Shiver

33 Capítulo 33


Notas iniciais
Amores da minha vida, peço mil desculpas por toda essa demora. Sei que estou atrasada, e toda a minha esperança é compensar por isso com essa atualização tripla. Ciça, feliz aniversário de novo, e é claro que esse é pra você. Te amo demais, demais, demais ♥

A elfa tinha longos cabelos ruivos que caiam em ondas, soltos, até sua cintura, e olhos verdes que faiscavam perigosos na luz das lanternas. Usava roupas masculinas: calças escuras muito justas sobre suas pernas compridas, um gibão claro e ricamente bordado que alcançava suas coxas, e altas botas de cavalgada, tudo parecendo elegante e gracioso em seu corpo. Inclinou o rosto bonito para o lado, estudando Morzan quase que com curiosidade, e nem mesmo olhou na direção de Selena. Ao seu lado, vestindo inteiramente de cinza, as orelhas pontudas partindo seus cabelos claros, estava o elfo que se afastara do trono quando eles entraram no salão.

Morzan sorriu.

“Minha querida Formora,” e se curvou para beijar sua mão. “Você sabe que eu nunca o teria dito se soubesse que você estava ouvindo.” Olhou para o elfo de olhos cinzentos. “Kialandí.”

Kialandí parecia entediado. Examinou Morzan por um instante, se demorou um pouco mais em Selena, e ergueu o queixo em um cumprimento curto. “Morzan.” Seu sorriso foi frio. “Fiquei surpreso ao ouvir que voltou tão cedo. Tive a impressão que demoraria mais, e principalmente em uma missão tão importante.”

“É mesmo?” Morzan puxou Selena mais para perto de si, um braço ao redor de sua cintura, e ela sentiu seus pensamentos roçarem contra sua mente. “Eu já a achei demorada em demasiado.”

Formora ergueu as sobrancelhas delicadas um quase nada. “Mas você esteve ocupado, é claro, e é verdade que o tempo é diferente para vocês humanos, com suas vidas tão curtas.” Seus olhos se voltaram para Selena muito brevemente. “Foi um tempo bem aproveitado, eu espero?”

“É claro.”

“É claro,” ela concordou, a voz melodiosa macia. “E o Império foi livrado de vários rebeldes inconvenientes, espiões e agitadores, mas não suponho que tenha capturado algum de nossos inimigos mais perigosos? Teríamos ouvido algo se Brom não estivesse mais entre os vivos, para citar um único exemplo, e todos sabemos que o verdadeiro perigo nunca virá de humano algum.”

Seu tom fora bastante educado, mas havia deboche em suas palavras. Selena franziu um pouco a testa, entendendo que Formora sugeria que o trabalho que Morzan tivera nas últimas semanas fora inútil — e ela confiava que não, mas a mera ideia de que tudo pudesse ter sido em vão lhe gelava o sangue —, mesmo que não muito mais do que ela falara. Queria perguntar a Morzan, e teria estendido seus pensamentos a ele se ele não a houvesse alertado a tomar ainda mais cuidado com sua mente quando perto do resto dos Treze.

Ele continuava sorrindo, mas algo perigoso passou por seus olhos díspares. “Certamente não tivemos problemas com elfos já há algumas décadas, não é mesmo? Ou com os anões, e os urgals certamente não são uma ameaça.” Ele encolheu os ombros, como se o assunto não tivesse importância. “Nossos principais inimigos não estão escondidos em nossas cidades, ou tiveram o bom senso de partir antes que eu as visitasse. Isso eu posso garantir.”

“E é reconfortante saber.” Kialandí lançou um olhar distraído pelo salão. “Você deve estar ansioso para se reencontrar com os seus, eu imagino, e não iremos impedi-lo.”

Formora abriu também um sorriso, e seus dentes eram retos e muito brancos. “Sim. É bom tê-lo de volta.” Não parecia sincera. Ela voltou os olhos verdes para Selena, finalmente a observando com maior cuidado, se não interesse, e inclinou a cabeça discretamente em sua direção. “Senhora Selena, foi um prazer.”

“De fato,” Kialandí concordou, e ela teve a vontade de engolir em seco ao encontrar seu olhar.

Em outro momento, talvez houvesse corado. Mas tinha o braço de Morzan firme em sua cintura, e se lembrava de suas instruções mais cedo naquela noite. Ergueu o queixo, abriu um sorriso pequeno, e não desviou os olhos.

“Com certeza,” Selena respondeu. “É uma honra.”

Kialandí apertou um pouco os lábios, mas a expressão de Formora não se alterou em nada. Ela inclinou o rosto para eles uma última vez, e lhes deu as costas, o outro elfo logo atrás. Morzan os observou se afastando com os olhos díspares ilegíveis, embora provavelmente satisfeito ao vê-los partir. Quando finalmente se voltou para Selena, um sorriso ameaçava erguer o canto de seus lábios.

De trás deles soou um riso baixo. Enduriel ainda se recostava contra o arco de um dos portais que alinhavam as paredes do salão, os olhos muito azuis faiscando. “Todas essas décadas convivendo com humanos não lhes fizeram bem,” disse, quase como se comentando um fato curioso. “Embora eu tema que a culpa seja apenas deles.”

Morzan apertou os lábios. “Não acho que já tenham sido muito diferentes.”

“É realmente uma pena.” Enduriel ergueu uma mão no que talvez fosse uma despedida; o gesto fora casual e distraído, mas algo nele pareceu estranhamente arrogante, quase como se os dispensasse.

Selena se voltou para Morzan em busca de instruções sobre o que fazer então, mas ele apenas a puxou mais para perto contra si e a guiou para longe, apenas a sugestão de diversão em seu rosto. O que achou? perguntou, seus pensamentos muito macios contra sua mente, confortáveis como se sempre houvessem feito parte dela.

Ela encolheu os ombros. Eles são todos muito... hesitou. Bonitos.

Bonitos?, Morzan repetiu, e era possível perceber que ele achara graça.

Esse é um bom adjetivo, não é? E esse tempo todo eu vim me maravilhando com a sua aparência. Ela lhe ofereceu um sorriso um pouco torto. Poderia encontrar algo bom para dizer sobre Enduriel; tinha menos certeza sobre os outros dois. Achei que elfos não mentissem?

Não deveriam. É impossível mentir na Língua Antiga, você sabe, e é ela a língua deles, então faz parte de sua cultura; são muito bons em meias verdades, contudo, e em dizer algo com um significado que sabem que você não entenderá. Enduriel não mente, seja na Língua Antiga ou nessa, mas Kialandí e Formora já são um caso diferente.

Selena assentiu devagar, contemplando suas palavras. É verdade que são todos muito bonitos, no entanto, voltou a dizer. Essa era uma exigência para se juntar aos Treze? Galbatorix queria se certificar que ficariam bem em tapeçarias e estátuas?

Morzan riu, inclinando um pouco a cabeça para trás, e atraiu o olhar de alguns nobres. Dificilmente. Elfos são sempre bonitos — naturalmente, é claro, mas eles também alteram a própria aparência com magia, e todo elfo se parece exatamente como deseja. Você não verá por aqui, mas entre eles existem alguns um pouco mais... peculiares. Ele encolheu os ombros. Alexis e Aleifar são bonitos também, suponho, mas isso é particular de sua família. Está pronta para conhecê-los?

Selena quis comentar que estava, é claro, porque após conhecer elfos e o próprio Galbatorix, os outros Renegados humanos deveriam, logicamente, ser a parte mais fácil. Mas lhe veio à mente os cachos loiros de Alexis e o modo como Morzan ponderara seu nome em resposta à pergunta de Selena poucos dias antes, e como ela reparara uma vez na figura de Aleifar no livro que Eron lhe dera, em seus lábios cheios e olhos muito verdes, e conteve o comentário.

E ainda assim Morzan o percebeu — não teria como não, tocando sua mente como estava — e seus olhos de cores diferentes se voltaram para ela como a se estudassem, azul e negro ilegíveis à luz das lanternas sem chamas. Ela pôde senti-lo começar a se afastar, e sua voz soou muito baixa em seus pensamentos uma última vez, Proteja bem sua mente quando perto dos gêmeos.

Ele afagou sua mão antes de soltar seu braço e se aproximar de um grupo de damas que conversam em círculo — suas risadas muito suaves, os vestidos muito ricos, os cabelos muito bem arrumados —, chamando, em voz alta, “Alexis.”

A mulher mais próxima de virou, um rodopio de saias marfim e cachos dourados, lábios rosados já se erguendo em um sorriso que só crescia. Deu um passo para frente, e mais um, e jogou os braços ao redor do pescoço de Morzan, e Selena não se surpreendeu de todo quando ele devolveu seu abraço.

“Não acredito que finalmente está de volta,” ela disse, a voz não tão baixa, ao se afastar um pouco. “Ainda não consegui perdoá-lo por me abandonar para os elfos por semanas e semanas sem fim. Eu juro, Morzan, que essa foi uma das coisas mais cruéis que já fez.”

O sorriso de Morzan foi divertido, e havia algo de diferente nele naquele instante, uma faceta que Selena não conhecia. “Não parti por vontade própria, você sabe,” ele disse, e Selena tinha vontade de se intrometer na conversa. “E tinha confiança que seu irmão lhe faria companhia. Mas é bom saber que alguém sentiu minha falta nesse lugar.”

“A corte não é a mesma sem você,” Alexis respondeu, e, diferente de Kialandí e Formora, ela soava bastante sincera. Voltou os olhos verdes brilhantes para Selena, se aproximando para tomar suas mãos nas suas, e o sorriso de Selena foi fraco e indeciso. “E é tão bom finalmente conhecê-la, Senhora Selena, depois de tanta espera. Eu sabia que você seria digna de atenção, é claro, por ter chamado — e mantido! — a de Morzan, e ainda assim é uma surpresa agradável.”

“É um prazer e uma grande honra, Senhora Alexis,” ela respondeu, e parte sua queria dizer aquelas palavras com maior sinceridade. A observando de perto, Selena reparava que Alexis não parecia totalmente humana; orelhas pontudas como as dos elfos partiam seus cabelos loiros, e seus traços eram muito delicados.

“E eu espero que essas sejam mais do que as palavras bonitas que Morzan te ensinou,” Alexis afirmou, a voz baixa como se compartilhasse um segredo. “Tenho certeza que seremos ótimas amigas, e que você será uma adição maravilhosa à corte. Precisamos desesperadamente de algo novo por aqui.” Olhou para trás. “Aleifar, venha ver se não concorda.”

Seu irmão estava esperando um pouco distante, conversando baixo com uma garota de vestido alaranjado talvez da mesma idade que a própria Selena, e ergueu o rosto ao ouvir chamar seu nome. Selena encontrou seus olhos verdes com certo receio, e eles a estudaram de volta com o que poderia ser chamado de desinteresse calculado. “Maravilhosa, sim.” Tal como sua irmã, havia algo sobre a aparência de Aleifar muito semelhante à dos elfos, embora seu rosto bonito contasse com traços fortes que pouco tinham a ver com eles. “Verdadeiramente extraordinária.”

Selena lhe ofereceu um sorriso doce, inclinando um pouco a cabeça em agradecimento. Kialandí e Formora a haviam ignorado deliberadamente, Enduriel fora gentil e distraído, mas ela conseguira perceber a ameaça velada que cada um seria capaz de ser. Aleifar era diferente no que o brilho em seus olhos já parecia um pouco cruel, afiado e perceptível, e Selena se sentiu desconfortavelmente ciente das partes mais perigosas da realidade de Morzan.

O homem se aproximou mais, e ela sentiu o braço de Morzan de volta em torno de sua cintura, firme e protetor. Ele estava ali por ela, mas Selena gostaria de provar que era mais do que capaz de lidar com o Cavaleiro loiro. Ergueu o queixo ao encarar Aleifar, endurecendo o próprio olhar, e disse, “Eu agradeço, meu senhor.”

Ele era mesmo muito bonito, com os lábios cheios e o nariz reto. Seu sorriso era como os dos príncipes arrogantes das histórias, e Selena sabia que sua resposta o provocara. “É claro,” ele continuou, “que sabemos que só isso não seria o suficiente. Morzan é mais do que capaz de apreciar beleza por uma noite, mas sabe que tipo de companhia ele busca a longo termo, Senhora Selena?”

Ela não se deixou perturbar; não queria precisar que Morzan viesse em seu resgate por uma provocação tão óbvia. “O tipo agradável, eu suponho?”

A risada de Morzan foi alta, a de Alexis muito delicada, mas Aleifar só sorriu. “E você estava tão certa de que não pertencia à corte...” comentou, estalando a língua. “Agradável, com certeza, mas não. O tipo de companhia de que Morzan gosta, obviamente, é o tipo que se apaixona.” Ele deu um passo para trás, já começando a se afastar. “Mas é claro que você já sabia disso. Foi um prazer, Senhora Selena.”

Ele os deixou, partindo em direção a outros nobres, e Selena se encontrou franzindo um pouco a testa, um pouco chocada por suas palavras e também incomodada com algo a mais. Percebeu Morzan sacudindo a cabeça como se em desaprovação, notou o olhar de desculpas breve que Alexis lhe ofereceu, e deixou que a própria respiração escapasse em um suspiro.

Morzan se aproximou para plantar um beijo muito leve sobre seus cabelos, e ela se inclinou contra ele, confortável ao saber que o tinha por perto, satisfeita ao se reassegurar que não seria aquilo a abalá-la, resoluta na certeza de que se saíra bem.

Seria só mais tarde, muito depois de Morzan puxá-la para o banquete, depois de voltarem para a torre e de finalmente adormecerem, que Selena perceberia que o que a incomodara nas palavras de Aleifar não fora o deboche pouco disfarçado, mas sim o fato de como ele parecera acertar exatamente quais eram seus maiores receios, e em uma precisão tão aguçada que não deveria ser possível, quase como se houvesse, ele mesmo, partilhado de seus pensamentos.

Notas finais
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