Shiver

87 Capítulo 87


Notas iniciais
Boa leitura meus amores!

Selena usou os próprios pés para tirar suas sapatilhas, dobrando os joelhos sobre o sofá e se cobrindo melhor com o cobertor que já tinha sobre as pernas, e tomou um gole de vinho ao estudar melhor as próprias cartas. Havia aprendido a jogar desde que chegara à cidade, mas não era seu passatempo favorito, e não era como se fosse seu maior talento tampouco; a combinação em suas mãos era boa, certamente, mas seria boa o suficiente?

Deixou escapar um suspiro baixo e depositou suas cartas sobre a mesa baixa, viradas para cima, o tom de finalidade do gesto falando por si próprio. À sua frente, Jaime abriu um sorriso muito pequeno, virando sua mão na direção dela com facilidade, e Selena precisou rir, correndo as mãos pelo próprio rosto em uma tentativa fraca de se esconder do mundo um pouco.

“Eu não acredito,” disse, ainda achando graça da situação, e sacudiu a cabeça. “Nesse ritmo eu nunca vou vencer.”

Jaime riu daquilo, estendendo com facilidade uma mão para recolher as cartas de Selena. “Gostaria de jogar mais uma vez, minha senhora?”

Selena só sacudiu a cabeça. “Não, acho que foi humilhação suficiente para um único dia.” Ela puxou para si o prato que um criado esquentara para ela, partindo com um garfo um pedaço da torta de maçã. “Conte-me, o que você tem lido ultimamente?”

Ele encolheu os ombros de forma muito discreta, e colocava em ordem as cartas antes de empilhá-las quase como se não percebesse o que fazia. “Nada demais. Lorde Morzan me deu um livro sobre a história...” Jaime se interrompeu ao ver a porta de entrada da torre se abrir, e se pôs de pé ao ver que era Morzan em pessoa quem entrava, algo de irritadiço em sua expressão. “Meu senhor.”

Morzan dispensou o cumprimento com um gesto descuidado da mão direita. “Sente-se,” pediu, e então observou a mesa baixa entre eles por um instante curto. “Estiveram jogando?”

“Eu estive perdendo,” Selena corrigiu, com cuidado para manter seu tom leve. “Mas Jaime foi muito gentil todas as vezes em que me derrotou. Como estavam Alexis e Aleifar?”

“Ainda mais frustrantes do que de costume,” Morzan respondeu, a voz seca. Andou até eles em passos lentos, os olhos de cores diferentes parando por um instante curto nas cartas que Jaime voltava a organizar, antes de continuar, “Embora isso pareça ser o esperado nos últimos dias. Posso me juntar a vocês?”

Selena escorregou mais para o canto do sofá para abrir espaço para ele, apoiando o prato sobre os próprios joelhos. “Eu já vou parar,” disse, partindo mais um pedaço de torta. “Inclusive para não precisar perder de vocês dois ao mesmo tempo. Mas Jaime talvez aceite jogar com você?”

“Seria um prazer,” Jaime concordou, tão fácil.

Ele não vestia o uniforme da guarda naquela noite, usando em vez disso uma camisa verde-escura de veludo grosso, casual e confortável no sofá da torre de Morzan. Parou o que fazia com as cartas, rapidamente as juntando em um monte único, que ele então deslizou sobre a mesa na direção de seu senhor em um movimento deliberado.

Morzan as verificou muito brevemente antes de começar a embaralhá-las novamente, sacudindo a cabeça como se desaprovasse, mas não parecia incomodado de verdade, não com aquilo. “Já não pedi para que parasse de fazer isso?” perguntou mesmo assim, e se referia ao trabalho inacabado de colocá-las em ordem, Selena sabia bem.

Jaime só sorriu. “Não consigo evitar, meu senhor.” Ele se levantou para servir uma taça de vinho, e a entregou a Morzan ao voltar para o sofá. “O que houve com os gêmeos? Suponho que Lorde Aleifar ainda não tenha feito grandes progressos?”

“Nada remotamente significativo,” Morzan confirmou, e realmente soava irritadiço a respeito. “Essas coisas tomam tempo, é claro, e ele não poderia arriscar ousar demais e ser descoberto, mas ainda assim eu esperava que ele já houvesse ao menos descoberto uma nova direção para investigarmos. A influência de Fäelan na corte cresce mais a cada dia, e estamos progredindo muito devagar em comparação.”

“Só estamos tentando essa nova estratégia há duas semanas,” Selena apontou, porém, com cuidado para manter a própria voz leve. Suspeitava que não fosse o tempo que incomodava Morzan de verdade, mas sim que sua impaciência viesse de ter que esperar que agissem em seu lugar, observando de uma posição mais afastada que não era a sua costumeira; não sabia se seria prudente, porém, apontar nada do tipo. “Tenho certeza que ele vai descobrir algo novo em breve.”

“Algo relevante, com alguma sorte,” Jaime acrescentou. “E que poderemos usar. Certamente é um bom sinal que Lorde Aleifar pareça estar tomando cuidado?”

Morzan riu pelo nariz, começando a distribuir as cartas entre ele e Jaime, e Selena perdeu um instante observando os movimentos rápidos de seus dedos, fascinada. “E você acredita mesmo que possamos saber de verdade se Aleifar está ou não tomando cuidado, Jaime?”

“Eu certamente aprecio não precisar trabalhar diretamente com ele,” Jaime admitiu, sem se deixar intimidar pela pergunta. “Sei que ele é arrogante e que pode ser impulsivo e imprudente, mas não é como se...” Ele hesitou, e pareceu reconsiderar o que ia dizer. “Eu pessoalmente fico mais tranquilo de saber que ele não está sendo obviamente descuidado, acho que talvez seja o meu ponto. Não serviu de nada para acalmar a Senhora Alexis, tampouco?”

“Não mesmo,” Morzan respondeu, irônico, e pareceu achar alguma graça da pergunta. Perdeu alguns instantes estudando as próprias cartas, tamborilando os dedos de uma mão contra o tampo de madeira da mesa baixa, antes de continuar. “Alexis está tomando o cuidado de deixar muito claro, a todo momento, que desaprova dessa estratégia. Eu costumo defendê-la, e normalmente ela é uma aliada valiosa e melhor do que seu irmão, mas em momentos como esse entendo porque o rei prefere Aleifar. É um tanto... frustrante precisar gastar tanta energia para convencê-la a concordar com seguir um rumo que ela deveria saber ser necessário e nossa única possibilidade no momento.”

Selena observou seu rosto com atenção, e eles não haviam ainda discutido aquilo em detalhes. “Ela só está assustada,” disse, tentando ser justa. “Não é inteiramente incompreensível.”

“É possível também, meu senhor,” Jaime apontou, mais devagar, “que ela só tenha prioridades diferentes.”

Morzan revirou os olhos para aquilo. “Prioridades covardes. Alexis está acomodada, e ficaria satisfeita em ter uma quantidade significativamente menor de influência desde que pudesse manter sua relação com suas damas e sua presença na corte. Seria diferente se fosse algo novo com que ela tivesse que se adaptar, mas isso? É risível que ela precise ser convencida para começo de conversa.” Ele sacudiu a cabeça. “É um problema de falta de ambição. Ela chegou a sugerir que deixássemos Fäelan vencer, apenas para não precisar arriscar colocar a si mesma e a Aleifar no caminho de sua ira.”

Jaime abriu um sorriso muito pequeno. “Me parece mesmo uma estratégia falha. Funcionaria apenas para que ele tivesse ainda mais abertura para agir como bem entendesse no futuro, não?”

Morzan inclinou uma mão em sua direção. “Viu? E se você entende isso tão facilmente, o que a impede, alguém com um século de experiência e todo o treinamento dos Cavaleiros, de perceber também? Alexis está presa demais aos próprios sentimentos para enxergar a situação por completo, e não é sempre que eu tenho a paciência necessária para lidar com tudo isso. Mas suponho que seja apenas uma questão de tempo até que ela aceite que é inevitável.”

Havia a possibilidade, é claro, de Alexis entender todos os pontos que Morzan levantava e apenas ter uma opinião diferente, mas Selena preferiu não apontar aquilo em voz alta. “E é apenas uma questão de tempo até Aleifar fazer novos progressos,” acrescentou. “Então em breve tudo deve funcionar em nosso favor.”

Selena percebeu a forma mais suave com que Morzan voltou os olhos em sua direção, e se satisfez ao vê-lo abrir um leve sorriso para ela. “De fato.” Ele abaixou o olhar para as próprias cartas, as estudando em silêncio por um momento, e então voltou-se para ela de novo. “Você estaria disposta a conversar com Alexis por mim, Sel? Acho que há alguma chance de ela aceitar melhor nossa estratégia se for você argumentando em seu favor.”

Ela franziu um pouco as sobrancelhas. “É claro. Só não sei o que eu poderia dizer que você não saiba argumentar melhor.”

“Você a ouviu,” Morzan disse, simplesmente. “Ela acredita que você não esteja em uma posição tão diferente assim da nela, dentro de tudo o que está acontecendo. Eu poderia até mesmo mandar Jaime com você, para que ela ouça a verdade de alguém que sabe ser uma pessoa mais cautelosa, também. Ela sabe bem qual minha opinião sobre isso tudo, e talvez só precise de uma audiência mais compreensiva.” Ele bateu duas vezes com o indicador sobre as cartas que segurava. “Sim, isso talvez funcione.”

“Se você acredita que seja o melhor caminho, meu senhor, é claro que podemos falar com ela,” Jaime respondeu, estendendo uma mão para comprar uma nova carta. “Sem problema nenhum.”

“Eu agradeço,” Morzan respondeu, encontrando o olhar do capitão de sua guarda, acompanhando seus movimentos enquanto Jaime estudava o jogo à sua frente. “Só não espere ganhar de mim tão fácil quanto estava vencendo ao jogar com Selena.”

Jaime deixou escapar uma risada silenciosa, quase surpresa. “Eu não ousaria, meu senhor,” prometeu, e então, “mas posso sempre ter esperanças.”

Notas finais