Shiver
83 Capítulo 83
Notas iniciais
Estaria nevando em poucas semanas, mas naquela noite o céu estava muito limpo e muito estrelado. O fogo ardia na lareira, e Selena tinha as pernas dobradas sobre o sofá e um livro em seu colo enquanto esperava o horário do jantar; tendo tomado banho há relativamente pouco tempo, já vestia sua camisola por baixo do robe vermelho pesado, assim como meias compridas muito finas que protegiam suas pernas.
Ergueu os olhos ao ouvir a porta de entrada principal da torre se abrir, e sorriu um pouco consigo mesma ao ver Morzan entrar. Ele havia estado em uma audiência com o rei a que ela não fora convidada — e a qual não teria podido comparecer de toda forma, uma vez que passara o dia realizando uma missão curta — e, dessa forma, estava bem arrumado ao vestir um gibão vermelho com detalhes bordados em preto e uma calça escura. Ele encontrou seu olhar, lhe oferecendo um sorriso breve, antes de sinalizar ao guarda mais próximo e pedir que chamasse Jaime.
“Está tudo bem?” Selena perguntou, ouvindo a própria voz baixa, e encolheu mais as pernas ao vê-lo se aproximar para sentar-se ao seu livro.
“Sim,” Morzan respondeu, apenas. Puxou os pés dela para o seu colo com muita naturalidade, apoiando a mão sobre uma de suas canelas, e devolveu, “E com você? Como foi sua missão?”
Ela encolheu um pouco os ombros, optando por fechar também seu livro. “Tão bem quanto poderia ter sido,” disse. “Não tive nenhuma dificuldade maior.” Hesitou um pouco antes de admitir, “Estou só um pouco cansada.”
Morzan assentiu. “As últimas semanas foram mesmo movimentadas,” concordou, mas sem parecer se preocupar em demasiado. “Acho que conseguirei agora te dar a oportunidade de alguns dias para descansar. O rei me deu uma pequena tarefa — minha própria missão, poderíamos dizer,” e arrancou dela um pequeno sorriso, “mas não conseguirei te levar comigo dessa vez. Não será nada demorado, mas deve te proporcionar um pequeno período de paz.”
Selena riu um pouco. “Sem você?” perguntou. “Não vou conseguir aproveitar um segundo que seja.” Satisfez-se ao ouvi-lo rir também. “Você vai sozinho?”
“Não exatamente.”
Ele talvez houvesse continuado, mas naquele instante Jaime surgiu nas escadas que desciam para os dormitórios dos guardas. O capitão da guarda se aproximou com as mãos juntas atrás das costas, e, ao vê-lo, Selena se endireitou no lugar, descendo seus pés de volta para o chão em um movimento talvez apressado demais. Jaime nada disse, porém, apenas inclinando a cabeça na direção dos dois em um cumprimento quieto, mas respeitoso.
“Meu senhor. Minha senhora.” Ele encontrou o olhar de Morzan, sua expressão ainda resguardada. Os dois não estavam exatamente brigados, Selena sabia, mas havia uma certa relutância em algumas de suas inteirações que não havia estado lá antes (ela não esperava que aquilo durasse muito mais tempo, mas Morzan continuava firme em insistir que Jaime não deixasse a torre sozinho, e Jaime continuava insatisfeito com a situação). “Me chamou, meu senhor?”
O assentir de cabeça que Morzan fez foi quase distraído. “Você já comeu? Estive esperando que se juntasse a nós para o jantar.”
“É claro,” Jaime respondeu, a voz muito neutra. E então, “Será um prazer.”
Morzan pareceu satisfeito. “Vamos, então?” chamou, se colocando de pé. Ofereceu uma mão para ajudar Selena a se levantar, e então a apoiou na base de sua coluna, a mantendo por perto. “Eu estava contando a Sel que o rei irá me mandar em uma missão em breve,” disse, convidando Jaime para os acompanhar escada acima com um inclinar da cabeça. “Uma viagem rápida sobre as Montanhas Beor, na companhia de Alexis e Aleifar.”
Selena se voltou para ele com os lábios entreabertos. “Para as Montanhas Beor?” repetiu, um pouco assombrada. As montanhas ao sul da Alagaësia supostamente escondiam, de alguma forma, as cidades dos anões, e era dito que tinham um tamanho monstruoso o suficiente para que a Espinha parecesse diminuta em comparação. “Você não havia dito. Não posso mesmo ir?”
Morzan riu, sem se importar.
“Passar uma semana na companhia dos gêmeos, longe de qualquer cidade ou proteção? Acho que não.” Encontrou o olhar dela, e insistiu, “Seria exposto demais, Sel, mesmo que eles sejam nossos aliados. O rei nos manda sobrevoar as Beor para que eliminemos qualquer um de seus inimigos que possamos encontrar por lá, de toda forma, e mesmo que não seja garantido que encontraremos alguém, não é algo que você iria apreciar.”
Selena ainda poderia protestar, mas Jaime sorriu um pouco para ela. “Você ficará por aqui conosco então, minha senhora?”
“Na verdade,” Morzan interrompeu, antes que ela pudesse responder. “Planejo levar Selena para o meu castelo enquanto estiver ausente. Ficarei um dia ou dois com você lá, Sel, e então voltarei para a capital para encontrar mais uma vez Alexis e Aleifar; devo te buscar depois que voltar também. Não quero vocês dois aqui juntos,” acrescentou, “para que Fäelan não fique tentado a atacar a torre enquanto eu não estiver por perto para defendê-la.”
“As defesas devem resistir,” Jaime apontou. Ele se adiantou para abrir a porta do estúdio de Morzan para que ele e Selena entrassem, e encontrou o olhar dela por um instante curto antes de se voltar novamente para seu senhor. “Se ele realmente ousasse atacar.”
“Seria uma agressão muito direta,” Selena concordou. “Não acho que Fäelan consideraria que vale a pena.”
Morzan riu pelo nariz. “Você o conhece bem assim, Sel?” perguntou, sem se impressionar, e então ergueu uma mão para aplacá-la ao se sentar atrás de sua escrivaninha. “Mesmo que você esteja certa, eu preferiria não oferecer a ele a oportunidade. Já a sua presença aqui, Jaime, não seria nada fora do comum, mas ainda assim, caso ele tente alguma coisa, saiba que sua prioridade é escapar vivo, não importa quantos outros homens perderíamos. Se eu tivesse que reconstruir minha guarda, no mínimo preferiria ter você presente para me ajudar.”
Jaime sacudiu um pouco a cabeça ao se sentar ao lado de Selena, mas não como se achasse graça: parecia genuinamente desaprovar, ainda que talvez não achasse o assunto digno de uma discussão verdadeira.
“Eu não o deixaria inteiramente desamparado, meu senhor.”
Morzan olhou para Jaime como se não apreciasse o comentário, mas sua resposta foi muito suave. “Eu não esperaria menos.”
“Se eu pudesse treinar um sucessor mais diretamente...”
“Deixaria para trás alguém tão bom quanto você mesmo?” Morzan perguntou, sua voz agora mais afiada.
A conversa chegava a um território um pouco mais perigoso, Selena percebia, e era possível que Morzan não gostasse de ter os dois tão confortáveis em questioná-lo e insistir ao protestarem suas decisões. “Você seria realmente difícil de substituir,” disse, o elogio vindo muito fácil, em uma tentativa de desanuviar o ar.
Jaime encontrou seu olhar. “Eu agradeço, minha senhora,” respondeu, tão educado, antes de se voltar para Morzan de novo. “Não alguém tão bem preparado quanto eu, é claro, em tão pouco tempo. Mas seria melhor do que alguém treinado apenas de forma indireta.”
“E deixar que essa notícia chegue a Fäelan, para fazê-lo acreditar que de fato nos sentimos ameaçados a esse ponto? Acredito que não.” Ele sacudiu a cabeça. “Isso sem tocar no fato que você poderia começar a treinar alguém agora só para que mudássemos de ideia quando um sucessor realmente se tornasse necessário. Não, Jaime, os custos ultrapassam demais os benefícios para que eu permita qualquer coisa do tipo, mesmo que isso te deixasse mais tranquilo.”
Selena percebeu o erguer das sobrancelhas de Jaime, leve como foi. “Eu sinto que...” ele começou, e então pareceu se conter. Fechou os olhos, respirando fundo uma vez, e então fez que sim com a cabeça. “Não importa,” disse, mais resoluto. “Você está certo, é claro, meu senhor.”
Mas algo no rosto de Morzan pareceu se suavizar um quase nada enquanto ele observava o guarda. “Podemos conversar sobre isso,” foi o que ele respondeu, devagar, “quando eu voltar. Me lembre, por favor.” Ofereceu a Jaime um sorriso torto. “Não espere que eu mude de ideia, é claro, mas podemos rever seus argumentos.”
Jaime hesitou um instante, os lábios entreabertos, e então fez que sim. “É claro.”
Em momentos como aquele, Selena sentia que perdia um pouco do que se passava entre os dois. Apoiou o rosto em uma mão, distraída, e perguntou, “As coisas ficam mais calmas por aqui quando Morzan se ausenta?”
Jaime se voltou para ela como se com algum esforço. “Depende um pouco, minha senhora.” Ofereceu-lhe então um sorriso pequeno. “Às vezes, ficamos apenas mais vulneráveis, e eu devo mesmo reforçar ainda mais as proteções quando vocês estiverem fora. Mas acontece também de tudo se acalmar. Dessa vez, como Lorde Aleifar e a Senhora Alexis irão também, os únicos dos Treze restantes são no máximo neutros a nosso respeito, então tudo fica um pouco mais arriscado.” Ele acabou encolhendo um pouco os ombros. “Mesmo assim, não espero que nada muito grave aconteça.”
Kialandí e Formora sendo aliados de Fäelan, Selena supunha, e Enduriel o único dos Renegados a se isentar do conflito, à medida do possível. Jaime ainda mantinha algum contato com Dorian, até onde ela sabia, mas não era uma ponte que estivesse rendendo muitos frutos.
“Entendo.”
Selena foi salva de pensar em algo mais para perguntar pelo criado entrou no estúdio carregando uma bandeja de prata com o jantar — sopa de cogumelos, além de fatias de pão e pequenos cubos de queijo —, o servindo diante de cada um deles em movimentos eficientes e respeitosos. Aceitando também um cálice de vinho, ela bebeu um gole em silêncio, e se surpreendeu um pouco quando Jaime continuou a conversa.
“E você gosta de visitar o castelo de Lorde Morzan, minha senhora?” Ele quis saber. “Preciso admitir que não tive ainda a oportunidade de conhecê-lo.”
Ela ergueu um pouco as sobrancelhas, surpresa. “Nunca?”
“O trabalho de Jaime costuma mantê-lo ocupado por aqui,” Morzan explicou, tão fácil. “A viagem em que nos conhecemos, Sel, foi uma das poucas vezes que ousei levá-lo comigo a qualquer lugar que fosse.”
“Ah,” Selena fez, entendendo. “Faz sentido, eu suponho. Eu gosto sim,” continuou, respondendo a pergunta de Jaime. “Acho o castelo incrivelmente bonito, e a biblioteca lá é simplesmente maravilhosa. Vivo sonhando com ela, e ainda assim me surpreendo de novo quando volto.”
“Acho importante que levá-la lá com alguma frequência,” Morzan disse, “porque acredito que minha criadagem precise aprender a respeitá-la como uma autoridade pouco abaixo de mim, para além de apenas como minha Mão Negra.”
Selena sorriu, experimentando também da sopa. “Eles sempre me trataram muito bem.”
A conversa continuou mais suave a partir de então, seguindo muito naturalmente para assuntos mais leves, mas ainda assim Selena às vezes percebia Jaime olhando para Morzan com algo de pensativo em seus olhos claros, sua expressão tocada por algo que talvez fosse ressentimento, ou talvez algo completamente diferente.
Ela não julgava saber dizer com certeza, e não achava que fosse, na verdade, de sua conta. Por isso, decidiu ignorar o que quer que se passasse entre os dois, e pode, no final das contas, aproveitar o jantar e a conversa como se nada mais estivesse acontecendo.
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