Shiver

57 Capítulo 57


Notas iniciais
boa leitura ♥

A próxima uma semana e meia se passou muito lentamente; Selena fora acordada na manhã seguinte por uma criada muito educada, porém também um pouco temerosa, e encontrara Morzan pouco antes da hora marcada para o desjejum com Lorde Fallon e outros dos nobres da corte de Gil’ead; o clima entre eles se provou um tanto carregado, mas nenhum dos dois se mostrou disposto a tocar no assunto da discussão da noite anterior, se contentando em vez disso com uma distância desconfortável. Morzan demonstrou seu carinho e proximidade usuais na presença de outros nobres, e Selena, consciente de seu papel, o imitou.

Eles visitaram Ceunon em seguida, e depois de mais três dias voltaram a Urû’baen, onde Selena se manteve em seu próprio quarto sempre que podia — e com certeza durante as noites —, aninhada em sua cama com o livro que Eron lhe dera no colo, dando pela primeira vez atenção às partes e páginas que antes evitara por serem tão completamente tediosas. O livro a fazia bocejar e lhe dava vontade de abandoná-lo em uma estante e nunca mais pegá-lo de novo, e seu orgulho às vezes se insurgia também, insistindo para abandonar aquela tarefa e escolher ler poesias em vez disso, ou fugir para a cidade e passar uma tarde inteira comprando joias, ou até mesmo abandonar tudo aquilo e encontrar algum instrutor que fosse capaz de ensiná-la a caçar com gaviões da forma que algumas damas faziam.

Persistiu, porém, decidida a fazer melhor mesmo que a lembrança de tudo o que Morzan lhe dissera contorcesse seu estômago e enchesse seus olhos de lágrimas se se permitisse pensar no assunto por muito. Encontrou conforto em Emma — a criada mais nova parecera perceber de imediato que algo estava errado e imediatamente se mostrara disposta a falar por minutos e minutos sobre quaisquer assuntos leves para fazer com que Selena se sentisse melhor, e provavelmente estaria ali para conversas mais sérias, também — e na certeza de que Morzan estava ao menos parcialmente satisfeito com seu desempenho e seu progresso, por mais que talvez também frustrado com algumas de suas fraquezas.

Não era aquilo que realmente o incomodava de verdade de qualquer maneira, Selena repetia de novo e de novo para si mesma; ela precisava acreditar nisso. O próprio Morzan se mostrara quieto e distante, observando os esforços de Selena em silêncio, e passara seus finais de tarde livres trancafiado em seu estúdio, por vezes sozinho, por vezes conversando com Allan ou Jaime. Selena vira seu dragão voar para longe da torre com ele nas costas em algumas noites, e mais de uma vez em uma madrugada em que não conseguira dormir, e se encontrara tentando decidir o que pensar sobre tudo aquilo.

Eles deixaram a capital mais uma vez alguns dias mais tarde, rumo a Teirm e para visitar Lorde Risthart e sua corte. As lembranças de Selena daquela cidade eram mais confusas e sombrias, uma mistura de ter achado o lugar tão bonito e de se lembrar das palavras de uma bruxa herbolária que prometera ler seu futuro; ela tentava não pensar no lugar, quando podia. Era dificilmente uma profecia animadora, mas poderia também nem mesmo ser verdade, então qual seria o sentido de se preocupar com ela? O futuro traria o que trouxesse.

E, mesmo em meio a tudo isso, o jantar com Lorde Risthart e alguns de seus nobres foi bastante tranquilo. Morzan se mostrara simpático e bem-humorado — por mais que ele nunca deixasse de fato seus problemas aparecerem em público — e Selena acabara por rir também dos comentários educadamente irônicos de um dos convidados mais jovens. Eles voltaram até seus aposentos em um silêncio não inteiramente confortável, mas até que fácil de tolerar (principalmente depois do vôo de dragão até a cidade, que durara horas e horas e em que eles não tiveram escolha alguma além de aceitar a companhia um do outro), e Morzan apertara sua mão em uma carícia gentil e inesperada antes de se afastar em direção à sacada para olhar para o mar na noite.

Ela o observou por um instante, por um momento com vontade de se juntar a ele, e então lhe deu as costas e separou seu robe e camisola para se preparar para dormir. Estava tirando o vestido quando Morzan se aproximou novamente e tocou a base de sua coluna. “Você deveria vestir suas roupas quentes de viagem e capa,” sugeriu, os olhos de cores diferentes passando pelo tecido leve da camisola antes de seu voltarem para seu rosto. “Em vez disso.”

Selena franziu um pouco a testa. “Vamos a algum lugar?” Precisou se conter para não morder o lábio. “Ou eu vou? Está tarde.”

“Voar um pouco,” ele respondeu, a voz baixa macia. Pareceu dizer suas próximas palavras com cuidado, “Uma pequena aventura?”

Ela se virou para ele por inteiro, dando às costas às roupas que estava prestes a vestir para poder ver melhor seu rosto. “Mas você disse...”

“Eu sei o que eu disse,” Morzan interrompeu, não sem ser gentil. “Não precisamos ir se não quiser, é claro, mas há algo que eu gostaria de te mostrar. É uma boa noite para isso também, bastante tranquila.”

“Um pouco fria, porém,” Selena murmurou, distraída. Mordeu o lado de dentro da bochecha ao pensar, e então assentiu devagar. “As roupas quentes, você disse?”

Ele sorriu. O vestido que Selena escolheu era de um tom muito claro de azul, que pareceria quase branco sob o luar, sua capa cinzenta com peles claras cobrindo o colarinho, e Morzan vestiu sua capa de viagem também, pesada e vermelha e com peles escuras. Ele lhe ofereceu uma mão para ajudá-la a montar seu dragão, e então passou os braços ao seu redor ao se sentar atrás dela, a puxando contra si e a mantendo quente.

Eles voaram sobre Teirm e então para além da cidade, e o mar abaixo deles estava muito calmo, as ondas fracas até mesmo na praia. “Feche os olhos,” Morzan disse em seu ouvido depois de algum tempo, e Selena obedeceu sem pensar muito. Aninhou-se contra ele, tentando encontrar conforto em seus braços e aproveitando — finalmente — aquele silêncio tentativo.

Não estava completamente confiante ainda, mas ele falara em ‘uma pequena aventura’ e, naquele tom de voz tão suave, suas palavras se pareciam demais como uma oferta de paz, ou até mesmo um pedido de desculpas, e ela se agarraria a elas enquanto pudesse. Abriu novamente os olhos quando sentiu o dragão começar uma descida lenta, esperando ver uma ilha ou um barco ou um rochedo cavernoso, mas água era tudo o que havia em qualquer direção que olhasse.

O dragão pousou no mar, as enormes asas abertas para boiar confortavelmente, e ele era grande o bastante que para as pernas de seu Cavaleiro nem mesmo chegassem perto de tocar a água. Selena hesitou um pouco, inicialmente sem entender, e levou alguns instantes para entender no que deveria prestar atenção.

Quando percebeu, porém, a visão lhe tirou o ar. Acima, a lua quase cheia brilhava suspensa entre milhares de estrelas, e cada uma delas se refletia nas águas escuras e muito calmas ao redor deles; em todas as direções, não havia nada além dos pequenos pontos de luz perolada, do movimento suave das ondas, e era como se eles estivessem flutuando em meio a seu próprio e particular céu.

“Isto é...” Ela começou, sem saber qual palavra escolher; maravilhoso, perfeito, extraordinário. “Lindo.”

Morzan riu baixo, sua respiração morna fazendo cócegas no pescoço de Selena. “Não é? Uma das maravilhas de nosso mundo, acredito.”

Sem qualquer dúvida, embora deixasse Selena também um pouco inquieta. Não havia nada além de água — e água, e água — abaixo deles, e por vários quilômetros em toda direção, e apenas céu acima. Ela mencionou isso para ele, a própria voz bem baixa, se convencendo a confiar no clima confortável entre eles. “E, consegue imaginar? Todos os tipos de predadores que devem existir nos mares?”

“Existem tubarões, é claro,” Morzan disse, talvez achando graça de suas preocupações. “Eles poderiam te devorar com facilidade, mas, contanto que consiga falar, você seria capaz de matá-los com magia.”

“Eu estava pensando em sereias,” Selena replicou, não inteiramente de brincadeira. Tinha certeza que existiam coisas piores, na verdade, mais perigosas, mais estranhas, e mais sombrias.

Morzan só riu mais uma vez. “Existe uma criatura,” contou, a voz baixa lançando arrepios pela coluna de Selena, “que é prima dos dragões, as Nïdhwal. Elas assombram as partes mais profundas do oceano, e, como os dragões, são inteligentes. São muito raras, é claro, mas capazes de atacar e comer dragões inteiros.” Ele sorriu quando Selena se torceu pra olhar para ele, um pouco horrorizada. “Não se preocupe muito. Elas não chegam tão próximo da terra.”

“Parecem horríveis,” ela disse, sem querer deixar transparecer que a ideia a assustava um pouco (ele talvez soubesse de qualquer maneira). Ousando mais do que deveria, ela passou uma perna sobre as costas do dragão para se sentar de lado, apoiando a cabeça no ombro de Morzan e traçando os padrões prateados em seu gibão com a ponta dos dedos. Queria dizer mais, mas não sabia o quê, e não tinha a coragem de tocar qualquer assunto ainda.

O silêncio entre eles se estendeu por minutos e minutos, mas ela se sentia confortável o bastante ao aproveitar de sua companhia, por vezes imaginando o que ele estaria pensando. Ainda estava deslumbrada pela visão que eram o mar e os céus.

Foi Morzan quem falou de novo.

“São sobre meu dragão,” disse, tão baixo, e Selena se descobriu muito imóvel ao esperar que ele continuasse. “Os sonhos. Às vezes sobre tê-lo e às vezes sobre perdê-lo, mas acordar nunca é fácil.”

Por um instante, ela não disse nada, sem saber se não estragaria tudo ao falar. “Eu não sabia,” acabou por confessar. “Inicialmente.”

A risada de Morzan foi muito macia, e, desta vez, ele não soava irritadiço. “Você disse.”

“Mas então eu entendi. Depois.” Ela se moveu um pouco para poder olhar para ele, grata pela mão firme que ele tinha em sua cintura, a mantendo segura no lugar. “Um pouco, pelo menos. Eu não acho que tenho todas as informações de que precisaria para te entender inteiro.”

Ele sorriu um pouco; parecia quase pesaroso, a pele muito clara sob a luz da lua, os cabelos escuros balançando um pouco com a brisa fraca, mas não de fato incomodado. “Não, eu diria que não.”

“Você acha que poderia me contar mais? Não,” se apressou em dizer, “sobre isso, mas, você sabe, sobre... Outras coisas. Sobre si mesmo, detalhes, ou... Qualquer coisa, na verdade. Alguma coisa.”

“Sim, Sel,” Morzan concordou, a voz um pouco cansada, mas também gentil. “Eu posso te contar algumas coisas.”

Ela não queria pressioná-lo, e se lembrava das palavras de Jaime sobre lhe dar espaço. Morzan escolhera compartilhar aquela pequena informação ele mesmo, e era impossível não ver naquilo uma tentativa de trazê-la para perto mais uma vez, mas Selena não estava disposta a abusar de sua boa vontade. Não queria tocar em assuntos que o deixassem triste, tampouco. “Mas eu me satisfaria com mais contos sobre aquele, como você o chamou? Nurwal?”

“Nïdhwal?” Ele ofereceu, rindo baixo mais uma vez.

“É,” Selena confirmou. “Alguma vez já viu uma?”

“Não, Sel.” Morzan ajeitou a mão em sua cintura, a puxando contra seu peito. “Nunca.”

“Por que são tão raras? Elas podem usar magia?”

“São raras porque são grandes demais e tem dificuldade para achar comida, e elas caçam sua própria espécie. E não, não podem usar magia, mas são capazes de incapacitar suas presas usando suas mentes.”

Pareciam impressionantes o bastante, ainda que horríveis, e Selena se sentou melhor no lugar, sua curiosidade atiçada; tentou não dar atenção ao pouco de medo em seu estômago. “E elas são bonitas como os dragões?”

Desta vez, ele riu alto. “É claro que não.”

Selena riu também, se aninhando mais contra ele, e continuou perguntando sobre tópicos sem importância, feliz por poder aproveitar novamente de sua companhia, por tê-lo em tão bom humor, e muito grata pelo pouco de si que Morzan lhe oferecera, uma oferta de paz e quase um pedido de desculpas. Achava que o entendia um pouco melhor, também, que possuía agora uma parte dele um pouco maior, e que ele a queria bem, e ela não trocaria aquele sentimento por nada no mundo.

Notas finais
e aí, gostaram? nos vemos nos reviews e amo vocês ♥