Shiver

36 Capítulo 36


Notas iniciais
Hey, hey, hey ♥ sentiram minha falta? Eu com certeza senti saudades de vocês!! Boa leitura ♥

Quando Morzan finalmente voltou a sua torre, o sol já se punha do lado de fora da janela, pintando o céu de tons rosados e alaranjados, e Selena tinha o pulso um pouco dolorido por ter passado o dia escrevendo. Jaime lhe contava em voz baixa sobre sua própria família, e ela guardava os poucos detalhes que ele lhe rendera com cuidado — tinha uma irmã mais nova, ele lhe dissera, três irmãos mais velhos, e uma prima.

Jaime se interrompera no meio da fala ao ouvir a maçaneta girar, e inclinara o rosto para ver a porta se abrir, mas não se ergueu imediatamente em respeito a Morzan como Selena já vira Adam fazer. Ele cumprimentou seu senhor com um aceno discreto da cabeça, apenas, e Morzan sustentou seu olhar por um instante antes de voltar os olhos díspares para Selena.

Ela não pôde evitar sorrir, mordendo o lábio inferior, e disse, “Está de volta.”

O sorriso que ele lhe devolveu foi muito pequeno. “Sentiu minha falta?” Ele se aproximou em passos demorados, e Jaime finalmente se ergueu para sair do caminho. Morzan tomou as mãos de Selena nas suas e a pôs de pé, lhe dando um beijo muito leve no canto dos lábios, e, quando se afastou, ela corava.

“Talvez,” admitiu. “Você...” Hesitou. “As coisas que tinha a fazer correram bem?”

Ele assentiu, quase distraído, como se não importasse. “Sim.” Voltou a olhar para Jaime, curioso. “Sobre o quê falavam?”

Selena cruzou os braços sobre a barriga, em dúvida de sobre como responder — Morzan estaria mais interessado em saber os assuntos importantes sobre que falaram, mas ela não tinha certeza se aquele era o momento apropriado para lhe recontar os detalhes. “Jaime estava me contando sobre sua família.”

Morzan ergueu uma sobrancelha. “Mesmo?”

Foi Jaime quem respondeu, abaixando o rosto como se sem graça. “Só um pouco.”

Selena lhe havia dito mais sobre a sua infância, na verdade, sem ter se sentido totalmente à vontade em perguntar sobre o passado do capitão da guarda sem revelar também algo sobre o seu próprio; antes disso conversaram sobre a corte, sobre os guardas e os outros criados, e Jaime respondera a todas as suas perguntas sem qualquer sinal da reserva que uma vez tivera. Ela sabia que aquilo talvez tivesse menos a ver com ele estar mais à vontade perto dela do que com sua nova posição ao lado de Morzan, mas era um alívio de qualquer forma.

Morzan só assentiu. “Entendo.” Ele passou uma mão pela cintura de Selena para trazê-la mais para perto, e ergueu o queixo na direção de Jaime. “Obrigado, Jaime. Você pode ir.”

“Meu senhor. Minha senhora.” Jaime inclinou a cabeça em um cumprimento respeitoso, as mãos atrás das costas, sem parecer incomodado ao deixar o quarto. Fechou a porta suavemente atrás de si, e Selena perdeu um momento a observando antes de voltar os olhos para Morzan.

“Eu e ele precisávamos conversar,” ela explicou, encolhendo os ombros. “E então ele concordou em me fazer companhia enquanto eu...” Indicou com uma mão os pergaminhos sobre a mesa, e mordeu o interior da bochecha quando Morzan puxou o mais recente para si.

Ele examinou a caligrafia de Selena com cuidado, os olhos díspares correndo com atenção pelas linhas de tinta escura — Jaime havia sugerido que ela praticasse com frases, uma vez que já desenhava as letras razoavelmente bem — até que finalmente depositou mais uma vez a folha sobre a pilha.

“Nada mal, para um dia de trabalho. Mais um pouco e ninguém suspeitará que você não escreve desde criança.” Morzan estava provavelmente exagerando, mas sorriu para ela mesmo assim, deixando que Selena aproveitasse do elogio. Enrolou nos dedos uma mecha de seus cabelos castanhos, brincando com o cacho, e perguntou, “Não suponho que essa tarefa a tenha cansado demasiadamente?”

Selena mordeu o lábio, sorrindo, e sacudiu a cabeça. “Só a minha mão.”

“Por isso tem duas,” ele comentou, divertido. “Pode deixá-la descansar.” Morzan bateu com a ponta do indicador no nariz de Selena, de leve. “Está disposta a aprender algo novo ainda esta noite?”

Ela não hesitou antes de assentir, tocando com um dos dedos os fios que prendiam seu gibão negro. “Com certeza,” respondeu. “Meu dia está terrivelmente necessitado de algum entusiasmo.”

Os lábios de Morzan se ergueram um quase nada, e seus olhos díspares brilhavam quando ele envolveu as mãos de Selena nas suas mais uma vez. “Tenho certeza que sim.” Ele examinou seu rosto com cuidado antes de perguntar em voz baixa, “Se lembra de Belatona?”

Selena engoliu em seco. Deu um passo para trás, soltando suas mãos e desviando os olhos, e disse, “Eu tento não lembrar.”

Ele estreitou o olhar, uma sombra passando por seu rosto tão rapidamente que Selena teve certeza que a imaginara. Então Morzan se aproximou para prender uma mecha solta de seus cabelos atrás de sua orelha, e sorriu, falando baixo como se compartilhasse de um segredo. “Quando pediu que eu lhe ensinasse magia?”

Ela entreabriu os lábios, incapaz de esconder sua surpresa, e demorou um instante para conseguir responder, num murmúrio, “Você disse que tentaria.”

“Disse,” ele confirmou, traçando o contorno de uma de suas sobrancelhas com um dedo antes de deixar que sua mão caísse, sua voz assumindo um tom mais sério. “E é algo que ainda estou disposto a fazer, mas você precisa entender que magia não é algo com que se brinca, Sel. Não posso nem mesmo prometer que você seja capaz de conjurar feitiços, porque é uma habilidade que a maior parte das pessoas não possuem, e no entanto me preocupo mais com a possibilidade de que você seja.”

Ela assentiu devagar. “Porque é perigoso. Eu entendo.”

“É perigoso, é difícil, e se você tentar um feitiço para que não é forte o suficiente, ele vai te matar. Então se tentarmos isso, se você conseguir, precisará se dedicar aos estudos mais tarde, além das outras coisas que deve aprender. Vai precisar dominar as palavras importantes na Língua Antiga e não quero que use magia à toa, e, acima de tudo, não quero que tente nenhum experimento sem que eu esteja por perto para te guiar.” Ele estudou seu rosto. “Consegue entender isso?”

Pela primeira vez, ela hesitou. Se permitiu refletir sobre suas palavras, mesmo que apenas por um momento, reparando em como elas foram muito menos uma sugestão do que uma ordem. E então se lembrou da possibilidade que tinha diante de si, de algo tão incrível que ela nunca nem mesmo se permitira sonhar com. Concordou com a cabeça, séria. “Eu entendo. Ainda quero tentar.”

Não estivera esperando pelo sorriso satisfeito que ergueu os lábios de Morzan, pelo brilho em seus olhos de cores diferentes. “Isso é bom,” ele disse, e se sentou na cama. Estendeu um braço para ela, a puxando para o seu colo, uma mão muito firme ao redor de sua cintura, e voltou a falar, a voz baixa quase hipnotizante. “Todo Cavaleiro é capaz de fazer magia, por virtude de nosso vínculo com os dragões, e temos também maior facilidade em aprender e maior poder em nossa disposição. Uma pessoa comum como você nunca seria, portanto, capaz de derrotar em um duelo um Cavaleiro, então não pense que aprender magia te dará qualquer vantagem sobre o resto dos Treze.”

Selena assentiu uma vez. “Certo.” E então sorriu um pouco. “E não é como se eles não tivessem décadas a mais de experiência, de qualquer forma.”

A risada de Morzan foi baixa, um sopro contra o pescoço de Selena. “É bem verdade.” Ele ergueu uma mão, entrelaçando os dedos nos dela, e continuou, “Magia é mais difícil e cansativo no começo, para quem está aprendendo, mas a regra mais básica é que fazer algo por meio de um feitiço toma tanta energia quanto fazê-lo normalmente. Se você quisesse, então, mover um objeto, precisaria de tanta força quanto precisaria para movê-lo usando essas suas mãozinhas tão cansadas — embora seja verdade que a energia não precisaria vir das suas mãos, em específico, então no caso usar magia talvez fosse uma vantagem.”

Selena sorriu um pouco, recostando a cabeça contra seu ombro, e repetiu, “Fazer algo com magia gasta tanta energia quanto fazer algo sem magia.” Olhou para Morzan. “Parece bastante simples.”

“Só porque você aprende rápido,” ele replicou, trançando com os dedos pequenos círculos em sua cintura. “Distância também é um impedimento, então é mais fácil encantar objetos e seres que estejam próximos a você.”

Ela se ajeitou em seu colo, apenas um pouco. “Faz sentido.”

“E existem certas coisas que não são possíveis e que custariam sua vida, caso as tentasse: trazer de volta os mortos e brincar com o tempo, principalmente. Mas você é inteligente demais para tentar algo assim de qualquer forma.” Morzan sorriu. “Agora, os Cavaleiros tinham seus próprios métodos para ensinar magia aos noviços, tudo de forma muito orgânica, e foi assim que eu aprendi, mas não temos mais motivos para nos prendermos aos ensinamentos deles, não é mesmo?”

“Suponho que não,” Selena concordou, embora parte sua suspeitasse que eles provavelmente tinham seus métodos por um motivo. “A Ordem dos Cavaleiros é algo do passado, afinal.”

Ele riu baixo. “Exatamente. Agora, para conjurar um feitiço, um mágico precisa se abrir,” e bateu levemente contra a testa de Selena com o indicador, “para o fluxo de energia que há dentro dele, se apossar dela, e então, através de palavras na Língua Antiga, dirigir e moldar essa energia de acordo com suas intenções.”

Ela franziu a testa, repassando suas palavras em sua mente, e mordeu o interior da bochecha. “Não sei se compreendo.”

“É mesmo difícil de entender, uma vez que você nunca teve a experiência. Existe uma barreira, por assim dizer, que separa sua consciência de energia que flui em você, e transpor essa barreira é algo que a maior parte dos humanos simplesmente não é capaz de fazer — e os que são frequentemente o acham difícil.”

Selena assentiu devagar. “Agora acho que enxergo o problema.” Ela olhou para ele, mordendo o lábio. “Acha mesmo que sou capaz?”

Morzan lhe ofereceu um sorriso pequeno. “Eu certamente espero que sim.” A puxando mais para perto contra si, ele tirou de um saquinho que trazia no cinto uma pequena pedra negra, a superfície tão lisa que refletia a luz das lanternas. “É assim que praticávamos, logo após aprender magia pela primeira vez.”

Com a pedrinha sobre a palma da mão aberta, ele disse algo naquela língua desconhecida, as palavras fluindo e se misturando como uma melodia. A pedra escura se ergueu no ar, flutuando por um instante antes de cair novamente sobre sua mão, e Morzan a ofereceu para Selena.

Ela a estudou com cuidado, quase tão impressionada com sua beleza quanto com o feitiço que Morzan acabara de lhe mostrar, e ergueu os olhos, hesitante. “Não sei se consigo. Nem mesmo posso imaginar por onde começar a buscar por essa... essa energia.”

“Por isso estou aqui para guiá-la, não é mesmo? E ajuda que você já saiba expandir sua mente, Sel, porque não são conceitos assim tão diferentes. É só que, desta vez, o que você procura está dentro de si.” Ele lhe ofereceu um sorriso um pouco torto. “E sua sorte é: eu posso te mostrar.”

Selena sentiu a mente dele roçar contra a sua, apenas uma sugestão, e abaixou as barreiras que protegiam seus pensamentos para convidá-lo para si. Relaxou contra Morzan, ainda maravilhada com a sensação que era tê-lo tão próximo, fechando o punho sobre a pedra e deixando que ele passasse mais um braço ao seu redor. “Abra mão do controle, Sel,” ele lhe sussurrou, as palavras tão baixas em seu ouvido. “Confie em mim.”

Devagar, ela obedeceu. Entregou a ele tudo o que era, não pela primeira vez, e permitiu que Morzan assumisse o controle não só de seu corpo, mas de seus pensamentos, de sua própria consciência. Sentiu quando ele a guiou na direção certa, de encontro a um ponto no centro de quem era, e então o modo como ele aplicou um pouco de força, de pressão para também o transpor.

Sentiu a energia tomar conta de seu corpo, luz clara inundar sua mente, e deixou o ar escapar em um suspiro. “Ah.”

E então Morzan permitiu que o fluxo de poder se esvaísse, e Selena se voltou para ele com a respiração fraca. “Eu senti...” Sorriu um pouco, quase sem querer. “Isso foi incrível.”

Ele sorriu de volta, os olhos díspares brilhando. “Agora quero que tente sozinha,” disse. “O poder está dentro de você, Sel, e tudo que precisa fazer é alcançá-lo. Tome posse dessa energia, e a direcione usando essas palavras: stenr reisa. Acha que consegue?”

Selena não fazia ideia, mas nunca quisera tanto algo em sua vida. A ideia de que houvesse tanto potencial em si mesma lhe tirava o ar, e ela já chegara tão mais longe do que jamais esperara que não parecia tão impossível assim tomar mais aquele passo. “Quero tentar,” respondeu.

Morzan a fez repetir as palavras de novo e de novo, de modo a ter certeza que ela tinha a pronúncia perfeita, assim como fizera quando ela lhe jurara lealdade na Língua Antiga, antes de lhe dar permissão para buscar a energia dentro de si.

Sem tê-lo a guiando com mão firme, Selena se perdeu um pouco ao direcionar a atenção mais fundo dentro de si mesma, tropeçando sobre memórias e pensamentos, confiando nos braços que a envolviam e insistindo com si mesma sempre que se sentia tentada a desistir em frustração. Fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás — sentia os cabelos de Morzan roçando contra seu pescoço, o movimento calmo de seu peito conforme ele respirava, e buscou forças na confiança que ele tinha nela.

E então sentiu uma pequena resistência, tão tênue que quase imperceptível, e se permitiu ir em sua direção. Era como tentar pegar fumaça com as mãos, exceto que não de fato: escorregadia e traiçoeira como era, a barreira estava lá. Ela respirou fundo uma vez, insistindo consigo mesma que era possível, e desta vez fez o movimento com ímpeto: não para tocar, mas para atravessar e alcançar o que a esperava além.

Poder inundou seu corpo mais uma vez, e foi por milagre que Selena conseguiu manter a voz firme.

“Stenr reisa,” disse, e a pedra em sua mão se ergueu no ar.

Notas finais
Gostaram? Usei o mesmo método de estudos que Brom ensina a Eragon no primeiro livro, imaginando que há a possibilidade que seja um exercício que ele mesmo fez quando aprendeu pela primeira vez, e também porque é bastante conveniente, vou admitir — porque é bastante simples, me poupa o trabalho de precisar inventar algo novo e procurar as palavras certas (se é que existem), e também cria um paralelo entre Eragon e a mãe, entre Brom e Morzan, o que eu acho bem legal, tbh. Espero que tenham gostado, e nos vemos nos comentários ♥