Shiver

86 Capítulo 86


Notas iniciais
boa tarde e bom domingo! esse capítulo vem como um presente de aniversário só um pouquinho atrasado para a ana ♥ amiga, você é uma das pessoas mais maravilhosas, elegantes e talentosas que eu conheço, para além de ser uma amiga absolutamente incrível, e eu queria tirar esse momentinho para dizer o quanto eu te amo e te admiro! você é perfeita e eu espero que goste desse capítulo!! boa leitura ♥

Naquela manhã, Selena escolheu um vestido branco e quente, com peles cinzentas forrando seus punhos, e ele era um dos primeiros que Morzan lhe dera, ela se lembrava bem. A capa combinando, e ela os vestira para cavalgar com ele pelos arredores de Gil’ead, da mesma forma como os vestia agora enquanto ele lhe oferecia uma mão para ajudá-la a montar seu dragão.

“Estaremos de volta depois do almoço,” Morzan disse, ao receber de Jaime sua capa vermelha pesada e a fechar ao redor de seus ombros. “Ou no final da tarde, no máximo. Vou querer que se junte a nós para o jantar, porque é possível que precisemos reorganizar alguns detalhes na defesa da torre, ou ajustar alguns pontos de nossa estratégia.” Ele encontrou os olhos do capitão de sua guarda. “E, independentemente disso tudo, apreciaríamos sua companhia.”

“É claro, meu senhor,” Jaime respondeu, impossivelmente educado. Ofereceu-lhe Zar’roc, que até então segurava em uma mão, e Morzan prendeu a espada em seu cinto com facilidade. “Me certificarei de que tudo esteja pronto para seu retorno.”

“Tenho certeza de que sim.” Ele subiu com facilidade nas costas de seu dragão, se sentando atrás de Selena na sela e passando uma mão ao redor de sua cintura. “Tome cuidado enquanto eu estiver ausente,” tomou o cuidado de advertir, talvez desnecessariamente.

Jaime assentiu, já dando um passo para trás, e Selena não conseguiu mantê-lo a vista enquanto o dragão se adiantava para a abertura na parede da torre e alçava voo sobre a cidade. Recostou-se contra Morzan em vez disso, mantendo os olhos na paisagem que se entendia lá embaixo, e eles não estavam indo longe, daquela vez.

Havia diversos outros assuntos sobre os quais preferiria falar, e ainda outros ângulos sob que tratar aquele, mas ela entendia a necessidade de se focar, e só por isso perguntou, “Algo que eu deva saber de antes de chegarmos lá?”

Morzan demorou um instante para responder, como se considerasse a questão.

“Não, eu acredito que você esteja bem-preparada. Aleifar obviamente ficará mais satisfeito do que eu preferiria quando eu admitir que chegamos no ponto em que precisamos utilizar seus talentos de forma mais... completa, e Alexis vai protestar. Nada muito diferente das últimas vezes em que tivemos essa conversa com os dois, mas acredito que seja possível convencê-la de que é o melhor caminho.”

Selena fez que sim devagar, e era mais ou menos o que estava esperando também. “E ela não teria muito o que fazer a respeito, mesmo que não estivesse completamente convencida, certo? Alexis não iria boicotar nossa estratégia, nem fazer algo que pudesse nos prejudicar. Não de verdade.”

“Não, eu acho que não. Considerando que o que ela quer é exatamente evitar riscos desnecessários, não faria sentido potencialmente nos colocar em perigo e atrapalhar nossos planos. Não, Lex vai acatar o que decidirmos, mesmo que não fique feliz por isso.”

Ela fez um som baixo de concordância, e sentia as mãos frias mesmo por baixo das luvas claras que usava. “E há um motivo por que precisamos deixar a capital para conversar a respeito disso?” perguntou, então, alguns segundos depois, os olhos nos campos cobertos de neve.

“É sempre bom mudar de ares um pouco,” Morzan respondeu, com pouco caso. “Aleifar adquiriu essa propriedade alguns anos atrás, quando os antigos donos se provaram... incapazes de continuar a administrando. É apenas uma mansão às margens do Rio Ramr, mas Aleifar é orgulhoso dela. Almoçar lá foi ideia dele.”

Selena já estava mais do que acostumada à vida na corte e todas as suas dimensões, mas não conseguia se livrar da parte sua que viera de um vilarejo pequeno e, muito diferente de Morzan, não pensaria nunca em dizer algo como “apenas uma mansão às margens do Rio Ramr”. E logo descobriu aquela era, é claro, tão impressionante quanto qualquer outra propriedade que um dos Treze consideraria adquirir.

Não conhecia as terras principais de Aleifar ou Alexis, mas, ao ser recebida por um criado na porta de entrada do casarão, percebeu que a decoração em seu interior era muito parecida com o que já aprendera a esperar dos gêmeos: ouro e prata utilizados em abundância, tapeçaria e estofamentos em tons claros com detalhes dourados, pinturas retratando cenas pacíficas ou paisagens muito abertas.

Selena deixou sua capa pendurada junto à entrada, e então seguiu Morzan pelo lugar. Estava claro que ele já havia estado ali antes, encontrando com facilidade a sala de estar e abrindo a porta para que ela entrasse primeiro. Lá dentro, Alexis já os esperava de pé junto a uma lareira acesa, os braços cruzados sobre o peito enquanto observava o fogo, algo de tempestuoso e resoluto em sua expressão, e Aleifar se sentava em um sofá, o tornozelo sobre um joelho e uma taça de vinho segura entre seus dedos longos.

“Finalmente,” Aleifar disse, à guisa de cumprimento. “Estivemos esperando por vocês. Posso oferecer uma taça de vinho? Algo para comer, talvez?”

“Talvez mais tarde,” Morzan respondeu, mas olhava para Alexis. Sentou-se em uma poltrona vazia, de forma que pudesse ver ambos os gêmeos, e, face a decisão entre permanecer perto dele ou escolher um lugar no sofá ao lado de Aleifar, Selena optou por se sentar também sobre um dos braços da mesma. “Neste momento, precisamos conversar sobre Fäelan.”

Alexis voltou os olhos verdes em sua direção. “Posso começar?”

Tinha a voz um tanto dura, e, ao observar Aleifar rir pelo nariz de forma irônica e mal disfarçada, Selena se perguntou se eles já não haveriam estado discutindo antes que ela e Morzan chegassem.

Se Morzan percebeu tudo aquilo, optou por não comentar a respeito. “Por favor.”

“Eu sei o que você vai dizer,” Alexis afirmou, então, como se quisesse de alguma forma já se prevenir contra sua resposta, ou talvez como se soubesse que travava uma batalha perdida. “Que tudo o que fizemos contra Fäelan até agora não tem funcionado como deveria, que ele não deveria ter conseguido acumular tanta influência em tão pouco tempo, principalmente não quando nós nos esforçamos tanto para deixar claro que haveriam graves consequências para quem se aliasse a ele, e que por isso é hora de deixar que meu irmão,” ela gesticulou brevemente na direção dele, “comece a tentar se infiltrar nas mentes dos elfos.” Uma pausa curta. “Eu não acho que já chegamos nesse ponto.”

Aleifar riu de verdade dessa vez. “E algum dia vai achar?”

Alexis ergueu uma sobrancelha para ele. “Talvez não. Certamente não agora.”

“‘Talvez não’, significando que nunca, então por que estamos perdendo tempo ouvindo o que você tem a dizer a respeito?” Ele se voltou para Morzan. “Podemos decidir entre nós dois, e eu concordo com você. Então está decidido, e podemos parar de perder tempo com essa conversa.”

A risada de Alexis soou incrédula. “Você é impossível,” ela sibilou, furiosa. “Eu sei que não posso impedi-lo, mas se você ao menos admitisse o risco, Aleifar—”

“E você não acredita que eu possa ser cuidadoso? Ou que eu possa de fato ser bem sucedido no que treinei a vida inteira para fazer?”

Talvez pudessem discutir o dia inteiro apenas entre eles. Selena olhou discretamente para Morzan, para entender sua reação a tudo aquilo, mas ele só observava os gêmeos com um vinco pequeno entre as sobrancelhas escuras; devolveu seu olhar quando ela abaixou uma mão para oferece-la a ele, entrelaçando os dedos nos dela e lhe dirigindo um erguer muito breve das sobrancelhas que fez Selena precisar conter um sorriso pequeno.

“Mesmo que você seja bem-sucedido,” Alexis dizia, porém, a atenção fixa em seu irmão. “Mesmo que consiga descobrir todos os seus planos sem ser percebido, e implantar sugestões contrárias em sua mente, mesmo que consiga que ele perca tudo o que já conseguiu até agora e ainda mais, o que vai fazer quando ele estiver furioso e identificar corretamente a sua participação em sua ruína e resolver se vingar? Quando ele decidir destruir tudo com o que você mais se importa?”

Aleifar não se impressionou. “E o que seria isso, exatamente?” Quando ela não respondeu de imediato, ele insistiu, “De verdade, Alexis. Do que exatamente você tem medo?”

Ela apenas o encarou de volta por um instante, os lábios entreabertos, antes que sua expressão se fechasse e ela desviasse os olhos na direção da lareira, o maxilar travado. “Eu não quero precisar passar outro século construindo uma vida satisfatória para mim mesma, e não certamente não quero perder o que consegui até aqui. Se o preço disso é apenas permitir que Fäelan conquiste um nível maior de influência—”

Foi Morzan quem a interrompeu dessa vez. “Permitir que Fäelan conquiste mais influência?” Ele tinha os olhos díspares mais duros. “Não pensei que fosse tão covarde, Lex.”

Alexis revirou os olhos para aquilo. “Fäelan esteve até agora atacando você, porque ele te enxerga como a maior ameaça e o maior empecilho aos seus planos. Mas mesmo você esteja disposto a perder Jaime e Selena, Morzan...”

Selena ergueu as sobrancelhas para aquilo, porque não esperava que Alexis fosse algum dia dizer algo assim na sua frente, mas ainda assim percebeu o momento em que Morzan soltou sua mão e se inclinou para frente na poltrona.

“Eu não vou perder Jaime e Selena,” afirmou, seu tom muito final, antes de fazer uma pausa muito breve. “Não para Fäelan, de toda forma,” e Aleifar riu pelo nariz ao ouvir aquilo, “mas é verdade que ele já tentou assassiná-los antes. Fomos capazes de impedi-lo com relativa facilidade, mas você acha que seria assim caso o deixássemos juntar cada vez mais poder e influência? Quanto mais poderoso Fäelan se tornar, mais perigoso ele será também. Você sabe disso.”

“Ele é perigoso de qualquer forma,” Alexis discordou. “Mas ele é pior quando está furioso. Vocês sabem disso.”

Morzan encolheu os ombros. “Furioso e enfraquecido? Nós conseguiríamos pará-lo.” Ele olhou rapidamente na direção de Aleifar, e então continuou: “Mas se ele for poderoso e influente? Pode ser mesmo que ele não esteja enfurecido com qualquer um de nós, mas o que você planeja fazer, Alexis, quando ele descobrir que está entediado e decidir matar quem quer que seja seu amante na época apenas para ver você sofrer um pouco e você for fraca demais em comparação para fazer qualquer coisa?”

“E mesmo que não conseguíssemos pará-lo enfraquecido,” Aleifar disse, girando sua taça de vinho entre os dedos, “eu ainda preferiria precisar reconstruir meu castelo, minha criadagem, e minha vida inteira, do que saber que deixei Fäelan concretizar todos os seus planos sem nem mesmo tentar fazer alguma coisa sobre isso. Se ele retaliar, devolveremos na mesma medida, ou pior, e isso é tudo que precisa ser dito sobre esse assunto. Estamos perdendo tempo.” Ele sacudiu um pouco a cabeça. “Na verdade, já perdermos tempo demais só para chegar a esse ponto.”

“Perdendo tempo?” Alexis repetiu. “Aleifar, eu preciso no mínimo que você me olhe nos olhos e admita que o quanto ele pode ser perigoso. Você de todas as pessoas deveria saber—”

“Sim!” Aleifar exclamou. “Eu, de todas as pessoas, sei. Nós somos imortais, Alexis, e você não pode passar a eternidade se contentando com uma situação fácil e enfadonha só porque, na última vez que decidiu tomar um risco, você pensa que acabou perdendo mais do que ganhou.” Ele se levantou e andou até estar de frente à sua irmã. “Eu sei que Fäelan é perigoso. Eu também sou, Morzan também é. E você também pode ser, Lexi, se estiver disposta a abrir mão do que quer que esteja segurando com tanta força, e abraçar tudo o que você realmente é.”

Alexis sustentou seu olhar por um instante, e então voltou o rosto na direção de Selena. “É com a sua vida que eles estão apostando, você sabe.”

Selena abriu os lábios para responder, mas Morzan se adiantou a ela. “Selena vai ficar bem,” afirmou, definitivo. Apoiou uma mão sobre sua perna, em um gesto superficialmente distraído que poderia ter um fundo tanto de proteção quanto de aviso.

“Está bem,” Alexis disse, então, a voz ainda irritadiça.

“E se Fäelan matar um dos meus criados,” Aleifar continuou, como ela não houvesse dito nada, “matarei dois dos dele em retorno. Se ele por fogo eu meu castelo, eu derrubarei o seu. Se ele tentar nos atacar, retornaremos em dobro, e é assim que venceremos essa disputa.”

Alexis olhou para ele, sua expressão difícil de ler, e repetiu, a voz mais baixa, “Está bem.”

Selena cobriu a mão de Morzan com a sua, e ele não se afastou, mas não entrelaçou os dedos nos dela daquela vez tampouco.

Notas finais
nos vemos nos comentários ♥