Shiver
39 Capítulo 39

Sua espada caiu ao chão pelo que parecia a milésima vez naquela manhã, e Selena massageou seu pulso, incomodada demais com a situação para se dispor a erguer o rosto e encarar os olhos âmbar de Adam. Havia se deitado muito cansada na noite anterior, sozinha na cama pela primeira vez (e por insistência própria), acreditava, desde que deixara Carvahall, esperando poder dormir o quanto quisesse na manhã seguinte.
Mas Emma a acordara no horário normal, trazendo consigo uma bandeja de pães e frutas e conversando animadamente para tentar oferecer a Selena alguma distração; ela se sentia grata pela aia, por mais que sua estratégia não houvesse funcionado, exatamente. Às vezes, ela pensava que Emma era mais observadora e astuta do que parecia.
“Talvez devêssemos parar por hoje,” Adam sugeriu, tentativamente.
Selena empurrou a mecha de cabelos castanhos que se soltara de sua trança para longe do rosto, e o olhar que lançou ao guarda foi mais irritadiço do que o necessário. “Eu consigo continuar,” insistiu futilmente.
“Tenho certeza.” O fato de ele não querer contradizê-la só a incomodava mais, assim como a franqueza preocupada em seus olhos. “Mas não acho que haja necessidade.” Adam pareceu hesitar. “Tem certeza que está bem, minha senhora?”
“Sim,” Selena respondeu, a força em sua voz com sorte compensando a mentira. “Só cansada.”
Ele não pareceu acreditar, mas não protestou tampouco. “Podemos parar.”
Ela mordeu o interior da bochecha. Por toda a corte, nobres andavam e conversavam dando aos guardas tanta atenção quanto dariam a uma armadura vazia, como se não fossem dignos de sua consideração ou preocupação (embora, ela tinha certeza, tomassem mais cuidado quando sussurravam segredos ou intrigas), como se não fossem de fato pessoas.
Selena não conseguia fazer o mesmo; provavelmente por ter sido ela mesma alguém a quem não dariam atenção, ela não conseguia evitar encontrar o olhar de Adam e imaginar quais pensamentos passavam por sua mente, se perguntar se não haveria, junto à preocupação, certo julgamento. E, de qualquer forma, ela estava resoluta a não permitir que o que fizera afetasse sua rotina. Não estava interessada em olhares repletos de pena.
“Eu não poderia evitar uma luta de verdade só porque estou cansada,” respondeu, final.
“Não,” Adam concordou facilmente. “Mas poderia perder a vida por isso.”
Ele não insistiria assim se estivesse falando com Morzan. Selena sacudiu a cabeça um quase nada, se abaixando para pegar sua espada onde ela caíra no chão, e lembrou a si mesma que não estava brava com Adam, não de verdade.
Normalmente gostava de sua companhia.
“Quero chegar a um ponto onde o risco de isso acontecer é menor.” Ajeitou a postura, rolando os ombros para trás. Ergueu a espada em sua direção, e fez de suas palavras uma ordem, “Vamos continuar.”
Adam apenas assentiu, e, se desaprovava, não deixou transparecer. Voltou à posição certa com muita naturalidade, desta vez esperando que ela atacasse primeiro, mas Selena não teve a oportunidade.
A porta atrás de si se abriu, e ela se virou para encontrar Morzan parado com uma mão ainda sobre a maçaneta, vestindo um gibão negro com bordados prateados, uma camisa muito vermelha por baixo, e calças escuras. Selena encontrou seus olhos díspares com apenas um pouco de receio — não haviam se visto naquela manhã, e na noite anterior ela própria não se permitira muito tempo com ele, cansada demais e com medo que ele de alguma forma percebesse o que ela escondia.
Ele a conhecia melhor que ninguém, afinal.
Mas agora a expressão em seu rosto era apenas ligeiramente avaliativa, e Selena sustentou seu olhar pelo que pareceu uma pequena infinidade. E então mudou o peso de perna.
“Bom dia,” desejou em voz baixa, por falta de algo melhor para dizer. Avistou Jaime atrás de seu senhor, e o capitão da guarda lhe inclinou o rosto em um cumprimento discreto. Ela voltou a olhar para Morzan, e era absurdo que uma noite separados a deixasse tão incerta diante dele.
Ele não parecia ter o mesmo problema. Lançou um olhar rápido pela sala vazia onde Selena e Adam praticavam esgrima todas as manhãs, como se fosse a primeira vez que passava por ali — não era — antes de sorrir para ela. “Dormiu bem, eu espero?”
Como se aquilo fosse possível. “Sim.” Selena juntou as mãos atrás das costas, sem saber bem o que fazer consigo mesma enquanto ele atravessava a sala para olhar pelas janelas na parede oposta. Jaime entrou na sala, também, fechando a porta atrás de si. “E você?”
Morzan só sorriu mais uma vez. Recostou-se contra o peitoril de uma janela, de costas para o vidro, e disse, “Precisamos discutir seu próximo passo.”
Ela precisou se controlar para não espiar a reação dos guardas. “Meu próximo passo?”
“Você foi incrível ontem,” ele disse, e Selena recebeu o elogio em silêncio. “É no que todos parecem concordar. Mas precisamos nos focar no que fazer agora; o que fazer, por assim dizer, com toda a informação que conseguiu.”
Selena entreabriu os lábios.
“Morzan...”
“Sim?”
Ela hesitou. As memórias da noite anterior lhe voltavam muito vívidas, recentes demais para que ela tivesse qualquer sucesso em afastá-las. Tudo o que queria agora era esquecer.
“Precisamos fazer isso hoje?”
Morzan pendeu a cabeça para o lado. “Quando mais?”
Selena podia sentir o olhar de Jaime em suas costas, se lembrou de suas palavras. Ele precisa saber. “Qualquer outro dia,” respondeu, a voz baixa, seu tom muito próximo de um pedido.
“Se esperarmos,” ele disse, devagar como se explicasse algo a uma criança, “os ladrões que ainda não capturamos vão perceber que um dos seus desapareceu, e terão tempo para fugir e se esconder. Eles podem não ser tão importantes quanto os rebeldes, mas são numerosos o bastante, perigosos o bastante, para atacar e roubar sistematicamente mercadores que, por enquanto, vêem vantagem em se aliarem a mim.”
Ela estreitou os olhos. “Você me disse que esse seria normalmente um trabalho para a guarda da cidade,” replicou, e estava cansada o suficiente para se irritar com ele também. “Que só me deu a tarefa porque preciso aprender. Que não era tão importante.”
Morzan ergueu uma sobrancelha escura. “Que não era vital,” corrigiu, cruzando os braços. “Este é um grupo de ladrões que vem atacando mercadores de cidade, tanto aliados meus quanto outros. Com os outros, não me importo, mas você pode entender porque aqueles que escolheram se aliar a mim esperam que eu seja capaz de protegê-los.” Ele fez um gesto desdenhoso com a mão. “Mesmo que não seja esse meu papel.”
“Mas você não me disse nada disso,” Selena insistiu, incomodada por ter que lidar com aquilo tão cedo, por ter que ter aquela discussão em frente a uma platéia. Embainhou a própria espada, o movimento mais brusco do que o normal. “Morzan, você me deu a entender que seria eu a... a questionar o homem apenas porque havia coisas que eu precisava aprender, não porque as informações seriam importantes para você no futuro. Não porque eu precisaria fazer qualquer outra coisa depois.”
Ele tinha os olhos díspares duros. “Você preferiria que eu tivesse lhe dado uma tarefa sem propósito? Ter feito o que fez em vão?”
“Não!” Selena protestou, e foi sem querer que ergueu a voz, cruzando os braços também. Ela se sentia sufocada só por se lembrar da noite anterior, não sabia se poderia suportar fazer aquilo de novo tão cedo. “Não, eu preferiria que você me contasse toda a verdade ao invés de me pedir para fazer coisas tendo apenas metade das informações. Que me desse ao menos um dia — um dia! — para me recuperar antes de me pedir mais.”
Qualquer que fosse a resposta que Morzan estivera esperando, com certeza não era aquela. Ele tinha o maxilar apertado, os lábios pressionados em uma linha fina, os olhos muito frios. Parecia prestes a responder, mas Jaime falou antes.
“Meu senhor—”
“Isso pode ser muito simples para você,” Selena interrompeu, ainda olhando para Morzan. Não queria que Jaime viesse em sua defesa, não queria saber o que ele planejara dizer. “Mas ainda é tudo muito novo para mim.”
Algo nos olhos de Morzan pareceu se suavizar apenas um pouco, quase imperceptível. “Deixem-nos,” ele disse para os guardas. E para ela, “Selena, venha aqui.” No que ela hesitou ainda um instante, ele insistiu, “Agora.”
Selena se aproximou devagar, de má vontade, e parou ainda a alguns passos de distância. Sustentou seu olhar com mais facilidade do que teria esperado, tirando forças da própria frustração, do cansaço que ainda sentia e da noção levemente desesperadora que era ter outra missão tão cedo.
“Você sabe,” Morzan começou, “o que o resto dos Treze vê em você? E não só eles, mas o rei, os nobres, até mesmo os soldados espalhados pelo palácio? Eles olham para você e vêem uma fraqueza. Não sua; não te consideram importante o suficiente para até mesmo isso. Uma fraqueza minha.” Ele pausou, permitindo que ela absorvesse suas palavras. “Para eles, você é uma peça em um jogo, e eles estão apenas esperando o momento certo para poder usá-la contra mim. Você percebeu, tenho certeza, os comentários de Kialandí e Formora, aquelas perguntas inocentes que Alexis faz. Sabe o que está acontecendo.”
Ela apertou o maxilar, ergueu um pouco o queixo, e esperou.
“E sabe o que eu vejo em você, Selena?”
“Não faço ideia,” Selena respondeu, teimosa demais, machucada demais para lhe dar uma resposta séria.
“Potencial,” Morzan disse. “O que eu acho é que você é perfeitamente capaz de ser muito mais do que eles esperam. Acho que é possível que os outros nobres passem a olhar para você e ver uma ameaça, não uma oportunidade. Que os Treze estejam preocupados demais com a possibilidade de você arruinar seus planos para tentar usá-la de qualquer forma que seja. Mas apenas se você se esforçar.” Ele a estudou por um instante antes de perguntar, “Como você quer ser vista? Como uma peça? Ou ameaça?”
Selena ergueu os olhos para ele, relutante. Sabia que Morzan esperava uma resposta, mas demorou um pouco para conseguir se forçar a dizer, num murmúrio, “Uma ameaça.”
Ele ergueu as sobrancelhas. “O quê?”
“Uma ameaça,” ela repetiu, mais alto.
“Uma ameaça.” Ele sorriu, mas não havia humor algum em seu rosto. “Quer ser uma força considerável? Alguém a ser temida?”
“Sim!” Selena admitiu. “Mas isso não significa que você não possa me dar um único dia para descansar. Para...” Deixou a voz morrer. “Morzan, eu não sei se consigo...”
Ele sacudiu a cabeça devagar, mas sua expressão finalmente se suavizou. “Ter dificuldade não é um problema, Sel,” disse, mais gentil. “O único problema é você desistir. Eu não estaria pedindo isso de você se não acreditasse que é algo que consegue fazer.”
Selena engoliu em seco. “O que você ia pedir que eu fizesse?”
“Hoje?” Ele perguntou. “Só para que você organizasse as informações que conseguiu, que as estudasse e tentasse descobrir mais a partir delas. Mais cedo ou mais tarde, imagino que você teria que questionar mais pessoas, mas não agora. Pense nisso como uma investigação, uma aventura. Uma chance de parar criminosos e proteger a paz.”
Ela desviou os olhos, cruzando os braços sobre a barriga. “Mas se eu não conseguisse, ou se não estivesse aqui para fazer isso... Você teria a quem mais pedir, sim? Pessoas mais experientes?”
“Mas você está aqui, Sel. Sim, não é minha única opção, mas é minha primeira escolha.” Ele se aproximou para segurar seu rosto entre as mãos. “E sabe o que isso significa, não sabe? Não só que tenho total confiança que você é capaz de fazer o que estou pedindo, mas também que acredito que é mais capaz do que qualquer outro.”
Selena encolheu os ombros. “Ou que eu posso vir a ser, suponho.”
“Ah, sim. Eu tenho altas expectativas.” Morzan correu o polegar por sua bochecha, e Selena estremeceu. “Não estou pedindo que faça tudo sozinha. Não desta vez. Vou me certificar que tenha toda a ajuda que quiser, todos os recursos de que precisar. Mas preciso que você tente, pelo menos. Que faça um esforço. Acha que consegue?”
Ela deixou escapar um suspiro. Olhou em seus olhos de cores diferentes, respirou fundo uma, duas vezes, antes de responder. “Sim.”
“Hoje?” Morzan perguntou, a voz macia muito gentil.
Selena ajeitou a postura, erguendo o queixo para encará-lo de frente, e respondeu não apenas por não querer decepcioná-lo, mas por querer acreditar em si mesma.
“Hoje.”
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