Shiver

95 Capítulo 95


Notas iniciais
Muito Jaime nesse capítulo, o que na verdade faz muito sentido porque foi aniversário dele nessa quarta-feira passada: everyone say happy birthday, Jaime!! hahahah Boa leitura, meus amores ♥

O dragão de Morzan pousou no andar superior da torre com um baque súbito, e por um instante Selena permaneceu imóvel sobre suas costas, olhando sem ver para a parede de pedra à sua frente, a própria respiração superficial e rasa, incapaz de processar por completo o que acabara de presenciar. Mas então o animal rosnou, o som longo e baixo, a arrancando de seu estupor com uma eficiência avassaladora.

Ela escorregou para o chão, se sentindo um pouco insegura sobre as próprias pernas, e mal teve tempo de se afastar antes que o dragão se virasse onde estava em um movimento impossivelmente rápido e saltasse para o ar novamente, os espinhos pontiagudos em seu rabo escapando de arranhá-la por uma questão de milímetros. Um segundo sozinha, dois, três, e então ela tateou a parede atrás de si, dando as costas para o céu aberto apenas quando encontrou o trinco da porta de madeira pesada.

Desceu as escadas dois degraus de cada vez, passando pelo quarto de Morzan sem vê-lo de verdade, e quase trombou com os dois guardas à postos o lado de fora, indescritível também o alívio de perceber que um deles era Adam. “Minha senhora?”, ele perguntou, a nota de alarme cristalina em sua voz.

Ele a olhava com uma preocupação real em seus olhos âmbar, mas Selena não tinha condições de verdade de refletir sobre a própria aparência; a barra molhada de seu vestido, seus cabelos obviamente bagunçados pelo vento, e também o que quer que transparecesse em seu rosto. “Jaime,” foi o que ela disse, ecoando as palavras de Morzan, e talvez não estivesse fazendo sentido algum. “Eu preciso... Adam, você sabe onde ele está?”

Adam não perdeu tempo lhe perguntando coisa alguma. Apenas assentiu, seu rosto muito sério, e a tocou no braço em um gesto que em outro contexto talvez fosse familiar demais, mas que naquele momento lhe pareceu apenas protetivo e absurdamente reconfortante. “É claro,” ele respondeu. “Venha comigo.”

Ele a guiou pela torre, descendo as escadas para deixar para trás os cômodos que Morzan usava diretamente e adentrar as áreas dos criados, e Selena sabia o caminho, é claro, já estivera lá antes, mas era ótimo poder segui-lo e não precisar pensar a respeito. Ignorou os olhares dos servos que encontraram no caminho, ciente de que se não mais nada eles estariam acostumados a vê-la chegando de missões em estados variados de desalinho, e também do restante dos guardas, quanto chegaram ao andar em que ficavam seus dormitórios.

Adam bateu na porta do estúdio de Jaime duas vezes, com firmeza, e não esperou que houvesse alguma resposta. “Desculpe, senhor,” foi o que falou, talvez mais formal do que de costume. “A Senhora Selena estava procurando por você.”

Do outro lado, Jaime estivera sentado atrás de sua escrivaninha, de frente à um garoto que vestia o uniforme da guarda e deveria ter, no máximo, dezessete ou dezoito anos. Ele se ergueu ao ver Adam e Selena, porém, seus olhos verdes preocupados e então subitamente sérios, fosse por ter percebido algo de errado ao ouvir as palavras de Adam ou ver o rosto de Selena, ou mesmo porque ele sabia que ela havia saído com Morzan naquela manhã, e que não deveria estar de volta tão cedo.

“Ivan,” Jaime disse, sua voz de alguma forma muito calma. “Pode nos dar licença, por favor? Espere com Adam lá fora.” Ele esperou apenas que o garoto saísse, aguardando até que estivesse sozinho com Selena, antes de lhe perguntar, “O que aconteceu?”

Selena sacudiu a cabeça, procurando pelas palavras certas e não as encontrando. “Eu não...” começou, e se conteve. “Eu não sei. Nós estávamos almoçando com Alexis, e ela recebeu uma carta de um criado, uma carta de Fäelan para Aleifar o desafiando para... para encontrá-lo na rocha sobre Urû’baen, para um duelo ou para um confronto ou... Eu não sei. Eu sei que chegamos lá e eles estavam no meio de uma discussão, e então começaram a lutar, primeiro com espadas e então com magia, e...” Ela encontrou o olhar do capitão da guarda de Morzan, sem querer dizer a próxima parte em voz alta e sabendo que não tinha escolha. “Jaime, eu acho que eles podem estar mortos.”

“Os dois?” ele perguntou. “Você tem certeza?”

“Eu não sei!” Selena exclamou, cobrindo a boca com as costas de uma mão e desviando o olhar. Sentia vontade de chorar, gritar e também vomitar, as imagens da cena lhe voltando de uma vez e com uma finalidade absoluta; uma pressão sobre seu peito, respirar de repente um pouco mais difícil. “Eu não sei, eu...”

E então Jaime estava à sua frente, as mãos em seus braços, seu toque morno e muito suave. “Minha senhora,” ele disse, e ela não conseguiria nunca entender como ele conseguia soar tão calmo. “Olhe para mim.” Seus olhos verdes tão sérios, mas também de alguma forma compreensivos. “Respire fundo. De novo.” Ele se afastou por um instante, retornando com uma taça de prata em uma mão. “Aqui. Melhor?”

O vinho mais ácido do que Selena estava acostumada, e ela não sabia onde Jaime o teria conseguido tão rápido; talvez ele mesmo o houvesse estado bebendo. Ela encontrou seu olhar mais uma vez, impossivelmente grata. “Obrigada,” disse, sua voz muito baixa.

Mas Jaime só afastou seu agradecimento, como se não fosse importante. “Se entrarmos em pânico,” ele disse, mais firme, “não ajudamos ninguém além de nossos inimigos. Você tem certeza?”

Ela gostaria desesperadamente de poder lhe dar uma resposta concreta. “Eu não sei,” acabou repetindo. “Aleifar estava dizendo alguma coisa, provocando Fäelan de alguma forma, mas então Fäelan disse alguma coisa na Língua Antiga e de repente Aleifar estava tossindo sangue, muito sangue, e eu acho... Acho que ele conseguiu lançar algum feitiço sobre Fäelan também, porque ele pareceu engasgar, como se não respirasse, e eu acho... Talvez fosse possível salvá-los. Eu não sei.” Uma pausa muito curta. “Mas eu acho que não.”

Jaime fez que sim em um movimento lento. “E Morzan?”

Selena mal registrou que ele não usara o honorífico apropriado. “Ele não estava envolvido na luta diretamente. Eu acho que ele está bem, ele...” Ela não sabia o que mais poderia lhe dizer, e completou, quase num murmúrio, “ele me disse para te encontrar.”

Jaime pareceu precisar de um momento para absorver suas palavras, e então assentiu mais uma vez. “Eu entendo.” Desviou o olhar por um instante ínfimo, apenas para voltar a atenção para ela quase que de imediato. “Minha senhora, se você concordar, eu recomendaria que voltasse para os seus aposentos pelas próximas horas. Você estará em segurança, e—”

“Não,” ela o interrompeu; não queria de maneira alguma ficar sozinha naquele momento. “Eu preferiria ficar aqui.”

Ele estudou seu rosto muito brevemente antes de concordar com a cabeça, talvez decidindo que a discussão não valeria a pena.

“Me acompanhe, então,” pediu, e a chamou para segui-lo para fora do estúdio. Cerca de um terço dos guardas lá fora já os observavam quando eles cruzaram a porta de madeira, e o restante conversava entre si, mas cada um deles se pôs de pé de imediato quando Jaime chamou, “Homens!” O tom de ordem inconfundível. “Iremos alterar o esquema de defesa da torre pelas próximas horas. Ninguém está autorizado a deixar os limites dos domínios de Lorde Morzan sem minha explícita permissão, e ninguém poderá entrar a não ser que já seja um membro da criadagem, e ninguém entra ser ter sua mente examinada e sua identidade confirmada. Se recebermos mensageiros ou visitas de outros nobres em pessoa, a resposta deverá ser sempre que Lorde Morzan não está disponível para audiências no momento, e que retornaremos assim que possível.” Uma pausa curta. “Evitem utilizar força e violência para manter afastados quaisquer visitantes indesejados, mas saibam que têm permissão para fazê-lo se necessário. Vocês têm...” ele pareceu pensar por um instante ínfimo. “Quinze minutos para vestirem o uniforme e amadura completa, e então os espero de volta aqui para novas ordens. Adam, Owen, quero vocês comigo; todos os outros, podem ir.”

Selena encostou as costas contra uma das paredes de pedra para não atrapalhar o caminho de nenhum dos guardas, e parte sua gostaria de poder se camuflar e desaparecer; se sentia muito pequena, e era também desconfortavelmente ciente de que nenhum deles seria capaz de ignorá-la, por mais que não lhe dessem mais atenção do que um ou outro olhar curioso ou receoso. Algo de fascinante na forma como todos seguiam de imediato as ordens de Jaime, em como se moviam rapidamente e também em perfeita ordem; incrível também o jeito como ele soubera de imediato que ordens dar, e talvez já tivessem algum tipo de protocolo para aquele tipo de acontecimento, ou talvez ele só tivesse experiência o suficiente para decidir por conta própria e sem muita hesitação. Fazia com que ela se sentisse um pouco despreparada em comparação.

Jaime aguardou apenas que o espaço ficasse mais vazio para chamar Adam e Owen ainda mais para perto com um inclinar da cabeça, falando agora um pouco mais baixo. “Quero quatro guardas a postos em cada uma das entradas da torre, sem exceção, sendo sempre um deles capaz de usar magia, pelo menos pelas próximas horas. Se passarmos da meia-noite sem receber novas notícias, podemos reconsiderar os turnos para que eles tenham tempo para descansar, mas eu mesmo os avisarei se for o caso; por enquanto seguimos assim. Todos que não estiverem trabalhando devem esperar em seus dormitórios, e não quero que tenham muitas oportunidades para conversar entre si. Não quero nenhum rumor se espalhando indevidamente.” Uma pequena pausa, como se ele desse aos dois homens tempo para absorver suas palavras. “Owen, reúna nossos magos e peça que chamem de volta para a torre todos os servos que estiverem fora no momento, e cuide para que sejam rápidos, porque preciso que estejam à postos junto aos outros homens assim que possível. Organize também os turnos e quem estará a postos onde, por favor. Tenho outra tarefa para Adam, mas ele estará disponível para ajudá-lo em breve.”

Owen apenas fez que sim em um movimento curto. “É claro, senhor.”

“Espero notícias a cada hora,” Jaime acrescentou, muito firme. “Você pode ir.” O observou se afastar, o silêncio se estendendo por alguns segundos, e então voltou sua atenção ao guarda restante à sua frente. “Adam, eu quero que encontre Allan,” e se referia ao administrador das posses e da criadagem de Morzan, “e diga a ele que estamos lidando com a possibilidade de dois dos Treze Servos estarem mortos. Não está confirmado,” afirmou, interrompendo também quaisquer dúvidas que Adam pudesse estar pensando em verbalizar, “mas é provável. Diga a ele que eu estou com a guarda e a segurança da torre sob controle, mas que preciso que ele cuide de todo o resto; ele saberá o que fazer. Não preciso te explicar porque esse é um tópico extremamente delicado e que exige o máximo de discrição, mas fica o lembrete de toda forma. Não permita que ninguém mais ouça a conversa.”

Selena pensou que Adam parecia um pouco assombrado por suas palavras, mas ele apenas fez que sim. “Imediatamente, senhor.”

“Obrigado,” Jaime disse, mais suave. “Eu vou acompanhar a Senhora Selena de volta aos seus aposentos, e talvez demore um pouco para descer novamente, então deixo a organização mais minuciosa das defesas da torre nas suas mãos e de Owen. Em breve devo voltar para verificar se está tudo certo.”

“É claro,” Adam respondeu, inclinando um pouco a cabeça, e se voltou também para Selena antes de se afastar, o cumprimento tão respeitoso quanto sempre. “Minha senhora.”

E então lhes deu as costas e se afastou também, desaparecendo pela escada que levava para os outros andares da torre. Selena o observou ir, engolindo em seco uma vez, antes de perguntar, ouvindo a própria voz um pouco fraca, “Jaime, você sabe se... Sabe se minha criada, Emma, está na torre? Não é que eu precise dela nesse exato momento, mas você estava falando sobre chamar todos de volta, e eu não sei...”

“Eu posso verificar,” Jaime respondeu de prontidão. Apoiou uma mão em seu cotovelo, seu toque muito leve, e perguntou, “Podemos subir, minha senhora? Eu apreciaria se pudesse me contar novamente o que aconteceu, com o máximo de detalhes que conseguir.”

Selena não teria como negar. Permitiu que ele a guiasse escada acima, e então se sentou na beirada da própria cama enquanto Jaime se dispunha a servir para ela uma taça de vinho; ele ouviu com muita atenção enquanto ela falava, interrompendo apenas nos momentos mais pontuais para tirar alguma dúvida ou confirmar alguma impressão sobre sua história.

Os olhos verdes impossivelmente sérios, e ele não esboçou nenhuma reação verdadeiramente dramática ao ouvir sobre a carta que Alexis recebera, as reações de Morzan desde o começo de tudo, ou mesmo sobre o confronto sobre a cidade. Permaneceu em silêncio quanto ela terminou de falar, um vinco pequeno entre as sobrancelhas escuras, até que assentiu muito devagar.

“Entendo,” foi tudo o que disse. “Eu não... eu não acho que podemos ter certeza de muita coisa nesse exato momento, minha senhora, mas me parece que seria um pouco ingênuo esperar pelo melhor. O que podemos fazer agora é apenas esperar, e manter tudo sob controle por aqui até que Lorde Morzan volte. E então saberemos com certeza.”

Selena fez que sim. “É claro,” respondeu, quase num murmúrio. “Você... você já passou por algo assim antes?”

Jaime pareceu hesitar. “Eu já era capitão da guarda na última vez que um dos Treze faleceu,” acabou por admitir. “Mas, se essa situação inteira se confirmar, eu acho que... Seria pior. Muito pior.” Ele encontrou o olhar de Selena, algo de infinitamente compreensivo em seu rosto. “Eu recebi notícias de Emma, minha senhora, e ela não estava na torre, mas já retornou. Eu recomendaria que você pedisse a ela que lhe preparasse um banho, para que você possa trocar essas roupas e também relaxar um pouco. É possível que Lorde Morzan retorne em breve, e devemos estar prontos para servi-lo da forma que ele precisar quando ele voltar, mas, para ser sincero com você, eu imagino que ele ainda deva demorar.”

Ela abaixou um pouco os olhos para as saias de seu vestido, que já haviam secado, mas ainda pareciam sujas, e não precisava olhar para o espelho para saber o estado de seu cabelo. “Tudo bem,” concordou, quase sem ouvir as próprias palavras.

“E sobre Lorde Morzan, minha senhora...” Jaime demorou um pouco para encontrar as palavras corretas. “Eu imagino que ele mesmo talvez vá estar em um estado de espírito... delicado, quando voltar. Por isso mesmo é importante que nós aproveitemos esse tempo para absorver toda a situação, e peço que tente se acalmar tanto quanto conseguir. É um momento... complicado, eu acho, e não seria bom torná-lo mais difícil do que ele precisa ser.” Ele se levantou da cadeira onde estava sentado, alinhando as próprias vestes com as mãos. “Eu preciso verificar o estado da guarda, mas estou à disposição para o que precisar. Vou chamar Emma para que ela possa te atender.”

Selena respirou fundo uma última vez, deixando o ar escapar por seus lábios quase que em um suspiro. “Certo,” disse, de novo. E então, “Obrigada, Jaime.”

Ele lhe abriu um sorriso sincero e muito pequeno. “Não há de quê, minha senhora.”

Notas finais
Nos vemos domingo que vem!