Shiver
78 Capítulo 78
Notas iniciais
Ajoelhado em frente ao trono, Jaime vestia o uniforme completo da guarda de Morzan — túnica vermelha sobre a cota de malha e até mesmo uma capa escura caindo de seus ombros; carregava em sua mão direita um elmo adornado com uma pluma que Selena nunca o vira usar antes, e tinha um broche no formato do símbolo de Morzan firme em seu peito. Mas tinha ainda o braço esquerdo preso em uma tipoia, e, por mais que seus olhos verdes estivessem sérios, algo na linha de seus lábios traía uma expressão de desagrado que ele não parecia conseguir esconder de todo, revelando um pouco de seus reais sentimentos acerca de situação inteira.
Selena não tinha certeza que seria algo visível para outras pessoas, que não o conhecessem tão bem ou não estivessem a parte dos detalhes do que acontecera, mas não era também como se houvesse alguém para perceber qualquer coisa de toda forma. O rei escutara o relato de Jaime em silêncio; com atenção suficiente nos olhos escuros, Selena julgava, embora não parecesse se importar tanto assim. Fizera algumas perguntas, e ouvia agora enquanto Jaime lhe dava as melhores respostas que podia, mas havia uma diferença estrondosa entre sua expressão levemente entediada e a dureza nos olhos díspares de Morzan, que aguardava alguns passos atrás do capitão de sua guarda.
“E você não reconheceu nenhum dos atacantes como homens que já vira antes?” Galbatorix perguntou, como se precisasse da confirmação.
Jaime não esboçou reação à pergunta. “Não, Vossa Majestade.”
“E não teve a oportunidade de reconhecer nenhum deles uma vez que estavam mortos?”
“Não, Vossa Majestade.”
“E não havia tampouco tido qualquer contato anterior com Lorde Alden ou seus homens?”
“Não, Vossa Majestade.”
Selena desviou os olhos por um instante, contendo a vontade de correr as mãos pelo rosto para tentar dissipar um pouco da ansiedade que sentia naquele momento; tinha um impulso inconveniente de se esconder, ou desaparecer da cena, mas é claro que não podia. Assistiu, então, enquanto o rei levantava os olhos para encarar o primeiro de seus Treze Servos.
“Mas você ainda assim afirma ter certeza de que ele foi o responsável, Lorde Morzan?”
Se Jaime não parecia muito satisfeito em estar ali, e Selena soubesse bem que ela mesma preferiria estar em seus próprios aposentos, sentada em sua cama com um livro no colo, Morzan não pareceu se incomodar em nada com a pergunta afiada.
“Tomei o cuidado de confirmar,” respondeu, a voz dura. “E Lorde Alden chegou a confessar ele mesmo, depois disso. Aleifar seria testemunha, mas ele não parece ter sido convocado para essa audiência.”
A expressão de Galbatorix parecia um pouco irritadiça, agora. “Julguei que não seria necessário convidá-lo,” ele disse, apenas, “assim como não acredito que seja o caso de transformarmos a situação em um espetáculo. Acredito em você, Lorde Morzan,” acrescentou, “e sua palavra é suficiente.”
O rei voltou os olhos para Jaime mais uma vez, e sinalizou para que se levantasse com um gesto rápido dos dedos. Selena tentou lhe oferecer um sorriso encorajador quando ele voltou ao seu lugar, de pé ao seu lado, mas Jaime não encontrou seu olhar; parou com as costas muito retas e o rosto erguido, o braço livre atrás das costas, como se estivesse em seu posto na guarnição da torre de Morzan e não tivesse nada a ver com aquela audiência específica.
Se tivessem aquele tipo de intimidade, Selena tocaria sua mente para lhe oferecer alguma palavra de conforto. Como não tinham nada parecido, ela apenas conteve um suspiro, desviando os olhos enquanto Galbatorix sinalizava para que seus guardas trouxessem para dentro da sala o nobre que Morzan acusava ser o responsável pelo ataque a Jaime.
Selena não o conhecia muito bem — achava já ter visto Lorde Alden uma vez ou outra na corte, mas ele dificilmente seria considerado alguém de destaque, longe de pertencer a uma das famílias mais influentes da corte do rei em Urû’baen. Tinha pouco mais de cinquenta anos, e, no entanto, parecia mais velho, com cabelos ralos e cinzentos e um rosto muito magro.
Ele foi deixado de joelhos em frente ao trono, onde Jaime estivera poucos momentos antes. Não parecia machucado, por mais pálido que estivesse no momento, o que talvez fosse um pouco surpreendente; havia sido capturado no dia anterior por Morzan e Aleifar, e Selena duvidava que qualquer um dos dois houvesse sido muito cuidadoso.
“Lorde Alden”, Galbatorix declarou, a voz lenta e autoritária. “Você é acusado de orquestrar um atentado contra o capitão da guarda de Lorde Morzan dos Treze Servos. Você nega a acusação?”
Um momento de silêncio, e então, “Não, Vossa Majestade.” Ele pareceu hesitar por um instante antes de continuar, sua voz soando um tanto fraca, “Eu admito o que fiz e me arrependo, e peço sua misericórdia ao decidir minha punição.”
Selena pensou ter visto Morzan revirar os olhos.
“E foi esse ataque ideia sua, ou estava seguindo instruções de outra pessoa?”
Lorde Alden não hesitou dessa vez. “Foi inteiramente minha ideia e responsabilidade, Vossa Majestade.”
Morzan deixou escapar uma risada breve dessa vez, seca e sem qualquer traço de humor. “Altamente improvável.”
Alden mal conseguiu encontrar seu olhar.
“É a verdade, meu senhor,” insistiu. “Foi minha ideia, e eu mesmo planejei o ataque.”
Morzan o ignorou. “Eu examinei sua mente, Senhor,” disse, diretamente ao rei, “e é verdade que ele não tem lembranças de receber instruções de outra pessoa. É também verdade que se lembra de planejar o ataque, mas de maneira vaga e incompleta; é claramente uma memória plantada. Aleifar constatou o mesmo.”
Galbatorix lhe lançou um olhar curto que se parecia muito com um aviso, e Selena precisou engolir em seco, se endireitando onde estava. Não queria, honestamente, ter que presenciar nada daquilo.
“Não é fácil apagar memórias,” foi o que o rei disse. “E muito menos plantar uma nova em seu lugar.”
“O que sugere que foi feito por um mago poderoso e experiente,” Morzan concluiu, impaciente. “Em conjunto com o ataque a Selena ontem, por mercenários que admitiram ter recebido ordens de Fäelan, e à luz do ataque anterior que seus servos já haviam feito a ela, é fácil pensar que ele também esteja envolvido dessa vez.”
Mas o rei apenas sustentou seu olhar. “Uma teoria difícil de se provar, considerando que Lorde Alden não tem qualquer lembrança de Lorde Fäelan o instruindo a fazer coisa alguma.” Ele ergueu uma mão para cortar o protesto de Morzan. “Irei repreendê-lo pelo ataque à sua Mão Negra,” afirmou, “mas é possível entender a lógica por detrás dele, considerando que a Senhora Selena não é inteiramente inocente de atacar seus aliados. Um ataque ao capitão de sua guarda, por outro lado, não serviria Lorde Fäelan tão bem.”
“Jaime é um servo melhor do que qualquer um com que Fäelan possa sonhar,” Morzan devolveu, de imediato, e, pelo canto dos olhos, Selena pode perceber o maxilar travado de seu capitão da guarda. “E certamente me faria falta. Foi, de toda forma, uma tentativa mesquinha de me atingir.”
Galbatorix estudou seu rosto por algum tempo, e então assentiu em um movimento lento.
“Nisso,” afirmou, “nós concordamos. Qual punição você acredita que Lorde Alden deva receber, neste caso?”
Morzan tinha os braços juntos atrás das costas e o rosto impassível ao dizer, “Um ataque a um dos Treze Servos é um ataque ao Império. Devemos fazer dele um exemplo, para que outros não se sintam tentados a repetir suas ações. Peço que seja conduzida uma investigação para determinar quem mais, dentre sua família, conhecidos e criadagem, esteve envolvido em suas ações, e todos esses devem pagar com suas vidas. Seus filhos, caso não tenham tido envolvimento no caso, deveriam de toda forma perder o direito a seus títulos, fortuna e terras, de forma a deixar claro que Lorde Alden não tirou qualquer benefício do que fez.” Ele relanceou o olhar na direção do lorde ajoelhado. “É misericórdia o suficiente permitir que continuem vivos.”
O rei sorriu. “Você não acha, Lorde Morzan, que fazer dele um exemplo apenas funciona para destacar o ataque a sua criadagem? Não, eu acredito que seja melhor manter o assunto tão quieto quanto possível. Não quero, afinal de contas, que chegue aos ouvidos dos Varden a possibilidade de meus servos estarem brigando entre si. E você não sofreu, afinal, nenhuma baixa.” Ele bateu com o indicador no braço do seu trono. “De acordo com nossas leis, Lorde Alden deve de fato perder a vida por orquestrar um ataque contra um dos Treze Servos; sua posição como um lorde de meu reino, porém, em conjunto com o fato de seu ataque não ter sido bem-sucedido, lhe garantem o direito de uma morte discreta e indolor.” Uma pausa curta. “Quanto a seus filhos, não vejo motivo para que sejam punidos, a não ser que, como você mesmo disse, seja provado que tenham tido algum envolvimento. Neste caso, de fato, acredito que misericórdia seja o melhor caminho para o bem de meu reino.”
Não havia muito o que Morzan pudesse dizer para isso, Selena refletiu, e o rei realmente não deu muita atenção a seus protestos. Logo foram dispensados, e ela seguiu Morzan e Jaime para fora da sala considerando que não sabia se gostaria que a audiência tivesse tido um resultado muito diferente, mas que aquele se parecia ainda assim próximo demais de uma derrota.
Eles se afastaram em silêncio. Selena se sentia incapaz de ler tanto o rosto de Jaime quanto o de Morzan, se sentindo presa em um desconforto que lhe pertencia, e foi quase um alívio quando, longe o bastante do estúdio do rei, Morzan falou, “Isso muda as coisas.” Ele parou onde estava para se voltar para ela e Jaime, sua voz baixa o único som no corredor vazio. “Se o rei não pretende aplicar a justiça de forma apropriada, teremos que fazer isso nós mesmos.”
Foi Jaime quem respondeu. “Ele é o rei, meu senhor,” disse, sua voz muito estável e muito neutra. “Pensei que era ele quem decidia qual a justiça apropriada.” Ele encontrou o olhar de Morzan, impassível. “A não ser que esteja falando de vingança?”
Morzan não disfarçou a irritação e a impaciência em seu rosto ao encarar de volta o capitão de sua guarda. “Se você pretende ser propositalmente obtuso, Jaime, eu sugiro que fique quieto,” respondeu, e Selena não o havia visto ainda ser tão duro com ele. “Alden irá pagar com sua vida, mas está sendo recompensado por isso. Sua filha recentemente se casou com um dos nobres do círculo de Fäelan; de uma família de sangue duvidável, talvez, mas ainda assim rica. E seu filho está também noivo. Ele perde, mas sua família ganha, no que com certeza foi o acordo que Fäelan fez com ele. Se eu deixar isso acontecer, o que isso faz de mim?”
“Peço desculpas se me enganei, meu senhor,” foi o que Jaime respondeu, muito firme, “mas pensei estar fazendo uma pergunta válida. Como o rei disse, você não sofreu nenhuma perda.” Antes que Morzan pudesse responder, porém, ele continuou, “Mas vejo que não estou sendo útil a essa conversa, e tenho trabalho a fazer. Se me permitir, meu senhor, eu gostaria de voltar à torre.”
Morzan parecia conter a vontade de revirar os olhos. “Vá, então,” disse, a voz dura.
Jaime foi, e Selena o observou se afastar com uma sensação de nervosismo funda em seu estômago. Deixou escapar um suspiro, correndo as mãos pelo próprio rosto, e deixou que tudo aquilo transparecesse em sua expressão ao se voltar para Morzan e lhe oferecer um sorriso fraco. “Ele realmente está bravo com você,” comentou, tentando desanuviar um pouco a conversa.
Morzan manteve os olhos fixos no ponto em que Jaime desaparecia na curva do corredor, os lábios apertados, e demorou um pouco para se virar para ela. “Desde que ele não seja atacado entre aqui e minha torre,” foi que disse, ainda insatisfeito, “é o suficiente para mim.”
Selena riu pelo nariz, um pouco descrente. “Jaime normalmente não se comporta assim,” precisou dizer. Havia demonstrado muito mais boa vontade para com ela, na última vez em que haviam se falado.
“Ele tem seus momentos,” Morzan respondeu, com pouco caso. “E a situação tocou alguns pontos sensíveis. Ele vai superar,” acrescentou, desnecessariamente.
“Eu suponho.” Selena juntou as mãos na frente do corpo para mantê-las quietas. “Suponho também que você queira que eu aplique a punição aos filhos de Lorde Alden?”
“Minha Mão Negra,” Morzan concordou. “Quem mais?” Uma pausa curta, e ele observou seu rosto com mais cuidado. “Você entende porque temos que fazer isso, não entende, Sel?”
Selena fez que sim. “Se Alden tenta te atacar e sai da situação ganhando exatamente o que barganhou, outros podem se sentir confortáveis em fazer o mesmo depois. Eu entendo.” Fez uma careta pequena. “E o rei claramente beneficiou Fäelan dessa vez, não foi?”
Morzan desviou o olhar. “Apenas se não agirmos.”
“Certo.” Ela mordeu o interior da bochecha, e então comentou, “Você sabe, você realmente não sofreu nenhuma baixa.”
Ele riu disso, sacudindo a cabeça.
“Não me teste, Selena,” pediu, mas algo em sua voz parecia mais suave.
“Você não acha,” ela começou, e então hesitou um pouco. “Não acha que poderíamos assassinar seu filho, mas poupar sua filha?”
Morzan devolveu seu olhar. “E por que nós faríamos isso?”
Havia muito que ela pudesse falar, diversos argumentos a sua disposição; que a garota não fazia mais parte da família de Alden, uma vez que se casara; que sofreria bastante com a morte do pai e de seu irmão; que fora ela mesma apenas uma peça nas ambições de seu pai. Mas não era exatamente fácil, e Selena tentou mesmo assim, “Porque eu estou te pedindo?”
Morzan a examinou por um longo tempo daquela vez, e então fez que sim, apoiando uma mão na base de sua coluna ao guiá-la pelo corredor. “Está bem,” disse, tão baixo. “Se você está pedindo.”
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