Shiver

35 Capítulo 35


Notas iniciais
Dos três capítulos que postei hoje, desconfio que esse seja meu favorito. Tenho um carinho especial por certos personagens. Espero que gostem!! Ciça, esse já seria seu por virtude de ser múltiplo de cinco, é claro, e ainda por cima é seu aniversário, então é duplamente seu, eu acho. Em troca, peço apenas que dê ao amor da minha vida o apreço que ele merece, okays? E, falando em amores, amo você, e te desejo o melhor aniversário desse mundo ♥

Selena se debruçava sobre sua escrivaninha, tentando se acostumar à presença estranha da pena entre seus dedos, aos formatos delicados das letras que copiava. Morzan as havia desenhado com a facilidade de quem tinha uma vida de prática, e lhe estendera o pergaminho com a instrução de uma tarefa tão simples, e ainda assim ela sentia falta da energia de praticar esgrima com os guardas; por mais que saber escrever fosse uma habilidade vital naquele mundo, o aprendizado era, além de trabalhoso, quase enfadonho.

E, ao se encontrar sozinha em seu novo quarto, com os pés protegidos por meias muito finas explorando a textura do tapete que cobria o chão de pedras – ela já os esgueirara para fora das sapatilhas há algum tempo –, ouvindo o barulho suave do fogo ainda ardendo na lareira acendida por um criado, vestindo roupas elegantes mesmo que fosse passar o dia sozinha, Selena percebera que ainda havia uma enorme distância entre si e as pessoas nascidas para uma vida nobre, não importava quão confortável ela se sentisse no momento.

Ouviu o barulho de passos nas escadas circulares do lado de fora da porta aberta, e ergueu os olhos a tempo de reconhecer o guarda que passava em frente a seu quarto. “Jaime?” chamou.

Ele parou entre os dois homens a postos no andar. “Minha senhora,” cumprimentou, os olhos verdes a encarando cautelosos. “Precisa de algo?”

Selena hesitou apenas um instante. “Está ocupado? Estive esperando que pudéssemos conversar.”

Jaime pareceu suspirar. “Sim, suponho que devamos.” Ele disse algo em voz baixa para um dos guardas, o mandando descer as escadas com algum tipo de mensagem, e deu um passo para dentro do quarto, apoiando uma mão sobre a maçaneta de prata. “Se importa se eu fechar a porta?”

Ela concordou com a cabeça, depositando com muito cuidado a pena sobre a mesa, sem saber muito bem como proceder. “Tudo bem.” Ergueu o queixo na direção das escadas. “Eles não sabem?”

“Ah, eles sabem.” Jaime fechou as mãos atrás das costas. O uniforme da guarda de Morzan caía bem nele, vermelho e negro, e seus cabelos castanhos estavam muito bem penteados, lhe dando um ar de certa importância. Realmente, ele parecia muito mais confiante do que Selena se sentia no momento. “Mas existem certas conversas que não precisam ouvir. Você esteve... escrevendo?”

Ela sentiu as bochechas quentes. “Tentando. Não sei realmente... Quero dizer, sei ler, mas...”

“Eu entendo,” ele a tranquilizou, e se aproximou mais um passo.

Selena precisou resistir ao impulso de virar o pergaminho para baixo para que ele não pudesse ver suas tentativas desajeitadas de desenhar as letras. “Imagino que você saiba escrever bem.”

“Eu preciso,” Jaime respondeu simplesmente. “Mas não é incomum que novos recrutas para a guarda cheguem sem saber escrever ou até mesmo ler, e eles aprendem aqui.”

Ela cruzou as mãos sobre o colo. “Você sabia?”

“Sim, embora não tão bem quanto agora.” Ele pareceu hesitar, como se procurasse pela coisa certa a dizer. “Adam não,” disse, provavelmente por ser alguém com quem ela já era familiar. “Ele lia um pouco, e até mesmo isso aprendeu sozinho, mas certamente não sabia escrever.”

“Ah.” Era de certo conforto saber. “E Neil?”

“Neil,” Jaime disse devagar, “sempre soube. Boa educação faz parte do legado de sua família, acho que poderia dizer. Eles ainda têm orgulho, se não mais nada.”

“Sua família?” Selena repetiu, franzindo as sobrancelhas. “Ele não é... nobre?”

“Tem sangue nobre, mas não seria de forma alguma aceito na corte. Sua família era de nobres menores, de certa tradição e pouca riqueza, até que seus avôs se casaram com mercadores pelo dinheiro, e isso é algo que nobre nenhum perdoaria. E então, por má sorte, eles acabaram por perder a maior parte de sua fortuna também, e depois disso... Seus pais mandaram Neil para nós na esperança de que Lorde Morzan os ajudasse a reencontrar um lugar na corte.”

“E ele ajudou?”

Jaime riu, abaixando um pouco a cabeça, e a luz das lanternas destacou os fios brancos em seus cabelos. “Não mesmo.” Ele olhou para ela por trás de cílios claros. “Ele diz que já fez muito por eles ao acolher um filho por quem eles não poderiam prover; Neil veio de uma família grande, afinal, tem seis irmãos mais velhos. E não havia muito a ser feito, de qualquer modo. Não há muito que um nobre possa fazer que seja pior do que se casar com uma pessoa comum, e o fazer por dinheiro...”

Selena engoliu em seco. “E Morzan não teme que o julguem por estar comigo?”

“Bem...” Jaime hesitou. “Não é como se ele houvesse se casado com você, minha senhora. Lorde Morzan é um caso particular: como um Cavaleiro, está em uma posição superior, e ele é o servo em quem o rei mais confia. E já é julgado por todos de qualquer forma; os nobres o vêem com inveja, desconfiança, e acredito que uma dose saudável de medo. Com certeza vão sussurrar sobre você por trás de suas costas, mas não ousariam arriscar a ira de Lorde Morzan ao rejeitá-la, mesmo que apenas um pouco.”

Ela voltou a erguer a pena, observando como ela refletia a luz. “Mas nunca serei uma deles.”

“Às vezes,” Jaime disse, “é menos sobre ser do que é sobre aparentar ser. Você finge ser como eles, e eles fingem acreditar.”

E ele parecia compreender tão bem que Selena não teve certeza de que ainda falavam sobre a nobreza. “Jaime...” e hesitou, sem encontrar as palavras certas.

“Minha senhora,” ele disse, e parecia ter dificuldade em se expressar também. “Eu lhe devo um pedido de desculpas.”

Selena olhou para ele, surpresa. “Um pedido de desculpas?”

“Naquelas primeiras semanas,” Jaime explicou, “te tratei de forma inaceitável. Deixei que meus sentimentos influenciassem meu julgamento e meu comportamento para com você, e não deveria ter deixado. Sei que dificultei sua posição ao lado de Lorde Morzan quando já era complicada o bastante quando você acabara de deixar seu lar, e, por isso, sinto muito.”

“Eu não...” Selena sacudiu a cabeça, descrente. “Foi totalmente compreensível, e acho que em seu lugar eu não teria agido melhor.” Encontrou seus olhos, e deixou a respiração escapar em um suspiro. “Eu estava planejando pedir desculpas a você.”

Ele franziu as sobrancelhas escuras, parecendo honestamente confuso. “Mas por quê?”

“Quando Morzan me contou sobre vocês,” Selena disse devagar, tentando organizar seus pensamentos, e se surpreendeu ao ver que Jaime parecia ter pouca se não nenhuma dificuldade em olhá-la nos olhos, “eu percebi que não pode ter sido fácil, nos assistir estar tão obviamente juntos.”

Ele abaixou o rosto. “Bem... Não, não foi.” E lhe ofereceu um sorriso pesaroso. “Mas qual seria a alternativa, minha senhora?”

Selena encolheu os ombros. “Poderíamos ter tomado mais cuidado.”

“Um pouco mais, talvez, mas isso vem com o conhecimento. Você não sabia.” Jaime desviou o olhar por um instante. “Não posso pedir que se restrinja por mim, aceitar que se restrinja. Como um dos guardas de Lorde Morzan, meu papel é presenciar sem ver, ouvir sem julgar, e se você permitir que minha presença incomode ou altere de qualquer forma seu comportamento, já estarei de certa forma falhando. Como capitão da guarda, estarei ao lado de Lorde Morzan com maior frequência que qualquer outro, e preciso que ele confie em mim – e que você confie em mim. Verei coisas que talvez preferisse não ver, mas não posso fazer meu trabalho se vocês estiverem preocupados em policiar o próprio comportamento toda vez que estivermos no mesmo cômodo. É um preço que estou disposto a pagar, minha senhora, que sempre estive disposto a pagar. Consegue entender isso?”

“Sim.”

“Então tudo o que eu peço,” ele disse, “é que não se preocupe muito comigo. Você e Lorde Morzan são de maior importância, de qualquer forma, e eu apenas um servo. Agora, preciso perguntar, minha senhora, se minha presença a incomoda de qualquer outra forma.”

Selena deixou a respiração escapar em um suspiro. “Não, é claro que não.”

Devagar, ele sorriu. “Que bom. Estive preocupado com isso.” Com os olhos verdes a encarando muito francos, Jaime perguntou, “Você se chocou, quando ele te contou?”

“Um pouco,” Selena admitiu. “Foi... inesperado. Mas fez tanto sentido, e preciso admitir que senti certo alívio em finalmente entender.”

“Entender por que eu não aprovei sua presença no começo.”

“Sim.”

“Sim,” ele repetiu. E então, de novo, “Desculpe.”

Selena olhou para o pergaminho sobre a mesa, para suas letras ainda longe de perfeitas. “Você esteve receoso sobre como eu reagiria ao saber?”

Jaime mudou o peso de uma perna para a outra. “Não é algo que eu me sinta totalmente confortável em contar para as pessoas. Não por ter tido um relacionamento com Lorde Morzan, mas por me relacionar com homens.” Ele riu baixo. “Não que ajude que ele seja quem é. Mas era pior com você, já que está você mesma apaixonada por ele, e considerando o modo como a tratei... Faria sentido se me odiasse por isso.”

“Bem,” Selena disse, tamborilando os dedos na mesa, “eu disse a Morzan que achava incrível que você não me odeie. Então temos isso em comum.”

“Ah, mas eu tentei te odiar.” Jaime sorriu. “Não funcionou.”

Selena sorriu de volta, mordendo um pouco o lábio. “Pode ter certeza que não te odeio,” disse. “Eu não acho eu seja...” e deixou que sua voz morresse.

Ele pendeu a cabeça para o lado. “Sim?” Quando Selena continuou a hesitar, adicionou, “Pode dizer, o que quer que seja.”

“Não acho que eu seja quem sofre mais na nossa situação.”

A risada de Jaime foi quase pesarosa. “É bem verdade.”

Selena bateu de leve com a ponta da pena no pergaminho. “E, de qualquer forma, passei muito tempo me ensinado a me sentir insegura e ter ciúmes de Alexis.”

Ele assentiu. “Totalmente compreensível, se quer minha opinião. Mas é seguro dizer que Lorde Morzan não dá a ela esse tipo de atenção há muito, muito tempo.” Jaime deixou escapar um suspiro. “Tem mais alguma pergunta, minha senhora?”

“Não, na verdade. Só...” Ela o estudou com atenção. “Não estou sendo desagradável em insistir nessa conversa, estou?”

Ele pareceu considerar a pergunta, e então sacudiu a cabeça. “É um pouco estranho,” admitiu, “e não é fácil, mas não é desagradável, tampouco. Conversar com Lorde Morzan é às vezes pior, então não se preocupe.”

“Obrigada,” Selena disse, sincera. “Por tudo.” Gesticulou na direção da cadeira que Morzan ocupara antes de sair pelo palácio. “Pode ficar, então? Me fazer companhia enquanto tento aprender?”

“É claro,” Jaime respondeu, mas se certificou de afastar mais a cadeira da dela antes de se sentar. “Não suponho que precise de ajuda?”

“Não, ainda estou na parte mais fácil.” Ela fez uma careta ao recomeçar a copiar as letras. “Mas é um tanto entediante.”

Jaime concordou, mas franzia um pouco a testa, pensativo. “Minha senhora,” disse, “só mais uma coisa. Se algum dia precisar conversar sobre Lorde Morzan e sentir que não pode falar com ele, quero que saiba que pode conversar comigo.”

Selena quis insistir que sabia que não precisaria, que não faria diferença alguma porque ele seria obrigado a relatar suas palavras para seu senhor de qualquer forma, que tinha confiança de que podia falar com Morzan sobre qualquer coisa, mas algo no tom de Jaime a dissuadiu. Ela apenas assentiu, então. “Obrigada,” agradeceu mais uma vez. “Não vou me esquecer.”

Notas finais
Gostaram? ♥