Shiver
34 Capítulo 34
Notas iniciais

Por mais que seu primeiro encontro com os Treze Servos houvesse deixado Selena inquieta, indecisa entre o que a perturbara e a confiança de que se saíra razoavelmente bem, o banquete em seguida se provou surpreendentemente fácil. Se encontrou sentada entre Morzan — que passou boa parte do jantar falando com o rei sobre assunto menos importantes — e uma Alexis que parecia muito frustrada ao perceber que seu irmão gêmeo desaparecera do salão antes mesmo do primeiro prato ser servido, mas que ainda assim se deu ao trabalho de entreter Selena ao lhe apontar diversas damas e nobres sentados às outras mesas e compartilhar quaisquer detalhes sórdidos sobre suas vidas.
Selena se encontrou tão cativada por toda a situação — estar sentada à mesa com o rei e os maiores nobres do Império, os dedos de Morzan traçando círculos distraídos sobre seu pulso, Alexis lhe murmurando segredos — que quase se esqueceu de comer. Apenas experimentou o prato principal, mas não haveria distração no mundo capaz de impedi-la de aproveitar da torta de limão servida como sobremesa.
Quando a refeição finalmente chegou ao fim, Selena se sentia leve devido ao vinho, o gosto rico ainda em seus lábios, e Morzan conseguira compromissos o suficiente para mantê-lo ocupado o dia seguinte inteiro. Ele apoiou a mão na base da coluna de Selena ao guiá-la para fora do salão, mantendo o contato ao andar por corredores de pedra frios e escadas íngremes, ao passar por janelas muito escuras e tapeçarias muito bonitas.
Os dois guardas parados de frente às grandes portas de madeira dos aposentos de Morzan ainda lhe eram desconhecidos, e abaixaram as cabeças em movimentos idênticos aos vê-los se aproximar. Ela não conhecia os homens a postos diante das escadas, tampouco, ou em cada um dos andares, mas também não sentia qualquer necessidade de procurar por rostos familiares.
Parou, hesitante, diante da porta do próprio quarto, lançando um olhar incerto à Morzan; ele apenas sacudiu a cabeça, contudo, entrelaçando os dedos nos seus ao puxá-la escada acima. “Venha comigo,” disse, sua voz um murmúrio macio.
Ela sorriu em resposta. “Achei que todo o propósito de eu ter um quarto para mim fosse, você sabe, eu dormir nele.”
“Isso também,” Morzan admitiu, parando de frente ao último par de portas e às abrindo para que ela entrasse. “Mas não hoje.”
Selena não estava prestes a reclamar. Esperou que eles estivessem seguros no aposento fechado, já andando até a cama e se abaixando para tirar os sapatos novos que não vinham sendo particularmente gentis com seus pés, para dizer, “Não acho que eles tenham gostado de mim.”
Ele lhe lançou um olhar divertido. “Quem?”
“O resto dos Treze,” Selena esclareceu. “Não que eu estivesse esperando que fossem gostar de mim, não de verdade, mas... Bem, Kialandí e Formora agiram como se eu não fosse nem mesmo digna de sua atenção, por mais que de propósito, e não há como isso ser um bom sinal. Alexis foi bastante atenciosa, mas não me pareceu sincera, e não preciso dizer nada sobre seu irmão. Só não tenho certeza sobre Enduriel.”
Morzan sorria, quase apreciativo, e pendurou a capa curta e o cinto que usava na cadeira de frente à sua mesa. “Você não está errada,” admitiu. “Kialandí e Formora se acham superiores por virtude de serem elfos, mas com certeza estarão atentos a sua presença aqui; sabem que eu não a estaria exibindo à toa. Aleifar não suporta ver algo bonito que não pertença a ele, então é claro que se incomodou, e imagino que Lex não acredite que você é digna de mim.” Ele encolheu os ombros, como se não importasse. “Acho que Enduriel gostou de você. Isso não serve para muito, é claro; ele não é de se apegar. Mas ainda assim.”
“Ah.” Selena se deitou de costas na cama, encarando o teto de pedra. Hesitou apenas um instante antes de perguntar, “E o rei?”
Morzan não respondeu de imediato. A estudou com olhos que pareciam muito escuros na luz fraca das lanternas, e então se aproximou devagar para se sentar ao seu lado. “Podemos dizer que ele ainda está reservando seu julgamento.” Correu o polegar por uma das sobrancelhas de Selena. “Mas acredito que tenha altas expectativas.”
Ela não pôde evitar sorrir, e ele já tinha o rosto muito próximo. Seus lábios se tocaram, e de alguma forma Selena sentia gosto daquele vinho maravilhoso que tomara no jantar. Enroscou os dedos em seus cabelos escuros, querendo puxá-lo mais perto contra si, querendo se perder em seu toque, se perder nele. Morzan se afastou apenas um pouco, e ela disse, “Espero não decepcionar.”
“Não vai.” Ele tocou seus lábios com o indicador. “Certamente não me decepcionou hoje.”
Selena riu baixo, as bochechas um pouco quentes. “Fico feliz.” Brincando um pouco com uma mecha dos cabelos de Morzan, observou seu rosto antes de perguntar, “Como é que Aleifar e Alexis têm orelhas pontudas?”
Ele deixou o ar escapar no que poderia ser um suspiro. “É algo que acontece naturalmente com os Cavaleiros humanos. Com o passar do tempo, alguns de nossos traços se tornam mais e mais como os dos elfos; consequência de não termos feito, originalmente, parte do pacto entre eles e os dragões.”
Selena tocou suas orelhas, seu rosto entre suas mãos. “Mas não você.”
“Não eu. Pus um fim nesse detalhe com um feitiço há muito tempo; não me faria menos humano, afinal, e nunca vi motivo para querer parecer algo que não sou.”
Ela pensou na beleza quase etérea dos elfos que conhecera mais cedo, na aparência impecável de Aleifar, perfeito como se esculpido por um mestre. Olhou nos olhos de cores diferentes de Morzan, azul e negro imperfeitos e ainda inquietantes depois de tanto tempo, e decidiu que não gostaria de tê-lo de qualquer outra forma. “Fico feliz,” disse mais uma vez, e o puxou contra si.
Não era nada como o eventual beijo discreto que ele lhe dera no salão; Morzan bebia dela como se estivesse há meses com sede, e talvez fosse o ar da corte o impelindo, a emoção de estar de volta onde pertencia. Ele tinha uma das mãos nos cabelos de Selena, puxando ao inclinar sua cabeça para trás e enroscando um pouco os dedos na rede de rubis que ela ainda não tirara.
Selena mordeu seu lábio inferior muito levemente, escorregando uma mão por seu peito e sentindo os bordados de seu gibão, e deixou escapar um suspiro quando ele desceu o rosto para beijar seu pescoço, passando pela linha de seu maxilar e descendo para sua clavícula. Seus dentes roçaram sua pele tão sensível, mal a tocando, apenas uma provocação, e ela não seria capaz de conter o som impaciente que se assomava em sua garganta.
Morzan riu, sua respiração um sopro morno, e levou a boca à dela mais uma vez. Selena queria trazê-lo para perto, próximo o bastante para que o sentisse em todo o seu corpo, para que se tornassem apenas um. Havia ainda muito os separando, contudo, e ele talvez estivesse pensando o mesmo; uma mão nas costas de Selena, começou a soltar seu vestido e desfazer os laços de seu corpete com a velocidade de quem tinha anos de prática.
“Espere,” ela pediu em um murmúrio. “Devagar. Não quero estragar meu vestido novo.”
O olhar que ele lhe lançou foi incrédulo, mas seu tom divertido ao dizer, “Está preocupada com o vestido?”
“O vestido é novo e lindo,” Selena insistiu. “E você sabe que não cresci tendo muitos.”
Ele pareceu achar graça. “E você sabe que posso te dar outros mil,” respondeu. E então, “Mas como queira, Sel. Vou tomar cuidado.”
Morzan entrelaçou os dedos nos dela e a puxou para fora da cama, a virando de costas e jogando seus cabelos compridos sobre um dos ombros para poder se abaixar e beijar brevemente seu pescoço. Seu toque era muito leve, muito macio, quase imperceptível enquanto ele soltava devagar a rede de rubis dos cabelos de Selena e a abandonava sobre a mesa. Cada roçar de seus dedos arrepiava a pele de Selena, e ele terminou de desfazer os laços de seu corpete para empurrar o vestido ao chão, um amontoado de tecido vermelho ao redor de seus pés.
Selena cruzou os braços sobre a barriga, muito consciente de quão exposto seu corpo ficava quando coberto apenas pela túnica fina que viera usando por baixo, e se virou de volta para ele com o menor dos sorrisos nos lábios. Morzan a observava com os olhos díspares muito escuros, e ela ergueu os calcanhares do tapete ao beijá-lo. Passando um braço ao redor de seu pescoço, desceu a outra mão por seu peito, abrindo seu gibão. Ele permitiu que a vestimenta fosse abandonada junto ao vestido de Selena, e a camisa vermelha que usava por baixo era simples em comparação.
Morzan a tinha uma mão ao redor de sua cintura e a outra em seus cabelos, e a empurrou para trás até que ela caísse de volta na cama. Ele cobriu seu corpo como o seu, os lábios traçando um caminho pelo pescoço de Selena, uma mão subindo por sua cocha. Ela já escorregava os dedos por baixo de sua camisa, sentindo o contorno de seus músculos, mas esqueceu da pele quente sob suas mãos quando ele roçou o polegar contra um ponto muito sensível, incapaz de conter o gemido que escapou de sua garganta.
Sentiu o riso de Morzan contra sua clavícula, divertido, e arqueou as costas, apertando sua camisa entre os dedos quase que em desespero. O menor movimento de seu polegar parecia lançar o corpo de Selena em chamas, e ela nunca precisara tanto dele quanto naquele instante. Afastou sua mão, muito embora não quisesse, e ele ergueu os braços para permitir que ela tirasse sua camisa.
Tinha a boca muito seca, então molhou os lábios antes de se aproximar para beijar seu peito, e não haveria som melhor do que o de Morzan prendendo a respiração quando ela tocou um mamilo com a ponta da língua. Continuou trilhando beijos por seu abdome, as mãos nos cordões que prendiam sua calça, e teria o tomado na boca se não visse quão escuros de desejo os olhos de Morzan já estavam — tinha a ver com estar de volta na cidade, ela tinha quase certeza.
O despiu em vez disso, tirando também a própria túnica, e Morzan escorregou mais para trás na cama, apoiando as costas contra os travesseiros. Selena se ajeitou sobre ele, sem querer esperar mais um segundo que fosse, estremecendo ao se perder na sensação que era ele a preenchendo. Parou por um instante, fitando seus olhos díspares, e ele se aproximou para beijar um ponto próximo de sua orelha.
“Você foi maravilhosa hoje,” Morzan sussurrou como quem confessava um segredo. Outro beijo. “Maravilhosa.”
Ela sorriu, sem saber bem como respondê-lo; naquele momento, seria capaz de murmurar tanto agradecimentos como declarações de amor, mas acabou por erguer um pouco o quadril e então o abaixar novamente, e o que saiu de seus lábios foi um gemido baixo. Permitiu que ele a inclinasse para trás, descendo o rosto para beijar seus seios, e apertou as unhas em seus ombros, completamente perdida.
Viera já há algumas noites tentando ensinar a si mesma um pouco de autocontrole, tentando adquirir a habilidade que Morzan tinha de prolongar momentos como aquele, e por isso manteve seus movimentos lentos, e amava como naquela posição podia vê-lo de cima — lábios entreabertos e o rosto só um pouco corado, a respiração fraca.
O próprio Morzan parecia ter outros planos, no entanto; não permitiu que ela ditasse o ritmo por muito tempo, logo começando a erguer o quadril para encontrá-la, as mãos em sua cintura, cada estocada forte e funda o suficiente para arrancar dela um gemido alto. E então ele passou um braço firme por seus ombros e os virou na cama, cobrindo o corpo de Selena com o seu.
Pausou, permitindo a ela um instante para olhar fundo em seus olhos de cores diferentes, antes de entrelaçar os dedos nos seus e prender suas mãos contra o colchão. Aumentou o ritmo, mais e mais rápido, até que ela murmurasse seu nome, implorasse por ele, gritasse por mais.
Sentia cada toque de seus lábios em seu corpo todo, já trêmula, e se lembrou do que pensara mais cedo naquela noite, quando o vira arrumado para o banquete. Estivera tão certa de que nunca o vira tão bonito, mas ele certamente estava agora.
Selena se ergueu para beijá-lo, certa de que não aguentaria muito mais, e ele estocou forte só mais uma, duas vezes, antes que ela se perdesse inteira, arqueando as costas e encolhendo as pontas dos pés, prazer tão intenso que quase insuportável explodindo por seu corpo. Morzan durou um momento a mais, apenas, e se desfez também dentro dela, escondendo o rosto em seus cabelos castanhos.
Ele se afastou para se deitar de costas ao seu lado, o peito nu subindo e descendo com sua respiração rápida. Selena pendeu a cabeça para encará-lo, querendo lhe dizer algo, mas perdeu o fio do próprio pensamento ao encontrar seu olhar. Se aproximou para enroscar o corpo no dele, já se sentindo pesada de sono, e apoiou a cabeça em seu peito sem nem ao menos esperar seu convite.
Adormeceu em instantes, e nem mesmo sentiu o toque do cobertor macio que Morzan estendia sobre os dois.
Fale com o autor