Shiver

75 Capítulo 75


Notas iniciais
surprise, surprise! dois capítulos em menos de duas semanas? im shocked! brincadeira gente jsaksjaksjaks múltiplo de cinco etc etc então ele é pra ceci, mas também pra ana (barbieri agora, não é? finalmente!) porque o finzinho é bem na aes dela então ♥ boa leitura, meus amores ♥

Ela estava sozinha com Alexis de novo, ou quase: a alguns metros de distância, Georgei atirava pedras na lagoa pequena, as fazendo quicar sobre a água algumas vezes antes de afundar. Era um local bastante privado, a alguns quilômetros da cidade, embora de razoavelmente fácil acesso; na base de uma colina, era protegido dos arredores por um bosque diminuto e uma mureta baixa de pedras cinzas e arredondadas, a passagem discreta o suficiente para que não atraísse o olhar mesmo dos viajantes mais atentos. O dia era frio demais para que aproveitassem o lugar por completo, ano já se esfriando novamente, mas ele não deixava de ser encantador.

“Deixe-o ficar amuado”, Alexis disse, sem se preocupar. Vestia calças marrons e blusa clara, o corpete bege por cima decorado com vinhas bordadas em fios prateados, os cabelos loiros caindo por cima de um ombro em uma trança elaborada. “Planejávamos passar o dia juntos, apenas nós dois, e você sabe como homens são. Não conseguem lidar com a menor das decepções.” Ela pendeu a cabeça para o lado ao lançar a Selena um olhar divertido. “Irei compensá-lo por isso mais tarde.”

Selena deixou escapar uma risada surpresa. Estavam sentadas na sombra, sobre um tecido que Georgei diligentemente estendera no chão, uma cesta com pães, frutas e queijo entre as duas, as taças de vinho já pela metade. Ela não planejara se encontrar com Alexis tão cedo tampouco, mas Morzan a abandonara com a Cavaleira sem qualquer cerimônia mais cedo naquela manhã.

Na noite anterior, depois de deixar os aposentos de Jaime, Selena havia optado por dormir no próprio quarto, desconfiando que as emoções do dia talvez houvessem tornado Morzan menos disposto a dividir sua cama. Ele havia batido em sua porta no começo da madrugada, porém, com os cabelos escuros ainda molhados do banho que havia tomado, e não se importara quando Selena lhe informara que estava sonolenta demais para fazer qualquer coisa além de dormir.

Ele apenas se sentara ao seu lado na cama, as pernas compridas esticadas à frente, as costas contra os travesseiros. Permitira que Selena apoiasse a cabeça em seu colo, os olhos díspares distantes na penumbra do quarto, os dedos longos brincando com seus cabelos castanhos; muito desperto e ainda na mesma posição quando Selena acordou de manhã, ele a chamara para acompanhá-lo em uma visita à torre dos gêmeos.

Uma vez lá, porém, apenas convidou Aleifar para ir com ele terminar de resolver a situação dos atacantes de Jaime, e sugeriu a Alexis que Selena passasse o dia com ela. Ambos aceitaram as propostas com facilidade, e por isso Selena acompanhara a Senhora Alexis dos Treze Servos e seu amante muito humano em um passeio a cavalo a uma lagoa particular nos arredores de Urû’baen.

“Peço desculpas por atrapalhar seus planos,” Selena pediu, mas com um sorriso pequeno em retorno. Não sabia bem o que lhe dizer sobre Georgei, e daquele ângulo ele era muito bonito, amuado ou não, com os cabelos castanhos um pouco longos e a pele bronzeada pelo sol, o porte todo muito atlético, uma espada na cintura. “Eu havia me comprometido a passar mais tempo em sua companhia, porém.”

“Ah, sim,” Alexis concordou. Tomou mais um gole de vinho, despreocupada. “Acho isso até preferível, acredite em mim. Eu havia te prometido detalhes sobre amantes passados de Morzan, não havia? Você ainda os quer, ou prefere conversar sobre o que aconteceu ontem?”

Selena hesitou, e então encolheu os ombros, deixando o ar escapar em algo entre um suspiro e uma risada. “Ontem... Foi terrível, é claro, mas tudo ficou bem no final. Jaime está bem.” Uma pausa curta. “E acho que era esperado, na verdade. Já desconfiávamos que Fäelan estava se preparando para ações mais drásticas.”

Alexis deu de ombros. “Isso não é o que eu chamaria de ações drásticas, uma vez que falamos de Fäelan, mas sim. Era o esperado.” Um sorriso manso. “Falaremos sobre os casos passados de Morzan, então? É um assunto mais interessante.”

Ela precisou rir baixo em resposta, desviando um pouco o olhar. Queria, precisava admitir para si mesma; como na última vez em que conversara em particular com Alexis, achava sua companhia perigosa, até certo ponto, mas mais ainda agradável, a perspectiva de trocar segredos em voz baixa promissora demais para que conseguisse evitar a tentação.

Selena dobrou os joelhos junto ao corpo e passou os braços em volta deles. “Você havia dito algo sobre seu favorito ter sido alguém chamado Thomas?”

O sorriso de Alexis foi quase travesso. “Ah, sim. Ele era muito bonito, com pele escura e cabelos cheios, impulsivo e energético. Muito inteligente, porque Morzan não o teria querido de outra forma, razoavelmente ambicioso. Era filho de um lorde exilado das tribos nômades do Deserto Hadarac, e havia sido criado junto com o filho de um dos nobres mais proeminentes da corte naquela época.” Ela parou um instante, considerando. “Foi logo após a Queda, enquanto estávamos nos esforçando para estabelecer o Império, e Morzan o conheceu durante a guerra de Surda, mas isso já te contei. Nós perdemos aquela guerra específica, é claro, embora a verdade era que Galbatorix não havia estado assim tão interessado em ganhá-la, tanto que optou por não participar. A deixou a cargo de nós Treze, afinal — bem, onze, na época. Nossos números têm caído. O ponto é, não nos entendíamos bem o suficiente para ganhá-la sem sua supervisão.” Ela não parecia incomodada com o fato. “Morzan mesmo era mais instável do que é agora, mais jovem e mais agitado. Thomas não era muito diferente, e eles se tornaram bastante próximos—”

Ela se interrompeu. Um vinco pequeno entre suas sobrancelhas claras, os olhos verdes de repente muito atentos. Ergueu um dedo quando Selena fez menção de falar, pedindo silêncio, e pendeu a cabeça um quase nada para o lado, como se estivesse tentando ouvir alguma coisa.

“O quê?” Selena perguntou, a própria voz muito baixa.

Alexis só sacudiu a cabeça.

“Venha comigo,” chamou. E então, mais alto: “Georgei, você também.”

Não deixava espaço para discussão ou qualquer protesto. Selena a seguiu pela trilha curta que atravessava as árvores de volta para a área mais aberta próxima à estrada, sem ouvir nada além do cantar distraído de passarinhos e o som de gravetos se partindo sob suas botas, mas mesmo assim não se surpreendeu de todo ao ver o conjunto de homens à cavalo, dispostos em formação de meia-lua, que cercava a entrada do bosque.

Contou quinze (o que supunha ser de alguma forma lisonjeante), a maior parte armado com espadas comuns, apenas dois carregando arcos. Havia algo estranhamente estimulador na sensação de perceber flechas apontadas para seu rosto, mas ela tinha a razoável certeza de as proteções de Morzan as parariam com facilidade. Parando ao seu lado, Georgei parecia alarmado; já Alexis, apenas irritadiça.

“Achei que Morzan houvesse terminado de caçar todos vocês ainda ontem,” a Cavaleira comentou, a voz muito seca, dando um passo à frente. “Mas parece que não.”

O homem ao centro não pareceu se impressionar. “Ouvimos falar sobre o ataque ao guarda de Lorde Morzan,” admitiu. “Mas não foi nosso trabalho. Não, nós fomos mandados aqui em atrás de sua Mão Negra.” Ele encontrou o olhar de Selena. “Viva, se possível, mas não necessariamente.”

Ela ergueu um pouco as sobrancelhas em resposta. “Obrigada,” disse, apenas. “Mas acho que irei recusar sua proposta. Vocês servem Fäelan?”

Se Alexis se incomodou por ela ter falado, não deu qualquer sinal disso. Manteve os olhos verdes treinados no homem que falava enquanto ele respondia, “Nós iremos, uma vez que terminarmos com sucesso a missão que ele nos passou.” Eram o quê, mercenários? Ele olhou para Alexis por um instante. “Fomos instruídos a não tentar nada perto de Lorde Morzan, é claro, mas a verdade, Senhora Alexis, é que você não participa de uma luta de verdade há... setenta, oitenta anos? Não é bem sua especialidade.”

“Não,” Alexis concordou, a voz muito calma. Ela nem mesmo estava armada.

“Lorde Fäelan nos compensará generosamente por nosso serviço,” o homem continuou, e Selena teve vontade de rir. Fäelan não poderia se importar menos com se eles iriam ou não sobreviver aos próximos dias; mesmo que fossem bem-sucedidos no que se propunham, Morzan certamente os assassinaria em vingança depois, e o elfo sabia disso. Não que ela achasse que corria qualquer perigo real, não de verdade. “Com certeza a recompensará ainda melhor caso se junte a ele em aliança.”

“Tentador.” Ela deu outro passo à frente. “Mas acho que não.”

Ao lado de Selena, Georgei desembainhou a espada em um movimento cuidadoso. Era o único dos três que estava armado, e talvez fosse esse seu raciocínio ao avançar para se colocar entre Alexis e os inimigos. Uma pista do que estava prestes a acontecer apareceu nos olhos duros do líder dos atacantes, mas não houve tempo de Selena dizer nem mesmo um aviso, muito menos um feitiço de proteção.

Uma flecha pegou Georgei no braço, outra no abdômen; um instante a mais, e outra se cravava em seu peito. Ele caiu de joelhos, mas Alexis tomou a espada de suas mãos antes que ela fosse ao chão. A lançou ao ar em um único movimento gracioso, e ela girou uma, duas, três vezes antes de se enterrar, certeira, no líder dos homens a cavalo.

Os atacantes tinham a atenção nela, agora, mas Alexis disse algo em voz baixa, rápido demais para que Selena compreendesse as palavras, e as flechas que voavam em sua direção pegaram fogo e se desfizeram em cinzas muito antes de alcançá-la. Um instante a mais e ela tinha a espada de Georgei nas mãos novamente, a girando em um arco na direção do pescoço do homem mais próximo, rápida demais para acompanhar ou para que eles tivessem qualquer chance de se defender.

Selena julgou seguro desviar a atenção da luta, se pondo de joelhos ao lado do amante de Alexis, caído de costas no chão. Perdeu-se por um momento no que fazer, levando as mãos à flecha em seu peito antes de se lembrar que não deveria arrancá-la. Georgei tinha sangue nos lábios e o rosto sem cor, respirando com dificuldade, e aqueles seriam ferimentos fatais, Selena suspeitava, mas não tão ainda por algum tempo, e, se tinham tempo, poderiam salvá-lo.

“Você vai ficar bem,” disse, ouvindo a própria voz um tanto fraca. Tinha seu sangue nas mãos e também já em seu vestido, manchando o tecido. “Tente não se mover.”

Ele era mais velho do que ela, um espadachim habilidoso de acordo com tudo que Selena já ouvira falar, mas parecia tão novo, com o olhar aterrorizado daquela forma. Ela colocou as mãos sobre a ferida que sangrava mais, a pressionando e também tentando mantê-lo imóvel. Sussurrou um feitiço rápido para aliviar a dor, e se satisfez ao vê-lo respirar um pouco mais fácil.

Ergueu os olhos, e de todos os atacantes apenas dois continuavam vivos. Ela assistiu, muda, enquanto Alexis se aproximava do primeiro, desviando o golpe de sua espada com facilidade antes de cortar seu pescoço. Voltou-se para o segundo muito rapidamente, mas se limitou a golpeá-lo na têmpora com o punho da espada, o observando cair inconsciente ao chão antes de se voltar, devagar, para onde Selena se ajoelhava ao lado de seu amante.

Alexis os estudou com uma expressão nos olhos verdes que Selena não foi capaz de reconhecer, e então pendeu a cabeça para trás, os olhos fechados — talvez estendendo sua mente para contatar Morzan ou Aleifar? Era impossível dizer — antes de se aproximar.

Ela tinha as vestes cobertas de sangue e o rosto corado pelo esforço, mas sua expressão era mais de desagrado do que de preocupação ao encontrar o olhar de Selena. Seu suspiro saiu muito suave, e ela deixou a espada cair, limpando as mãos contra as próprias calças e então franzindo um pouco as sobrancelhas ao examinar a si mesma.

“E eu amava essas roupas,” lamentou, e foi impossível a Selena evitar erguer as sobrancelhas enquanto a Senhora Alexis dos Treze Servos se abaixava para salvar a vida de seu companheiro.

Notas finais
espero que tenham gostado e nos vemos nos comentários ♥ e bom feriado ♥ ♥ ♥