Shiver

49 Capítulo 49


Notas iniciais
Bom dia, meus amores ♥ Gostaria de pedir desculpas por ter atrasado uma semana esse capítulo, mas espero que gostem o bastante para compensar! Boa leitura ♥

Lá fora, o sol se aproximava do horizonte, tingindo o céu de infinitos tons entre o rosa e o laranja, e a luz dourada caía sobre Urû’baen como um cobertor morno. Selena parou junto a uma janela do estúdio de Morzan para examinar com cuidado a vista, traçando a moldura de metal com as pontas dos dedos. O verão já se aproximava do fim, e a cidade não estava mais impossivelmente quente, mas ainda assim Selena observava o fio perolado que era o rio Ramr na distância quase saudosa. Sentia falta daquelas primeiras semanas viajando.

Continuou em direção às grandes estantes de madeira que cobriam uma parede inteira, examinando os livros com cuidado. Tocou o primeiro volume de uma coleção de capa de couro — A História e os Segredos da Magia, e se lembrava de ter visto um deles muito antes, no quarto de Morzan em seu castelo — e o puxou na esperança de que, por ser o primeiro, fosse mais fácil de compreender. As letras miúdas pareciam tão indecifráveis quando se escritas em outra língua, no entanto, e o autor parecia não entender bem o que significava Introdução aos Estudos da Magia, por mais que houvesse sido esse o título que dera ao volume; não era possível que aquilo fosse considerado uma introdução a qualquer coisa.

“Quem foi que escreveu isso?” Selena perguntou, correndo os dedos pelo nome desconhecido na primeira página. “Não pode ter sido uma pessoa comum.”

Morzan olhou para ela de onde estava sentado atrás de sua escrivaninha, deitando o rosto para vê-la melhor. Seus cabelos escuros estavam compridos demais, chegando a roçar seus ombros, e ele parecia absurdamente bonito vestindo o gibão negro e a camisa vermelha. Havia uma bandeja de prata sobre a mesa à sua frente, com os resquícios do jantar, e, do outro lado, Jaime ocupava uma das duas cadeiras.

“Um Cavaleiro humano, alguns séculos atrás.”

“Não faz sentido,” Selena reclamou, incomodada por não conseguir entender. Ela já conhecia um pouco sobre magia, afinal, havia feito alguns feitiços mais complexos e também entendia bem os princípios que Morzan lhe explicara. Sentia que deveria ser capaz de ler o primeiro dos livros daquela coleção, mesmo que não o resto. “E isso é uma introdução?”

Morzan riu baixo. “Uma introdução para estudos mais complexos da magia, sim. Eu te disse que esses não são livros feitos para iniciantes, Sel.”

Ela fechou o livro com um estalo, voltando a lhe dar as costas para colocá-lo de volta no lugar. Havia uma fileira de cadernetas que ela sabia serem registros de Morzan de coisas importantes que ocorreram durante os anos, mas se limitavam a fatos soltos e frios, totalmente sem vida. Uma estante carregava livros com detalhes sobre a economia e história das maiores cidades do Império, e de alguma forma capaz de tirar todo o sabor de um ataque pirata ou de uma importante batalha. Era tudo tão técnico, tão seco.

“Você tem algum livro aqui que seja legível?” Selena perguntou, correndo os olhos pela estante, entediada. Voltou-se para encarar Morzan. “Que eu consiga entender e apreciar?”

Morzan ergueu os olhos díspares para ela, parecendo divertido. “Entender, sim. Apreciar, por outro lado, depende apenas de você.”

A sua frente, Jaime riu baixinho, abaixando um pouco o rosto antes de erguer o olhar para Selena também. “Talvez devesse procurar em outra biblioteca, minha senhora? De que tipo de livros você gosta?” Ele estava vestindo uma camisa verde-escura em vez do uniforme da guarda, e tinha passado o dia na cidade visitando sua família. Se juntara a eles para o jantar à convite de Morzan. “Esses me parecem bastante... sérios.”

Selena franziu o nariz para a palavra. “Sim.” Se aproximou da mesa de novo, se apoiando sobre o tampo enquanto decidia se voltava para sua cadeira ou andava até Morzan. “Não, eu prefiro algo com alguma emoção. Entendo a necessidade do conhecimento ser útil, mas certamente é possível ser interessante ao mesmo tempo?”

“Eu imaginaria que sim,” o capitão da guarda de Morzan concordou. “Mas talvez seja o caso de seus interesses serem outros, não?”

Seu tom fora muito gentil, mas Jaime soava como se talvez a estivesse repreendendo daquela maneira tão sutil que usava às vezes. Selena estreitou os olhos, desconfiada, sem conseguir se decidir em uma resposta. Defensiva, insistiu, “Jaime, algumas coisas são simplesmente chatas.”

O homem sorriu de novo, trocando um olhar com seu senhor que parecia dizer muitas coisas, e nenhuma que Selena fosse capaz de ler. O canto dos lábios de Morzan pareceu tremer um quase nada, quase imperceptível, e ela mal pôde conter a própria indignação.

“O quê?” Exigiu, e Morzan sorriu de verdade.

“Encontrarei um livro novo para você,” ele lhe prometeu. Levou a taça de prata aos lábios devagar, tomando um longo gole de vinho, os olhos nos dela. “Um que seja útil e interessante, e que sirva de passatempo também.” Indicou a cadeira vazia à frente de sua mesa. “Sente-se, Sel.”

Selena aquiesceu, suficientemente apaziguada por sua promessa. Aquela última semana havia sido bastante calma, diferente dos últimos meses apenas porque Morzan não a mandara em missão alguma, por menor que fosse; a capital parecia estar tomada por um burburinho que precedia o outono e o festival que comemorava o início da estação, e a antecipação logo dera lugar ao tédio da espera.

Morzan parecia estar satisfeito com o progresso de Selena até então, e o modo como histórias sobre ela — sobre a Mão Negra — pareciam se espalhar em um ritmo lento, mas estável, pelos círculos certos das grandes cidades do Império. Por isso, além de outras coisas, ele não se preocupava em mandá-la com urgência em outras missões, ao menos por enquanto.

“Ouviu falar do ataque dos Varden a um comboio do exército nas proximidades de Gil’ead, minha senhora?” Jaime lhe perguntou, e ela lhe ergueu os olhos, imediatamente interessada. “Há duas noites?”

“Não,” Selena admitiu. Voltou-se para Morzan. “Por que não me contou?”

Ele dispensou sua pergunta com um gesto da mão direita. “Coisas como essa estão sempre acontecendo. Não costumam ser importantes individualmente, e você saberia sobre o que aconteceu se estivesse prestando atenção.”

A reprimenda quieta fez com que Selena engolisse em seco, a atingindo certeira, por mais que Morzan não parecesse de fato incomodado. Eles não haviam, de fato, discutido os rebeldes desde as semanas viajando juntos em que ela o ajudara a procurar pelos inimigos do rei espalhados pelo Império.

“Eles costumam fazer uso de ataques pequenos e imprevisíveis,” Jaime explicou, preenchendo o silêncio com a calma e destreza de quem tinha anos de prática em moderar as conversas de Morzan, “porque não têm a força ou os números para enfrentar o exército do rei diretamente.”

Morzan riu pelo nariz, desdenhoso. “Eles pensam que estão sendo inteligentes, mas a coisa esperta a se fazer, em seu lugar, seria desistir dessa luta sem sentido.” Ele tamborilou os dedos longos contra o tampo de madeira da escrivaninha, quase pensativo, antes de erguer os olhos díspares para Selena. “Mas há uma conversa que precisamos ter sobre os Varden, Sel.”

“Nós os discutimos,” ela disse, baixinho, por mais que a verdade fosse que o conhecimento que tinha sobre os rebeldes ainda fosse mínimo. “Em Kuasta.”

Podia sentir os olhos verdes muito claros de Jaime nela, talvez repensando o que acontecera em Kuasta e ligando os pontos, ou talvez ele já soubesse. Selena se lembrava de ter ficado cara a cara com um dos rebeldes, e então de Jaime aparecendo atrás de si, colocando as mãos sobre seus ombros. Ela não fazia ideia se Adam lhe contara o que discutira com ela mais tarde naquela noite, ou se ele tocara no assunto com o próprio Morzan; não fazia ideia da extensão do interesse que o capitão da guarda tivera por ela na época.

“Não, não sobre a validade de suas ações,” Morzan disse, como se a ideia não houvesse nem mesmo lhe ocorrido. “A não ser que essa seja uma conversa que queira ter?”

Ela sacudiu a cabeça. “Não.” Tomou um gole da própria taça de vinho, e então juntou as mãos no colo. “Vai me contar onde eles se escondem? Em Carvahall, costumávamos pensar que seria em Surda, mas não sei se faz tanto sentido. Galbatorix permitiria que os surdanos continuassem existindo se estivessem escondendo seus inimigos?”

“Se os Varden estivessem lá, de fato não.” Morzan pendeu a cabeça para o lado, a estudando com atenção. “Surda os ajuda em segredo, é claro, e pensa que não sabemos, mas não temos motivos para acreditar que seja lá que os rebeldes se escondem. Não, as informações que temos sugerem que eles estejam escondidos nos túneis dos anões nas montanhas Beor, fora de nosso alcance.”

“E é por isso que não o rei não os ataca e destrói definitivamente?”

“Por isso, e porque, como um grupo, eles não representam ameaça real para o Império.” Morzan fez um instante de silêncio, como se as próximas palavras fossem difíceis de dizer. Selena arriscou um olhar na direção de Jaime, mas o capitão da guarda examinava o rosto de seu senhor, cuidadoso e atento. “Não, são alguns membros individuais deles que oferecem algum perigo. Seu líder, Deynor, é claro, mas ele não sai da segurança das montanhas. Para você, Selena, a preocupação é outra; porque logo eles a reconhecerão como uma arma importante para o Império, e, mais cedo ou mais tarde, saberão que a Mão Negra é minha, e minha apenas, devo te alertar sobre Brom.”

Selena franziu as sobrancelhas; o nome lhe parecia estranhamente familiar, mas ela não sabia dizer quando — ou se — já o ouvira antes. “Brom?” Repetiu, testando a palavra, e o som lhe veio fácil, quase confortável sobre sua língua.

“Ele foi um Cavaleiro,” Morzan explicou, a voz distante e desafetada, talvez seca demais. “Na época da Queda. Seu dragão morreu na batalha de Doru Araeba, mas o vínculo entre dragão e Cavaleiro é forte o suficiente para que sua vida tenha sido prolongada em muitos anos, por mais que ele tenha envelhecido — ouvimos — mais do que teria se Saphira estivesse viva. Foi ele quem fundou os Varden, naqueles primeiros anos em que Galbatorix estava concretizando seu domínio sobre o Império, e desde então ele busca vingança contra nós.” Ele desviou os olhos, amargo. “Contra mim, acima de tudo.”

“Por que você?” Selena perguntou, cautelosa. Morzan encontrou seu olhar, e não havia expressão alguma em seu rosto bonito. “Foi você quem... Quem matou seu dragão?”

Ele apenas sacudiu a cabeça. “Não. Brom e eu fomos...” Ele hesitou, como se a procura da palavra certa. “Amigos. Em Ilirea, antes.”

Selena assentiu devagar, absorvendo a informação. Morzan divulgava fatos sobre si mesmo como se fossem segredos preciosos, mas, ao olhar para Jaime, percebia que aquela informação não lhe era de forma alguma nova — era algo, percebeu, que ele talvez não tivesse escolha se não lhes contar, para sua própria segurança. “Entendo,” disse, porque era tudo o que poderia dizer para aquilo.

Morzan a encarou com firmeza, e havia uma força impossível de ignorar por trás de seus olhos, uma emoção quase voraz; sutil, mas muito presente. “Vou te dar o retrato mais recente que temos dele,” ele continuou, a voz firme. “E quero que você o memorize tão bem quanto conseguir. Brom é perigoso, Selena, para mim e meus servos mais do que para qualquer outro; ele seria — já foi — capaz de matar até mesmo um dos Treze. Se, em algum momento, em qualquer uma de suas missões, você chegar a suspeitar que o viu, quero que me alerte imediatamente, e que saia de seu alcance. Não há espaços para correr riscos, Sel, não com ele.”

“Devo te alertar de imediato,” Selena repetiu, só para que Morzan tivesse a certeza de que ela entendera, “e sair de seu caminho.” Encontrou seus olhos, e concordou em um movimento curto. “É uma promessa.”

Notas finais
E aí, gostaram? Nos vemos nos comentários e amo vocês ♥