Shiver
70 Capítulo 70
Notas iniciais

Morzan convidara Alexis e Aleifar para o almoço, e os criados serviram carne com molho doce, pães e frutas. Ele garantira que tudo correria bem, mas Selena não conseguia evitar ficar nervosa — precisava se controlar para não bater o pé em um ritmo nervoso ou morder o interior da bochecha, e o vinho delicioso que tomavam não estava ajudando tanto quanto poderia.
No momento, a conversa seguia rumos razoavelmente triviais. Do outro lado da mesa, Alexis vestia dourado e falava sobre o casamento de uma de suas damas, e ao seu lado, Aleifar parecia profundamente desinteressado em um gibão cinza com detalhes prateados. Selena não sabia como reagiriam aos novos planos de Morzan, ou se deveria esperar uma discussão acalorada em consequência.
Não achava que Alexis, pelo menos, fosse sair dali satisfeita.
Estavam terminando as sobremesas quando Morzan mudou o assunto, comentando, de forma muito suave, “Conversei com o rei ontem.” Aleifar continuava entediado, mas Selena percebeu o quê de alarme na forma como Alexis ergueu os olhos. Ela mesma engoliu em seco, examinando os gêmeos por um instante antes de se voltar para Morzan também, aguardando que ele continuasse. “Sobre nossa estratégia para frustrar Fäelan.”
Aleifar ergueu uma sobrancelha loira. “E?”
“Ele acredita que precisemos ser mais assertivos ao nos opormos a ele,” Morzan disse, sustentando calmamente o olhar do outro Cavaleiro. “E utilizar todas as nossas maiores armas, e também nossos melhores talentos.”
O sorriso de Aleifar veio devagar e arrogante, mas Alexis falou primeiro, “Não.”
Selena olhou para Morzan, e ele lhe sacudiu minimamente a cabeça antes de prosseguir, “Não considerar as sugestões de Galbatorix seria imprudente.” Tamborilou os dedos contra o tampo da mesa por um momento. “Ele sabe mais do que nós, e, embora não pareça disposto a tomar um lado a essa altura, tampouco me negou alguns conselhos. Estamos deixando o poder de Fäelan crescer, e não podemos nos dar ao luxo de fazer isso.”
“Abandonar o cuidado é a forma mais segura de perdermos tudo,” foi o que Alexis devolveu, dramática. Selena se lembrava bem da dama lhe dizendo que a probabilidade de qualquer um deles perder ‘tudo’ era mínima, e precisou se conter para não erguer uma sobrancelha. “Se Aleifar tentar se infiltrar em sua mente, Fäelan vai perceber, e não vai gostar—”
Aleifar só riu. “Quanta confiança você tem mim.”
“Não é sobre você. Se ao menos reconhecesse quão perigoso ele é—”
“Todos nós reconhecemos que Fäelan é perigoso, Lex,” Morzan interrompeu; Selena o estivera observando, e achava que ele parecia exasperado, embora tentasse disfarçar. “Mas ele não é o único, e não estou sugerindo que Aleifar tente qualquer coisa com ele diretamente. Ele está esperando por isso, assim como Kialandí e Formora, e acredito que o melhor a se fazer seja esperar que abaixem a guarda. Seus aliados, por outro lado...”
Alexis cruzou os braços, recostada contra sua cadeira alta. Seus cabelos loiros caiam ao redor de seu rosto, e, com os lábios apertados e os olhos duros, ela estava absurdamente bonita. Ao seu lado, Aleifar ainda sorria, girando o vinho na taça antes de beber um gole.
“E o que, exatamente, você espera que eu faça a respeito de seus aliados?” perguntou. “Porque há muito que posso fazer. Posso ouvir seus pensamentos, mesmo que apenas sussurros, mesmo que tentem manter suas mentes fechadas, mesmo que os elfos os tenham avisado. Sei, por exemplo, que sua Mão Negra está preocupada com como Alexis vai reagir a esse novo plano.” Ele olhou para Selena, muito satisfeito, e ela só estreitou os olhos em sua direção, impedindo a si mesma de se voltar para Morzan para ver sua reação. “E posso lhes dar sugestões de novos pensamentos, e alimentar suas dúvidas.”
Morzan não pareceu se impressionar. “Fique fora da cabeça de Selena,” devolveu, impassível. Sob a mesa, entrelaçou os dedos da mão direita nos dela, o polegar correndo por sua pele em um movimento mínino reconfortante. “E tudo isso, exceto que temos que agir com cuidado. Descobrir o que pudermos, antes, para então atacar as pessoas certas, nos momentos oportunos. E deixar os elfos de lado até tempo o suficiente ter passado para que eles deixem de esperar um ataque.”
Alexis revirou os olhos para aquilo. “E quando vai ser isso? São elfos, pode demorar anos. E mesmo que deixem de esperar que Aleifar interfira com seus pensamentos, não quer dizer que não perceberão quando acontecer, e não temos qualquer garantia de que vamos perceber e escolher o momento certo, tampouco. É perigoso demais.”
“Não é,” Morzan insistiu. Pareceu hesitar um instante mínimo, “Fäelan é arrogante o suficiente para achar que não o fizemos ainda porque temos medo de sua reação, e para acreditar que também não teremos coragem no futuro. Mas essa é uma decisão que pode esperar.”
A Cavaleira sacudiu a cabeça.
“Não é,” afirmou. “Não é, porque você já se decidiu e só está esperando a hora certa para dizer que chegou o momento em que será necessário, exatamente como fez agora! E Aleifar quer isso desde já, então é claro que vai tomar seu lado quando o dia chegar. Exceto que nós dois não somos outros de seus servos, apenas esperando suas ordens para agir. Precisamos decidir as coisas juntos, e não é isso que está acontecendo aqui.”
Selena ergueu as sobrancelhas, surpresa; percebia o ar de divertimento de Aleifar, o maxilar travado de Morzan ao seu lado. Lembrou-se da primeira vez que ela própria o desafiara, em um cômodo vazio naquela mesma torre, e de sua surpresa e desagrado. Nunca o havia visto discutir de verdade com seus aliados, e não sabia se queria ver.
Mas foi Aleifar quem falou. “Morzan tem direito a mudar de ideia, Alexis, e a escolher o caminho mais sábio. E vocês estão ambos errados; a única pessoa capaz de saber o melhor momento para atacar Fäelan sou eu, e tenham certeza de que não vou deixar uma oportunidade passar só porque não nos sentamos para planejar antes.” Ele olhou em volta. “E nenhum de vocês pode me culpar, porque fariam a mesma coisa em meu lugar.”
Alexis parecia furiosa. “E agora você está sendo estúpido.”
“Estou mesmo?” Seu irmão só sorriu e se levantou, alisando as próprias roupas. “Concordo em seguir o plano de Morzan, por enquanto. Me preocuparei em fazer minha parte, e deixarei a definição das outras para vocês. Agora, se me derem licença.”
Selena se virou para observá-lo sair da sala, e ainda estava olhando para a porta quando Alexis falou, acusadora, “Você fez de propósito para me pegar de surpresa.”
Morzan deixou o ar escapar no que era quase um suspiro. “Sel,” começou, devagar, se voltando para ela, “pode deixar que eu e Alexis conversemos em particular? Eu te procurarei depois.”
Ela estudou seus olhos díspares por um momento, e se limitou a assentir. Parou na saída para olhar para trás uma última vez, se perguntando se Morzan seria capaz de conseguir fazer Alexis ouvi-lo, se já não teria estado preparado para aquela reação, se ela estava certa em se preocupar.
Aleifar não estava mais em lugar nenhum à vista, mas Jaime estava recostado contra a parede no pequeno saguão de entrada do andar, brincando com um objeto pequeno prateado que Selena não conseguiu distinguir. Ergueu o rosto para ela, os olhos pálidos cautelosos.
“Minha senhora,” cumprimentou, guardando no bolso da calça o objeto com que brincava; Selena pensou que talvez fosse um anel. “Está tudo bem?”
Ela não tinha certeza. “Acho que sim,” respondeu, apenas. Hesitou. “Pode vir comigo um instante?”
O capitão da guarda de Morzan assentiu, a seguindo enquanto Selena subia as escadas circulares da torre; ela abriu a porta dos próprios aposentos para que ele entrasse, e então a fechou para que pudessem conversar em particular. Tirou as botas ao se sentar na cama, abraçando os próprios joelhos, o convidando para se sentar na cadeira em frente à escrivaninha.
Recontou a conversa com os gêmeos, atenta às reações de Jaime, e o vinco pequeno entre suas sobrancelhas era sinal suficiente de que ele se preocupava com a situação. Quando ele falou, porém, não foi o que Selena esperava.
“O que o rei disse a Lorde Morzan, exatamente?”
Selena hesitou, mordendo o interior da bochecha ao se lembrar. “Que... Que Fäelan tem um plano concreto e busca objetivos claros, mesmo a longo prazo. Que Morzan estava relutante em usar suas melhores armas e que existem coisas que ele não esteve disposto a fazer por considerá-las abaixo de si, e ele deveria considerar mudar isso. Galbatorix parecia achar que Alexis era uma aliada menos valiosa do que Aleifar, ao menos no que diz respeito às habilidades dos dois, mas Morzan sabia... Ele sabia que Alexis se incomodaria com essa mudança de planos.”
Jaime sacudiu a cabeça, quase distraído. “É claro que sabia.” Encontrou o olhar de Selena. “E ela não está de todo errada. Fäelan é o mais velho dos Treze e talvez também o pior. Ele... Você não o conheceu anos atrás, antes de ele partir para se esconder em seu castelo, mas ele usava seu lugar na corte para brincar com as vidas dos nobres e dos servos como se estivesse jogando um jogo. Ele se juntou ao rei porque estava entediado com sua vida em meio aos Cavaleiros, e deixou a corte porque se entediou aqui também.”
“E agora ele quer voltar para a floresta e governar sobre os elfos,” Selena concluiu. Sorriu um pouco, tentativa. “Morzan diz que não poderíamos nunca deixá-lo ter todo esse poder, mas eu, pessoalmente, não ficaria triste em ver Fäelan ir embora.”
“Não é?” Jaime concordou, rindo baixo. “O problema com Fäelan é que ele não teria problema algum em prejudicar metade dos nobres do Império para conseguir, e o que aconteceria depois que ele se cansasse de brincar com os elfos e resolvesse usá-los para voltar a conquistar poder aqui? Além disso, ele não pode atacá-los ainda, e pode ter de esperar décadas até ter a oportunidade. Então isso provavelmente também faz parte de seu plano.”
“Galbatorix realmente disse que há parte de suas intenções que ainda não descobrimos,” Selena disse, reflexiva. “Você acha que Alexis está certa? Que o que Morzan e Aleifar planejam é perigoso demais?”
Jaime sacudiu a cabeça. “Eu acho que Fäelan é ardiloso, poderoso, e também orgulhoso e cruel. Que uma estratégia mais cautelosa tem seus méritos.” Ele desviou os olhos. “Mas acho que Lorde Morzan sabe o que está fazendo, mesmo que o rei...” Se conteve. “Sei que Morzan é perfeitamente capaz de lidar com a situação, e sair vitorioso dela com perdas pessoais mínimas. Eu só me preocupo.”
“Com?”
“Com o preço disso tudo.”
“O risco é mesmo tão grande?” Selena perguntou. “Porque o rei não permitiria que Fäelan prejudicasse seus nobres a ponto de o Império em si ser prejudicado, não é mesmo? Existe um limite para o que até mesmo Fäelan pode fazer.”
Ela sabia, também, que ela e Jaime se encaixariam em uma categoria de pessoas menos importantes cujas vidas valiam, teoricamente, menos. Não era algo sobre que gostava de refletir, e confiava na proteção de Morzan, de toda forma.
“Exceto que Fäelan não é preso ao rei por um juramento de lealdade,” Jaime apontou. Quando Selena lhe ergueu os olhos, confusa, ele explicou: “Não foram todos os Treze que juraram lealdade ao rei durante a Queda; alguns são mais próximos de aliados do que servos, nesse sentido. É claro que Galbatorix é mais poderoso e poderia destruir qualquer um deles, e Fäelan não poderia fazer algo que o desagradasse demasiadamente sem arriscar tudo o que planeja conseguir. Mas, na prática, não há nenhum feitiço que o impedindo de fazer coisas que Lorde Morzan, por exemplo, não poderia.”
Selena nunca ouvira falar de nada daquilo antes. “Então ele pode tomar decisões que também prejudiquem o rei diretamente?”
“Não seria inteligente da parte dele,” Jaime respondeu, “mas sim.”
Ela respirou fundo uma vez. “E é por isso que Alexis não quer que Aleifar o ataque diretamente.” Engoliu em seco. “Deveríamos nos assustar também?”
Jaime só sacudiu a cabeça.
“Lorde Morzan ainda é mais poderoso, mais influente, melhor do que ele,” afirmou. “Mas seria prudente nos mantermos sempre atentos.”
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