.”

Yuuri sorriu de volta. “Não fique o dia todo na cama.”

“Não vou.”

“Estou indo, então.”

O sorriso de Phichit alargou-se e ele falou: “Bom encontro, Yuuri. Você está ótimo.”

“Estou normal...”

“Você está sempre ótimo. Por mais que não acredite.”

Yuuri ficou em silêncio e então deixou que um suspiro o abandonasse ao fitar a gaiola em que o amigo mantinha os hamsters.

“Como você está se sentindo?”

Os castanhos de Yuuri voltaram a Phichit. “Estou melhor, não me sinto mais tão nervoso. Ainda estou, é claro, mas...”

“Ótimo. Vai dar tudo certo, Yuuri.”

Yuuri ofereceu um sorriso fraco ao amigo, queria se agarrar nas palavras dele com todas as forças que tinha.

Yuuri havia combinado com Victor para se encontrarem na frente do lugar. Fazia tempo que Yuuri não ia àquele restaurante e sentia-se bem por Victor tê-lo pedido para escolher o local, porque já era um lugar familiar, já conhecia o cardápio e como o ambiente funcionava e não precisaria ser inteiramente introduzido.

O lugar não era longe do apartamento que dividia com Phichit, vinte minutos caminhando. E quando chegou, Victor já estava lá. Ou era alguém muito parecido com ele. Mas não podia ser, Yuuri nunca havia conhecido ninguém cujos cabelos fossem tão claros. As palmas de suas mãos suaram. Há quanto tempo não tinha um compromisso como aquele? Sair com alguém... Yuuri sentia o nervosismo querer o engolir. Por que tamanho nervosismo tinha de querer se mostrar em situações pequenas? Ele suspirou devagar e caminhou até a entrada do lugar, onde Victor olhava para um ponto qualquer nas construções ao redor.

"Victor?"

Imediatamente, Yuuri recebeu o olhar de Victor e nossaera uma expressão que cabia muito bem naquela situação.

"Yuuri!" Victor o cumprimentou com um largo sorriso e então trouxe Yuuri para um abraço, acolhendo-o completamente no cheiro de seu perfume e calor, deixando-o sem tempo para reagir.

Foi então que Yuuri teve certeza de que aquele encontro havia sido uma péssima ideia. Uma das piores ideias. Porque não sabia se chegaria ao fim do dia em pleno estado, como alguém podia ser tão ridiculamente bonito por foto, mas ser ainda mais pessoalmente? E de repente Yuuri sentiu-se idiota pelo silêncio que oferecia e também por não se lembrar com qualquer clareza a noite em que ficou com Victor.

E ele havia ficado com Victor, com aquela pessoa que sorria irritantemente lindo à sua frente, alto, acariciando seus ombros enquanto provavelmente esperava que Yuuri dissesse alguma coisa.

"E-eh... oi." Yuuri tentou um sorriso. "Desculpe, o fiz esperar?"

"Huh? De maneira alguma! Chegamos praticamente juntos."

"Ótimo,"

"Está tudo bem?" Havia uma gota de preocupação na voz de Victor.

Ótimo, Yuuri já estava começando a tornar aquele encontro algo estranho. "C-claro! Vamos entrar? Espero que goste, é um ótimo lugar." Ele tentou um novo sorriso e começou a subir os degraus da pequena escada que dava acesso ao restaurante, sendo seguido por Victor, sentindo seu olhar em suas costas.

Assim que entraram, foram recebidos por um dos garçons.

"Lugar para dois, por favor." Yuuri e Victor o seguiram e pegaram uma mesa próxima à vidraça que dava vista para a outra parte da rua. Aceitaram os cardápios oferecidos após se aconchegarem devidamente e agradeceram.

"É um lugar adorável." Victor comentou, olhando ao redor, quando o garçom os deixou. Era um ambiente espaçoso de paredes de tijolinho e cheiro de massa quente no ar, misturado a conversas e risadas. Algumas televisões colocadas aqui e ali passando um programa qualquer. E Yuuri parecia adoravelmente acanhado quando Victor voltou o olhar para ele.

"Fico feliz que tenha gostado. Os pratos são ótimos. Está com fome?"

"Na verdade, sim." Victor respondeu e Yuuri quis esmurrar seus dentes brancos e perfeitos.

Mas tudo que fez foi comprimir os lábios ao inclinar-se em sua direção, incapaz de não aspirar seu perfume. "Hm, você também pode montar sua comida, se preferir, há opções doces e salgadas. Aqui,” Yuuri apontou para certa parte do cardápio. “São as opções que você pode escolher se for montar.” Finalmente se deixou encarar Victor e imediatamente soube ser outra decisão ruim, porque ele havia se aproximado ainda mais enquanto Yuuri mostrava os ingredientes e ele estava fixo em seu olhar, sempre com um sorriso no rosto – escondendo seus dentes agora.

"Você me sugere alguma coisa?" Victor perguntou.

"B-bem... Honestamente, sou um pouco suspeito para falar." Eles dividiram uma risadinha breve e então Yuuri começou a explicar para Victor como funcionavam as duas opções do cardápio: pedir pronto ou montar, e indicou quais eram seus preferidos. Foi algo trivial e simples de falar, mas foi bom, Yuuri achou, porque afinal não era um assunto difícil e isso o impediria de ficar num silêncio embaraçoso. Victor fez algumas perguntas sobre as comidas e Yuuri respondeu a tudo tranquilamente, então, alguns minutos depois, decidiram fazer o pedido.

Yuuri foi o primeiro a falar depois que devolveram os cardápios de volta ao garçom quando este voltou à mesa para anotar seus pedidos.

"Espero que não tenha tido problema em encontrar o lugar."

"De jeito nenhum. Não moro muito longe daqui, então já conhecia a rua, mas nunca tinha reparado no lugar."

Oh. "Mesmo?"

Victor fez que sim com a cabeça, os braços cruzados à beirada da mesa. "Cerca de dez minutinhos de carro."

"Eu não moro muito longe, também." Yuuri continuou, as mãos juntas sobre as coxas. "Hm... Vinte minutos andando."

"Wow, imagino que venha muito aqui, então." Victor apoiou o queixo em uma das mãos.

"Não tanto quanto eu gostaria." Yuuri riu e finalmente relaxou os ombros. "É sem graça demais te fazer vir a um lugar que eu já conheço?"

Victor pistou confuso para Yuuri por alguns segundos e então seu rosto voltou à expressão relaxada e interessada de antes. "Nenhum pouco." Ele respondeu, fitando por um momento as mãos de Yuuri, agora sobre a mesa, ainda juntas. "Estou feliz por vir a um lugar de que goste e ter a chance de experimentar o que gosta."

Sentindo as bochechas esquentarem, Yuuri ofereceu a Victor um sorriso tímido, seus olhos, então, fixando-se em uma das televisões distantes, impossível de ouvir qualquer coisa que estivesse sendo falada no programa.

"Suas bochechas são adoráveis."

A atenção de Yuuri voltou para Victor no mesmo instante em que suas palavras foram processadas por seu cérebro e aqueles azuis o encaravam com afeto e curiosidade. E antes que Yuuri pudesse evitar, estava cobrindo o rosto com as mãos, um grunhido abafado e baixo escapando.

"Yuuri?" Victor o chamou, preocupado. "Desculpe, eu disse algo errado? Eu-"

"Não..." Yuuri livrou o rosto das mãos, mas não fitou Victor. "Não... Desculpe por tornar o momento estranho. Só não estou... acostumado... com encontros, eu acho."

"Você não tornou, Yuuri." Mais uma vez, Victor sorriu afetuoso para Yuuri e ele sentiu as mãos voltarem a suar e agradeceu muitas vezes mentalmente quando o garçom voltou à mesa, trazendo as bebidas. Yuuri conseguiu disfarçar um suspiro enquanto ele dispunha os copos sobre a mesa e Victor puxava o seu para si.

Yuuri o observou tomar a bebida e não esperava a piscadela que veio. "Eu devia ter vindo preparado." Ele disse, fitando os próprios dedos agora, em torno do copo úmido pela água.

"Preparado?" Os traços confusos estavam de volta ao rosto de Victor quando ele se inclinou na direção de Yuuri, a fim de capturar seu olhar.

"Para essas suas cantadas!" Yuuri o empurrou de leve com uma das mãos e não resistiu a uma nova risada que veio, mais alta e natural, que não demorou a ser acompanhada pela de Victor.

Talvez tivesse sido só um primeiro momento. Embora não fosse uma mentira não ser acostumado com encontros, talvez a estranheza e nervosismo, tão vívidos em sua cabeça e peito, fossem ficar apenas no primeiro momento. Afinal estava na frente de um dos homens mais bonitos – se não o mais – que já havia visto e o tinha beijado e sequer se recordava. Mas de alguma forma Yuuri se sentia acolhido por Victor, talvez fossem seu olhar e sorriso afetuosos... Yuuri não tinha certeza.

"Desculpe pela mudança de humor?"

Victor balançou a cabeça devagar. "Não tem por que se desculpar, Yuuri, você disse que não está acostumado."

"É, bem," Yuuri entortou os lábios por um instante "não estou." E finalmente tomou um pouco da água.

"Quero que se sinta confortável, tudo bem? Não pense que é obrigado a estar aqui." Victor falou, apesar da preocupação escondida em sua voz, ele dizia tudo de maneira a confortar Yuuri e realmente deixá-lo à vontade, e Yuuri apreciava aquilo.

"Obrigado." Ele sorriu pequeno e Victor sorriu de volta. "Então," Yuuri começou, no intuito de mudar o assunto "Makkachin ficou sozinha?"

"Estou certo sobre você sair comigo apenas pela minha cachorra, hm?" Victor brincou, voltando a apoiar o rosto no punho, e Yuuri riu, sua risada mais uma vez natural e à vontade.

"Bem, eu já me desculpei por decepcioná-lo quanto a isso, sim?" Yuuri juntou-se à brincadeira.

Victor suspirou pesado e dramático. "Acho que não há muito o que fazer. É impossível resistir a ela mesmo se quisesse." Eles se encararam e sorrisos largos surgiram no rosto um do outro antes de Victor continuar. "Eu não moro sozinho, divido apartamento com um amigo. Você o conheceu na festa, foi ele quem nos separou." Victor conteve uma risadinha por conta da lembrança. "Ele se chama Chris, não sei se se lembra."

Yuuri não tinha qualquer lembrança do rosto da pessoa de que Victor falava, mas apenas balançou a cabeça devagar em resposta. Já era constrangedor demais para si mesmo o fato de que havia beijado alguém e não se recordava do acontecimento, não queria colocar aquilo para fora. Pelo menos não por enquanto.

"Ele está fazendo algumas coisas da faculdade, então ela não está sozinha hoje. Na verdade, acho que você pode considerar que ela nunca está. Temos uma gatinha, também. Ou melhor, o Chris tem. Elas se dão muito bem." Então Victor puxou o celular do bolso e acessou a pasta de fotos. "Aqui," ele mostrou a foto para Yuuri, uma gatinha branca muito, muito peluda estava deitada sob o aconchego de Makkachin, que a lambia.

Os dedos de Yuuri se moveram sozinhos, abrindo e fechando repetidamente, e ele tinha certeza de que sua expressão devia estar no mínimo engraçada, mas estava cem por cento indisposto a fazer algo quanto aquilo. "Tem mais?"

Victor o entregou o celular. "É só passar." E assim Yuuri o fez, e não podia ter ficado mais contente com as inúmeras fotos de Makkachin com a gatinha. Sua preferida até então era uma em que a gata estava deitada de barriga para cima e Makka descansava a cabeça sobre ela, cobrindo toda sua barriga peluda, enquanto assistiam televisão. Era adorável!

"Como ela se chama?" Ele lembrou de perguntar.

"Lady Cher. Por causa da cantora." Victor riu casual e Yuuri fez o mesmo, então suas atenções foram tomadas pelo garçom que agora voltava com os pratos.

"Wow!" Victor disse. "Parece delicioso! E o cheiro é ótimo."

"Espero que goste." Yuuri falou, devolvendo-o o celular.

E Victor adorou a massa, o recheio, o tempero, o sabor de cada coisinha, e Yuuri se sentiu imensamente aliviado. Enquanto comiam, conversaram mais. Victor perguntou se Yuuri tinha algum animal de estimação e ele respondeu que apenas teve um quando criança, também um poodle. Yuuri descobriu que Victor de fato era matriculado na mesma universidade, mas cursava educação física e, portanto, ficavam muito distantes um do outro e por isso nunca tinham se encontrado antes, sequer de vista, se se lembram bem. Victor, por sua vez, ficou muito impressionado em saber que Yuuri cursava dança.

Ele contou que fazia estágio quando Yuuri perguntou se tinha alguma outra ocupação, e ficou deslumbrado quando soube que Yuuri era assistente de professoras e professores de balé. Seus cursos lhes renderam um longo e interessante assunto até que terminaram os pratos e pediram mais uma bebida, então Makkachin de novo era o ponto central.

Yuuri se sentia muito à vontade àquele passo, um sorriso no rosto enquanto Victor contava as coisas que Makka aprontava. O rosto de Victor acendia encantadoramente em empolgação e Yuuri tinha certeza absoluta de que ele era ainda mais bonito pessoalmente, por conta de sua personalidade, tão aberta e receptiva.

"Você quer pedir mais alguma coisa?" Yuuri perguntou eventualmente.

"Hm," Victor pegou o cardápio e o abriu. "Um doce?" Ele piscou para Yuuri.

"São meus preferidos."

Yuuri o ajudou a escolher e logo fizeram o novo pedido.

"Estou feliz que tenha aceitado sair comigo hoje." Victor falou ao ficarem a sós de novo, seus azuis fixos em Yuuri, cujas bochechas insistiam em aquecer.

Yuuri encolheu os ombros levemente, também estava feliz por ter aceitado, claro, mas sentia-se sem graça demais para dizer o mesmo. "Espero não estar te entediando."

Victor riu. "Nunca pensei que fosse adorar estar entediado."

Yuuri piscou algumas vezes antes de seus olhos se fecharem e ele esconder a boca com as costas da mão, pfft. "Você é péssimo."

Mesmo após almoçarem e terem a sobremesa, Yuuri e Victor ficaram mais algum tempo no restaurante, conversando e rindo e trocando olhares. Yuuri não era tão lerdo a ponto de não percebê-los e tampouco sonso consigo mesmo para fingir que não os recebia de bom grado. Seus ombros chegavam muito próximos um do outro e Yuuri aspirava o perfume de Victor, acompanhava o movimento de sua língua toda vez que ele umedecia os lábios.

Victor era lindo. E Yuuri não podia acreditar que não lembrava de como era a sensação de beijá-lo.

Será que Victor traria à tona a noite da festa? Como ele se sentiria se Yuuri o dissesse que não lembrava de nada? Será que ele diria que aquele encontro havia sido um engano, então...? As perguntas começaram a se empilhar na cabeça de Yuuri e ele não queria que sua ansiedade tomasse conta do momento e quanto mais pensava no quanto aquilo não podia acontecer, mais ansioso se sentia. O garçom aparecer com a conta foi uma ótima e conveniente escapatória, ainda que não extinguisse o sentimento ruim de euforia dentro de si.

Após deixarem o restaurante, eles caminharam por uma feira que acontecia todos os finais de semana naquela região. Além de comidas, havia diversos itens de artesanato, pinturas e afins. Apesar de sempre acontecer, Yuuri só havia passado por ela uma vez, assim como Victor, ele descobriu, e para os dois tinha sido há um bom tempo, portanto decidiram conhecer melhor a feira e o que vendiam.

Eles pararam em várias lojas, em cada uma Yuuri descobria – e achava adorável – a facilidade com a qual Victor ficava empolgado. Duas vezes, enquanto Yuuri olhava algum produto, Victor se aproximou demais, respirando sobre seu ombro, indicando algum outro item sobre o balcão. E Yuuri sentiu um leve arrepio na nuca e calor nas bochechas em ambas as vezes, o cheiro de Victor o invadindo subitamente.

Eles conversaram mais enquanto andavam e riram diversas vezes sobre várias coisas – fosse um fato curioso e engraçado, uma observação boba ou mais uma cantada de Victor.

"Posso te dar uma carona?" Ele perguntou quando Yuuri mencionou que precisaria ir.

Não houve resposta imediata e então Victor segurou as mãos de Yuuri, que corou sob a ação inesperada, mas não as removeu. "Aceita?"

Havia uma esperança nos olhos azuis de Victor que Yuuri não queria ousar ferir. Que mal faria uma carona até em casa, ainda que não estivesse realmente longe do apartamento?

"Você está de carro?" Foi o que conseguiu formular.

Victor fez que sim com a cabeça, sorrindo, sem deixar suas mãos. "Mencionei mais cedo, hm? Chris me empresta o carro quando não está usando. Mas não se preocupe, eu tenho carteira." Ele riu.

"B-bem... Se não for nenhum problema."

O sorriso de Victor cresceu. "De maneira alguma." Então ele ergueu as mãos de Yuuri e beijou os nós de seus dedos. Yuuri tinha certeza de que iria explodir.

Eles tiveram que voltar até próximo ao restaurante, onde Victor havia estacionado. Quando deixaram o lugar, Yuuri retirou o celular do bolso: havia algumas mensagens de Phichit, o amigo tinha agradecido pela comida, então perguntado como estava sendo o encontro, alguns minutos depois ele havia enviado "ok, não precisa me responder, óbvio, você deve estar muito ocupado. Pelo menos é o que eu espero". Phichit...

"Me indique o caminho, ok?" A voz de Victor chamou sua atenção.

"A-ah, claro." Yuuri guardou o celular.

Eles levaram menos de dez minutos para chegar, o que não impediu Yuuri, durante o curto percurso, de admirar o perfil de Victor, concentrado ainda que falante, e não era como se pudesse evitar morder o interior do próprio lábio enquanto o assistia, porque ele parecia ainda mais sexy e aquilo apenas fazia Yuuri mais desacreditado que alguém como ele pudesse estar interessado em si.

E toda vez que Victor olhava em sua direção e aquele sorriso ridículo surgia junto com olhos gentis, ele queria afundar na cadeira do carro.

"É aqui," Yuuri informou ao aproximarem-se do prédio e Victor parou próximo à portaria.

No momento em que Yuuri soltou o cinto de segurança, Victor tocou sua mão. "Yuuri," ele falou "espero que tenha se divertido hoje."

Yuuri podia enxergar genuína preocupação nos olhos de Victor e antes que pudesse processar a ação, Yuuri acariciou a mão sobre a sua e aquele toque simples pareceu tão íntimo... mais uma vez queria afundar no banco do carro.

"Eu me diverti muito." Ele observou alívio tomar conta das feições de Victor. Yuuri não estava mentindo quanto a ter aproveitado o dia. "Obrigado por hoje. E pela carona." Ele ofereceu um sorriso e recebeu outro de volta.

"Eu poderia trazê-lo de novo."

"É esse seu jeito de me chamar para sair mais uma vez?" Yuuri sentiu as orelhas esquentarem, pensando que diabos estou falando? Ele já deve estar percebendo o quão ridículo sou e vai desviar o assunto. Por que alguém como ele iria querer sair com alguém como eu mais uma vez?

"Você aceita?"

De novo, Yuuri via expectativa e traços de esperança nos azuis de Victor. Ele estava realmente o chamando para sair uma segunda vez?

Quando nenhuma resposta veio, Victor voltou a falar. "Desculpe se... estou sendo inconveniente."

Yuuri piscou. "O-o quê? N-não, não está. Desculpe, eu..." Ele acompanhou o olhar de Victor para suas mãos e só então pareceu lembrar de que ainda estavam juntas. Yuuri suspirou o mais disfarçadamente que pôde. Por que você quer sair comigo de novo?, ele queria perguntar. "Eu adoraria sair com você mais uma vez." E desta vez o carinho que ofereceu com o polegar à pele de Victor foi totalmente consciente.

E Yuuri simplesmente não tinha o poder de conter o pulo de seu coração quando o sorriso de Victor se abriu radiante

"M-me mande mensagem." Yuuri conseguiu dizer, livrando a mão alheia e se desvencilhando completamente do cinto de segurança.

"Claro, dorogoy."

Yuuri franziu as sobrancelhas por um segundo, mas não disse nada, finalmente abrindo a porta do carro. Ele agradeceu novamente pela carona e então se despediram, e Yuuri não esperou até o carro sumir da rua para finalmente passar pela portaria, não queria que Victor o visse o assistindo indo embora, seria embaraçoso demais.

Phichit não estava em casa quando Yuuri chegou e ele se sentiu aliviado por não ter que narrar todo seu dia de imediato. Foi até a cozinha e tomou dois bons copos d'água antes de ir para o banheiro, precisava de um banho.

E quando terminou o banho e colocou roupas confortáveis, decidiu dar alguma atenção ao celular e às mensagens que havia recebido durante o dia. Dentre as poucas que ainda não tinha lido, havia uma nova de Phichit, avisando que iria sair e onde estaria. E havia uma nova de Victor. E Yuuri sentiu o coração acelerar sob o peito ao ver o que era, seu rosto esquentando irritante e insistentemente.

Uma foto sua, distraído com um pequeno quadro na feira. E a legenda dizia "você é tãolindo".

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.