Shiver
40 Capítulo 40
Notas iniciais

“Eles surgiram da noite, senhora,” o garoto contou, afastando os cabelos da testa. Ele ainda olhava desconfiado para o vestido de couro que Selena usava, para a espada pendurada em sua cintura, mas não protestou suas perguntas. ”Como fantasmas ou espectros, mas eram homens. Todos montados, todos armados, não havia como pará-los. Tive sorte, acho; levei uma pancada na cabeça e caí no chão, e só acordei no dia seguinte.” Ele encolheu os ombros magros. “As mercadorias haviam sido levadas. Isso foi a um dia de distância da cidade, mais ou menos. Estávamos indo para Gil’ead.”
Selena mordeu o interior da bochecha, contendo um suspiro de frustração. Já conseguira quais informações pudera dos próprios mercadores, que, apesar de claramente consternados com suas perdas, pareciam pouco dispostos a contar muito a uma mulher, e especialmente uma que se recusava até mesmo a lhes revelar seu nome. A confiança deles em Morzan, ela havia percebido, era pouca, e o fato de ele insistir que ela mantesse a própria identidade um segredo fora da corte não estava ajudando.
Ela correu os olhos pelo garoto mais uma vez; ele nem mesmo usava camisa ao carregar tocos de madeira pela cidade, e, com sua pele morena de sol, não poderia ter muito mais que quatorze anos. Jovem demais para ter sido contratado como guarda para proteger mercadorias. E, no entanto, lá estava.
“Eles não carregavam nada que os identificasse?” Perguntou. “Algo sobre suas roupas, armas, montarias, até mesmo sua aparência?”
O garoto mudou o peso de perna, os olhos castanhos desconfiados. “Eu já contei aos guardas da cidade,” respondeu. “E ouvi dizer que um deles foi capturado, senhora. Mas eles usavam preto, todos, e suas armas eram boas. Os cavalos, também.” Havia uma nota de exasperação em sua voz quando ele concluiu, “Eles não carregariam símbolo algum. São bandidos.”
“Bandidos bem equipados, ao que parece,” ela devolveu, a voz seca.
“Eles vendem mercadoria roubada,” ele insistiu, parecendo satisfeito com a explicação. “É o que bandidos fazem, enriquecem com o que pertenceria a homens honestos.” Chutou uma pedrinha no chão. “E eu perdi minha única chance de ser um guarda e precisei voltar para casa para trabalhar para meu tio. Precisa de mais alguma coisa, senhora? Não posso ficar parado conversando.”
Selena precisava de respostas, e gostaria que alguém naquela cidade a levasse a sério. Sacudiu a cabeça uma vez, derrotada, e tirou da bolsinha em seu cinto uma moeda de prata. “Pela sua cooperação,” disse, a jogando para o garoto, muito embora estivesse ciente que era dinheiro demais. Pensou em lhe dizer também que era cedo para desistir de se tornar um guarda, mas ele provavelmente viveria mais assim, e ela lhe deu as costas em silêncio.
Encontrou o olhar de Jaime, e havia um quê de repreensão cautelosa em seus olhos claros. Ele não falou nada enquanto se afastavam na direção da rua principal, as pessoas se afastando discretamente ao perceberem o símbolo em sua túnica, e viam Selena também com certa incerteza, se demorando em seu vestido e sua espada e a capa marrom sobre seus ombros. Talvez se perguntassem qual seria sua conexão com Morzan, e ela não gostava da conclusão mais óbvia, certa como era.
“O quê?” Acabou por perguntar, cansada do silêncio do capitão da guarda.
Pararam diante de onde haviam amarrado os cavalos, e, ao montar, Jaime pareceu escolher suas palavras. “Tem certeza de que é esta a reputação que quer construir?”
Ela franziu a testa. “Como assim?”
“De ser alguém que recompensa generosamente as pessoas com quem fala,” ele explicou. “O garoto não lhe disse nada que valesse a prata, minha senhora, e... Bem, é bastante benevolente.”
“Não inspira medo, é o que quer dizer.” Selena mordeu o interior da bochecha, olhando em volta com menos curiosidade do que o normal. Aquela não era, nem de longe, uma das partes mais ricas de Urû’baen; as casas eram pequenas e próximas, as ruas cobertas por terra fina e seca no clima que vinha esquentando rapidamente. “Acha que é isso o que preciso fazer?”
“Parece condizer mais com o papel que Lorde Morzan lhe designou.”
Selena teve que conter um riso frustrado. “Ele não te disse nada sobre isso, disse? O que é exatamente que ele planeja para mim? Porque até agora me parece tudo muito vago.”
“Suponho que vá depender de quão bem você se sair aqui,” Jaime respondeu, e era possível perceber seu cuidado com o que dizia. Até agora, Selena não fizera avanços significativos. “Você saberia melhor que eu, minha senhora. Só estou sugerindo que preste atenção em certos detalhes.”
“Ninguém vai se lembrar de uma moeda se eu derramar sangue o suficiente,” ela devolveu, altiva. Vinha tentando deixar transparecer menos o quanto aquilo a incomodava, por mais que Jaime fosse mais difícil de enganar. E então, “O garoto me pareceu muito jovem para ser um guarda, e ainda mais para que aquela tenha sido sua melhor chance. Eu entendo, suponho, que uma falha como essa afete suas perspectivas, mas ele estava cercado de homens mais velhos e mais experientes que também falharam.”
“Ele é jovem demais,” Jaime disse. “Mas se esperasse um ano ou dois, talvez fosse aceito na guarda da cidade. Se tivesse disciplina.”
“Você não se impressionou,” Selena adivinhou, e lançou um olhar distraído pela rua. “As mercadorias tem que reaparecer, mais cedo ou mais tarde. Não faria sentido roubá-las e não as revender depois.”
“Não,” ele concordou devagar. “Mas apenas nas outras cidades, e aos poucos. Seria mais fácil descobri-los aqui, e impedir os roubos antes que aconteçam.”
Ele estava certo, Selena supunha, por mais que não gostasse de admitir. Estava já há quase uma semana a procura de mais informações, e não demorara muito para entender que o que extraíra do ladrão capturado não a ajudaria em nada; era apenas um homem, e não um em posição de saber muito ou tomar decisões. O que ela sabia com certeza era que os bandidos tinham dinheiro o bastante para estarem constantemente bem equipados, que eram capazes de atacar sistematicamente as caravanas de diversos mercadores, e suficientemente organizados para que a captura de um não significasse seu fracasso. Não achava que estivesse lidando com ladrões comuns.
E então havia os próprios mercadores, que a receberam em suas casas com clara má vontade, por melhor que Selena se portasse. Ficavam mais desconfiados quando ela se recusava a lhes contar seu nome — por ordem de Morzan, e, ela imaginava, para sua proteção — e olhavam melancolicamente para qualquer guarda estivesse com ela, talvez desejando que fosse outro o mensageiro do primeiro dos Renegados.
A cidadela se erguia alta a sua frente, e os guardas aos portões já tinham o bom senso de não pará-los na entrada. Selena ergueu os olhos para as torres, procurando, do chão, enxergar a de Morzan; parecia sem vida durante o dia, com as janelas fechadas e opacas, a abertura para o dragão um poço de sombras.
Eles deixaram os cavalos com um criado no pátio, e subiram as escadas e atravessaram os corredores em silêncio, Jaime apenas alguns passos atrás dela. Ele parou para falar em voz baixa com os dois guardas na porta de entrada, porém, enquanto Selena subia direto para seu quarto, pensando apenas em mandar Emma em busca de um almoço atrasado.
Ignorou o olhar do homem parado junto às escadas, permitindo que ele se tornasse apenas uma mancha em uniforme vermelho no canto de sua visão, e acabou perdendo qualquer que fosse o aviso em seu rosto. Entrou no quarto para encontrá-lo com o deixara — a escrivaninha bagunçada e coberta pelos pergaminhos que estivera lendo, o livro que Eron lhe dera sobre a mesa de cabeceira, uma taça vazia ao lado — exceto pelo fato de Morzan estar sentado em sua cama, as pernas esticadas a sua frente e um livro pequeno nas mãos, esperando por ela.
Selena lhe lançou um olhar cauteloso. “Está tudo bem?”
Ele sorriu. Tinha os cabelos escuros um tanto rebeldes, talvez bagunçados pelo vento, e suas roupas eram relativamente simples. “Por que não estaria?” Pendeu a cabeça para o lado. “Descobriu algo novo?”
“Não,” ela respondeu, contendo um suspiro frustrado. “Não estou chegando a lugar algum.”
“Mas vai,” Morzan replicou, tão calmo, a observando andar em uma linha despropositada até a escrivaninha e começar a procurar pelos pergaminhos. “Pode não ser tão simples quando pensávamos no começo, mas não é nada com que você não consiga lidar.”
Selena encontrou a lista dos mercadores mais importantes da cidade e a puxou para si. “Sabe que eles te odeiam, não sabe? Os mercadores.” Se sentou ao lado dele na cama, sem se dar ao trabalho de tirar os sapatos. “E ficaram ofendidos por precisarem lidar comigo.”
Morzan riu pelo nariz, desdenhoso. “Eles não me odeiam.”
“Com certeza não gostam de você.”
“Eles e a maior parte das pessoas. Não há nada a ser feito sobre isso, Sel.” Ele sorria, e ela não quis admitir que tinha tido uma impressão diferente antes de chegar na cidade. “E logo vão aprender a respeitá-la também, não se preocupe.”
“Não estou preocupada,” Selena devolveu, mas seu tom não era de fato áspero. “Só irritada e cansada de ser desmerecida.” Morzan lhe lançou um olhar divertido, e ela pediu, “Pode me ajudar com isso?” Apoiou o pergaminho em um suporte de madeira, destampando um tinteiro com cuidado, e olhou para ele em questionamento. “Estive me perguntando sobre o resto.”
Morzan franziu as sobrancelhas escuras. “Dos mercadores?”
“Sim. Veja, eu os estive separando; os que estão sendo vítimas dos ataques,” apontou, “os que não estão. E então quais deles estão aliados a você, e quase todos esses vem sofrendo perdas grandes.” Fechou a cara para o pergaminho, incomodada com a informação. “Mas também existem tantos outros, e eu fiquei pensando, bem, se eles não seriam aliados a ninguém? Se você vê vantagem nesse tipo de acordo, faria sentido que o resto dos Treze fizesse algo parecido, não? E mais alguns dos nobres importantes?”
“Eles têm acordos parecidos, sim,” Morzan concordou, e tinha os olhos díspares pensativos. “Acha que pode ser um deles orquestrando os ataques?”
Selena hesitou, em dúvida. “A possibilidade não te ocorreu?”
“Ocorreu,” Morzan admitiu. “Mas não se encaixa bem. Deixe-me te mostrar.” Ele puxou o pergaminho e o suporte para si, e começou a anotar aos lados dos nomes. “Dos mercadores que estão sendo atacados, estes aqui são de Alexis e Aleifar, e estes,” apontou, “têm combinados com Kialandí e Formora.” Ele encolheu os ombros. “De acordo com as informações que tenho, pelo menos. Esses dois têm boas relações com Enduriel, embora ele não jogue este tipo de jogo.”
“E os mercadores que não vem sendo atacados?”
“A maior parte não é aliada a ninguém,” Morzan respondeu. “Mas há alguns poucos de cada, também.”
Selena mordeu o interior da bochecha. “Então, bem... Se estão atacando principalmente mercadores ligados aos Treze, seria possível isso ser trabalho dos Varden? Quero dizer, é um pouco ambicioso, e não sei se eles têm os recursos, mas não há ninguém entre os rebeldes capaz de pensar em algo assim?”
Ele apertou os lábios. “É claro que há,” disse, e ela teve a impressão de que Morzan tinha alguém específico em mente. “Mas alguns dos mercadores atacados não têm nada a ver conosco.”
“Eles poderiam estar trabalhando com informações erradas? Ou os atacando porque são importantes para o Império, mesmo que não de forma direta?”
Morzan deixou a respiração escapar no que se parecia muito com um suspiro. “Talvez,” admitiu, mas depositou o pergaminho e o tinteiro sobre a mesinha ao seu lado. “Mas chega de pensar nisso por hoje. Você merece descanso, e não pode negligenciar demais o resto de seu treinamento.” Ele se levantou, lhe oferecendo o livro que estivera lendo. “Isso é para você.”
Selena o aceitou, surpresa e incapaz de conter seu sorriso. Correu os dedos pela capa grossa, sentindo o material, e abriu o livro para encontrar poemas escritos em tinta muito escura. Se demorou em um verso, traçando as linhas, e ergueu os olhos para Morzan.
“É maravilhoso,” murmurou. E, mais alto, “Obrigada.”
O sorriso de Morzan foi muito pequeno, e ele já se dirigia a porta. “Está com fome?” perguntou. “Posso pedir um almoço, e então quero te explicar sobre magia e reservas de energia.”
“Por favor,” Selena pediu. Abaixou os olhos para o livro de novo, e chamou, “E, Morzan?”
Ele se voltou para ela, uma mão na maçaneta de metal. “Sim?”
Ela gesticulou na direção de sua mesa coberta de pergaminhos. “Realmente acha que consigo resolver isso?”
“É claro que sim.” Morzan sorriu, curiosidade em seus olhos díspares. “Você não?”
Selena pensou em como os mercadores pareceram se recusar a confiar nela, no olhar insolente do garoto mais cedo. Não tinha certeza nem mesmo de que estava no caminho certo, mas assentiu. “Quero conseguir.”
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