Shiver
80 Capítulo 80
Notas iniciais
Aleifar, com todas as suas falhas, estava certo no que o castelo de Ceunon parecia muito pequeno em comparação ao esplendor de Urû’baen: as paredes eram de pedras cinzentas e as mesas de carvalho escuro, os candelabros de bronze e ferro; nada de ouro e prata nas paredes, nada de pedras preciosas encrustando os pilares, e as tapeçarias com imagens de caçadas e florestas revelavam um pouco de sua idade. Mesmo assim, Selena se sentia quente e confortável ao se sentar no salão de Lorde Tarrant, suficientemente protegida da tempestade que caía do lado de fora.
O jantar havia sido perfeitamente satisfatório — carne de veado e batatas —, mas depois os criados haviam servido torta de amora, e ela havia até mesmo se permitido um segundo pedaço, raspando agora com um garfo o pouco recheio que sobrara em seu prato. Ao seu lado, Morzan conversava com um dos conselheiros de Lorde Tarrant, e o assunto parecia leve o bastante; tocaram nos planos do governador para a cidade, é claro, mas também falavam sobre a corte do rei, sobre acontecimentos recentes do reino, sobre casamentos e nascimentos e as movimentações dos demais lordes da cidade.
Selena não estava exatamente participando, e não exatamente se importava. Estava contente em ouvir, embora soubesse que ficar em silêncio com seus pensamentos trouxesse também o risco de ceder a vontade de pedir a um criado ainda mais um pedaço da torta doce, sem se incomodar de verdade que a noite parecesse tão tranquila. Abaixou os olhos para onde Morzan apoiava casualmente a mão contra o braço de sua cadeira, sentindo um impulso leve de entrelaçar os dedos nos dele — será que chamaria demais sua atenção? —, e os ergueu novamente, passando por um instante pelas pessoas que dançavam, pelos músicos que tocavam, e então parando na figura de Aleifar do outro lado do salão.
Para sua surpresa, ele já a observava. Estava casualmente recostado contra um dos pilares de pedra, os braços cruzados na frente do corpo e um dos tornozelos recostado atrás do outro; havia um pequeno grupo de nobres por perto, mas Aleifar não parecia participar de sua conversa. Em vez disso, abriu um meio sorriso irônico quando Selena encontrou seu olhar, e se endireitou no lugar como se houvesse encontrado um novo propósito.
Desconfiada, ela o observou dar a volta no salão, estreitando os olhos ao vê-lo tomar o cuidado de passar para detrás da mesa comprida antes de se aproximar. Tinha os cabelos loiros compridos presos em um rabo atrás da cabeça por uma fita de veludo, e vestia um gibão dourado com bordados em fios pretos, suas calças também escuras. Cumprimentou Morzan e o nobre com quem ele conversava muito brevemente, e então se curvou diante de Selena, lhe oferecendo uma mão.
“Senhora Selena,” disse, a voz muito macia, embora algo perigoso ainda transparecesse em seus olhos verdes, “me daria a honra desta dança?”
Selena ergueu as sobrancelhas, surpresa e sem conseguir se conter, e não soube exatamente como responder. “Eu...” começou, apenas para lançar um olhar rápido na direção de Morzan. Ele olhava para Aleifar, porém, o rosto ilegível, e não lhe foi de muita ajuda. “É claro,” ela acabou dizendo, sem sentir que tinha escolha. “Se Morzan não se importar.”
Morzan demorou um instante mínimo para voltar o rosto em sua direção, mas então ele sorriu, tão fácil, e ergueu uma das mãos em um gesto galante de permissão. “É claro,” repetiu. “Eu não iria querer privá-la das melhores diversões que esses eventos podem oferecer, afinal.” E encontrou novamente o olhar de Aleifar. “Uma única dança não fará mal.”
A restrição muito clara, mas Aleifar não pareceu se importar — parecia, de fato, muito satisfeito — e era verdade que Selena gostava de dançar, gostava dos bailes e das festas e das músicas, só não sabia o que esperar de uma dança com ele. Não foi sem um pouco de receio que aceitou sua mão e permitiu que ele a guiasse em torno da mesa, ciente demais de seu braço sob o seu e insegura quanto às suas intenções.
“Não pude evitar reparar que parecia quase abandonada,” foi o que ele lhe disse, “podendo apenas aproveitar das tortas de amora de Lorde Tarrant. E Morzan está certo do que existem coisas muito melhores do que tortas doces em eventos como esse. Ele te ensinou a dançar, eu espero?”
Selena estreitou os olhos em sua direção. “É claro que sim,” respondeu, quase ofendida. “E gostaria que soubesse que eu gosto muito de tortas doces.”
Aleifar só riu. “Estou ciente.” Olhava para ela como se achasse graça de alguma coisa. “Precisamos conversar.”
Ela estudou seu rosto bonito, mas não saberia lê-lo de verdade nem se quisesse. Estavam ali para investigar a influência de Fäelan na corte de Ceunon, o que Morzan fazia ao conversar com os nobres e conselheiros de Lorde Tarrant e Aleifar fazia ao espiar a mente de todos por perto; Selena apenas os acompanhava, por hora, aguardando o momento em que as circunstâncias tornariam necessários seus próprios talentos.
“Conversar?” repetiu, se posicionando a frente dele no centro do salão. Aleifar erguia uma mão rente a sua, as costas retas e seus movimentos confortáveis, sem tocá-la na primeira parte da dança. “Sobre o quê, meu senhor?”
“Diversas coisas,” ele respondeu, mas o que perguntou em seguida foi, “Acha que Morzan se incomoda em vê-la dançando comigo?”
Ao andar em um círculo curto ao redor de Aleifar, Selena olhou de relance na direção de Morzan, sentado ainda no mesmo lugar à mesa, mas ele não olhava para ela. Parecia, em vez disso, bastante concentrado na conversa que tinha com o conselheiro de Lorde Tarrant.
“Ele não parece se importar,” foi o que disse, embora não acreditasse de verdade nas próprias palavras.
Aleifar riu pelo nariz. “Deve estar disfarçando bem,” julgou, pouco impressionado. “Mas você acha que ele se importa porque não gosta da ideia de você dançando com outra pessoa por conta de você própria, ou porque não gosta da ideia de outras pessoas mexendo em seus brinquedos?” Ele sorriu para alguma coisa que viu em seu rosto. “Ou será que o problema sou eu?”
Selena, pessoalmente, o considerava boa parte do problema; havia um bom número de nobres com quem preferiria dançar (Morzan, é claro, o primeiro dentre eles). “Como eu disse,” falou, porém, contendo a vontade de ranger os dentes, “ele não parece estar incomodado.”
Mas o Renegado a sua frente apenas pareceu se divertir com sua resposta. Tomou uma de suas mãos na sua e apoiou a outra em sua cintura, enquanto Selena o tocava também no ombro. “Ele se esforça para te proteger, você sabe,” contou, “do restante de nós. Mas é porque se importa com você, ou é porque sabe que poderíamos usá-la contra ele?”
Era, às vezes, difícil manter a boa educação. “Morzan sabe que sei me cuidar.”
“Ele sabe o que te ensinou, eu suponho. Mas será que você sabe mesmo?” Ele a puxou mais para perto, então, num ímpeto que a pegou de surpresa e a fez dar um passo pequeno para frente, quase um tropeço. A mão de Aleifar de repente na base de sua coluna, ao invés de em sua cintura, baixa demais, e seu rosto mais próximo do que Selena achava inteiramente confortável. “O que você sabe mesmo proteger, Senhora Selena? Certamente não a própria mente, não quando está ocupada pensando se poderia tomar a mão de Morzan, ou se isso o distrairia. Não deveria ter preocupações maiores?”
Selena tinha a mandíbula muito travada, seu rosto de súbito fechado. Mantinha a própria mente trancada e seguia tudo o que Morzan lhe ensinara, mas não era fácil protegê-la a todo tempo, e certamente não de Aleifar, que se gabava de poder captar até mesmo os pensamentos de Kialandí ou Formora, até mesmo de Fäelan. “Era sobre isso que precisava conversar, meu senhor?”
Mas Aleifar sacudiu a cabeça como se estivesse decepcionado, sua risada quase parecida com um suspiro. “Acho um evento desses em Ceunon absolutamente entediante,” foi o que disse. Relaxou um pouco a mão contra suas costas, permitindo que Selena se afastasse um quase nada, e estudou seu rosto por um instante curto. “Não, eu te trouxe algumas informações. Tem interesse em ouvi-las?”
Selena apertou um pouco os lábios, exalando devagar pelo nariz, antes de fazer que sim. “É claro.”
Aleifar aproveitou o movimento da dança para dirigir seu olhar. “Lorde Landen junto aos braseiros,” apontou primeiro, “se sente insatisfeito com a atenção que recebe do rei e dos Treze, já tendo procurado conseguir o favor de mais de um nós, e considera em tentar a sorte com Fäelan; acredito que ainda seja possível dissuadi-lo com alguma facilidade, mas não sem algum custo. Já Lorde Randell,” o indicou com a cabeça, “já chegou a trocar correspondências com nosso elfo menos predileto. Não consegui mais do que isso, mas acredito que fazê-lo se afastar necessitaria de ações mais... drásticas. Selwyn pensou positivamente de Fäelan também, embora não de forma concreta, e Seymour considera que confiar nele seria um erro grave.”
Selena fez que sim em um movimento lento. “Podemos usar isso.”
“É claro que sim,” Aleifar respondeu, arrogante demais. “Mas mais importante do que tudo isso, o conselheiro com quem Morzan conversa agora, Lorde Flannagan, refletiu há pouco sobre como procurou para Lorde Tarrant os serviços de um certo — como são chamados? Maçom, alvanéu, algo totalmente ordinário dessa forma — para obras que foram recentemente aprovadas pelo rei com a ajuda de um... intermediário conveniente. Vale verificar, eu acredito.”
Valia de fato. “Certo,” Selena respondeu, devagar, e Aleifar riu um pouco.
Com o final da dança, se afastou dela, mas ainda oferecendo um braço para guiá-la de volta à mesa. “Venha, Senhora Selena,” chamou, a voz suave. “Morzan certamente sente sua falta, e eu, pessoalmente, gostaria de provar essa torta de que você gosta tanto.”
E, ao deixá-la de volta em sua cadeira, segura ao lado de Morzan, Aleifar realmente se serviu de uma fatia, partindo um pedaço com facilidade com seu garfo de cobre. A calda escura sujou seu lábio inferior, o líquido avermelhado se parecendo desconfortavelmente com sangue à luz das velas, e Aleifar o limpou com o polegar ao perceber Selena observando; os olhos verdes quase perigosos enquanto ele levava o dedo aos próprios lábios.
Ela desviou o olhar em uma exasperação irritada, apenas para perceber que Morzan a estudava em silêncio, a conversa com Lorde Flannagan aparentemente concluída, os cabelos escuros emoldurando seu rosto.
“Encontrei alguém para visitar amanhã,” foi o que Selena lhe disse, com cuidado para manter a própria voz baixa.
Ele não respondeu de imediato, os olhos díspares ilegíveis, mas acabou por assentir. “Isso é bom.”
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