Shiver
69 Capítulo 69
Notas iniciais
Alguns dias depois do festival do solstício de inverno, nevava realmente. Selena vestia um dos primeiros vestidos que Morzan lhe dera, ainda naquela primeira semana em Gil’ead — branco, com os punhos forrados com pele cinzenta, justo e confortável; não particularmente majestoso, mas elegante de uma maneira mais simples e mais humilde que era, às vezes, também muito apropriada. Ela se sentia protegida dentro dele, e talvez um pouco mais perigosa também.
Suas luvas e capa cinza combinavam, e Selena tinha um braço entrelaçado ao de Morzan enquanto andavam ao longo do caminho de pedras de um dos jardins do castelo de Urû’baen — uma fonte congelada, neve amontoada nos cantos e junto às muretas, e ela estivera certa a respeito de quão mágica a cidade se tornaria no inverno —, ela se mantendo em silêncio ao ouvir, ele conversando em voz baixa com o rei.
O fato de o rei estar parado tão próximo ainda lhe era estranho, mesmo depois de tanto tempo, e a sensação vinha mais aguda quando estavam em tão pouca companhia, em vez de em banquetes enormes. Galbatorix usava preto, como sempre, a coroa de ouro avermelhado alta sobre sua cabeça, e eles discutiam pormenores. Um ataque dos Varden no sul, a disputa por terra entre dois nobres ambiciosos no norte.
Selena estivera ouvindo com apenas metade da atenção, às vezes permitindo que seus pensamentos vagassem sem rumo, propelidos por um detalhe curto em um comentário longo. Mas então o rei mencionou o governador de Ceunon e um de seus pedidos, e como Fäelan quem o trouxera a ele, e ela sentiu Morzan se endireitar um quase nada ao seu lado, de repente impossivelmente atento.
“E planeja conceder seu desejo, Senhor?” ele perguntou, e talvez não houvesse sido realmente sutil; talvez Galbatorix simplesmente o reconhecesse demasiadamente bem.
O rei voltou os olhos escuros para o primeiro de seus Treze Servos, avaliativo e frio. “Foi um pedido razoável,” determinou, e Selena às vezes o achava cruel, mesmo quando com a compostura perfeita, mesmo quando tão aparentemente justo. Era uma impressão sutil que lhe vinha abstrata, mas que ela era incapaz de ignorar, e precisou se conter para não engolir em seco quando viu o brilho nos olhos de Galbatorix mudar um quase nada, apresentando um quê de diversão. “Acredita que deveria recusá-lo, e apenas por conta do mensageiro?”
Ela não achava que seria algum dia capaz de lidar com ele.
“Não me atreveria a lhe pedir nada do tipo, Senhor,” foi a resposta de Morzan, no entanto, macia e tranquila. “Por mais que as táticas de Fäelan não me agradem.”
Galbatorix chegou a rir baixinho. “Não particularmente te incomodam?”
“Não são nada com que eu não seja capaz de lidar.” Morzan fez uma pausa curta, significativa. “Suponho que ele tenha voltado de seu exílio voluntário com um objetivo claro em mente?”
“Pensei que soubesse,” veio a resposta. Era impossível que Selena evitasse se lembrar das palavras de Aleifar em Feinster, e ela aguardou que o rei continuasse a falar com certa apreensão. “E já há algum tempo. Não foi a Senhora Selena,” e ele olhou para ela por um instante mínimo, “quem supôs, tão perspicaz, que Lorde Fäelan quer o norte para que depois possa ter os elfos?”
Morzan moveu o braço para que pudesse afagar a mão de Selena em um carinho distraído, mas continuou focado em Galbatorix. “Selena é inteligente assim,” disse, o elogio breve. “E sim, imaginávamos que fosse o caso. Como exatamente ele planeja fazê-lo não está tão claro.”
O rei sorriu, e então se dirigiu diretamente a ela: “E o que foi exatamente que você supôs, Senhora Selena?”
Parecia demais com um teste, e ela engoliu em seco. “Não conheço o suficiente para adivinhar quaisquer detalhes, Vossa Majestade.” Hesitou um momento. “Mas que Lorde Fäelan gostaria de construir um relacionamento mais próximo com os governantes do norte, com as cidades e seu povo, e também com os capitães e generais do exército, de modo a conquistar sua boa disposição e lealdade quando fosse a hora de agir, e, bem, invadir as terras élficas. Entendo que não seja algo possível a curto prazo.”
“Acredita que ele pretende construir as bases sobre as quais agir no futuro, então? Seria eficiente em sua simplicidade, é claro. E não são suposições erradas, embora não inteiramente corretas tampouco.” E ele poderia ter elaborado, poderia ter revelado uma peça ou um segredo que lhes fosse ajudar, mas não parecia inclinado a fazê-lo. Voltou-se para Morzan de novo. “Se fôssemos de fato invadir Du Weldenvarden e conquistar os elfos, não vejo como governá-los lhe seria uma perspectiva agradável.”
“E não é,” Morzan concordou, sem dificuldades. “A perspectiva de tê-los sob o comando de Fäelan é ainda pior.”
“Se ele estivesse lá,” Galbatorix apontou, os olhos escuros repletos de uma diversão perversa, talvez argumentando um ponto em que não acreditava de fato, “não estaria aqui.”
“Ele se divertiria pelo tempo que levasse para domar todo o seu povo, tenho certeza, mas então se entediaria e voltaria, e com aliados perigosos desta vez.” Ele soava quase desdenhoso. “Muito pior do punhado de nobres que se acreditam sem opções e se voltam para ele agora.”
“É verdade,” o rei disse, “que em sua maioria meus nobres ainda parecem preferir você como aliado.”
“Não há nada que Fäelan possa fazer que eu não seja capaz de fazer melhor,” Morzan afirmou. E fora com base naquilo que eles visitaram cada uma das principais cidades e conversaram com cada um de seus governantes, Selena sabia. Tinham uma vantagem clara, talvez apenas um pouco manchada pela incerteza dos planos reais de Fäelan. “Nada que ele possa lhes dar que eu não possa também.”
“Não.” Galbatorix encontrou o olhar de seu servo favorito. “Mas existem coisas que você não está disposto a fazer.” Ele dispensou o começo da resposta de Morzan com uma mão. “Por achar que estão abaixo de si, por não acreditar que precise, porque acha que incomodaria seus aliados mais valiosos. E Fäelan pode estar trabalhando apenas com os mais desesperados e necessitados, mas é possível construir algo sólido em cima de muito pouco. Ele é engenhoso.”
Morzan tinha os lábios apertados em desagrado. “Nunca neguei que Fäelan fosse um adversário digno—”
“Talvez um com que preferisse não precisar lidar?” O rei riu de novo, tão suave. “E um elfo, além de tudo. Sabe como eles são, tão capazes de elaborar um plano longo e segui-lo até o fim; é diferente de ter alianças de poder bem montadas e prontas para serem utilizadas quando necessário, mas agir de momento a momento com não mais que um objetivo vago a ser atingido.”
Selena abaixou os olhos para o chão de pedras cinzentas tão claras, para a neve nos cantos. Viu, no limite de sua visão, Morzan abrir e fechar o punho no que poderia ser um movimento nervoso ou frustrado, e franziu as sobrancelhas.
“Tudo o que tenho foi cultivado com cuidado ao longo de décadas,” ele acabou por devolver. “E rendem bons resultados.”
“Os melhores resultados, se formos honestos,” Galbatorix rendeu-se, sorrindo. “Mas não se permita pensar que Lorde Fäelan irá agir da mesma forma. Não estou prestes a trocá-lo por ele, meu amigo — você é mais confiável, mais prestativo, mais capaz em diversos aspectos —, mas não posso tampouco negar a ele a oportunidade de se provar. E você ainda detém a vantagem mesmo nessa disputa pequena que estão travando, mas eu ainda recomendaria que formulasse um plano de ação concreto.”
E Morzan apenas inclinou a cabeça, aceitando o conselho em silêncio.
“Você tem os recursos,” o rei disse. “Servos de lealdade e competência invejáveis, desde o capitão de sua guarda à Senhora Selena, é claro.” Ele olhou para ela por um instante mais uma vez, e era desconcertante. “Têm o poder e as habilidades necessárias, e eu não negaria que as usa bem. Mas dentre seus aliados...”
Talvez aquele fosse todo o ponto, Selena percebeu, vendo o desgosto no rosto de Morzan e subitamente entendendo. Coisas que ele considerava abaixo de si, como ajudar uma família que queria voltar à corte e para isso lhe enviara um de seus filhos como um guarda, ou prometer proteger sempre o filho de uma aliada que não era nem de longe tão competente quanto a mãe.
“Aleifar é imprevisível, Senhor,” foi o que Morzan respondeu, e ela percebera aquilo também. A facilidade com que ele tomara o lado de Alexis quando ela insistira em não utilizar o talento do irmão, e o outro Renegado imensamente incomodado por isso. “Não é confiável, e Alexis...”
“Não se destaca em muita coisa.”
“Ela é perfeitamente competente em diversas áreas,” Morzan replicou. “E estável, o que vale mais do que os talentos de Aleifar, impressionantes como são, uma vez que ele não parece ser capaz de se conter e se portar de forma minimamente responsável.”
Galbatorix riu baixo. “Eu sei que é o que você pensa.” Uma pausa, e então, “Não te darei ordens sobre como se portar a respeito de seus assuntos pessoais, Lorde Morzan, e certamente não ditarei seus próximos passos. Mas recomendo que considere suas opções com cuidado.”
Morzan desviara os olhos, pensativo, e se limitou a assentir. “Eu aprecio o conselho, Senhor.”
O rei apenas sorriu. “Pense sobre isso,” disse mais uma vez, e, com isso se afastou, entrando em um corredor aberto do palácio e deixando Selena e Morzan sozinhos nos jardins.
Selena não se incomodou quando ele soltou seu braço, apoiando as mãos sobre a mureta que os separava do corredor e fechando os olhos por um momento. Aguardou, cruzando os braços sobre a barriga e mordendo o interior da bochecha ao observá-lo.
Engoliu em seco quando Morzan encontrou seu olhar, mas ele apenas lhe ofereceu um sorriso torto. “O que achou?”
Ela se aproximou dele, hesitante, um passo e depois o outro. “Que o rei acredita que precisamos mudar nossa estratégia,” respondeu, devagar. “Mas se você não confia em Aleifar...”
Morzan só sacudiu a cabeça. “Não posso negar que ele tenha habilidades valiosas, mas o risco de usá-las contra Fäelan, ou mesmo Kialandí ou Formora, é grande demais. E alienaria Alexis, se não mais nada.” Pareceu pensar. “Mas talvez pudéssemos usá-lo de outra forma.”
Ela respirou fundo uma vez, e assentiu. “O que faremos, então?”
“Amanhã nos reuniremos com os gêmeos,” Morzan respondeu, no que talvez fosse uma decisão súbita e impulsiva, os olhos díspares brilhando muito de leve. “E então veremos.”
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