Shiver
84 Capítulo 84
Notas iniciais
Apesar do que havia dito a Jaime, Morzan não levava Selena a seu castelo com tanta frequência assim, e certamente nunca a deixara lá sozinha por um período mais extenso antes. Eles visitavam mais quando ele tinha algo a resolver por lá, ou então quando passar ou ficar em sua propriedade era conveniente em meio a suas viagens. No mais, ele parecia preferir permanecer na corte, ou então visitar as outras cidades — parecia, talvez ironicamente, se sentir mais confortável em meio aos esquemas dos outros nobres e à rotina mais acelerada da capital do que isolado em seu próprio castelo.
Selena, por outro lado, gostava de lá. Da janela de seu quarto, conseguia ver grande parte dos jardins do castelo (apenas os alojamentos dos criados ficavam para o outro lado, escondidos junto às muralhas), com o riacho cristalino e as roseiras, assim como o lago além dos muros. Com o inverno se aproximando rápido, ela não podia de fato molhar os pés na água clara ou passar tanto tempo assim do lado de fora, mas ainda assim conseguia fazer passeios mais curtos ao longo da propriedade, além de ter ampla oportunidade de aproveitar do restante que o castelo lhe oferecia.
Depois que Morzan partira, ela passara um dia inteiro na biblioteca, vagando pelas diversas alas e lendo as lombadas dos livros nas estantes. Selecionara uma pequena pilha para levar consigo de volta a seu quarto, e então dobrara as penas sobre a poltrona em frente à lareira e passara horas lendo noite adentro. Passara boa parte do dia seguinte lendo também, antes de se juntar a Damien, o administrador da propriedade, e Adedayo, o capitão da guarda, para ouvir suas atualizações sobre o andamento das coisas no castelo, conforme Morzan lhe recomendara.
Agora, no terceiro dia, andara um pouco pela propriedade durante a manhã, lera mais um pouco enquanto almoçava, e então saíra para assistir ao treino da guarda. Ainda trouxera consigo um livro, apenas porque estava envolvida demais na história e porque julgava que aquela atividade talvez se tornasse entediante depois de um período de tempo um pouquinho maior, mas no final se encontrara bastante entretida.
Não era exatamente como assistir aos guardas de Morzan treinarem em Urû’baen, porque lá ela conhecia grande parte pelo nome, e normalmente só assistia aos treinos quando Morzan se juntava a eles de toda forma. Se lembrava também de ter assistido a ele praticar esgrima com Adam e Neil, naquela viagem em que se conheceram, e de vê-lo treinar com Jaime.
Nenhum guarda, fosse no castelo ou na capital, tinha qualquer chance de ganhar de Morzan em uma luta, ela sabia, tanto por ele ter décadas de prática quanto por ser um Cavaleiro, e, portanto, mais rápido e forte do que um homem comum teria qualquer chance de ser. Ainda assim, ela julgava que a grande maioria dos guardas era ainda muito superior a ela — não se incomodava em admitir o fato, não sendo aquela sua principal ferramenta como a Mão Negra de toda forma —, e costumava se sentir impressionada ao assisti-los praticar mesmo depois de tanto tempo.
No castelo de Morzan, não era tão diferente, nesse aspecto. Era no que ela tinha um pouco mais de dificuldade em acompanhar o que estava acontecendo, uma vez que não conhecia os homens nem remotamente bem. Se sentou a um canto do pátio junto a Adedayo para assistir, e às vezes se aproximava um pouco para perguntar ao homem o nome de um ou outro guarda.
Ele tinha o olhar atento sobre o instrutor e seus subordinados que praticavam, e talvez tivesse um estilo de liderança diferente do de Jaime, embora Selena não soubesse o suficiente sobre ele para dizer com certeza. Parecia um pouco mais rígido, ela supunha, por mais que aquilo também pudesse ser devido apenas a sua presença ali (Morzan havia, de fato, indicado a ele e Damien que ela estaria responsável por avaliar o estado das coisas em seu castelo e reportar a ele depois, mas a verdade era que Selena se sentia tão enamorada com o lugar agora quanto quando estivera ali pela primeira vez).
“Quem você julga ser o seu melhor espadachim?” ela acabou por perguntar, a própria voz soando tão suave em meio aos sons dos homens praticando. “Se houver algum, é claro.”
Mas Adedayo já fazia que sim com a cabeça; ele já era mais velho, Selena sabia, com mais de cinquenta anos, e tinha uma presença quase régia com sua postura reta, sua pele escura e seus cabelos trançados. “Há, na verdade, minha senhora” ele respondeu, com facilidade. “Estamos acompanhando seu desenvolvimento já há alguns anos, e mantenho Lorde Morzan sempre bem informado a respeito. Na verdade, ele foi formalizado por Lorde Morzan como parte da guarda na primeira vez em que você esteve aqui, mas não sei se você se lembraria.”
Na primeira visita de Selena ao castelo, ela se lembrava de se impressionar com a biblioteca, e também de Morzan lhe contando pela primeira vez tanto sobre seu passado com Jaime quanto sobre seu dragão. Haviam sido, ela sabia, coisas grandes o suficiente para eclipsar outros detalhes.
“Tudo era muito novo para mim naquela época,” Selena admitiu, em tom de desculpas, “então receio que não.”
O capitão da guarda não pareceu muito surpreso. Assentiu em concordância, e então gesticulou na direção do grupo de homens mais jovens no pátio. “Tornac,” chamou. “Venha aqui um momento.”
O garoto que se aproximou parecia mais novo do que a própria Selena. Tinha cabelos castanhos finos e os olhos só um pouco mais claros, e conteve o sorriso que dirigia aos amigos com quem conversava ao se adiantar para falar com eles. Curvou-se na altura da cintura em um movimento treinado e respeitoso. “Minha senhora,” cumprimentou, “é uma honra conhecê-la.” Voltou-se então para seu capitão. “Senhor.”
“Tornac completou dezoito anos alguns meses atrás,” Adedayo disse a ela, “e já é nosso melhor espadachim. Tem potencial para se tornar em breve também um de nossos melhores guardas.”
Era um pouco estranho para ela, na verdade, não ser a pessoa mais nova em um contexto como aquele (alguns dos criados de Morzan em Urû’baen eram mais novos do que ela, mas, com a exceção de Emma, ela quase não os via). Se perguntou se poderia se considerar mais experiente também, depois de tudo o que fizera, ou se Tornac, que com certeza treinara a vida toda, ainda a superaria naquele quesito.
Olhando com mais atenção, suspeitava que ele talvez estivesse um pouco nervoso por estar sendo apresentado a ela, embora tivesse a postura confiante.
“Fico feliz em saber que temos alguém tão promissor trabalhando em nossa defesa,” Selena optou por responder, e lhe ofereceu um sorriso genuíno. “Certamente o melhor espadachim da guarda aqui seria também um dos melhores a se encontrar no Império, eu imagino?”
Tornac apenas encolheu um pouco os ombros. “Eu só tento o meu melhor, minha senhora,” respondeu. “Mas estarei sempre de prontidão para auxiliá-la no que for preciso.”
Selena se perguntou o quanto eles sabiam sobre seu trabalho como a Mão Negra no castelo de Morzan — certamente ao menos os rumores maiores já haviam chegado para a criadagem por lá? —, e a que tipo de situação os guardas por ali seriam expostos. Não tinha certeza se o trabalho seria tão exigente, tão duro, como o executado pela guarda em Urû’baen, por mais que provavelmente fossem eles os responsáveis por assegurar o controle de Morzan sobre todos na propriedade e nas terras a sua volta.
Olhando para Tornac naquele momento, ela sentia que poderia de fato contar com ele para o que fosse necessário, mas, ao mesmo tempo, parte sua esperava também que nunca fosse precisar. Agradeceu suas palavras mesmo assim, e concordou graciosamente quando Adedayo perguntou se ela gostaria de assistir a uma demonstração dos talentos do jovem.
Acompanhou seus movimentos enquanto ele se posicionava no centro do pátio, e era claro, mesmo em um primeiro momento, que ele sabia o que estava fazendo. Tornac se movia como se a espada fosse uma extensão de seu corpo, e Selena o assistiu repelir com relativa facilidade um, dois, três outros guardas, e então dois ao mesmo tempo.
Ao observá-lo lutar, porém, ela se descobriu também estranhamente distraída, sua mente voltando de novo e de novo para os pensamentos que tivera ao ser apresentada a ele; sobre como ele era tão jovem, mais novo do que ela, e sobre tudo o que potencialmente o esperaria pela frente. Aquela era sua semana de descanso, em teoria, e o castelo de Morzan era confortável e seguro, protegido por encantamentos antigos e muros tão altos — ainda assim, porém, ela sentia de repente a situação que enfrentavam lá fora pairando sobre o lugar como uma sombra muito escura.
A ameaça que Fäelan representava lhe voltava, subitamente, como algo imenso e onipresente, se fazendo impossível de ignorar quando ela se via forçada a encarar de frente tudo o que podiam perder.
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