Shiver

53 Capítulo 53


Notas iniciais
boa leitura, shiver babes!!

Quando Emma a acordou na manhã seguinte, Morzan não estava em lugar algum à vista. Selena se sentou na cama devagar, correndo uma mão pelos cabelos castanhos e se sentindo muito cansada; ela demorara a dormir, passando horas deitada encarando o teto, esperando em vão pelo momento que ele voltasse escada abaixo, e acabara por adormecer ainda sozinha.

Selena franziu a testa para sua criada, sem saber o que fazer consigo mesma. “Já está tarde?”

“Não, minha senhora,” Emma respondeu, cuidadosa, seus olhos âmbar gentis e atentos; seu olhar parou nas mãos de Selena por um momento muito breve. “Ainda está cedo, mas Lorde Morzan me pediu para acordá-la, e para te ajudar a se arrumar para o desjejum com Lorde Aleifar e a Senhora Alexis.”

Selena assentiu, correndo uma mão pelo rosto mais uma vez. “E onde Morzan está agora?”

“Em seu estúdio, minha senhora, conversando com Lorde Enduriel.” Ela pareceu hesitar um instante, como se quisesse perguntar alguma coisa, mas acabou por se conter. “Devo trazer suas vestes para cá, ou prefere descer para se trocar em seu quarto?”

“Aqui está bom.” Selena olhou em volta, evitando um suspiro, e o quarto de Morzan, pelo menos, parecia o mesmo de sempre. “Traga o vestido azul claro, com as pérolas,” pediu, tocando distraída o pingente de rubi enfeitiçado em seu pescoço. “E joias combinando.”

A garota se afastou com uma mesura, a deixando só com seus pensamentos. Não era estranho, Selena precisava admitir, acordar para encontrar Morzan já ocupado com outras coisas, e principalmente em um momento crucial como aquele, mas ela não pudera afastar a decepção que era não tê-lo ali disposto a conversar sobre o que acontecera na noite anterior. Ele lhe devia uma explicação, ela pensava, mesmo que não quisesse entrar em detalhes; lhe devia um pouco de si mesmo, uma vez que tinha tudo dela.

Tocou seu pulso, traçando com a ponta dos dedos as marcas em sua pele onde ele a segurara, montando em sua mente um feitiço simples de cura só para desistir com um suspiro fraco, deixando a própria mão cair e se recostando contra os travesseiros enquanto esperava Emma voltar. Manteve-se no mesmo silêncio pensativo ao se vestir, ciente de que estava se provando péssima companhia naquele começo de manhã, e deixou o pingente de rubi que a ligava à Morzan de lado ao trocá-lo por um colar de pérolas muito pequenas e uma única turmalina em formato de gota.

Quando Emma terminou de arrumar seu cabelo, Selena agradeceu com um sorriso e a voz baixa, e saiu do quarto para descer devagar as escadas da torre, ainda massageando o próprio pulso de maneira distraída, muito embora a manga comprida de seu vestido cobrisse o machucado. Parou ao alcançar o andar do estúdio de Morzan, surpresa ao ver, além dos dois guardas parados em seus lugares habituais de cada lado da porta de madeira escura, Jaime recostado contra a parede, conversando em voz baixa com Dorian.

O capitão da guarda de Morzan ria baixo de algo, mas ergueu os olhos para ela ao ouvi-la descer, e inclinou a cabeça em cumprimento. “Minha senhora.” Se estava preocupado com a volta de Fäelan, não deixava transparecer.

Selena lhe ofereceu um sorriso pequeno. “Jaime.” Ergueu também o queixo para Dorian, sem saber o que fazer de sua presença ali. Lançou um olhar rápido para a porta do estúdio, e perguntou para Jaime, “Acha que eu posso entrar?”

Ele encolheu os ombros. “Não vejo porque não poderia.” Se adiantou para bater com os nós de dois dedos na madeira, esperou um momento, e abriu a porta para ela, dando um passo para o lado para deixá-la passar.

O interior do estúdio não mudara em nada: uma parede coberta por livros, a grande escrivaninha de madeira, Morzan sentado de costas para a janela. Enduriel se sentava em uma das cadeiras do outro lado da mesa, vestindo uma túnica em seu tom habitual de azul escuro, os cabelos negros caindo compridos e lisos por suas costas. Ele voltou os olhos distraídos para Selena, a considerando com calma, e ela lhe fez uma mesura rápida antes de se voltar para Morzan.

Não havia nada em seu rosto ou sua postura que sugerisse que tivera uma noite perturbada; se Selena esperara o encontrar mais pálido, com olheiras escuras ou parecendo cansado, se enganara completamente. Seus cabelos pareciam tão macios quanto sempre, seu rosto altivo, e quando ele ergueu os olhos díspares para ela, tão devagar, eles mantinham seu brilho inteligente. A hesitação muito breve poderia ter sido fruto de sua imaginação, e Selena se encontrou engolindo em seco, incerta.

Se ele parecia tão completamente bem quando ela estava pronta para procurar por sinais provando o contrário, seria possível que noites como aquela fossem frequentes? Quanto dele ela vinha perdendo? Seria a imagem de saúde perfeita de Morzan com que ela estava acostumava já tingida por pistas de desgaste em que ela simplesmente nunca reparara?

“Eu...” Selena engoliu em seco mais uma vez, se repreendendo pela hesitação frente ao elfo. Já não tinha aprendido uma postura mais confiante? “Eu espero não estar interrompendo.”

“De maneira alguma.” Morzan sorriu para ela, lhe estendendo uma mão para chamá-la para seu lado. “Nós já estávamos terminando,” disse, a observando dar a volta na escrivaninha e passando um braço por sua cintura quando ela o alcançou. “Enduriel estava me contando sobre seus planos para os próximos meses, e sua posição em frente aos acontecimentos recentes.”

Enduriel assentiu devagar. “Apenas para deixar tudo claro,” disse, se levantando, as pontas dos dedos tocando o tampo da mesa. “Eu não iria querer qualquer engano ou informação errada se espalhando pela corte. Foi um prazer, Lorde Morzan. Senhora Selena.” Ele inclinou a cabeça para eles mais uma vez, e então se retirou em passos graciosos, fechando novamente a porta atrás de si.

Selena o observou ir com as sobrancelhas franzidas, sem saber o que pensar sobre nada daquilo. Ainda sentia que não processara todos os acontecimentos da noite anterior, e mais um dia cercada pelos Renegados prometia lhe dar muito mais em que pensar. “Eu...” Começou de novo, e então parou. “O que ele queria?”

Morzan não estivera esperando uma visita de Enduriel, ela tinha quase certeza.

“Me dizer, em termos muito claros, que não tem intenção alguma de escolher um lado em minha disputa com Fäelan. Que planeja se abster completamente, e que eu não devo esperar qualquer ajuda de sua parte.” Estranhamente, ele sorria. “Vai informar algo parecido a Fäelan, imagino, se já não o tiver feito.”

“Mas...” Selena deixou a voz morrer. Tivera uma impressão diferente quando falar com Enduriel, mas Morzan não parecia preocupado, e não era sobre isso que ela queria perguntar. “Morzan...”

Ele ergueu o rosto para ela, os olhos díspares brilhando, tranquilo como se aquela fosse uma manhã normal. “Você dormiu bem?”

“Eu...” Ela começou, despreparada para a pergunta, e se calou de novo, confusa. “Morzan, ontem à noite...” A mudança no rosto de Morzan foi mínima: um ligeiro apertar dos lábios, os olhos endurecendo quase imperceptivelmente, e não era tanto que ele se fechava para ela quanto que lhe oferecia um aviso muito claro, cada linha de sua expressão lhe dizendo que havia um assunto em que ela não deveria tocar.

Selena respirou fundo, tomando coragem; ele lhe devia alguma explicação. “Você—”

“É uma pena,” Morzan a interrompeu, como se ela estivesse tentando formular alguma espécie de resposta negativa para sua pergunta; o aviso ainda mais claro em seus olhos. Ele se ergueu. “Alexis e Aleifar devem estar chegando para discutir nossos próximos passos, e não devemos deixá-los esperando. Eu imagino que tudo ficará claro para você então, mas se tiver alguma pergunta sobre Fäelan que queira fazer longe deles, agora é o momento.”

Ela o encarou de volta, insegura, tocando distraidamente o próprio pulso. “Não, eu... Não.”

Os olhos de Morzan se suavizaram, e ele assentiu. “Isso é bom. Algo mais?”

Selena sacudiu a cabeça uma vez, em silêncio. Permitiu que Morzan a guiasse para fora do estúdio, um braço ao redor de sua cintura, e mal reparou que Jaime já não estava mais parado no corredor; encostou a cabeça no ombro de Morzan, distraída enquanto esperavam pelos gêmeos, e não falou muito durante a manhã tampouco.

As horas passaram rápido e também lentamente; Morzan não pedira nenhuma das suas tortas preferidas, então ela se ocupou comendo mordidas pequenas de biscoitos amanteigados, às vezes um pedaço de pão com azeite ou queijo.

Alexis mal comeu, passando a maior parte da refeição com os braços cruzados sobre a barriga, mordendo o lábio enquanto ouvia os outros falarem. Aleifar se recostara contra o sofá, um braço esticado sobre o encosto, arrogante e pretensamente confiante. Eles apontaram seus maiores receios: que Fäelan era o mais velho dentre os Treze e o mais experiente, e que não sabiam quais seriam seus aliados, depois de mais de dez anos sem vê-lo na corte. Discutiram os nobres mais prováveis a se juntar a ele em Urû’baen, e também nas outras grandes cidades; quais aliados ele teria entre os mercadores espalhados pelo Império, entre as fileiras do exército do rei, e nas classes mais baixas. Questionaram quais seriam seus objetivos, além de maior poder e proximidade ao rei, e o que ele planejaria fazer depois.

E, finalmente, debateram as melhores maneiras de frustrar seus planos.

Morzan se comprometeu a fazer viagens rápidas e visitar os governadores das outras cidades — e, também, a mandar Selena em seu nome para debater com nobres menores —, enquanto Aleifar e Alexis trabalhariam em conquistar e descobrir as lealdades na corte e no resto de Urû’baen.

E então, com as sobrancelhas claras só um pouco franzidas e os olhos verdes pensativos, Aleifar disse, “Posso fazer mais.” Ele olhou para sua irmã e depois para Morzan. “Eu posso me manter atento ao que passa pelas mentes dos próprios elfos; se eu manter a distância e a leveza certas, eles não perceberão o que estou fazendo. Se for necessário, posso até mesmo plantar ideias e começos de pensamentos em suas mentes.”

Morzan parecia considerar a ideia, mas Alexis já sacudia a cabeça. “Não,” ela insistiu, definitiva. “É muito perigoso. Se eles perceberem o que você está fazendo...”

“Não vão perceber,” Aleifar replicou, calmo. “Você precisa confiar mais em mim, Alexis. Foi por isso que Galbatorix quis a nós dois, e isso foi quase um século atrás; eu melhorei desde então. Eu era capaz antigamente, e certamente sou capaz agora.”

Selena os observava em silêncio, prestando mais atenção agora do que momentos antes, quando discutiam quais nobres prometiam aliados mais prováveis, e percebeu a veemência com que Alexis sacudiu a cabeça. “Não,” ela repetiu. “Comigo e com Morzan tenho certeza de que você é capaz, até mesmo com Kialandí e Formora, mas Fäelan... Aleifar, ele não é—”

“Ele é só mais um elfo. Antigo, talvez, e poderoso, mas apenas um elfo.” Ele encarou a irmã. “Lexi,” disse, usando um apelido que Selena não ouvira antes. “Eu consigo.”

“É muito perigoso.”

Aleifar se irritou. “O que é perigoso é deixá-los por seus planos em prática despercebidos.”

Alexis sacudia a cabeça, os olhos esmeralda brilhando de raiva ou frustração, e parecia prestes a responder quando Morzan interrompeu. “Eu acho,” ele disse, devagar. “Que Aleifar tem razão, mas a prática seria sim um risco. Talvez devêssemos deixá-la como uma última opção.”

O outro Cavaleiro riu pelo nariz, desdenhoso. “Como queira. Mas não me culpem se formos pegos de surpresa por alguma intriga mesquinha.”

Morzan sacudiu a cabeça como se estivesse exasperado, Alexis ainda parecia irritadiça, mas devagar voltaram a discutir estratégias menores, possíveis aliados entre os mercadores e comerciantes, e quaisquer ameaças pudessem prever. Conforme a conversa se voltava mais uma vez para tópicos pequenos, Selena voltou a se afundar no sofá, distraída e sem sentir qualquer motivação para acompanhar de perto o que os três Renegados diziam.

Notas finais
gostaram? amo vocês ♥