Shiver
64 Capítulo 64
Notas iniciais

Trabalhar com Aleifar — Selena se recusava a até mesmo pensar que estivesse trabalhando para ele, por mais que soubesse que só poderia desafiá-lo até certo ponto — não era nada como trabalhar para Morzan. Com Morzan, ela se sentia algo como sua cúmplice, por mais que fosse ele tomando as decisões, e recebia como recompensa o brilho esperto em seus olhos díspares ou o começo de um sorriso em seus lábios cheios. Com Aleifar, ela se sentia insegura todo o tempo, e por vezes frustrada ou irritada.
Naquela manhã, o Cavaleiro estava usando calças claras e um gibão cinzento decorado com fios de ouro e prata, as mangas de sua camisa muito brancas por baixo. Ele esperava por Selena junto à entrada dos alojamentos da guarda da cidade, os braços cruzados e os olhos verdes entediados, e observou ela e Adam se aproximarem sem qualquer mudança em sua expressão.
“Espero que esteja bem preparada,” disse, sem cumprimentá-la apropriadamente. “Não quero perder mais tempo com isso do que preciso.”
Selena se conteve para não respirar fundo. “Lorde Aleifar.”
Ela mesma usava roupas mais discretas: um vestido de couro de saia rodada para que ela pudesse se mover com maior facilidade, botas de cavalgada, o colar de rubi e diamante que a ligava a Morzan bem escondido sob suas vestes. Seus cabelos estavam presos em uma trança simples, e a única coisa particularmente chamativa em sua aparência era a espada em sua cintura. Ela não se portava como a Senhora Selena, porém, e chamar a atenção não seria um problema: queria que a Mão Negra de Morzan passasse a ser mais conhecida.
Só talvez não por estar andando com Aleifar.
O Renegado ergueu um braço, a convidando para tomar a dianteira, e entrou no alojamento atrás dela. Eles fizeram seu caminho pelos corredores juntos, em direção a sala do capitão da guarda da cidade, onde ele os esperava na companhia também de um soldado do exército do rei com uma pluma no topo do elmo prateado, e Aleifar permitiu também que ela entrasse no estúdio pequeno antes dele.
O capitão de Lorana tinha talvez sessenta anos, com cabelos grisalhos e um físico que parecia um tanto frágil demais para o trabalho; se levantou de imediato ao vê-los, as mãos atrás das costas, e inclinou a cabeça em respeito. “Lorde Aleifar.” Olhou para ela. “Senhora—”
Foi Aleifar quem ergueu um dedo para impedi-lo de continuar. “Se conhece o nome dela, sugiro que o esqueça. No momento ela está aqui apenas como a Mão Negra, e não seria inteligente de sua parte confundir seus papéis.” Ele ofereceu um sorriso para Selena que era um tanto zombeteiro, mas cujo alvo não parecia ser ela; pelo contrário, era como se compartilhassem de alguma piada inteira. “Se achasse que sabe demais, ela até mesmo poderia ser levada a acreditar que precisaria silenciá-lo de uma forma mais... permanente.”
Selena talvez devesse estar grata pela interrupção, mas ao invés disso se sentia levemente desconcertada. Ocorria-lhe que o guarda servia a Lorana, e ela provavelmente era mais gentil com seus criados do que Aleifar jamais seria — embora Selena não soubesse, na verdade, como o Cavaleiro tratava os seus próprios.
“De fato,” disse, erguendo o queixo e endurecendo o olhar. “E minha própria identidade não tem importância no momento. Lorde Aleifar e eu estamos aqui para ajudar a Senhora Lorana a solucionar o problema dos ataques que soubemos que seus homens vêm sofrendo, e, para isso, precisamos que respondam algumas perguntas.”
O soldado reagiu melhor àquilo tudo do que o capitão da guarda, mas ambos se mostraram dispostos a cooperar e tentar relembrar todos os detalhes que pudessem ajudar. Os ataques haviam sido mais frequentes na região nordeste de Feinster, e eram sempre contra grupos pequenos de soldados ou guardas: vigias solitários eram os alvos mais comuns.
Aleifar deixou que Selena fizesse a maior parte das perguntas. Observava com a cabeça levemente inclinada para um lado, como se curioso, e ela imaginava que talvez estivesse também tentando captar informações diretamente das mentes dos dois homens (que ele fosse capaz de perceber mesmo os poucos pensamentos soltos de quem havia sido treinado para proteger sua mente era sempre enervante, e mais ainda quando Selena se lembrava que ele sabia sussurrar sugestões discretas também, e plantar ecos de suas próprias ideias nas consciências dos outros). Ele interrompia para pedir esclarecimento sobre apenas um ponto ou outro, e pareceu ele mesmo satisfeito ao deixarem o alojamento para trás.
“Morzan a treinou bem,” comentou, mesmo que um tanto seco.
Ela lhe lançou um olhar desconfiado, sem saber muito bem o que fazer do que se parecera muito com um elogio. Adam os seguia de perto, mas Selena não ousaria recorrer a ele em momentos como aquele. “Sim, ele soube perceber e refinar meus maiores talentos.” Quando Aleifar apenas riu pelo nariz, quase como se achasse graça, Selena ousou perguntar: “Tem notícias da corte, meu senhor?”
“Você não saberia?” Desta vez, Aleifar riu de verdade. “Ou Morzan não lhe conta muito nem mesmo sobre isso?” Ele dispensou a resposta dela com um gesto despreocupado da mão. “Nada empolgante está acontecendo. Está ficando cada vez mais claro quais dos nobres estão mais tentados a nos ajudar e quais pendem para o lado de Fäelan, e é claro que a maior parte deles está disposta a mudar de ideia caso as circunstâncias sejam... propícias. E temos uma noção melhor dos planos dele, também, mas ouvi dizer que isso é em boa parte graças a você. Ou não?”
Selena hesitou. “Eu apenas supus que ele talvez estivesse mais interessado em estar entre elfos do que entre humanos, e isso baseado no que sei sobre ele. Não é muito, admito.” Ela encolheu os ombros. “Morzan pareceu achar plausível que Fäelan esteja interessado em tomar as terras élficas, mas é apenas uma suposição. Poderia estar errada.”
Aleifar sacudiu a cabeça. “Não deve estar errada. Incompleta, talvez; é tudo ainda muito vago, mas bastante alinhado com a história de Fäelan. Ele nos ajudou a derrubar os Cavaleiros porque eles o entediavam, você sabe, mas parece que nossa pequena corte humana é pior ainda. Foi por isso que partiu e se enfurnou em seu castelo, alguns anos atrás.” O sorriso de Aleifar misturava ressentimento e diversão, e era um tanto desdenhoso. “Agora está de volta, e se divertiria mais entre os elfos do que entre nós. Principalmente porque eles não o aceitariam nunca, e Fäelan precisaria se esquivar das mais diversas tentativas de assassinato ao tentar governá-los. Seria, no mínimo, um passatempo mais duradouro.”
“Exceto que ele não tem como tomar a floresta dos elfos sem Galbatorix,” Selena contrapôs, porque dizer aquilo demonstrava que um pouco do que ela própria sabia, e da confiança que Morzan tinha dela. Não gostava que Aleifar acreditasse que ele não lhe dizia nada. “E o rei não tem planos para conquistar o resto da Alagaësia, ao menos não agora. Então Fäelan voltou para fazer o quê? Preparar a invasão com considerável antecedência? Convencer o rei a agir antes?”
Aleifar só sorriu como se achasse graça. Se aproximou da fonte no centro do pátio onde estavam, apoiando uma bota sobre a beirada de pedra e se inclinando para observar a água.
“Para se colocar em uma posição que o permita colher os frutos dessa invasão quando ela vier, é claro. Ele precisa se certificar de que será escolhido para governar sobre os elfos ou para supervisionar o governo de Galbatorix sobre os elfos, e não é como se qualquer outro de nós fosse simplesmente deixá-lo fazer isso. Não, nas circunstâncias normais, Morzan provavelmente ganharia o posto.”
Selena cruzou os braços. “Morzan odeia elfos.”
“Ele poderia sempre aproveitar a oportunidade para fazê-los sofrer.” Aleifar deu de ombros. “Eu conheço Morzan desde que meu dragão nasceu para mim, Selena, e muito melhor do que você, então posso supor que conheça melhor também suas ambições. Se Galbatorix precisasse de alguém para controlar seus mais perigosos inimigos, Morzan seria o primeiro a se voluntariar.”
“E provavelmente seria o escolhido, também,” ela devolveu, impassível. Já se irritava com aquela conversa. “Ele é o favorito do rei dentre todos vocês.”
O Renegado só riu.
“Veremos.” Ele tirou o pé da beirada da fonte, já se afastando um pouco. “Morzan logo vai perguntar a Galbatorix sobre as intenções de Fäelan, e então saberemos quanto exatamente o rei está disposto a lhe contar. Certamente não disse a Morzan que Fäelan estava prestes a voltar para a capital, disse?”
Selena não se deixou perturbar por aquilo. “Certamente tinha seus motivos.”
“Sim, ele gosta de nos ver competindo.” Aleifar sorriu para ela. “Morzan não te confessou sobre isso, confessou? Tampouco imagino que tenha te dito que Fäelan não pode querer atacar os elfos agora, porque para ter sucesso precisa antes que Galbatorix consiga completar seu projeto atual. Existe muito que você não sabe, Senhora Selena.”
Ela não dignificou aquilo com uma resposta; se Aleifar queria repetir a conversa anterior dos dois, poderia fazer isso sozinho. O olhou nos olhos, porém, e ergueu ao queixo ao perguntar, “O que vamos fazer sobre os rebeldes?”
“Podemos nos separar, por hora,” ele respondeu, sem parecer se incomodar com a mudança de assunto. “Você e seu guarda podem ir ao norte da cidade tentar descobrir onde os rebeldes estão se escondendo, e eu farei o mesmo por... outros meios. De uma forma ou de outra, imagino que teremos uma resposta pelo anoitecer, e já poderemos solucionar esse problema de uma vez por todas amanhã. Sinta-se livre para ir correndo contar isso a Morzan, também. Ele pode não te dizer as coisas, mas tenho certeza que você o informa sobre todos os seus pequenos progressos.”
Com isso, Aleifar se afastou, os deixando sozinhos no pátio. Selena o observou ir com a cara fechada, insistindo consigo mesma que ele não estava completamente correto: ela talvez falasse com Morzan todas as noites, mas porque queria, e ele concordara de imediato em esperar vê-la pessoalmente para ouvir todos os detalhes sobre a conversa de Selena com o outro Renegado. Morzan estava se mostrando perfeitamente compreensivo, e provavelmente estaria também disposto a responder suas perguntas.
Trocou um olhar com Adam. “Não é possível que ele seja assim sempre tão desagradável.”
O guarda riu, se aproximando mais de Selena e da fonte. “Receio que seja, minha senhora. Lorde Aleifar não é exatamente conhecido por sua gentileza.”
“Deve ser conhecido por ser absolutamente insuportável, tenho certeza.” Ela sacudiu a cabeça, e sua própria risada foi um tanto frustrada. “Faz alguma ideia de sobre o quê ele estava falando?”
“Que parte, minha senhora?” Adam só sacudiu a cabeça. “Ele provavelmente só está tentando criar problemas entre você e Lorde Morzan. Sei que já tentou fazer isso com Jaime, também, mas foi antes de eu entrar na guarda.”
“Absolutamente insuportável,” Selena repetiu, em conclusão. Ela se perguntava, porém, se Aleifar tentava criar problemas para os companheiros de Morzan por um motivo, e se não revelava um pouco de suas próprias preocupações com aquelas insinuações inconvenientes. Talvez, ela pensou, tivesse algo a ver com sua irmã. “Bem, pelo menos não teremos que lidar com ele por mais muito tempo.”
Adam sorriu para aquilo, se divertindo com o comentário, e era incrível como falar com ele por alguns instantes apenas já ajudava Selena a relaxar. “Vamos tentar descobrir mais sobre os rebeldes, então?”
“Vamos,” Selena confirmou. “Se estão mesmo na parte norte da cidade, com certeza poderemos aproveitar também das bancas de tortas e doces que têm por lá, e tirar algo de bom dessa bagunça toda.”
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